Entrevista publicada em 07/02/2017 por Eder Fonseca em Pensamento
 
 

“A Segurança Pública está totalmente falida”
Bene Barbosa – Presidente do Movimento Viva Brasil

Bene Barbosa

Benedito Gomes Barbosa Jr. (conhecido como Bene Barbosa) é um dos mais importantes líderes da luta pelos direitos individuais no Brasil. Bacharel em Direito e especialista em Segurança Pública, atua desde a década de 90 para garantir às pessoas a liberdade de possuírem armas de fogo. Em 2004, decidiu profissionalizar a luta contra o desarmamento civil e fundou o Movimento Viva Brasil, que se tornou referência nacional e internacional. No ano seguinte, foi convidado para integrar a Frente Parlamentar pelo Direito à Legítima Defesa e tornou-se um dos mais importantes coordenadores da campanha vitoriosa do “Não”, no referendo de 2006. É autor de mais de uma centena de artigos publicados nos principais jornais e revistas do país, participa de debates e é convidado com frequência para as audiências públicas do Congresso Nacional. Em 2015, Barbosa foi condecorado com a Medalha “Pedro Ernesto” pela Câmara do Rio, medalha esta concedida pelos relevantes serviços prestados em sua área. “Há uma tentativa clara e flagrantemente maliciosa de se usar tragédias desse tipo para chocar a opinião pública e culpar a posse de armas. Tais afirmativas não se sustentam ao analisarmos, por exemplo, os locais onde a maioria absoluta ocorre (exatamente nas chamadas “gun-free zones”), ou seja, exatamente onde a legislação não permite que pessoas entrem ou permaneçam armadas”, afirma o especialista.

 

Professor, quando especialistas de um modo geral falam sobre o desarmamento da população, eles estão vendo essa questão por um prisma imparcial ou ideológico?

Totalmente ideológico! Não há qualquer evidência ou estudo conclusivo que indique que as restrições às armas e o desarmamento compulsório tem o poder de reduzir a criminalidade violenta. Muito pelo contrário, experiências práticas indicam um crescimento nos crimes violentos nesses casos. Um dos maiores exemplos disso é a Inglaterra e o livro “Violência e Armas: A Experiência Inglesa”, da Dra. Joyce Lee Malcolm, prova isso ao analisar mais de 500 anos de dados sobre criminalidade naquele país.

 

Você acredita que há desonestidade de alguma forma, quando ligam a posse legal de arma de fogo nos EUA, há crimes que acontecem com um certa frequência por lá, como por exemplo quando algum maluco entra em uma Universidade atirando em tudo e em todos?

Há uma tentativa clara e flagrantemente maliciosa de se usar tragédias desse tipo para chocar a opinião pública e culpar a posse de armas. Tais afirmativas não se sustentam ao analisarmos, por exemplo, os locais onde a maioria absoluta ocorre (exatamente nas chamadas “gun-free zones”), ou seja, exatamente onde a legislação não permite que pessoas entrem ou permaneçam armadas. Ataques recentes como os que ocorreram na França mostram o óbvio: terroristas ou malucos que premeditam tais ataques não são impedidos por leis restritivas. Outro ponto importante que é simplesmente varrido para baixo do tapete por grande parte da imprensa é que nos EUA milhões de armas são vendidas anualmente e desde a década de 90 a maioria dos estados liberou o porte de armas. O que aconteceu? Os homicídios caíram 50% e os estupros 56%!

 

Acredita que a bandidagem pensaria duas vezes antes de tentar cometer todos os tipos de crimes, se o porte de arma de fogo fosse liberado no Brasil de imediato?

Não tenho a menor dúvida sobre isso! A possibilidade real de enfrentar não só uma vítima armada como também ter que imaginar que outras pessoas por perto estarão armadas faz com que crimes violentos caiam. O criminoso, que mede os riscos mesmo que inconscientemente, tentará migrar para crimes contra o patrimônio onde não haja contato com a vítima. Locais que liberaram o porte de armas apresentam uma imediata redução de crimes contra a pessoa (assaltos, sequestros, roubos a residências) e um pequeno crescimento nos crimes como furtos.

 

Quem são os principais agentes da sociedade civil que querem uma sociedade desarmada?

Muitas vezes é difícil identificar tais grupos e suas reais intenções. Alguns desses agentes não agem por má-fé, mas sim por ignorância sobre o tema. Em um passado recente, coisa de 10, 20 anos atrás, havia muito mais pessoas e grupos favoráveis ao desarmamento. Como cada dia que passa fica mais óbvio o fracasso do mesmo, encontramos cada vez menos apoiadores das restrições às armas e aqueles grupos e pessoas que continuam lutando com esse objetivo o fazem sem qualquer honestidade intelectual. Via de regra, quem luta hoje pelo desarmamento, são grupos e pessoas que possuem a ideologia de que o Estado deve ter o monopólio da força. São quase sempre pessoas com uma visão autoritária, que se acham no direito de determinar o que é melhor para o mundo. A história mostra que isso nunca acaba bem.

 

Frase do vice-presidente do Conselho de Administração do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima: “Revogar o Estatuto do Desarmamento é uma proposta não só reacionária, mas completamente desvinculada de qualquer critério técnico, porque todos os dados e evidências, mostram que mais armas significam mais mortes”. Mais armas de fogo significam mais mortes?

Primeiramente ele precisa urgentemente consultar um dicionário para entender o significado de reacionário! Oras, quem é contra a modificação e modernização da legislação atual que se mostrou ineficaz é ele, portanto, ele está sendo o reacionário da história! Mas, claro, o uso dos termos por ele diz respeito à questão ideológica, tenta com isso, de forma inútil, colar o rótulo de “direitistas” retrógrados naqueles que defendem as modificações. Isso só prova o quão seus argumentos são desprovidos de tecnicidade.

Não, as armas não significam mais crimes. Até a ONU (Organização das Nações Unidas), que é a maior patrocinadora de legislações restritivas no mundo, já admitiu em um estudo de 2011, que não existe relação direta entre mais armas e mais homicídios. No estudo chamado “2011 Global Study on Homicide” afirmou que:

E como dito acima, assumiu a impossibilidade de constituir um nexo causal entre armas e crimes afirmando: “Estes dados não provam uma relação causal entre a disponibilidade de armas de fogo e os crimes à mão armada”.

O vice-presidente deveria então nos explicar como o Uruguai (o país mais armado da América Latina), possui a segunda menor taxa de homicídios da América do Sul. Ou como o Paraguai onde há pouquíssimas restrições, reduziu os homicídios e hoje têm a terceira menor taxa de homicídios em nosso subcontinente.

 

Qual a sua análise sobre o papel da mídia em debater este assunto?

Melhor seria seu papel em não debater o assunto. De uma forma geral a grande imprensa dá pouquíssimo espaço para quem atua contra o desarmamento e, em contrapartida, dá amplo espaço para os que são favoráveis. Interessante é que isso parece impactar muito pouco os cidadãos que em 2005 votaram maciçamente contra o desarmamento e hoje mantém essa posição.
Pedro Ernesto

Especialista: Bene Barbosa recebe medalha Pedro Ernesto no RJ (Foto: Arquivo)

 

É fato que o Sistema de Segurança Pública está falido. Qual saída seria viável neste momento em sua visão, para que a situação retornasse a “níveis aceitáveis” de segurança por assim dizer?

A Segurança Pública está totalmente falida! Quase quatro décadas de política de Segurança Pública baseada em ideologia e comandada por sociólogos nada técnicos nos trouxeram até aqui. Há que se abandonar o tripé que sustenta essa catástrofe e que se resume em: cadeia não resolve, a população deve ser desarmada e o crime é uma questão socioeconômica.

 

O Tolerância Zero, implantado pelo ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani, daria certo em nosso país da forma que foi engendrado, ou teria que sofrer adaptações para se tornar eficiente nas grandes cidades brasileiras?

Desde que houvesse pesados investimentos e, principalmente, vontade política, tenho certeza que traria resultados absolutamente positivos. Mas para isso teríamos que abandonar de vez o modelo fracassado adotado até hoje no Brasil ao qual me referi acima.

 

Você tem rodado o país em conferências e entrevistas onde defende o porte e a posse de arma. Como tem sentido a consciência da população desde o momento em que começou a sua luta até os dias de hoje?

Houve uma grande mudança. Coisa de 20 anos atrás o perfil dos que se interessavam pelo assunto eram de homens na faixa de 40 anos. Hoje, a maioria esmagadora são de jovens, lá pelos seus 25 anos e o número de mulheres cresceu exponencialmente. Vi isso claramente no público presente no lançamento do meu livro “Mentiram Para Mim Sobre o Desarmamento”.

 

Quais são as diretrizes fundamentais do Movimento Viva Brasil que é presidido por você atualmente?

Ao contrário do que muitos acham e até nos acusam, nossa luta não é pelas armas em si, mas sim pela liberdade que elas representam e podem proporcionar. Como escreveu J.R.R. Tolkien [premiado escritor, professor universitário e filólogo britânico, nascido na África, 1892 – 1973] em seu magnífico “Senhor dos Anéis”: “A guerra deve acontecer, enquanto estivermos defendendo nossas vidas contra um destruidor que poderia devorar tudo; mas não amo a espada brilhante por sua agudeza, nem a flecha por sua rapidez, nem o guerreiro por sua glória. Só amo aquilo que eles defendem.”

 

Qual foi o pior absurdo que o senhor ouviu ou leu sobre o assunto “Desarmamento no Brasil”, e se possível, utilize apenas um argumento que desmontaria esta informação repassada aos leitores ou ouvintes na época.

Difícil eleger uma… Por isso colocamos as nove mais comuns e repetitivas em nosso livro “Mentiram para Mim Sobre o Desarmamento”. Mas vamos lá… Acho a mais imbecil – desculpe o termo, mas não achei nada melhor – é de que armas matam. Como disse o roqueiro americano Ted Nugent [músico e ativista político americano. Nugent inicialmente ganhou fama como guitarrista da banda The Amboy Dukes, uma banda de rock psicodélico e hard rock, formada em 1963, 1948 - ]: “Se armas matam, as minhas estão com defeito”. É como culpar os garfos pela obesidade.

Um vídeo do especialista Bene Barbosa

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.