Entrevista publicada em 16/07/2014 por Eder Fonseca em Negócios
 
 

‘”Empreender no Brasil é um desafio”
Claudio Sassaki – Cofundador da plataforma de ensino Geekie

Claudio Sassaki

Formado em Arquitetura e Urbanismo pela USP, Claudio Sassaki trabalhou por dois anos com consultoria na área e depois foi para Stanford, nos Estados Unidos. Após terminar o curso, passou cinco anos morando em Nova York e trabalhando em instituições financeiras. Voltou para o Brasil em 2007, já como vice-presidente do banco de investimentos Credit Suisse, depois assumiu o mesmo cargo no Goldman Sachs. Também foi diretor financeiro da empresa Petra Energia. Claudio, decidiu em 2011, largar tudo e começar um negócio próprio totalmente do zero, fundando com Eduardo Bontempo a Geekie, empresa que oferece uma plataforma baseada no conceito de aprendizado adaptativo. Através de testes de múltipla escolha e de forma personalizada, o software consegue apontar quais conteúdos um aluno não aprendeu corretamente e sugerir os tópicos que precisam ser mais bem trabalhados. “O nosso desafio é mostrar a todos – alunos, professores e gestores, que as nossas soluções são complementares ao trabalho feito pela educação tradicional. O professor é o nosso herói e o principal protagonista no processo de aprendizado. Nosso dever é ajudá-lo a tornar realidade todo o impacto que ele pode ter na vida dos alunos. Assim, com acesso as informações disponíveis em nossos relatórios, eles podem traçar atividades para melhorar a experiência de aprendizado do aluno”, afirma o empreendedor. 

 

Claudio, antes de mais nada, nos conte um pouco da sua trajetória profissional antes de fundar a Geekie.

Sou formado em Arquitetura e Urbanismo na USP e posteriormente fiz um MBA e um mestrado em educação em Stanford. Tive quase 10 anos de experiência no mercado financeiro, tendo sido VP no Credit Suisse e na Goldman Sachs e CFO da Petra Energia.

 

Em que momento você decidiu que poderia fundar uma startup?

Desde a faculdade eu já me envolvia com projetos de educação e tinha vontade de um dia realmente me dedicar a isso. Em 2011, senti que era minha última chance de tornar esse sonho antigo realidade. Se eu não largasse tudo para tocar a Geekie naquele momento, não o faria mais. Além disso, estava muito confiante em relação ao conceito de aprendizado adaptativo e completamente apaixonado pelas possibilidades na área. Também estava cercado por pessoas com valores alinhados aos meus e dispostas a embarcar nesse desafio.

 

Durante o amadurecimento da ideia, você teve receio de alguma coisa ou estava certo que a Geekie daria certo?

Sempre tivemos convicção de que a Geekie daria certo. Só não sabíamos exatamente como isso aconteceria por isso trabalhamos como nunca e nos esforçamos muito para aprender rápido.

 

Nos explique como é o conceito de aprendizagem adaptativa de sua empresa.

Sabemos que cada pessoa aprende de um jeito diferente, mas o que percebemos é que o modelo de ensino atual continua ensinando pessoas diferentes da mesma maneira.

O que conseguimos fazer por meio da soluções da Geekie, é personalizar o aprendizado em larga escala. Conforme os alunos estudam em nossa plataforma nossos algoritmos aprendem sobre eles e passam a recomendar para cada aluno o conteúdo que for mais importante para ele, na ordem que atende suas necessidades e na melhor forma para ajudá-lo a atingir seus objetivos.

Os benefícios da aplicação do aprendizado adaptativo alcançam todos os envolvidos no processo de educação, sejam eles alunos, professores ou gestores escolares.

Na perspectiva individual, a vantagem da personalização para os alunos é a possibilidade de se mapear suas principais deficiências de aprendizagem e desenvolver um plano de estudos focado em supri-las, no ritmo e no formato de conteúdo que faz mais sentido para cada um. A informação gera autonomia de estudo, auxiliando o aluno na identificação clara dos pontos em que precisa se aperfeiçoar para atingir suas metas.

As ferramentas de mapeamento do esforço de um aluno, individualmente ou como grupo, funcionam como fortes aliadas no processo de construção de uma sala de aula adaptativa. Com as análises de desempenho em mãos, os professores podem criar diferentes estratégias de ensino de acordo com o estágio de cada aluno ou grupo de alunos e tornam-se mediadores de diferentes situações de aprendizado, mais personalizadas e eficientes.

 

Você disse que os produtos devem ser do jeito que o mercado quer, e não do jeito que os empreendedores acham que devem ser. O seu produto hoje é quase igual aquele que você achava que deveria ser?

Conforme o empreendedor começa a trabalhar e desenvolver seu produto, inicia também um processo ainda mais intenso de conhecimento do mercado e do seu consumidor. Com isso ele percebe que nem sempre o que ele tinha imaginado a princípio é o que o mercado realmente precisa. Uma das principais características necessárias para o empreendedor neste sentido é justamente aprender rápido. É um ciclo constante que envolve aprender, desenvolver, testar, aprender… E assim por diante.

Na Geekie desde o início tivemos esta mentalidade e humildade. Levávamos um produto para o mercado também com o objetivo de entender na prática o que agregava mais valor para o consumidor e o que poderia ser diferente. O produto de hoje é muito diferente do inicial e com certeza muito diferente do que teremos daqui a alguns anos.

 

Recentemente você afirmou que não é tão fácil mostrar o valor de um produto como o da sua empresa para as escolas brasileiras. Por que isso ocorre?

O nosso desafio é mostrar a todos – alunos, professores e gestores, que as nossas soluções são complementares ao trabalho feito pela educação tradicional. O professor é o nosso herói e o principal protagonista no processo de aprendizado. Nosso dever é ajudá-lo a tornar realidade todo o impacto que ele pode ter na vida dos alunos. Assim, com acesso as informações disponíveis em nossos relatórios, eles podem traçar atividades para melhorar a experiência de aprendizado do aluno.

Às vezes, quem não nos conhece inicialmente nos confunde com provedores de LMS (Learning Management System). Plataformas adaptativas vão muito além de somente organizar informações educacionais, elas são na realidade uma forma de personalizar o aprendizado e a organização das informações é apenas consequência deste processo.
Mara Mourão

Inovação: Claudio Sassaki e a cineasta Mara Mourão no TEDx (Foto: Rafael Art)

 

Saindo um pouco da Geekie, como vê a educação brasileira como um todo?

O que vemos hoje é uma escola que tenta ensinar todos da mesma forma, mesmo sabendo que cada um é diferente e, portanto, também aprende de maneira diferente. É o aluno tendo que se adequar ao conteúdo e não ao contrário. Dessa forma, é muito difícil prover educação de qualidade para todos. Nesse processo massificado, muitos acabam ficando pra trás.

Mesmo a minoria que consegue acompanhar o conteúdo no ritmo dado acaba se frustrando, pois não é isso que a prepara para as demandas do mundo atual e as relações de trabalho que estão cada vez mais complexas. Ser um estudante bem-sucedido há alguns anos era ter uma boa colocação no vestibular, era como um rito de passagem para as melhores posições no mercado de trabalho. Mas o que vemos nos dias atuais e em um futuro próximo é que, se quisermos ter estudantes que sejam mais do que “alunos”, que sejam protagonistas do seu próprio aprendizado, precisamos alterar radicalmente a experiência deles nas escolas.

E a tecnologia vem somar neste processo. Por meio dela, por exemplo, é possível personalizar o aprendizado em larga escala. E por meio desta personalização, é possível trabalhar com o conceito de sala de aula invertida, que coloca o aluno como protagonista do seu aprendizado. São tendências ainda pouco utilizadas no Brasil, mas já trabalhadas em várias escolas e acredito que elas podem nos colocar em um patamar diferente e bem melhor em relação ao estágio que nos encontramos.

 

Como enxerga o mercado atualmente para o lançamento de startups em nosso país?

O mercado nunca esteve tão propício. O ecossistema (empreendedores, investidores, aceleradoras, acesso a capital, tecnologia, mercado) evoluiu de forma geral, mas tenho a impressão que atualmente surgiu uma áurea de glamour em torno do tema startups e a mídia tende a reforçar esta percepção. Mas o que se vê de verdade é que a realidade das startups vai muito além do que é mostrado nas capas de revistas. Pra quem quer empreender é importante se preparar para trabalhar como nunca antes. É muita ralação. Mas o que compensa é a realização de trabalhar para concretizar seu sonho, qualquer que seja ele.

 

É complicado mesclar profissionais de áreas tão distintas como engenharia e pedagogia, e ao mesmo tempo, trazer os resultados que se espera para o seu negócio?

Sem dúvida é um desafio. Por um lado a multiplicidade de perfis, repertórios e históricos exigem que a empresa respeite e aprecie a diversidade, por outro lado as divergências que surgem desta mistura nos ajudam a construir uma solução mais completa, mais criativa e diferenciada.

Apesar da diversidade da nossa equipe, um ponto comum entre todos que trabalham na Geekie é o sentimento de gratidão em relação às oportunidades que tivemos.

Com esta gratidão vem a vontade de retribuição de oferecer educação de qualidade para todos e é isto que estamos construindo aqui.

 

Como você espera tornar a Geekie um empresa diferenciada, valorizada e ao mesmo tempo inovadora?

A primeira coisa que busco é me cercar de pessoas melhores do que eu. São as pessoas que constroem a Geekie e este é o nosso maior patrimônio e diferencial. Um desafio deste tamanho – melhorar a educação no país – requer pessoas à altura.

De fato temos uma equipe diferenciada… Por termos uma proposta de valor que envolve propósito conseguimos recrutar e reter talentos que poderiam estar em qualquer outro lugar, mas estão conosco.Temos vários casos de funcionários que deixaram empresas como Facebook, Google, entre outras grandes companhias pelo atrativo de poder construir algo inovador e com grande potencial de impacto social.

Aqui na Geekie quem entra sabe que tem que estar disposto a aprender rápido e ter humildade pra se reinventar, sair da zona de conforto. Esta é nossa maior cobrança e é isso que gera inovação e eficiência em nossos processos.

 

Para finalizar, você disse que o empreendedor deve ter resiliência emocional e física para aguentar os altos e baixos. Acredita que essa é a principal característica de um vencedor no mundo dos negócios?

São duas características fundamentais e necessárias. Startup é velocidade. Os erros, as frustrações e a dor são inevitáveis, já o sofrimento e as atitudes são opcionais. Além disso uma habilidade fundamental é aprender rápido. Aprender mais rápido que os outros, ter confiança na sua ideia e resiliência para não desistir aumentam muito suas chances de ter sucesso. Empreender no Brasil é um desafio e empreender em educação é um terreno ainda mais complexo e inexplorado.

Um vídeo do empreendedor Claudio Sassaki

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.