Entrevista publicada em 13/12/2011 por Eder Fonseca em Artes
 
 

“A arte não deve representar interesses”
Deborah Colker – Cofundadora da companhia de dança Deborah Colker

Deborah Colker

Nascida no Rio de Janeiro em 1961, a bailarina e coreógrafa Deborah Colker, é conhecida por seus balés aclamados pela crítica nacional e internacional. A coreógrafa, também foi uma boa jogadora de vôlei e estudou piano durante dez anos. A partir de 1980, dançou, coreografou e deu aulas durante oito anos no grupo Coringa, sob a direção de Graciela Figueroa. Em 1984, foi convidada por Dina Staf para coreografar os movimentos da peça “A Irresistível Aventura”, com direção de Domingos Oliveira. Seus trabalhos marcantes foram “Mix” (1995), “Rota” (1997), “Casa” (1999), “4 x 4″ (2002), “Nó” (2005), “Dínamo” (2006), “Cruel” (2008) e, mais recentemente, “Tatyana” (2011). É, também, a primeira mulher a dirigir um show do Cirque du Soleil, o emblemático “Ovo”. Foi considerada pela Revista Época um dos 100 brasileiros mais influentes do ano de 2009. “Uma criação deixa sempre perguntas sem respostas que ficam ecoando na minha cabeça. Quando um novo processo se apresenta elas estão lá, gritando, discutindo e me fazendo encontrar novos caminhos. Os meus trabalhos são muitas vezes criados a partir de causa e consequência. (…) A boa crítica, a meu ver, é aquela que consegue ter um olhar sobre o trabalho, e sobre a dimensão do trabalho, e não uma tentativa de perseguir ou atacar o criador. (…) O primeiro mundo ainda nos vê como terceiro mundo, não profissionais, atrasados”, afirma a coreógrafa.

 

Em 2007, a senhora disse que a arte não tem função alguma. Ainda pensa da mesma forma?

Temos que tomar cuidado, pois palavras não são inocentes e uma frase solta, fora de contexto, pode se tornar perigosa. A arte não deve se comprometer ou mesmo representar interesses que não suas motivações e transformações ligadas à essência da sua criação. A arte está sempre à frente, trazendo novas possibilidades e procurando novas perguntas. Uma vez perguntaram ao Keith Richards [guitarrista dos Rolling Stones] o que era arte para ele, e ele respondeu que arte é abreviatura de Arthur. Gosto muito dessa brincadeira.

 

A senhora disse que quando começa um processo de criação, esquece tudo o que já foi feito. Mas se a criação é marcante, não dá para se aproveitar absolutamente nada?

Uma criação deixa sempre perguntas sem respostas que ficam ecoando na minha cabeça. Quando um novo processo se apresenta elas estão lá, gritando, discutindo e me fazendo encontrar novos caminhos. Os meus trabalhos são muitas vezes criados a partir de causa e consequência. Isso quer dizer que jamais poderia ter dançado dentro de um espaço em movimento sem antes ter afirmado um espaço vertical e questionado a gravidade. Nunca teria pesquisado uma roda sem ter investigado uma parede. Ao mesmo tempo, adaptar um livro de Pushkin, é um caminho novo se comparar com meus espetáculos anteriores. Ao mesmo tempo, essa escolha e essa necessidade são ligadas a tudo que investiguei antes.

 

Podemos dizer que o cotidiano é o que norteia o seu trabalho?

É um dos pontos de interesse forte para mim, em alguns espetáculos determinante. Em outros, a condição humana, que não é exatamente cotidiano, também teve forte expressão.

 

Uma pergunta chavão, mas que faremos de uma forma diferente. O crítico é um artista frustrado, que só quer ver defeitos naqueles que são bem-sucedidos em suas carreiras?

Muitas pessoas tecem esse comentário como sua pergunta. Como não sou crítica, é difícil confirmar isso, mas, às vezes, percebo que algumas críticas que já tive foram pessoais, raivosas, injustas e, me arrisco a dizer, burras. A boa crítica, a meu ver, é aquela que consegue ter um olhar sobre o trabalho, e sobre a dimensão do trabalho, e não uma tentativa de perseguir ou atacar o criador.

 

Quais são os critérios mais valiosos para que um bailarino faça parte da companhia ou até mesmo de outros espetáculos que a senhora dirige?

Item 1: Técnica. Isso significa uma ampla possibilidade de vocabulário de movimentos, um domínio e conhecimento do seu corpo e qualidade de movimento.
Item 2: Personalidade, expressividade e ser disposto a experimentar, não fechada.

 

Qual a principal dificuldade de traduzir um texto clássico, como por exemplo “Tatyana” do russo Pushkin, e fazer com que ele fique do modo que a senhora pensou quando estava pesquisando?

Traduzir o sentimento que está por trás da estória, passar as transformações desses personagens através da dança. Ter o devido cuidado em contar uma estória. Fazer com que o público a entenda, mas, ao mesmo tempo, trazer a essência da emoção e abstrair em movimentos esses sentimentos.
Cirque du Soleil

Talento: Colker no espetáculo “Tatyana”, adaptação da obra de Pushkin (Foto: AP)

 

Como vê a arte de um modo geral em nosso país, já que a senhora acredita que é uma experiência única, que não é comparável a nada?

Acho que temos perfis diferentes de grupos e de artistas, caminhos e estéticas distintas, mas acredito que temos muita gente boa experimentando em diversas áreas. Muita gente boa no nosso Brasil.

 

Como foi a experiência de dirigir o espetáculo “Ovo” do Cirque du Soleil?

Uma experiência maravilhosa. Sofri muito, aprendi muito… Um dos grandes desafios da minha vida. É um resultado maravilhoso! Sou apaixonada pelo “Ovo”.

 

João Elias, cofundador da companhia Deborah Colker, disse que sem o patrocínio da Petrobras a companhia fecha. De um modo geral, a senhora acredita que as empresas estão virando as costas para a cultura em nosso país?

Não, acho que temos bastante investimento, mas sempre poderíamos ter mais. Comparando a verba de cultura com outras áreas, ainda não estamos bem. Acredito que cultura e educação são de grande responsabilidade para o nosso país.

 

Quando trabalhou na Alemanha, sentiu a arrogância dos europeus por ser “uma estranha no ninho?”.

O primeiro mundo ainda nos vê como terceiro mundo, não profissionais, atrasados e ainda existe uma grande desconfiança sobre nossa capacidade. Então, preciso me colocar firme, não só na Alemanha, mas também em todos os lugares onde trabalho.

 

Quando dirigiu o espetáculo “Ovo”, um crítico disse que a senhora dominava o “vocabulário dos acrobatas”. Ele estava correto em sua afirmação?

Sim.

 

Você vai remontar o espetáculo “Nó”. O desejo será ainda mais cruel?

Com certeza o desejo é uma das maiores crueldades da condição humana e, ao mesmo tempo, um grande fascínio.

 

Como está vendo o Governo Dilma?

Gosto muito da Dilma e acredito nela apesar de ver um início complicado, caindo tanta gente. Mas acredito que fará um ótimo Governo e poderá contar comigo.

Um vídeo de “Ovo” dirigido pela coreógrafa

Patrocinado por:
Sapato Site




Imprimir

Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.