Entrevista publicada em 26/11/2016 por Eder Fonseca em Música
 
 

“A música consegue tocar a alma”
Robson Miguel – Violonista e historiador indígena

Robson Miguel

Robson Miguel é um dos principais nomes no mundo quando o assunto é o violão. Conquistou o respeito do público e da crítica internacional especializada, que hoje o reconhece como o primeiro violonista brasileiro a se destacar no ranking mundial violonístico, sendo o único no mundo a dar entrevistas executando simultaneamente qualquer obra ou estilo no violão. Seus arranjos estendem-se a suas raízes culturais indígenas, sendo o primeiro a fazer a versão, tradução e gravação do “Hino Nacional Brasileiro” na língua nativa “Guarani”. Conhecido e respeitado entre a nação indígena Guarany e brasileira pelo nome de Tukumbó Dyeguaká, que quer dizer “Benção de Deus”, Robson Miguel em 1999 na Aldeia de Itaóca (Mongaguá-SP) foi eleito o primeiro Cacique-Cafuzo do Brasil. Fundador, maestro e arranjador das Orquestras Sinfônicas de Santo André e Madrid (Espanha), possui mais de 136 obras, vários livros didáticos, com destaque para “The Jazz in Your Hands” (“O Jazz em Suas Mãos”) editado em inglês e espanhol pela Real Musical de Madrid, 27 CDs e 22 vídeos aulas-show e 13 DVDs que estão na galeria dos mais vendidos não só no Brasil, mas em mais de 100 países. A crítica europeia declara que o conhecimento, criatividade e naturalidade com que Robson Miguel toca é sem dúvida obra de genialidade musical. “Como consequência, eu sentia que para vencer na Espanha eu precisava ser exigente comigo.”

 

Robson, o senhor foi um menino que cresceu no meio dos manguezais do Espírito Santo e sustentou a sua família como engraxate. Qual a memória mais feliz que ainda guarda desta época?

Me lembro sempre do local onde vivi até meus 8 anos, brincando na lama preta dos mangues do Aribiri, antigo aldeamento indígena Tupi-Guarani, caçando caranguejos, ouvindo meu pai Alfredo Miguel tocar no saxofone choros, sambas, bossas e dobrados militares quando servia o Exército; enquanto minha mãe Margarida cantava hinos sacros e MPBs.

 

O seu pai era saxofonista do Exército. O gosto musical que o senhor adquiriu, veio dele ou de outra inspiração?

Eu nasci num ambiente ouvindo músicas de qualidade, ricas em poesias carregadas de inspiração e valores morais, harmonias dissonantes vindas da Bossa Nova, Choro e Jazz.

 

Em que momento o violão se tornou seu parceiro inseparável?

Foi quando ao mudarmos para a cidade de Ribeirão Preto (SP), eu ganhei um LP – “Abismo de Rosas” gravado pelo grande violonista Dilermando Reis, e meus pais me matricularam inicialmente numa escola de violão popular e mais tarde, aos 11 anos, no conservatório.

 

Muitos dizem que o senhor é um violonista versátil. O senhor também se enxerga assim?

Ao que percebo “sim”, porque sendo brasileiro miscigenado, tenho grande facilidade em me adaptar aos mais variados repertórios após conhecer determinado estilo. Contudo ainda continuo achando o violão um instrumento muito ingrato e que cobra de quem executa bom conhecimento do repertório e domínio do estilo, exigindo tempo e dedicação de quem deseja tocar bem.

 

Quando mudou-se para a Espanha com 25 anos, o senhor sentia que iria vencer e se tornar um dos dez melhores violonistas do planeta, ou existiu alguma dúvida em algum momento na sua vitoriosa trajetória?

Bem, na verdade, o violão é conhecido no mundo pelo nome de Guitarra Española, Spain Guitar e outros semelhantes, e isto devido a Espanha ser a terra onde nasceu o violão. Como consequência, eu sentia que para vencer na Espanha eu precisava ser exigente comigo mesmo, buscar perfeição, virtuosismo no repertório, e sobre tudo limpeza do som, uma vez que tocar bem não significa tocar rápido. Contudo, nunca toquei com espírito competitivo, ou mesmo preocupado em ser o melhor. Mas quando começaram à aparecer os elogios e os convites para participar dos ferrenhos festivais guitarrísticos e concursos, sempre existiu (e ainda existe) dentro de mim dúvidas quanto a ocupar o ranking dentre os melhores do mundo, dado aos novos valores que surgem e as comparações e cobranças feitas pelo exigente público conhecedor do violão.

 

O seu método de tocar violão é um dos mais apreciados no mundo musical. Quando surgiu a ideia deste método se tornar aulas em áudio e vídeo?

A medida em que eu dava aulas e ia ouvindo as diferentes dificuldades dos meus alunos, estas dificuldades que ao longo dos anos me faziam desenvolver as mais diversas maneiras de solucioná-las traçando formas simples e eficientes de como resolvê-las. A minha Escola CURSON (Cursos Robson) chegou à ter 857 alunos, e como eu já não vencia a carga horária de aulas decidi publicar todos os meus 28 cursos em livros, VHS e CDs, hoje em DVDs e online.
O Mestre

Virtuose: O Mestre Robson Miguel em uma de suas apresentações (Foto: Arquivo)

 

Em que momento a música exerce um papel social em sua visão?

Sou um homem muito simples, de fácil lida e bem sociável, e não levo minha vida como uma guerra de fama e poder porque gosto muito de precisar das pessoas e às trato como “sócios” dos meus momentos. Portanto, é bem comum quando me convidam, dizerem: Robson, não esqueça de trazer o violão. Ou seja, se vou sem o violão, é como se estivesse faltando minha outra metade, isto porque em todos os meus momentos a música exerce um importante papel social.

 

Existe um DVD em especial intitulado “O Jazz em Suas Mãos”, que é muito bem comentado nas rodas musicais. Gostaria que o senhor falasse como foi realizado este trabalho em especial.

Durante os quatro anos e meio em que como contratado da TV espanhola morei na Espanha, me apresentava em vários programas de TVs e rádios tocando MPBs, Jazz americanos tradicionais e também o conhecido Jazz brasileiro, que é a nossa Bossa Nova com improvisações. Tão logo a Editora Real Musical de Madrid, que na época era uma das maiores editoras de música da Europa e do mundo, me convidou para escrever um livro ensinando tudo o que sabia sobre improvisação de jazz, uma vez que, até então, não existia materiais didáticos sobre os estilos Jazz, Blues e Country que nasceram nos Estados Unidos dentro de uma classe de músicos autodidatas que, embora fossem os criadores do estilo, desconheciam os nomes das escalas que eles próprios utilizavam em suas improvisações. Assim nasceu o livro “O Jazz em Suas Mãos” distribuído nos 12 países do Tratado de Maastricht, ou Tratado dos Países da União Europeia (TUE). Ao voltar para o Brasil a gravadora de DVDs Aprenda Música me propôs gravar o mesmo curso “O Jazz em Suas Mãos” em VHS, que logo foi passado para DVD.

 

Músicos dizem que quando se está improvisando, é preciso estar numa profunda concentração onde corpo, mente e espírito devem estar em harmonia total. Essa análise sobre a improvisação é coerente em sua visão, ou iria além destas palavras por sua experiência própria na arte de improvisar?

“A música é a única arte para se sentir”, e, como improvisar é criar frases melódicas repentinamente, no meu método ensino que isto exigirá que o músico seja possuidor de 6 ferramentas básicas, que para mim são: conhecimento do estilo, conhecimento das escalas, da harmonia, ter intuição, emoção e hábito; na qual esta última que elevará o nível do improvisador que jamais repetirá suas frases, pois repetir é copiar, e não improvisar.

 

O poeta francês Paul Claudel, disse que a música é a alma da geometria. E para você, o que é a música?

Em parte, discordo de Paul Claudel, e é no seguinte aspecto: a geometria é um ramo da matemática presente em várias culturas, e que se apresenta cientificamente como um conjunto de conhecimentos práticos dispostos à observar comprimento, área e volume das coisas existentes num espaço. Para mim a música não é simplesmente a matemática dos sons; ela vai muito mais profundo e, através dos sentidos, consegue tocar no invisível da nossa alma, que é o ente querido de Deus dentro do próprio homem. A música é para mim uma arte divina, vinda lá do céu de Deus, e para mim existe uma grande relação entre estas três coisas: Deus, o Homem, e a Música. O Homem tem uma tricotomia (Espírito, Alma e Corpo); Deus tem sua Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) e a Música tem três elementos (Melodia, Harmonia e Ritmo). Separadamente, estes três possuem 7 elementos fundamentais. Observo que, segundo a Bíblia Sagrada, Deus tem grande parte das suas ações pautadas no numero 7 e 3; e fez o homem dirigido por 7 órgãos (duas narinas, dois ouvidos, dois olhos e uma boca). Também fez a música com 7 notas (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si), onde o Ritmo é o responsável por agir e influenciar nosso corpo que é quase todo ritmo (andamos no compasso, nosso batimento cardíaco, a pressão arterial e o coração, precisam respeitar uma lógica rítmica. Então noto que a Melodia age e influencia nosso Espírito, trazendo alegria quando com muitas notas, e com menos notas, tristeza. A Harmonia age, influencia e toca nossa Alma.

 

Qual o maior equívoco e maior verdade que as pessoas cometem quando falam da vida e da obra de Robson Miguel?

Equívoco: Achar que sou orgulhoso e me auto avalio como sendo o “Melhor do Mundo”. Não me considero o melhor de todos, até porque o violão sofre constante evolução de técnicas. Ao contrário, também procuro sempre aprender e melhorar meus conhecimentos para criar coisas novas, até porque dependo disto para pagar minhas contas [Risos] e como eu sou um só, não posso fazer tudo e nem ser o melhor em tudo. Mas posso fazer alguma coisa para ajudar as pessoas que amam a música e os instrumentos que me propus a tocar. O fato de não poder fazer tudo, não me leva à deixar de ousar, recusar de atender as pessoas, e tentar fazer o pouco que posso, porque “Diante da honra deve estar a humildade” (Provérbios 18:12).

Verdade: Ninguém respeita quem não conhece e a pessoa mais perigosa é o mentiroso. Portanto, eu não levo a minha vida como uma guerra de poder, porque entendo que no mundo sempre haverá gente que gostará de mim pelo que eu sou, e outros que me odiarão pelo mesmo motivo, e tenho que me acostumar a isto com muita serenidade e paz de espírito, porque vivo em sociedade e gosto de precisar das pessoas.

Um vídeo do violonista Robson Miguel

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.