Entrevista publicada em 14/08/2013 por Eder Fonseca em Ativismo
 
 

“As igrejas protestantes são extremamente homofóbicas”
Luiz Mott – Antropólogo, pesquisador, historiador e fundador do Grupo Gay da Bahia

Luiz Mott

Luiz Roberto de Barros Mott, mais conhecido como Luiz Mott, nasceu em São Paulo em 1946, de uma tradicional família interiorana. Estudou em um Seminário Dominicano de Juiz de Fora. Formou-se em Ciências Sociais pela USP. Possui mestrado em Etnologia em Sorbonne e doutorado em Antropologia pela Unicamp. No ano passado, o antropólogo ocupou a 379ª posição na seleta lista dos 500 gays que tiveram maior impacto na sociedade divulgada pela revista holandesa ‘Winq’ e por sua versão internacional, ‘Mate’. O gênio das artes Leonardo da Vinci, o filósofo Sócrates e o rei da Macedônia Alexandre “O Grande”, estiveram no topo da lista. “Considero que os homossexuais são os mais odiados dentre todas os grupos minoritários na sociedade brasileira porque o amor entre pessoas do mesmo sexo foi secularmente considerado crime hediondo, condenado como pecado abominável, escondido através de um verdadeiro complô do silêncio, o que redundou na internalização da homofobia por parte dos membros da sociedade global, a iniciar pela repressão dentro da própria família, no interior das igrejas e da academia, inclusive dentro dos partidos políticos. (…) Foi Freud quem deu essa pista: todo homofóbico tem dentro de si uma bicha louca acorrentada ávida de soltar as plumas… A antropologia comprova que Schopenhauer, tinha razão ao dizer que a homossexualidade comprova ser parte da natureza”, afirma o ativista.

 

Estamos em pleno século XXI e o preconceito contra os homossexuais no Brasil ainda é muito grande. Por que o senhor acredita que essa convivência é tão difícil de ser conseguida sem atritos?

Considero que os homossexuais são os mais odiados dentre todas os grupos minoritários na sociedade brasileira porque o amor entre pessoas do mesmo sexo foi secularmente considerado crime hediondo, condenado como pecado abominável, escondido através de um verdadeiro complô do silêncio, o que redundou na internalização da homofobia por parte dos membros da sociedade global, a iniciar pela repressão dentro da própria família, no interior das igrejas e da academia, inclusive dentro dos partidos políticos, das próprias entidades voltadas para a defesa dos Direitos Humanos e do poder governamental. Reputo que a homofobia internalizada devido à discriminação anti-homossexual contamina mesmo os principais interessados: gays, lésbicas e transgêneros, que em sua maior parte vivem numa espécie de vácuo identitário e sob o efeito perverso da alienação, com baixa auto-estima, e com raras exceções, incapazes de ações afirmativas em defesa da própria homossexualidade.

 

Os gays talvez tenham nas igrejas os seus maiores detratores. Ainda considera que a instituição tem as mãos sujas de sangue, como disse há algum tempo atrás?

As três religiões monoteístas – judaísmo, cristianismo e islamismo – têm as mãos sujas de sangue de milhares de homossexuais que foram torturados e mortos em todo o mundo, cumprindo o decreto divino: “O homem que dormir com outro homem deve ser apedrejado!” Nestes últimos 4 mil anos, os sodomitas foram executados a pedradas, decapitados, queimados na fogueira e nos campos de concentração. A Igreja Católica, do Vaticano à nossa CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), continua a pregar que a homossexualidade é “intrinsecamente má”, e pior, pressionando as autoridades civis para não aprovar o casamento homoafetivo. Mesmo o novo papa Francisco, apesar de aplaudido por ter dito que não julga ninguém e os gays devem ser respeitados e integrados na sociedade, pouco se distingue do pastor Feliciano, pois mantém o mesmo sermão moralista: “Amor ao pecador e ódio ao pecado”. Francisco disse claramente que segue o catecismo católico e lá está escrito: pode ser gay, mas tem de ser casto e celibatário. Trocando em miúdos: pode ser homossexual, não estar homoerótico.

 

Existe uma tese popular que quando uma pessoa tenta atacar um homossexual é porque sente de alguma forma atraída pelo mesmo sexo… então tenta descontar essa raiva com todos os tipos de agressões. Existe algum fundamento nessa crença dentro dos seus estudos?

Foi Freud quem deu essa pista: todo homofóbico tem dentro de si uma bicha louca acorrentada ávida de soltar as plumas… A antropologia comprova que Schopenhauer, tinha razão ao dizer que a homossexualidade, por sua universalidade e indestrutibilidade comprova ser parte da natureza. De fato, pesquisa antropológicas comprovaram a existência de homossexuais e transexuais em todas as raças e etnias, embora com significados e vivências diversificadas. Por exemplo, entre muitas tribos da Oceania, todos os jovens ao entrar na adolescência vivem com algum homem adulto para receber seu esperma por via anal, pois de acordo com a cultura local, só assim poderão tais jovens se tornar adultos e futuros reprodutores. Outra descoberta dos antropólogos é que 64% das culturas humanas estudadas são favoráveis ao amor unissexual, não discriminam tal expressão erótica e amorosa, enquanto a minoria destas sociedades, 36% são marcadas pela homofobia, a intolerância anti-homossexual. Lastimavelmente grande parte do mundo dominado pelas religiões monoteístas enquadra-se nesta minoria homofóbica que trata os LGBT como pecadores, desviados e criminosos.

 

Há muita distorção dos objetivos da causa LGBT nos grandes meios de comunicação?

Os meios de comunicação felizmente estão evoluindo no Brasil para se tornar politicamente mais corretos no seu trato com as minorias raciais, sexuais, étnicas, religiosas, etc. Não se vê mais nas manchetes dos jornais ou telejornais expressões correntes em décadas passadas, como crioulo, traveca, bicha, índio selvagem, velho, aleijado, etc. Essa foi a primeira batalha do movimento LGBT desde os finais dos anos 70: que a mídia não usasse expressões depreciativas e ofensivas, que só revelasse a orientação homossexual quando a pessoa fosse vítima de algum crime discriminatório e que houvesse mais divulgação de informações científicas e culturais positivas sobre o universo gay. A Associação de Jornalistas do Brasil foi uma das primeiras entidades profissionais a incluir em seu código de ética a proibição de discriminar por orientação sexual, hoje seguido por inúmeras associações nacionais. Contudo, sobretudo nas televisões, persiste a reprodução de imagens estereotipadas de gays e lésbicas, explorando o lado cômico ou ridículo dessas personagens, associando sempre o gay à efeminação, futilidade, covardia. A resistência de se mostrar o beijo do casal homoafetivo é reflexo desta homofobia cordial nos meios de comunicação, que exibe relações heterossexuais quase explícitas nas novelas, mas proíbe e demoniza carinho entre pessoas do mesmo sexo. As travestis e transexuais são menos discriminadas, já que Rogéria e outras, participaram de novela em horário familiar. Continua sendo tabu o beijo de dois bigodudos mas tolera-se a presença de “trans” desde que distantes de qualquer interação erótica.

 

Silas Malafaia diz que se a PLC 122 passar pela Câmara, existirá risco de ser criminalizada a opinião e a liberdade religiosa. Qual a sua visão sobre essa análise do pastor?

Sobre a declaração do pastor, só posso dizer que as igrejas protestantes são extremamente homofóbicas em todos os sentidos, especialmente as igrejas neopentecostais, como Assembleia de Deus e Universal do Reino de Deus. As curas e exorcismos de homossexuais nos cultos é feito com muita violência, muita agressão e muita humilhação. Agora Jesus, que não jogou pedra na mulher adúltera, que garantiu a precedência no Reino dos Céus aos publicanos e meretrizes, que não recusou curar o escravo/amante do centurião romano, que garantiu que “há eunucos/gays que assim nasceram do seio de sua mãe”, este mesmo Jesus, caso estivesse entre nós, neste terceiro milênio de seu nascimento, de que lado estaria? Do lado de alguns pastores brasileiros, que declararam: “Gay é gente pela metade, se é que são gente!”, ou “homossexualismo é uma aberração, uma imoralidade comparável à cleptomania!”; que escreveram cartas aos parlamentares para não aprovarem o projeto de união civil entre homossexuais? Ou estaria Jesus do lado dos gays, a minoria social mais discriminada do mundo, pois até em casa são vítimas de repressão e violência, e cujo único “pecado” é amar seu semelhante? Esquecem-se os donos do poder religioso do ensinamento do discípulo que Jesus amava”, ao afirmar: “Deus é amor e onde há amor, Deus aí está!”

 

A academia parece que trata a causa LGBT como algo menor do que outras, ou seja, ela parece não se esforçar para que a discussão seja ainda mais ampla. Essa visão seria correta?

Fui discriminado algumas poucas vezes na academia devido à minha afirmação homossexual: alguns artigos meus não foram publicados. Certa vez um velho professor questionou se um “viado” podia ser eleito chefe do departamento de antropologia na UFBA (Universidade Federal da Bahia). Por outro lado, consegui graças a minha militância, enorme visibilidade fora dos muros acadêmicos, o que deixa muitos de meus colegas invejosos. Há males que vêm para bem… Quando iniciei minhas pesquisas sobre homossexualidade, temi ser discriminado, por isto, primeiro fiz serem aprovadas moções na Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência apoiando pesquisas sobre homossexualidade e temas correlatos. Graças a este apoio institucional, tive segurança para pesquisar assuntos tabus, como mais de quatro mil denúncias e processos contra sodomitas luso-brasileiros.
Revista Mate

Influência: O diretor de filmes pornôs Chi Chi LaRue na revista Mate (Foto: Mate)

 

Os homossexuais de uma forma geral, estão bem informados sobre os seus direitos?

Cada vez mais, através das redes sociais e noticiários, os LGBT acompanham as vitórias e derrotas do nosso movimento em nível internacional e local. Infelizmente persiste, contudo grande alienação por parte da maioria de nossa tribo, pois sofrem de “homofobia internalizada” ou manifestam comportamento “egodistônico”, não se aceitando enquanto homossexual e em muitas vezes, o que é ainda pior, atacam os LGBT assumidos, chamados pela psicanálises de “egosintônicos” como forma de marcar terreno como suposto heterossexual. Creio que a tendência é cada vez mais os gays se assumirem, se informarem e correrem atrás de seus direitos, pois a internet e a televisão bombardeiam todo dia informações sobre cidadania, contra as discriminações e preconceitos. Apesar do beijo gay ainda ser vetado nas telinhas…

 

Existe um termo interessante utilizado em Paradas Gays que se chama “homofobia governamental”. De onde surgiu este termo?

O Legislativo é o mais atrasado entre os três poderes no que diz respeito à garantia dos direitos dos homossexuais. O primeiro grande vacilo foi não ter incluído, entre as garantias individuais previstas na Constituição, a proibição da discriminação em decorrência da orientação sexual. Outro vacilo é que o projeto de lei da Marta Suplicy sobre a parceria civil registrada (PL 1151/95) tem sido empurrado com a barriga desde 1995 pelos deputados, inspirados por uma ideologia machista que acha que defender os direitos dos homossexuais tira voto. Isso é um equívoco, porque inúmeros políticos que apoiaram os homossexuais foram muito bem eleitos depois de declararem esse corajoso apoio. Além do mais, sofremos da homofobia governamental da atual presidenta – chamada de Dilmofóbica nas listas LGBT e vaiada de Norte a Sul nas Paradas Gays – que vetou a distribuição do kit anti-homofobia, que deveria ter capacitado mais de 6 milhões de jovens no respeito a diversidade sexual.

 

Vamos voltar um pouco no tempo. Como era a sua luta pela causa LGBT antes de fundar o Grupo Gay da Bahia?

Desde o início, isso já em 1980, considerei que era fundamental documentar as manifestações de discriminação, violência e, sobretudo, assassinatos de homossexuais, como uma forma de mostrar à sociedade que estávamos protestando contra manifestações crudelíssimas de discriminação, uma violência inaceitável, e demonstrar, portanto, que era fundamental que o Governo tivesse políticas afirmativas em relação aos homossexuais. Já a fundação do Grupo Gay da Bahia se deve a um ato de violência, de homofobia (“intolerância anti-homossexual”), que eu fui vítima quando cheguei na Bahia, em 1979. Estava com meu companheiro no Farol da Barra, assistindo o pôr-do-sol quando um machista se aproximou e deu um tapa na minha cara, simplesmente porque desconfiou que nós éramos homossexuais. Esse ato de violência mostrou-me que era fundamental a mobilização dos homossexuais para defender seus direitos de seres humanos. Daí, surgiu a ideia da fundação do GGB. Então, desde 1980, com o apoio de uma equipe de coordenadores do Grupo Gay da Bahia, começamos a coletar informações, sobretudo, a respeito de assassinatos de homossexuais.

 

O senhor tem esperança que a PLC 122 passe algum dia pela Câmara?

O PLC 122 simplesmente pretende legalizar o óbvio: que discriminar um homossexual é tão grave e deve ter o mesmo tratamento legal que o crime de racismo. Não há lógica que justifique prisão inafiançável a quem chama um negro de macaco e não acontecer nada a quem chama um homossexual de viado ou a uma lésbica de sapatão. A resistência dos políticos, sobretudo os evangélicos e católicos fundamentalistas, em aprovar a equiparação da homofobia ao crime do racismo se baseia no preconceito, na desinformação: chamaram tal lei de “mordaça gay”, pois dizem que não mais poderão pregar nos púlpitos ou nos programas cristãos de TV, que o “homossexualismo é intrinsecamente mal”, como está no Catecismo Católico, ou que “os gays são dominados por Exu”, como dizem os crentes homofóbicos. Esquecem-se esses religiosos que estamos num Estado laico, que as religiões têm de se submeter à lei maior, a Constituição, respeitando a integralidade dos Direitos Humanos de todos, inclusive dos homossexuais. Portanto, os religiosos não podem pregar ódio, guerra religiosa, desrespeito às leis civis, isso sim é crime, e seu enquadramento como crime não é censura nem mordaça, mas garantia de que todos os brasileiros devem ser respeitados como seres humanos e cidadãos plenos. Direitos iguais, nem menos, nem mais!

Um vídeo do ativista Luiz Mott

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.