Entrevista publicada em 27/08/2018 por Eder Fonseca em Ativismo
 
 

“Acredito muito na ação do indivíduo”
Cláudia Calais – Diretora executiva da Fundação Bunge

Cláudia Calais

Cláudia Buzzette Calais é formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo – UFES e sempre defendeu a bandeira da democratização ao acesso à informação. Começou a sua carreira muito jovem, atuando na imprensa capixaba e, paralelamente, ministrando cursos gratuitos aos finais de semana nas comunidades próximas de onde morou, formando comunicadores populares, entre eles, lideranças comunitárias, de associações, comunidades rurais, donas de casa, jovens, entre outros. Em 1999, decidiu ir para São Paulo em função da necessidade de crescimento profissional e também porque havia se casado. Em São Paulo, começou a atuar como coordenadora de comunicação na Latasa, empresa especializada em fabricação e reciclagem de alumínio. Neste período, pós-graduou-se em comunicação empresarial na Faculdade Cásper Líbero. Como coordenadora de comunicação, ajudou a reorganizar o portfólio de projetos da instituição e a buscar maior interação entre a ação social e as atividades de negócio, contando com o apoio dos funcionários, pois sempre acreditou que essas áreas deveriam estar alinhadas. Recebeu novos desafios dentro da Fundação Bunge e passou a supervisionar todos os projetos da instituição, sendo promovida à gerência da Fundação e, posteriormente, ao cargo de diretora executiva, onde está atualmente. “A riqueza está na diferença”, afirma a executiva.

 

Como se deu a sua entrada na Fundação Bunge?

Sou formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo – UFES e sempre defendi a bandeira da democratização ao acesso à informação. Comecei minha carreira muito jovem, atuando na imprensa capixaba e, paralelamente, ministrando cursos gratuitos aos finais de semana nas comunidades próximas de onde morei, formando comunicadores populares, entre eles, lideranças comunitárias, de associações, comunidades rurais, donas de casa, jovens, entre outros. Em 1999, decidi vir para São Paulo em função da necessidade de crescimento profissional e também porque eu havia me casado. Em São Paulo, comecei a atuar como coordenadora de comunicação na Latasa, empresa especializada em fabricação e reciclagem de alumínio. Neste período, me pós-graduei em comunicação empresarial na Faculdade Cásper Líbero.

Ao mesmo tempo em que conhecia uma área totalmente nova para mim naquela época – o mundo empresarial -, nunca deixei de lado o meu encanto pelo universo social, desde quando trabalhava nas comunidades capixabas. Em julho de 2001, recebi um convite da Bunge para atuar na área de comunicação da Fundação Bunge, pois a empresa estava abrindo capital na bolsa de Nova York e queria ter uma percepção melhor do Mercado e Investidores e da sua atuação social no Brasil. Na época, estava se consolidando no país o conceito de Responsabilidade Social Empresarial. Mesmo a porta de entrada tendo sido, novamente, a área de comunicação, os projetos sociais foram o meu grande desafio na Fundação.

Como coordenadora de comunicação, ajudei a reorganizar o portfólio de projetos da instituição e a buscar maior interação entre a ação social e as atividades de negócio, contando com o apoio dos funcionários, pois sempre acreditei que essas áreas devem estar alinhadas. Recebi novos desafios dentro da Fundação Bunge e passei a supervisionar todos os projetos da instituição, sendo promovida à gerência da Fundação e, posteriormente, diretoria executiva, onde estou atualmente.

 

Quais os pilares você acredita serem os principais da Fundação?

Há mais de 60 anos a Fundação Bunge atua em diferentes frentes com o compromisso de valorizar pessoas e somar talentos para construir novos caminhos. Suas ações contemplam três áreas de atuação ou pilares principais: valorizar o passado, por meio da preservação da memória empresarial da Bunge em um Centro de Memória próprio, mantido pela Fundação; transformar o presente, por meio do incentivo à leitura para crianças (programa Semear Leitores), do voluntariado corporativo dos funcionários da Bunge (programa Comunidade Educativa) e do estímulo ao desenvolvimento territorial sustentável (programa Comunidade Integrada); e construir o futuro, com o incentivo às ciências, letras e artes (Prêmio Fundação Bunge que, todo ano, homenageia pesquisadores por trabalhos que contribuíram para o avanço da sociedade). Em todas essas frentes, a Fundação valoriza o protagonismo social e não abre mão da diversidade local. A riqueza está na diferença.

 

O que você trouxe da sua experiência profissional e que se complementou com a visão da Fundação Bunge?

A inquietação e a busca pelo novo. O compromisso de se ver como a responsável pela mudança. Acredito muito na ação do indivíduo. Empresas, governos e instituições são feitas de pessoas e a mudança passa por nós. Eu sou a responsável pelos meus atos e decisões e sempre levei isso para as empresas e instituições onde passei. Minha função atual na Fundação Bunge tem como premissas básicas a gestão administrativa e de projetos da instituição, porém, grande parte do meu trabalho está direcionado em olhar para o futuro. Perceber os rumos do setor, estar atenta às mudanças da sociedade e ver como as ações sociais podem se inserir e colaborar nesses processos de transformação não só da sociedade, mas também da corporação. É muito importante que a empresa entenda o seu papel na sociedade e a sua função de agente de transformação. Quem está à frente de cargos de gestão não pode perder essa conexão com o futuro.

Durante todo o meu trabalho na Fundação, vi mudar o conceito de investimento social privado – que antes era relacionado à filantropia e hoje as empresas o veem como um conceito alinhado aos seus respectivos negócios estratégicos, o chamado Valor Compartilhado. Dentro de todo este cenário de mudanças que vieram acontecendo no Terceiro Setor, a Fundação Bunge também se transformou bastante e conseguimos desempenhar a ideia de trabalho em rede, que permite a interação entre a ação social e as atividades de negócio.

 

Uma das ações da Fundação é o incentivo à leitura. Como é essa ação?

A Fundação Bunge criou o programa Semear Leitores para estimular o contato das crianças com os livros de maneira prazerosa, incentivando, desta forma, a leitura e ampliação do universo cultural dos pequenos. Para isso, a Fundação Bunge realiza parcerias com as Secretarias de Educação de municípios de 9 estados onde o programa está presente (RS, SC, PR, SP, MG, TO, MT, PA e BA) para implantar espaços lúdicos e acolhedores, projetados especialmente para facilitar o acesso aos livros. Um acervo inicial de cerca de 1.000 livros são doados para estes espaços e complementados a cada ano com 30 novos títulos. Além disso, há a formação de mediadores de leitura (profissionais responsáveis por estimular o gosto pelos livros e pela leitura), professores e coordenadores educacionais da rede municipal de ensino que atuam dentro do programa. Em 2017, os espaços receberam cerca de 288 mil visitas e 53% das crianças que visitaram as salas de leitura fizeram empréstimos de livros. No mesmo ano foi possível capacitar 196 profissionais da educação nos estados contemplados pelo programa.

 

O que você acredita ser essencial para a nossa população ler cada vez mais?

Segundo a quarta edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Ibope por encomenda do Instituto Pró-Livro, entidade mantida pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), Câmara Brasileira do Livro (CBL) e Associação Brasileira de Editores de Livros Escolares (Abrelivros), 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro. Embora o número de leitores venha crescendo, a quantidade de pessoas que não lê, infelizmente, ainda é muito grande. Acredito que uma das ações essenciais para estimular o hábito de leitura consiste em criar projetos sociais prazerosos, agradáveis e fornecer ferramentas que aproximem as crianças, os jovens e os adultos dos livros.

Não falo em impor a leitura, mas, sim, conscientizar a população adulta de que a leitura pode ser prazerosa e, no caso das crianças, estimular esse hábito para que elas levem isso para o resto da vida. Leitura é hábito, mas para que o hábito aconteça é preciso oportunizar o acesso aos livros. Quantos espaços de leitura ou bibliotecas temos país a fora? É justamente o que fazemos no caso do programa Semear Leitores. Mostramos aos pequenos, logo nos primeiros anos de vida, o quanto a leitura é importante. Fazemos isso nos espaços de leitura com base em clássicos da literatura e também valorizando os novos escritores. Utilizamos técnicas mais lúdicas, divertidas, atrativas, ilustrativas. O objetivo é oportunizar, desde cedo, o contato das crianças com o universo literário.

 

Como a Fundação Bunge tem encarado o desafio do desenvolvimento sustentável?

Para promover o desenvolvimento territorial sustentável, a Fundação Bunge criou o programa Comunidade Integrada, que visa orientar o investimento social privado de forma articulada e conectada dentro de comunidades, com ações planejadas a partir da realização de diagnósticos e da criação de um Plano de Gestão Integrada envolvendo a empresa, município, sociedade civil e entidades. O programa foi desenvolvido entre 2011 e 2016 nas cidades tocantinenses de Pedro Afonso, Tupirama e Bom Jesus do Tocantins, com foco na capacitação de mão de obra e formação de jovens e de educadores; e iniciado em 2014 nos municípios de Barcarena e Itaituba, no Pará, atuando em três frentes: proteção integral à criança e ao adolescente, com ações de sensibilização e conscientização de caminhoneiros e aquaviários; criação de uma política municipal de proteção de crianças e adolescentes, com monitoramento digital e prevenção por meio de ações focadas na formação e empregabilidade dos jovens e desenvolvimento econômico, com foco na formação técnica e no desenvolvimento de empreendedores junto às comunidades ribeirinhas. A partir do segundo semestre de 2018, o programa Comunidade Integrada também beneficiará dois municípios do estado do Mato Grosso.
A diretora executiva

Ações: A diretora executiva da Fundação Bunge, Cláudia Calais (Foto: Divulgação)

 

A valorização da pessoa como agente transformador é a grande mola mestra da nossa sociedade?

Sim. Cito como exemplo o programa Semear Leitores, em que atuamos no incentivo à leitura para as crianças. Sabemos que não basta oferecer um livro e um espaço para uma criança ler. Por isso, investimos na formação dos mediadores de leitura. São eles os principais responsáveis por estimular as crianças a ler e que poderão, com o apoio das famílias, garantir uma boa formação para os pequenos. A transformação passa pelas nossas decisões e ações. Não existem empresas, instituições e governos. Existem pessoas que fazem empresas, instituições e governos por meio de suas decisões e ações. Temos que assumir esse protagonismo e também nos responsabilizar por ele.

 

Como trazer essa consciência para pessoas que ainda não tem a consciência de que podem ser esses agentes transformadores?

Acredito que uma das maneiras seja valorizar o relacionamento e a comunicação entre as pessoas. Além disso, é importante investir em iniciativas que valorizem o capital humano, que priorizem a educação de qualidade, que estimulem o trabalho voluntário e os resultados conquistados. O ser humano tem um potencial incrível para transformar e muitos ainda são céticos em relação a isso. No programa Comunidade Educativa, a Fundação Bunge incentiva funcionários da Bunge em âmbito nacional a realizarem diversas ações de voluntariado nas comunidades. É uma ação que dá certo, funciona e agrega benefícios tanto para a comunidade, que se vê acolhida, quanto para os funcionários, que percebem como seu trabalho está sendo transformador. Também é um trabalho que muda a empresa. Ela percebe que não é algo apartado da sociedade. Muito pelo contrário, faz parte dela.

 

O Terceiro Setor do nosso país precisa de que ferramentas para se desenvolver e florescer?

O Terceiro Setor no Brasil tem se profissionalizado bastante. Não podemos ainda compará-lo, em termos de valores investidos, com países como os EUA, que têm políticas e leis de incentivo a doações, mas avançamos bastante. Hoje, as entidades do Terceiro Setor estão cada vez mais alinhadas às políticas públicas e cada vez mais integradas com a sociedade e as estratégias de negócio. Para que o setor brasileiro possa se desenvolver, umas das peças-chave está na integração das políticas públicas. Essa integração, aliada a uma gestão participativa entre os membros do Governo e da sociedade civil organizada, é que permite a distribuição eficiente dos recursos públicos de acordo com as prioridades de cada projeto social, bem como a divisão correta para propiciar a solução de problemas locais.

 

Como avalia os investimentos sociais das empresas no Brasil?

O assunto ‘investimentos sociais privados’ está ganhando cada vez mais espaço nos debates do Terceiro Setor. Embora o conceito não seja novidade, as empresas estão dando mais atenção ao tema. Antigamente, o investimento social privado era visto pelo meio corporativo com correlação à filantropia, para preencher o espaço onde o poder público não estava presente, e depois focou na percepção positiva de clientes e fornecedores, a famosa imagem social corporativa. Mas, felizmente, com o tempo, as empresas perceberam que não podiam mais ser coadjuvantes dentro do cenário de desigualdade social em algumas regiões e comunidades e passaram a ser responsáveis socialmente pelo desenvolvimento desses locais.

Assim, o investimento social privado passou por uma reconfiguração, deixando de ser visto como algo ‘externo’ ao negócio e alinhando-se a ele, com estímulo à troca entre empresa e comunidade, focando no conceito de Valor Compartilhado. Exemplo disso são os cursos de capacitação profissional que o programa Comunidade Integrada, da Fundação Bunge, já promoveu em municípios distantes de capitais da região Norte do Brasil. Ao mesmo tempo em que o programa atuou no desenvolvimento da região, capacitando mão de obra e, consequentemente, gerando mais renda para a população local, a Bunge e outras empresas da região se beneficiaram com a ação, pois tiveram suas demandas por profissionais mais qualificados atendidas.

 

A Fundação tem um tripé pela qual está determinada em valorizar o passado, transformar o presente e construir o futuro. Como fazer com que essas três pontas andem juntas de forma uníssona em um mundo que se transforma a cada minuto?

Nós costumamos dizer aqui na Fundação Bunge que só é possível construir o futuro com atenção ao passado e ações responsáveis no presente. A Fundação Bunge sempre está atenta às mudanças que acontecem em nosso país e no mundo. Os programas também estão em constante movimento, com a criação de novas ações e projetos, reconfiguração de ações já existentes e atuação em diversas regiões pelo país. No caso do Centro de Memória Bunge, por exemplo, além da preservação de todo o patrimônio histórico da Bunge, estamos atuando em um trabalho extenso de recuperação de registros históricos. Ainda, com o avanço tecnológico, conseguimos catalogar e digitalizar boa parte dos materiais resgatados para a plataforma online.

No caso do Semear Leitores, acreditamos que, independentemente das transformações que acontecem, a leitura é essencial para a formação do ser humano e é por isso que continuamos investindo no estímulo das crianças para que elas cresçam com uma boa formação cultural. Já o programa Comunidade Integrada está alinhado com a nova lógica do investimento social privado atrelado ao negócio corporativo e gera uma troca positiva entre empresa e comunidade (vide mais na resposta anterior). Enquanto isso, o programa Comunidade Educativa segue desenvolvendo ações ligadas ao voluntariado dos funcionários da Bunge, criando uma cultura corporativa interdisciplinar e que também auxilia no desenvolvimento de locais onde a desigualdade social, econômica e cultural é mais marcante.

Um vídeo da executiva Cláudia Calais

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.