Entrevista publicada em 10/12/2016 por Eder Fonseca em Economia
 
 

“A melhor prevenção é a informação”
Melissa Mandaloufas – Fundadora da EFG Escola de Finanças e Gestão

Melissa Mandaloufas

Melissa Mandaloufas é bacharel em Administração pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), pós-graduada em Finanças pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e Mestre em Engenharia Mecânica e Finanças pela Universidade de Taubaté (UNITAU). É autora da dissertação que aborda a implementação de sistemas de cogeração de energia elétrica e inserção de usinas do setor sucroalcooleiro no mecanismo de desenvolvimento limpo, viabilizando a venda de créditos de carbono no mercado internacional, que foi premiada internacionalmente. A partir dessa dissertação, foram publicados vários artigos em congressos internacionais QualisA. Melissa possui 15 anos de experiência na área acadêmica atuando como docente e coordenadora no ensino superior. É fundadora da EFG Escola de Finanças e Gestão onde ministra cursos relacionados a Finanças, porém com um apelo arrojado de Defesa Pessoal Financeira onde além de ensinar todos os conceitos financeiros, apresenta ainda um profundo conhecimento das Leis que aplica a gestão financeira corporativa ou pessoal, de forma a blindar seus alunos dos erros cometidos pelo sistema financeiro. Além de todas essas atribuições, têm mais de 20 anos de experiência na gestão e estruturação de empresas de pequeno porte do setor privado. “Existem problemas pontuais nas pequenas empresas como a desconfiança do empresário.”

 

Melissa, gostaria que falasse um pouco sobre como foi o seu começo de carreira.

Comecei a trabalhar na Indústria, quando adolescente, na empresa da minha família, onde permaneci por 15 anos exercendo funções relacionadas à administração. Foi uma experiência fantástica porque tive a oportunidade de conhecer e atuar em todas as áreas, desenvolvendo o senso crítico e questionador de um bom gestor. Mas, na faculdade, quando conheci os cálculos financeiros fiquei completamente apaixonada. A rigidez do meu professor de Finanças me fez acreditar que essa matéria deveria ser ensinada de forma mais leve. Com o passar do tempo, percebia que as aulas de maior aproveitamento eram aquelas ministradas por professores afáveis e simpáticos. Então, porque não dar aula de uma matéria complexa de forma afável, respeitando os traumas das pessoas em relação à Matemática? Essa foi a minha proposta desde o início. Fui chamada para a docência no ensino superior por um professor que tive na Pós-Graduação, justamente por me destacar explicando aos colegas de classe essa matéria. Comecei cedo, aos 24 anos, e não pretendo parar tão logo. Não sei como nem porque, mas nunca encontrei dificuldades em exercer a atividade docente. Obviamente, que por vezes, dá aquele frio na barriga, mas logo passa no desenrolar do conteúdo a ser ministrado.

 

Sua dissertação sobre a cogeração de energia elétrica e inserção de usinas do setor sucroalcooleiro foi publicada e reconhecida internacionalmente. Fale um pouco sobre o desenvolvimento desta dissertação.

Certa vez participei de um curso especial para professores de Finanças, ministrado pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários), que ocorreu na BOVESPA (Bolsa de Valores de São Paulo). Todos os produtos financeiros referentes ao Mercado de Capitais me foram apresentados e fui surpreendida por um produto novo que era a negociação dos créditos de carbono. Fiquei curiosíssima acerca dessa temática e procurei me aprofundar. Fiquei tão encantada que decidi fazer o mestrado com foco no estudo da viabilidade financeira para implementação de sistemas de cogeração de energia elétrica e negociação dos créditos de carbono. Eu queria medir o quão viável era financeiramente para uma indústria, ou no meu caso uma usina, passar por toda a modificação do parque industrial, ser inserida no mecanismo de desenvolvimento limpo e negociar os créditos de carbono no mercado internacional. Uma pergunta me motivava: É viável financeiramente fazer tudo isso e negociar créditos de carbono? Busquei incansavelmente universidades dispostas a abraçarem esse tema comigo nos cursos de Mestrado em Administração, porém, só consegui amparo no curso de Engenharia Mecânica da Universidade de Taubaté. O tema muito novo e a bibliografia escassa fizeram com que fosse desprotegida pelo curso de Mestrado em Administração. O contrário aconteceu na UNITAU. Tive um orientador maravilhoso que me guiou a cada página escrita para a conclusão de um trabalho que foi posteriormente publicado e reconhecido internacionalmente. Alguns números deram muito trabalho para serem encontrados, como o fator de emissão de CO2 evitado. Quantificar a fumaça que não foi para a atmosfera foi o grande desafio, mas junto do CEMBIO – Centro de Espectrometria de Massas de Biomoléculas da Universidade de São Paulo, após várias visitas e muitos cálculos, chegamos ao número mais importante da minha dissertação.

 

O que mais chamou a atenção das pessoas que leram a sua dissertação?

Certamente foi a complexidade do estudo e o longo caminho desde o levantamento dos custos, a implementação do sistema de cogeração, a inserção ao mecanismo de desenvolvimento limpo (MDL), a confecção da demonstração do resultado (DRE), a projeção para 10 anos e estudo de retorno e viabilidade econômica financeira a partir das negociações dos créditos de carbono na Bolsa de Valores de Chicago.

 

Você tem experiência na gestão e na estruturação de empresas de pequeno porte do setor privado do Brasil. Como está a gestão e a estrutura destas empresas de um modo geral?

O problema de toda pequena indústria está no proprietário do negócio. Geralmente essas pessoas têm profundo conhecimento sobre o produto que vendem, porém, desconhecem as ferramentas básicas para construir um modelo eficiente de gestão corporativa. Normalmente, não ouvem as propostas dos gestores e são avessos a investimentos para a melhoria e otimização dos processos.

 

Quais os pontos da gestão e da estrutura destas empresas de pequeno porte, que ainda não mudaram de 15 anos para cá?

Acredito que seja o pensamento limitado do empresário, ou pelo menos, da maioria deles.

Existem problemas pontuais nas pequenas empresas como a desconfiança do empresário que normalmente não deixam profissionais bem treinados assumirem cargos que envolvam o controle financeiro. Outro problema comum é a união das Finanças Pessoais e jurídicas onde o empresário acaba por sabotar a própria empresa por meio de altas retiradas de capital. A falta de investimentos em tecnologia e marketing também prejudicam a boa gestão e crescimento das empresas de pequeno porte.

 

Existem algumas tarefas simples que poderiam ser essenciais para quem administra uma empresa, e que muitas vezes passam despercebidas pelos gestores, trazendo para os seus respectivos negócios transtornos desnecessários?

A boa gestão de um negócio independente de seu porte é o conjunto de ações tomadas de forma global, ou seja, que envolvem toda a empresa para a busca de um único objetivo que é o seu crescimento, a partir de um planejamento estratégico fundamentado em bases sólidas e calculadas.
Alunos da EFG

Educação: Melissa Mandaloufas e alunos da EFG (Foto: Arquivo Pessoal/EFG)

 

Poderia nos falar sobre os conceitos fundamentais da chamada Defesa Pessoal Financeira?

Por várias vezes ao me sentir lesada pelo sistema financeiro, recorri aos órgãos de defesa do consumidor, via de regra, ao Tribunal de Pequenas Causas ou negociação junto aos credores. Sempre ouvi o mesmo discurso: “Você é uma em um milhão que sabe esta informação, então faremos como deseja”.

Durante a minha carreira docente procurei ensinar esse rico aprendizado prático aos meus alunos, porém, os modelos clássicos de educação me impedem de ir além nas aulas do curso de Bacharelado em Administração, porque temos conteúdos programáticos com limitações, tornando inviável o estudo aprofundado. Desta forma, persuadida por ex-alunos, decidi alçar voos mais altos e montar minha própria escola, voltada para Defesa Pessoal Financeira.

Ensinando com calma e afetividade, respeitando os traumas relacionados à Matemática trazidos pelos alunos, relembro conceitos básicos, ensino os alunos de forma prática a manusear a HP12C, que é nossa ferramenta, demostro todos os cálculos de forma algébrica e por meio de Cases (contratos de empréstimos, financiamentos e campanhas publicitárias de produtos), envolvo os alunos no pensamento financeiro aliado à Lei 8078 – Código de Defesa do Consumidor, blindando o aluno do sistema financeiro falho.

 

Quais são os principais erros cometidos pelo sistema financeiro?

Normalmente, são erros de cálculos, como: equivalência da taxa de juro composto (que acredito ser a mais grave, pois, todo o financiamento acaba sendo calculado de forma errada), valor das parcelas a serem pagas, valor nominal da dívida, etc.

Quanto aos contratos, acredito ser a falta de informações segundo a Lei 8078 – Código de Defesa do Consumidor, como taxa de juros nominal e efetiva, mensal e anual aplicada, valor nominal do financiamento com e sem juros, encargos adicionais, entre outros.

A falta de conhecimento quanto aos cálculos e às Leis de Defesa do Consumidor por parte das pessoas, as tornam presas fáceis para o sistema financeiro, porém, todas essas falhas ferem a Lei e cada artigo ferido é passível de punição.

 

Você é dona de uma pesquisa que diz que 97% dos financiamentos de veículos lesam o consumidor de alguma forma principalmente com taxas abusivas e indevidas. Qual foi o seu ponto de partida para que essa pesquisa corajosa fosse realizada?

Na realidade, nunca me referi às taxas abusivas de juros. Atualmente existem pessoas se prevalecendo da súmula 121 que diz que a capitalização de juros mensais é ilegal, mesmo quando pactuada em contrato. Porém, esse entendimento varia de acordo com a interpretação do juiz que julgará o caso na vara comum. Temos a Súmula nº 596 do STF (Supremo Tribunal Federal), que determinou que a Lei de Usura não se aplica às instituições financeiras, ou seja, o juiz, de acordo com seu entendimento é quem julgará se o juro é abusivo ou não.

A bandeira que levanto é referente aos erros de cálculos e falta de informações contidas nos contratos que acabam por ferir a Lei. Jamais falei sobre juros abusivos.

Minha pesquisa refere-se a muitos casos de financiamentos de veículos. Os contratos passaram por minuciosa revisão dos cálculos, bem como, das informações ali contidas. Ao identificar os erros, elaborava um relatório de perícia financeira pleiteando junto ao Juizado de Pequenas Causas o valor do indébito, em dobro, corrigido, com multa, como ampara a Lei 8078. Aí vem o resultado da pesquisa: de 100% dos contratos analisados, 97% continham algum tipo de erro.

 

A maioria dos consumidores destes financiamentos não sabem que estão sendo lesados. Quais os cuidados que eles devem ter para que isso não venha ocorrer?

A melhor forma de prevenção é a informação. Antes de celebrar um contrato de financiamento, seja de carro, imóvel ou qualquer outro bem, em que ocorra a concessão de financiamento, procure levar o documento para a análise de um consultor financeiro que irá orientá-lo quanto à conformidade das informações ali contidas.

Caso o financiamento esteja em andamento, também pode passar por avaliação e ser pleiteado o reajuste deste contrato, sendo evidenciado o erro. Há ainda uma terceira situação que é quando o contrato já finalizado, passa por revisão e é encontrado o erro, o consumidor tem o prazo máximo de 5 anos para entrar com processo no Juizado de Pequenas Causas.

Existem muitos cursos disponíveis no mercado referentes a Finanças, porém, na minha escola, ofereço o curso dirigido a Defesa Pessoal Financeira, Investimentos e Gerenciamento das Finanças Corporativas. Presto ainda o serviço de revisão e análise de contratos de empréstimos e financiamentos pessoais.

 

O papel da mídia no seu campo de atuação, seja para informar a população, ou para analisar tais situações citadas nesta entrevista, tem sido satisfatório ou deixa a desejar em sua visão?

Atualmente tem-se falado muito sobre Educação Financeira, haja vista, que devido à atual conjuntura econômica, muitas pessoas ficaram desempregadas e em consequência disso inadimplentes. Acredito que esse tema poderia ser insistentemente veiculado nos meios de comunicação e mídias sociais já que as pessoas são carentes de orientação financeira.

Existem muitos projetos, como por exemplo o PAS – Programa de Apoio ao Superendividado do PROCON, que estão disponíveis para atender e ajudar a solucionar os problemas de ordem financeira das pessoas. Uma boa saída, atualmente, é a negociação junto aos credores por conciliação e revisão dos contratos celebrados.

Um vídeo da financista Melissa Mandaloufas

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.