Entrevista publicada em 14 de julho de 2017 por Eder Fonseca em Artes
 
 

“A fotografia é ferramenta de aproximação”
André Cypriano – Fotógrafo e documentarista

André Cypriano

André Cypriano é graduado em Administração de Empresas pelo Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas. Preocupado com as questões ambientais, ele contribuiu com tempo e esforço como administrador da “Salva Mar” Save the Sea – uma organização brasileira dedicada a salvar as baleias no norte do Brasil. Ele já completou vários projetos que foram exibidos em várias galerias e museus na América do Sul, América do Norte e Europa. Até agora, Cypriano fotografou o povo de Nias, uma ilha ao largo da costa noroeste de Sumatra, os cães de Bali, a infame penitenciária de Cândido Mendes, no Rio de Janeiro (The Devil’s Caldron – livro publicado pela Cosac & Naify), a maior favela do Brasil, Rio de Janeiro (Rocinha – livro publicado pelo SENAC Editoras) as 10 favelas mais importantes do Rio de Janeiro. As favelas de Caracas (A Cultura das Cidades Informais – livro publicado pela CaracasThinkTank), bem como a cultura de resistência dos Quilombolas (Quilombolas – livro publicado pela Aori Produções). Em 2010, André Cypriano participou em Culturas de Resistência, um documentário dirigido por Iara Lee. Uma retrospectiva de 20 anos de seu trabalho foi exibida na Galeria Frederico Sève / latincollector em 2012. Seus projetos em andamento também têm sido usados em oficinas educacionais. Atualmente, André Cypriano vive e trabalha em Nova York e no Rio de Janeiro, envolvido em atividades sociais e culturais.

 

André, em que momento a arte da fotografia conquistou a sua mente e o seu coração?

O gosto pela arte surgiu da coleção de selos que eu tinha quando pequeno. Mais tarde, quando adolescente, gostava de descobrir praias desertas para surfar, documentava as viagens e depois mostrava as fotos aos amigos da cidade, principalmente as meninas. Logo descobri que a câmera me guiava a lugares aonde normalmente não iria. Assim, fui desafiando o desconhecido, e hoje sou viciado por esse prazer. [vídeo]

 

O que é ser um fotógrafo em sua definição?

É gostar de um estilo de vida onde a arte visual esta sempre presente. Saber expressar nas imagens nossos valores. Fazer “remarkable” images (imagens notáveis no sentido literal), dessas que a gente olha por um instante e nunca mais esquece. Fazer fotografias que mexem com nossas emoções.

 

Um bom fotógrafo, deve sempre desafiar o desconhecido?

Einstein costumava a dizer que o mistério do desconhecido é a maior dádiva da vida. Sem dúvida é parte do processo de um bom fotógrafo. Principalmente porque o desconhecido não está presente apenas na hora de fotografar, mas muito na hora de editar. Uma imagem close-up de um rosto sério, é bem diferente de um imagem da mesma pessoa, feita segundos aparte, mostrando o corpo inteiro e sorrindo. O que o fotógrafo vai escolher para auto expressar, sua linguagem, depende de seus valores e vai ter que desafiar um desconhecido diferente, vindo do seu interior. Não acredito que alguém possa enganar um portfólio, é uma representação do fotógrafo.

 

Qual o momento mais marcante de sua carreira, no qual você desafiou o desconhecido e saiu completamente deslumbrado por aquilo que havia acabado de encontrar?

O momento mais marcante foi quando atravessei o escuro corredor interno do dormitório no Caldeirão do Diabo, na Ilha Grande. Apesar de não haver iluminação interna, ao entrar, pude ver nas paredes sujas os buracos de balas, resquícios de incêndio e marcas das inúmeras brigas e rebeliões, que fizeram com que este presídio tivesse a reputação histórica de ser um dos piores do mundo. A escuridão caiu sobre mim, e não conseguia enxergar um palmo a minha frente. Identifiquei um pequeno ponto de luz ao longe, que era minha única orientação. O som dos nosso passos se misturava aos latidos e uivos dos cachorros que ecoavam no corredor. Aos poucos o corredor começou a ficar muito quente e cheio de prisioneiros. Corpos sombrios e fedorentos se movimentavam em torno de mim como espíritos perdidos. Foi estar no inferno rodeado pelo paraíso da ilha.

 

Em uma certa ocasião, você afirmou que as fotos em preto e branco são uma interpretação da realidade e as coloridas um reflexo. Nos fale mais sobre essas duas excelentes definições.

O preto e branco traz muitas cores em suas tonalidades, traz vida as expressões das pessoas, principalmente aos olhos. Por muitos anos, minha visão, mesmo quando não fotografava, era só preta e branca. Lembro do meu pai dizendo que alguns animais viam em preto e branco, e me achava um deles. Mas desde quando minha filha nasceu, 10 anos atrás, troquei o preto e branco filme pela câmera digital cor. É um mundo bem diferente. O azul, por exemplo, representa o infinito do céu. Uma cor boa para estar perto quando se trabalha em projetos que necessitam de ideias, de abrir a mente. Cada cor tem seu efeito.

 

Críticos afirmam que o seu trabalho “O Caldeirão do Diabo” fez um impressionante registro da realidade brasileira. O que mais lhe impressionou neste registro da realidade brasileira?

Me impressionou ver o quanto o ser humano se adapta a situações que não deveria. Buscando felicidade dentro de um lugar onde, mesmo rodeado por 600 homens, dificilmente um poderia estar em seu estado de espírito natural. Todos os encarcerados no Caldeirão eram considerados membros do Comando Vermelho [C.V]. A devoção que os detentos tinham para com a organização era de muito fanatismo. Como muitos sabem, o Governo fez o erro de juntar presos políticos, com presos comuns. Desta aproximação, que aconteceu dentro do Caldeirão, nasceu o Comando Vermelho. Os sete líderes se orgulhavam de serem os donos do poder. O cachorro mais feroz era o C.V.. O mal encarado boi era “O Vermelhão”. Nas portas das celas havia pintado as inscrições C.V.. Havia um acordo entre os líderes e a diretoria, onde os líderes administravam os detentos, para não haver rebeliões, fugas e estupros… em contrapartida eles ganhavam uma maior liberdade dentro do presídio. Dificilmente se via um policial dentro dos corredores. Eles ficavam apenas nos muros e nos portões. Decorrente desta liberdade, algumas mães deixavam as crianças com seus pais encarcerados, porque precisavam trabalhar no Rio e não tinham com quem deixá-los, e retornavam depois de uma semana para buscá-los. Quando eu fotografava essas crianças, todas rapidamente faziam nos dedos das mãos as iniciais do C.V.. Era claro que a universidade do crime começava ali. A sociedade prepara o crime, o criminoso comete.
Favela da Rocinha

Vivenciando: O fotógrafo André Cypriano na Favela da Rocinha (Foto: Alfeu/AP)

 

A arte deve ter algum papel social, ou é partidário da visão da artista experimental norte-americana Laurie Anderson, que afirma que o mundo muda sozinho, não precisando da arte para mudar?

Não sei se precisamos da arte para mudar o mundo. Sei que arte é uma arma forte de acusação e defesa, e não necessariamente deve ter um papel social. Não apenas o artista com sua obra, mas o curador e/ou o editor, vão ajudar a “orquestrar” uma sociedade com o poder de como, aonde, quando e o que mostrar. O público em geral está de portas abertas esperando ser influenciado. O triste é que algumas vezes o resultado pode ser surpreende, trazendo efeitos contrários ao que se espera. Como por exemplo, das imagens feitas por um fotógrafo jornalista denunciando em uma favela na África do Sul, traficantes queimando pessoas dentro de pneus. As fotografias foram apresentadas pensando que iam ajudar a terminar tal atrocidade. Mas aquelas imagens ensinaram ao mundo, como a moradores de favelas do Rio, como fazer para eliminar corpos que não devem ser reconhecidos, os chamados “micro-ondas”. A Laurie Anderson [uma artista experimental norte-americana, conhecida por suas performances multimídias e por numerosos álbuns musicais que realizou, 1947 - ] mexeu muito comigo nos anos 80, me ensinou que não havia limites na arte. Talvez o mundo pode vir a mudar sozinho, mas acredito que a arte dá sim um empurrãozinho.

 

Concorda com a afirmação de que a fotografia vem ganhando um aspecto cada vez maior de efemeridade?

A era da fotografia digital fez da fotografia uma “coisa supérflua”, onde pode ser eliminada em grande quantidade, e às vezes não são nem analisadas. Com o passar do tempo, morrem nas memórias dos aparelhos. Está faltando um ensinamento que deveria ser obrigatório nas escolas, o de saber editar. Saber qual a meta para com a auto-expressão. Saber definir qual o produto final. Fotografias em papel? Expor em museus e galerias? Livros? Publicar em revistas? Exibir uma série ou portfólio na internet? Social media? Qual é o produto final? Temos que saber editar, usar e cuidas das imagens selecionadas.

 

Como a sua fotografia interfere ou já interferiu na vida dos seus fotografados?

A minha fotografia interferiu na vida dos fotografados, da mesma forma que eles, os fotografados, interferem em minha vida. Por onde nós, seres humanos, passamos, deixamos uma energia, um aprendizado, amigos. A fotografia é apenas aquela velha ferramenta de aproximação.

 

Um fato inegável das suas fotografias, é a emoção que elas transmitem. Em algum momento que realizava o seu trabalho, essa emoção veio a tona de uma forma que não teve como segurar?

Fotografando uma cerimonia de hindu-budismo na Indonésia, no final dos anos 80, sem querer, me deparei em uma cerimônia de transe, e fiquei frente a frente com Rangda, a rainha do Leak. O Rangda e o Leak são figuras mitológicas representadas por máscaras sagradas. Possuem uma maneira de ser, de andar, de dançar, onde soltam fogo pelo boca, nariz e orelha. São seres superiores de grande poder, como um Exu no Candomblé. Essa minha experiência de ficar frente a frente com o “demônio”, olhar dentro dos olhos do mal, foi preciso para saber que o mal existe, e que temos que estar sempre preparados para enfrentá-lo. Dia a dia, sempre preparados. Desde momento em diante, minha vida mudou. Foi como se eu tivesse tomado o sangue do dragão e isso me trouxe poderes.

 

O seu trabalho (e nos corrija se estivermos errados) tem como objetivo mostrar a vida dos povos e populações que se encontram nos locais mais distantes deste mundo como no Sudeste Asiático, América do Sul, etc. O que encontrou nos olhos de todos esses povos quando fotografava, que os ligam de certa forma, mesmo sendo de culturas completamente diferentes?

Procuro sempre olhar dentro dos olhos das pessoas, como se deve. Seja de um assassino, de uma pessoa extremamente linda, de um deficiente, doente, viciado em crack. Todos possuem uma necessidade emocional de reconhecimento desta dignidade que em algum lugar, lá no fundo do coração, acreditam ter. Por isso considero todas as pessoa iguais, com respeito. Seja um presidente ou um mendigo na rua.



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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do portal Panorama Mercantil.