Entrevista publicada em 04/12/2013 por Eder Fonseca em Política
 
 

“A Polícia Militar não é valorizada”
Coronel Telhada – Ex-comandante-geral da ROTA e vereador em São Paulo pelo PSDB

Coronel Telhada

O paulistano Paulo Adriano Lopes Lucinda Telhada (conhecido como Coronel Telhada) é um dos mais notórios policias militares do país. O vereador é formado pela Academia de Polícia Militar do Barro Branco quando ingressou nessa em 1979 com dezessete anos. Entrou na Polícia Militar de São Paulo em 1983 e em 1986 começou a fazer parte da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) através da alteração feita no contingente realizado pelo governador André Franco Montoro e posteriormente para o GATE (Grupo de Ações Táticas Especiais), do qual foi um dos oficiais fundadores. Telhada entrou pela primeira vez na política partidária no ano de 2012 se filiando ao PSDB, para concorrer ao cargo de vereador na cidade de São Paulo. Foi eleito após obter 89.053 votos, um total de 1,56 %, o 5° lugar como mais votado nessa eleição. Também foi o quinto mais votado considerando vereadores de todo o país neste ano. Assumiu o cargo em 1º de janeiro de 2013. “Temos programas muito bons, que ajudam a polícia, pois mostra nosso trabalho para a população. Quando eu comandei a ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) mantive uma relação estreita com a mídia e fiquei amigo de diversos jornalistas. Quando as pessoas sabem que a PM está trabalhando e prendendo bandidos, a sensação de segurança aumenta e o crime perde força”, afirma o vereador. 

 

O senhor já teve medo da morte quando participava de alguma ação policial?

Sempre tive medo e tenho medo até hoje. O medo da morte é o que nos mantêm vivos, apesar de nunca fugir do meu dever por medo. Tenho medo da morte, de deixar minha esposa sozinha, de fazer minha mãe chorar e de desapontar quem confia em mim. Por isto sempre procurei agir com responsabilidade e me defender quando foi preciso, melhor a mãe do bandido chorar do que a minha.

 

O senador Pedro Taques disse recentemente, que o sistema de segurança pública está falido. E para o senhor, o sistema está falido?

Temos leis fracas que fazem o crime compensar no Brasil. Temos um Código Penal de processo penal ultrapassado e benevolente, que facilita a vida do bandido com visitas íntimas, indultos, e outras regalias. Os senadores e deputados federais ao invés de criticarem a segurança pública, poderiam começar a pensar em rever estas leis, começando pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, que incentiva o bandido a entrar cedo no crime; precisamos rever urgentemente pontos como a maioridade penal e o desarmamento da população.

 

Qual a visão que o senhor tem sobre os Direitos Humanos, já que para alguns ela protege o bandido, e para outros como o britânico Tim Cahill, esse conceito nunca deveria ser utilizado no país, pois é um conceito infeliz?

Direitos Humanos, infelizmente no Brasil, serve para proteger o bandido. Quando um policial é morto e baleado, não vejo os Direitos Humanos tentando ajudar a família ou organizando passeatas. Quando eu fui ferido em serviço nenhuma entidade foi perguntar como eu estava. No ano passado foram mais de 100 policiais militares mortos só em São Paulo. E o mesmo se aplica para cidadãos de bem, pais e mães de família mortos todos os meses em nosso país. Cadê os direitos humanos das vítimas? No Brasil se vitimiza o criminoso e se incrimina a vítima: está tudo errado!

 

Hoje temos vários programas policiais nas emissoras de televisão. Essa transmissão quase em tempo real dos fatos, dificulta o agir da polícia em certos casos?

Temos programas muito bons, que ajudam a polícia, pois mostra nosso trabalho para a população. Quando eu comandei a ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) mantive uma relação estreita com a mídia e fiquei amigo de diversos jornalistas. Quando as pessoas sabem que a PM está trabalhando e prendendo bandidos, a sensação de segurança aumenta e o crime perde força. Precisamos vencer o medo e estes programas podem ser aliados da polícia ao mostrar que bandido é preso sim. A segurança pública precisa aprender a divulgar o seu trabalho e esses programas são excelentes aliados, desde que usados de maneira correta, legal e moderada.

 

Para uma parte da sociedade, a polícia é brutal e corrupta. Isso já o incomodou em alguma fase de sua carreira?

Quando se generaliza algo, a maioria é injustiçada. Isto ocorre na PM. Temos policiais corruptos, mas uma pequena minoria; essa parcela corrupta, assim que identificada é devidamente punida, sendo expulsa da Polícia Militar do Estado de São Paulo, ou até presos no Presídio Militar Romão Gomes. Estes casos são investigados pela procuradoria e não ficam impunes. Mas em todo grupo temos ovelhas negras, foi assim até com Cristo. Jesus tinha 12 apóstolos, um grupo pequeno de homens escolhidos por ele, e dentre eles um o traiu. Infelizmente é algo do ser humano e que está em todo lugar da sociedade. Entendo que a parte da sociedade que não gosta da PM, não gosta por dois motivos: ou porque desconhece a verdade sobre a realidade da PM ou porque gosta de valorizar o crime, denegrindo assim nossa corporação.

 

Em setembro, o senhor afirmou que o governador de São Paulo Geraldo Alckmin, tratava os policiais como “filhos bastardos”. Muitos outros policiais também dizem que falta reconhecimento por parte do governo. Nos fale mais sobre isso.

Infelizmente a Polícia Militar não é valorizada como deve em boa parte do país, e em São Paulo não é muito diferente. Precisamos urgentemente de maior valorização do profissional, reconhecimento público, jurídico e das autoridades, e um salário melhor, pois assim a tropa se sentirá mais estimulada para trabalhar. Uma pena que em pleno século XXI, ainda ligam o nome da PM com a Ditadura Militar, sendo que a Polícia Militar não teve um oficial ou praça acusado sequer de ser envolvido com torturas ou ações do tipo. Talvez por este preconceito que existe com a nossa tropa, nós não somos devidamente valorizados pelo governo. Além disso a PM não tem quase nenhuma resenhávamos política, o que faz com que os políticos não olhem para nossa classe e não nos deem o devido respeito. Isso vai mudar pois além de mim, vários PMs estão se lançando na vida pública.
Silvio Santos

Notoriedade: Coronel Telhada e o apresentador Silvio Santos (Foto: Divulgação)

 

Em junho o senhor disse em tom de desabafo: “O Brasil está a beira do caos e parece que ninguém se apercebe”; sobre vândalos que se aproveitavam das manifestações naquele período. Como fazer então para que atos de vandalismo não se repitam, e que pessoas de bem, tenham o pleno direito de protestar?

Primeiro de tudo eu creio que pessoas que querem realmente protestar não devem cobrir o rosto. Um cidadão de bem vai de cara limpa para ruas exigir os seus direitos. Cabe realizar uma investigação rigorosa da Polícia Civil para localizar estes vândalos e puni-los. E é necessário leis mais fortes para punir quem comete estes crimes. Não adianta o PM levar para a delegacia, o delegado manter preso e um juiz soltar no dia seguinte. Queimar um caixa eletrônico ou uma viatura é crime e precisa ter uma punição exemplar para quem comente estes atos. A desordem, a corrupção, o vandalismo e falta de respeito impera em todos segmentos da sociedade. No Brasil morrem mais PMs e civis do que em países que estão em guerra e todo mundo acha normal, ninguém se movimenta para mudar isso. O preço a pagar será muito caro…

 

Como o senhor se sentiu ao ver um comandante da PM, sendo espancado por um Black bloc?

Fiquei com vergonha de ser PM no Brasil. Policiais são agredidos todos os dias. As pessoas não tem ideia de como é complicada a rotina de quem trabalha nas ruas combatendo os mais variados problemas. Tem duas ocorrências que nenhum policial militar gosta de trabalhar: manifestações e reintegração de posse, as chamadas desocupações. São trabalhos desgastantes, onde o PM é xingado, toma tapa na cara… É duro, é bem difícil ser policial. Infelizmente o caso do coronel agredido não é um fato isolado.

 

A ONU (Organizações da Nações Unidas), o cientista político Carlos Novaes, e outros especialistas, dizem que o Brasil deveria acabar com a Polícia Militar. Como enxerga essas declarações?

Para mim cientista político entende tanto de segurança pública, quanto eu entendo de medicina. No Brasil todo mundo entende de futebol e polícia, né? Se o Brasil desmilitarizar a polícia, quem sabe nós não conseguiremos mais direitos para os PMs que até hoje só sofreram privações? Se isto ocorrer, poderemos fazer greve, poderemos nos sindicalizar, poderemos questionar ordens. Mas será que isto será o melhor para a população? Imagina São Paulo ficar um dia sem o serviço do 190 funcionando. A Polícia Militar serve ao governo, seja ele quem for, doa a quem doer. Nós PMs cumprimos ordens. Não adianta mudar o nome da polícia, o problema será sempre um degrau acima. Se o problema é o nome, podemos mudar para Polícia Estadual ou Força Pública Estadual. Mas nem creio que seja este o caso. Em todos os países do mundo a polícia é subordinada a um regulamento forte e se isso não ocorrer, não há serviço de polícia. Basta olharmos as polícias dos países mais desenvolvidos, veja se lá o policial é tratado da maneira que é tratado no Brasil; veja o que acontece com o cidadão que tenta fugir da ação da polícia…

 

Como o vereador enxerga a política que é feita no país?

Temos coisas boas e ruins, assim como não podemos generalizar os PMs por um ruim que existe no meio, também não podemos generalizar os políticos. Temos muitos vereadores, deputados, senadores que brigam por melhorias no nosso país. Acredito que existe muito trabalho para fazer, só precisa de boa vontade. No âmbito nacional para melhorar o Código Penal, o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente)… Nas cidades grandes os vereadores podem criar maneiras de melhorar o trânsito adaptando cada local aos seus problemas. Cabe aos eleitores separar quem realmente trabalha, de quem realmente só fala, e eleger quem está com vontade de mudar o país. A população reclama que existem políticos corruptos, criminosos, etc… Mas pergunto: quem votou nesses políticos não foi a própria população?

 

O senhor gosta de rock, é evangélico, não bebe, não fuma, e sempre diz ser um homem de família. Como é ser chamado de “Homem com fama de mau” por alguns?

Sempre gostei de rock, sou fã de Elvis, Beatles; mas gosto de boa música, não importa o estilo e o idioma. Não bebo porque não gosto, mas não critico quem o faz com responsabilidade; prefiro uma H2OH!. Não fumo porque faz mal para a saúde e recomendo a todos que não fumem por este motivo. E sou evangélico desde o nascimento, sou músico na igreja e a frequento toda semana, mas respeito todas as religiões, todos os tipos de fé; tenho amigos judeus, católicos, do candomblé. A fama de “Homem mau” talvez venha por ser uma pessoa que não gosta de bandido, não gosto de coisas erradas. Prefiro ser chamado de radical do que de ladrão. Que me critiquem por ser rígido, prefiro isto do que ser condenado como mensaleiro. No Brasil se você quer a coisa correta você é vítima de preconceito, você é tido como alguém que não é “legal” pois foge dos estereótipos hipócritas que alguns indivíduos querem fixar na sociedade.

Um vídeo do coronel Paulo Telhada

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.