Entrevista publicada em 18/04/2018 por Eder Fonseca em Negócios
 
 

“A tecnologia eliminou todas as fronteiras”
Javier Goilenberg – Cofundador e CEO da plataforma Real Trends

Javier Goilenberg

Com 33 anos, o argentino Javier Goilenberg já tem um grande currículo no mundo das startups techies da região. Engenheiro de sistemas pela Universidade de Tecnologia Nacional, da Argentina, trabalhou durante 5 anos na área de TI do Mercado Livre. Em abril de 2013 esta empresa abriu sua própria plataforma, o que permitiu que desenvolvedores externos pudessem criar aplicativos conectados ao marketplace. Em janeiro de 2014, junto com Patrício Molina, seu sócio e atual CTO da companhia, começaram a desenvolver a Real Trends e dois meses depois estava online a primeira versão da plataforma na Argentina. Assim começou a história que completa 4 anos e que se estendeu a países como Brasil e México. Se trata de uma plataforma com ferramentas de análise e gestão para que vendedores de marketplaces online vendam mais e melhor a nível global. “Quando começamos em 2014, plataformas como a Real Trends eram desconhecidas por nossos potenciais clientes e costumávamos ser vistos como um “nice to have”, algo que não era 100% necessário, uma plataforma para poucos entendidos. Com o passar dos anos, os vendedores tomaram um maior conhecimento de nosso produto, que se tornou um “must” para aumentar as vendas e ser competitivos”, salienta o jovem empreendedor. Em 2017 Javier foi eleito pela revista Forbes como uma das 30 promessas, pela Real Trends.

 

Javier, antes de mais nada, gostaria que falasse um pouco sobre a sua carreira até chegarmos aos dias atuais.

Sou uma pessoa que nasceu com a tecnologia no sangue. Tenho 33 anos, mas desde criança eu tinha paixão pelos computadores e nunca tive a menor dúvida de que iria estudar algo relacionado: me formei engenheiro de sistemas em 2009. Aos 16 comecei a trabalhar, primeiro montando computadores e dando suporte técnico. Depois aprendi a programar e me dediquei ao desenvolvimento web de maneira independente.

Em 2009 surgiu a oportunidade de trabalhar na equipe de TI do Mercado Livre e me interessei muito, principalmente para ter um pouco de experiência corporativa e também porque era uma empresa com forte crescimento na indústria do e-commerce. Trabalhei lá por 5 anos, em diferentes projetos de TI, até que em 2013 decidi empreender e comecei a pensar em ideias que pudessem se transformar em projetos concretos.

Um dia, logo após um hackathon que tive que organizar trabalhando no Mercado Livre, nasceu a ideia da Real Tends. Vi todo o potencial que havia para desenvolver uma plataforma de marketplaces. Porém, sabia que sem um sócio não ia conseguir fazer frente à nenhum projeto. Foi assim que comecei a procurar alguém. Um amigo me apresentou o Patrício, meu atual sócio e CTO da companhia com quem me entendi muito bem desde o início. Ali demos esse salto que significava deixar nossos empregos e nos dedicar só a montar a Real Trends. Conseguimos capital inicial com a NXTP Labs (uma aceleradora argentina) e um investidor anjo. Hoje, 4 anos depois, somos uma empresa com uma equipe de mais de 30 pessoas, operando em vários países da região. Felizes com o que fazemos e com uma forte ambição de seguir apostando no que fazemos e continuar crescendo.

 

Como você avalia o empreendedorismo e o mundo das startups na América do Sul e em especial no Brasil e na Argentina?

O que aconteceu nos últimos anos no ecossistema de startups e empreendedores foi realmente incrível. Na nossa região existem enormes talentos, capazes de criar empresas de altíssimo potencial e de abrangência global, tais como Mercado Livre, Decolar, 99, Buscapé e tantos outros.

Eu vejo o que acontece com outras startups do Vale do Silício, onde ocorre uma realidade bem diferente da nossa. As startups começam com um capital inicial muito mais alto (falamos de 500 mil a 1 milhão de dólares minimamente), enquanto na América Latina este capital gira em torno dos 50 mil dólares, ou seja 10 vezes menos. Eu acho que os brasileiros e os argentinos têm uma ¨resiliência particular¨ que nos faz únicos como empreendedores, já que estamos acostumados a atravessar crises econômicas e temos uma força e uma capacidade de saltar obstáculos maiores que os empreendedores de outros países. A criação de outras aceleradoras favoreceu muito o crescimento de nosso ecossistema empreendedor. Cada vez mais pessoas animam-se a transformar seus sonhos em realidade e é o próprio ecossistema quem retroalimenta e reforça positivamente esses potenciais empreendedores, que logo geram companhias de muito valor e dão trabalho a muitas pessoas. A tecnologia eliminou todas as fronteiras. Qualquer um pode fazer que a sua própria empresa seja uma empresa global.

 

Qual foi o insight para o surgimento da Real Trends?

Trabalhei cinco anos na equipe de TI do Mercado Livre e tive a sorte de participar como organizador de alguns hackathons em 2013. Foi então que percebi que tínhamos muitas oportunidades de negócios com o aplicativo do Mercado Livre, especialmente com a possibilidade de dar soluções aos vendedores do site. Assim foi que nasceu a Real Trends, geramos uma rápida tração, o que nos permitiu seguir acompanhando o crescimento da companhia.

 

A utilização dos smartphones para compras online é uma tendência que veio para ficar?

Definitivamente. Ter um aplicativo e um site web responsivo já não é um ¨nice to have¨ mas, algo totalmente necessário. Hoje mais do que nunca temos que pensar no mobile first.

 

Como compara a utilização dos smartphones por jovens para suas primeiras compras no Brasil e na Argentina?

A medida que passam os anos, mais jovens crescem e começam a comprar online utilizando um smartphone em sua primeira compra. No Mercado Livre, por exemplo, há apenas 5 anos as compras mobile superaram 10% do total de compras realizadas. Hoje já chegam a 60% e seguirá em crescimento. Aliás, trata-se de uma tendência mundial, não somente regional.

 

Existe alguma dificuldade para uma maior utilização dos smartphones para compras online?

Não acho que seja um problema de capacidade dos dispositivos nem de velocidade da rede. Talvez isso já esteja resolvido. Considero que é mais uma questão de costume dos usuários. Cada vez mais pessoas estão se animando a fazer suas primeiras compras com um celular e, ao ver o quão cômodo e simples é fazê-lo comparado com um desktop, continuarão comprando com esses dispositivos. Também ainda há toda uma geração, acima de 40 a 45 anos, que não nasceu na era digital e que durante os próximos anos irá se incorporando ao grupo de pessoas que compram online com os smartphones.
O executivo

Tecnologia: O executivo Javier Goilenberg da Real Trends (Foto: Divulgação/AP)

 

Qual o papel da Real Trends para que essa desconfiança (se é que ela existe) se dissipe?

Por parte da Real Trends, nós cumprimos um rol fundamental em ajudar aos vendedores online a vender mais e melhor, através de nossas ferramentas de análise e gestão. Não trabalhamos com compradores de forma direta, e por isso não poderíamos dizer que ajudamos a dissipar a desconfiança que existe na hora de comprar de um dispositivo móvel. Ajudamos a melhorar a experiência de compra que eles têm com nossos usuários vendedores, mas o fazemos de forma geral, não importa o canal de onde se realiza a compra.

 

Como se encontra a inovação neste mercado?

A inovação está hoje mais presente do que nunca, especialmente na área da tecnologia. Basta abrir qualquer jornal para ler sobre novos empreendimentos que, através do uso da tecnologia, estão transformando indústrias inteiras, tais como a de transporte, financeira, comércio, saúde, e tantas mais. O ecossistema empreendedor ajudou muito nos últimos anos para que isso acontecesse, através de aceleradoras de projeto (privadas e públicas) que permitiram aos jovens com entusiasmo a transformar suas ideias em realidade, com apoio econômico, espaço de trabalho, tutoriais e todo um conjunto de coisas que maximizaram as chances de êxito de seus projetos.

 

Quais as principais diferenças do comportamento de quem quer comprar pelos smartphones em comparação com quem faz compras por desktops, notebooks e aparelhos semelhantes?

Não há tantas diferenças. Como mencionei anteriormente, as opções são exatamente as mesmas, mas cada um compra de onde se sente mais cômodo. É mais comum encontrar maior porcentagem de vendas por smartphone nas pessoas mais jovens, enquanto há pessoas que começaram a comprar online a partir de um desktop/notebook e sentem que neste tipo de dispositivo têm maior comodidade visual para analisar toda a informação necessária antes de realizar sua compra. Também existe um grupo muito grande de pessoas que realizam compras de ambos os tipos de dispositivos, dependendo do momento em que se encontrem ou do tipo de produto que estejam por comprar. Há estudos que mostram que as compras mais rotineiras e repetitivas (alimentos para pets, por exemplo) são mais prováveis que sejam realizadas por um smartphone, uma vez que pode ser efetuada de qualquer lugar e não é necessário nenhum tipo de análise prévia.

 

O que vislumbra ser o próximo passo da plataforma idealizada por você?

Hoje trabalhamos unicamente integrados com o marketplace do Mercado Livre na região (Brasil, Argentina e México). É importante entender que existem também outros lugares onde os vendedores estão ingressando e poder oferecer uma solução integral que lhes permita otimizar sua gestão e tomar melhores decisões, onde quer que vendam. Seguiremos desenvolvendo e melhorando nossas ferramentas para o Mercado Livre, mas também estamos começando a expandir nossa plataforma para outros marketplaces da região e do mundo.

 

Como a Real Trends será uma empresa diferenciada, valorizada e ao mesmo tempo inovadora no mercado pelos próximos anos?

Trabalhamos duro para oferecer não só o melhor produto, mas o melhor serviço a nossos usuários. Somos transparentes, escutamos sempre suas necessidades para melhorar em todas as nossas áreas e focamos na qualidade do atendimento que lhes oferecemos. Tudo isso nos diferencia dos outros players do mercado, que talvez acreditem que simplesmente um bom produto seja o suficiente, ou que as pessoas só priorizam um preço baixo.

Acredito que tudo isso é algo que nunca devemos perder para seguir sendo diferentes e valorizados: cuidar do usuário em todo momento é o mais importante para que seja um promotor de nossa plataforma e se sinta fidelizado conosco.

Quanto à inovação, o mais importante é estar muito atentos a tudo o que acontece no mercado. O e-commerce na região está atravessando momentos muito intensos de crescimento e de chegada de novos jogadores que sem dúvida farão com que a penetração de vendas online siga crescendo a passos agigantados e teremos que seguir de perto as necessidades dos vendedores online, para poder continuar oferecendo as melhores soluções.

Um vídeo do empreendedor Javier Goilenberg

Patrocinado por:
Sapato Site




Imprimir

Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.