Entrevista publicada em 25/09/2017 por Eder Fonseca em Negócios
 
 

“Empresas precisam dedicar recursos à inovação”
David F. Neto – Sócio e CIO da SML Brasil

David F. Neto

David F. Neto iniciou sua carreira em 1996 quando, em paralelo com o início da sua formação técnica em processamento de dados, começou a ministrar cursos de computação e também realizar manutenção em computadores e redes. Em 1998, conseguiu um estágio na área de desenvolvimento. Nesta época, mantinha dois empregos, um voltado à suporte e treinamentos e outro voltado à desenvolvimento de software. Em 2001, ingressou na SML Brasil como desenvolvedor e evoluiu na carreira para área de gestão, onde em 2005 assumiu função de gerente de projetos e, posteriormente, CIO. “Imagine um carro autônomo, sem ocupante, com falha repentina nos freios, que não conseguirá parar antes da faixa de pedestres. Ele pode escolher um dos cenários possíveis: seguir em frente e matar dois homens, uma mulher, um criminoso e uma pessoa desabrigada ou desviar e assassinar um médico, uma mulher grávida e um executivo. Qual seria a decisão correta diante deste cenário? Um médico vale mais que um desabrigado? O carro deveria desviar para matar as pessoas que são “menos importantes?”. Trata-se, é claro, de hipótese capaz de gerar inúmeras discussões éticas, mas uso este exemplo para demonstrar como as decisões baseadas em análises de contextos, tomadas automaticamente, encontram em seu caminho desafios que vão muito além da tecnologia pura e simples”, afirma o executivo.

 

David, como se deu o começo de sua carreira?

Minha carreira se iniciou em 1996 quando, em paralelo com o início de minha formação técnica em processamento de dados, comecei a ministrar cursos de computação e também realizar manutenção em computadores e redes. Em paralelo, iniciei meus estudos na área de desenvolvimento de software. Em 1998, consegui um estágio na área de desenvolvimento. Nesta época, eu mantinha dois empregos, um voltado à suporte e treinamentos e outro voltado à desenvolvimento de software. Em 2001, ingressei na SML Brasil como desenvolvedor e logo após tive uma evolução na minha carreira para área de gestão, onde em 2005 assumi função de gerente de projetos e, posteriormente, CIO.

 

Você sempre fala sobre o tema transformação digital. Como tem visto a transformação digital em nosso planeta nos últimos 10 anos?

Em 2007, há 10 anos atrás, Steve Jobs apresentava ao mundo o primeiro iPhone. E, a partir disso, fomos testemunhas de verdadeiras revoluções em nossos estilos de vida e de trabalho: os smartphones, os tablets, a computação em nuvem, os drones, as redes sociais, os e-readers. Na ciência, o LHC (maior acelerador de partículas), as viagens de robôs a Marte, novos planetas possivelmente habitáveis e o reuso de foguetes para exploração espacial. E acompanhamos, cada dia mais perto de nós, automóveis elétricos, automóveis autônomos, inteligência artificial, realidade virtual e Internet das Coisas. Em comum, todas essas conquistas significaram, também, um crescimento exponencial no volume de dados gerados por nós. A ponto que nos últimos dois anos foram gerados mais dados do que em toda a história da raça humana. Porém, hoje, somente 0.5% desses dados são realmente usados e analisados. Uma das missões mais complexas que temos atualmente é a da prática da Gestão da Informação. O potencial de oportunidades e revoluções que podem vir daí são impensáveis. A redução dos custos de recursos computacionais, por outro lado, ajuda a indústria hoje a pensar menos “onde a informação está armazenada” e mais em “que vantagem posso tirar da análise e uso dessa informação”. A oportunidade de transformar o mundo com o uso de tecnologia está aberta a todos, desde pequenos grupos de pessoas que se propõem a empreender até as grandes corporações mundiais. Nós podemos entender este movimento como uma verdadeira revolução digital, onde todos podem ser protagonistas.

 

Como o Brasil está inserido nessa transformação digital?

A Brasil historicamente se apresentou como um país atrasado no uso de tecnologia quando comparado com os países considerados de primeiro mundo. No entanto, a cada ano que passa, esta distância é reduzida. Os desafios do Brasil são imensos, dado suas dimensões geográficas comparadas a de um continente. Mesmo assim, o que se vê na prática é a criação de mais e mais polos de desenvolvimento de tecnologia. Assim como está na história de gigantes da tecnologia Microsoft e Apple, as novas tecnologias permitem, de forma muito mais simples, que novas ideias para resolver problemas reais da sociedade sejam materializadas em soluções de tecnologia desenvolvida nas “garagens” da casa de qualquer um. Do ponto de vista da adoção, as barreiras também são muito menores que no passado. A mobilidade permitida pelos smartphones faz com que a adoção das soluções seja muito facilitada, um exemplo prático disso é a quantidade de usuários do Uber no país. Em fevereiro, o Brasil possuía 8,7 milhões de usuários ativos, sendo que o total no mundo era de 50 milhões.

 

Quais ferramentas são necessárias para o sucesso de uma viabilização dos negócios digitais?

A resposta mais correta à esta pergunta é: depende. Os negócios digitais possuem uma variedade que exige que sejam escolhidas ferramentas que atendam critérios específicos de cada um destes negócios. Alguns critérios são comuns, como por exemplo: estar disponível à todos, a qualquer hora, a partir de qualquer lugar. Portanto, infraestrutura que permita uma disponibilidade 24 horas por dia, 7 dias por semana, é essencial. Uma simples falha na experiência de uso pode fazer com que uma solução de negócios digitais perca sua credibilidade e, consequentemente, seus usuários. Outro ponto muito importante é ter uma sólida base de segurança da informação. Não são poucos os casos onde as informações pessoais de usuários de serviços digitais são vazadas e o dono do serviço digital tem sua credibilidade colocada em xeque, suas ações caem consideravelmente. Um outro ponto de vista é: qual é o risco da operação que está sendo realizada? Chamar um Uber e pagar pela corrida é uma operação financeira de risco consideravelmente baixo. Já abrir uma conta em um banco digital, tomar crédito e realizar diversas operações financeiras é uma operação com risco muito maior. Portanto, as ferramentas aplicadas neste tipo de negócio digital são diferentes. Para abrir uma conta em um banco digital será necessário capturar imagens de seus documentos pessoais, tais como RG, CPF e CNH, de ao menos um comprovante de residência, além de fornecer dados biométricos, como uma selfie, que será usada para validação biométrica, entre outros.

 

Como uma empresa consegue inovar em um cenário onde as tecnologias digitais emergentes mudam todos os dias?

As empresas precisam dedicar recursos à inovação. Apesar de muitas empresas possuírem o DNA da inovação em sua cultura, todas possuem a sua operação, o seu dia a dia para tocar. Se não houver uma estrutura que esteja mais dedicada à inovação, há forte chance dela ser deixada de lado para que as dores do dia a dia sejam resolvidas. A inovação tem como principal objetivo criar valor ao negócio e, por isso, deve ser estimulada e cuidada. Ela é boa para a empresa e para a sociedade, bem como para o país de onde ela veio. Uma das formas de conseguir recursos financeiros para inovação está na Lei 11.196/05, mais conhecida como Lei do Bem, que cria a concessão de incentivos fiscais às pessoas jurídicas que realizarem pesquisa e desenvolvimento de inovação tecnológica. Esta é uma das formas que o Governo brasileiro encontrou de incentivar a inovação no país. Independentemente destes incentivos e não havendo recursos suficientes para uma política formal de inovação, é possível ter iniciativas voltadas à inovação, basicamente com estímulos às equipes, com ideias sendo aceitas de todos. Importante frisar que além das ideias, é importante que as pessoas estejam comprometidas em executá-las, pois de boas ideias, o inferno está cheio. É importante criar um ambiente de confiança e aprendizado, que favorecerá a inovação. Estar atendo ao que acontece ao redor, no seu ambiente, observar as tendências. Além de tudo isso, é claro que a corporação precisa estabelecer metas claras sobre o que se espera com a inovação.

 

Gostaria que falasse um pouco de duas tecnologias que são a BPMS e a Cognição e o que vem mudando no mercado com a aplicação dessas duas tecnologias.

BPMS é a sigla de Business Process Management System, ou seja, Sistema para Gerenciamento de Processos de Negócios e é também conhecido por diversos outros nomes, tais como Workflow, iBPMS, Plataforma de Processos Digitais, entre outros. Um BPMS tipicamente permite a geração de sistemas de forma rápida e com pouca codificação, entregando módulos que permitam a modelagem de processos de forma gráfica, definição de formulários, regras de negócio e documentos necessários à execução do processos, bem como realizar a gestão completa dos processos executados. Pode ser utilizado para diferentes propósitos, como melhoria contínua de processos, automatização de processos diretamente pelas áreas de negócios, entregar velocidade no desenvolvimento de novos sistemas ou melhorar a experiência de clientes em processos digitais. As tecnologias voltadas à cognição tem o principal objetivo de aproximar o ser humano e a máquina. Cognição, por definição, é o processo de adquirir um conhecimento e as máquinas têm evoluído muito neste sentido. Elas têm aprendido a interpretar melhor todos os meios que nós, seres humanos, usamos para nos comunicar, por exemplo. Seja pela fala, pela imagem ou até mesmo por outros estímulos, como pressão arterial, temperatura, etc. Atualmente, BPMS e Cognição têm trabalhado em conjunto para, no final das contas, entregar uma melhor experiência de uso ao usuário final, aumentando assim a adesão ao uso da tecnologia. Como exemplo, já existem casos práticos de uso dos recursos de Cognição, integrados a BPMS, em call centers. O atendimento, feito por um atendente humano, é gravado e, caso não solucionado no primeiro contato, é tratado de forma automática por um Sistema de Cognição, que identifica o assunto que o cliente quer tratar, seu tom de voz (indicando se ele está calmo ou nervoso) e direciona, através do BPMS, para a área do call center com maiores chances de resolver o problema do cliente de forma direta, logo na próxima interação com o cliente. Isso significa que os serviços de Cognição tendem a reduzir a quantidade de trabalho repetitivo e sem tanta inteligência, para que os humanos tenham mais tempo para realizar atividades onde eles efetivamente seja diferenciais. Na prática, nós teremos que nos adaptar a uma nova forma de trabalho e a uma nova forma de entrega de valor.
CIO da SML Brasil

Visão Estratégica: O sócio e CIO da SML Brasil, David F. Neto (Divulgação/AP)

 

Quais serão as principais responsabilidades de nós humanos no mundo dos negócios, com a escalada cada vez maior da Inteligência Artificial e do poder gigantesco das máquinas?

Em muitos casos, a responsabilidade do ser humano será realizar escolhas baseadas nas opções analisadas e entregues pela tecnologia, pois as máquinas possuem capacidade de processamento infinitas vezes superior aos humanos. Por isso, será entregue a elas as informações base, ela realizará o diagnóstico e apresentará opções para escolha do ser humano. Um exemplo disso é a evolução dos diagnósticos feitos sobre doenças, com base nas imagens de exames realizados. As máquinas têm sido treinadas para entender o que representa uma determinada mancha em uma imagem. Sendo alimentada com milhares (ou milhões) de imagens que representam um mesmo diagnóstico, ela começa a entender o padrão existente entre todas estas imagens e começa a sugerir ao médico os diagnósticos possíveis para a situação, com percentual de chance de ser cada um dos diagnósticos. Isso é muito mais poderoso do que um médico, ou uma bancada de médicos, analisar uma imagem para chegar a uma determinada conclusão. No entanto, este mesmo médico (ou bancada), após receber as opções de diagnósticos apontados pela máquina, poderão discutir e direcionar o tratamento. Fica claro que teremos respostas mais rápidas e este tempo economizado poderá salvar vidas. Do ponto de vista financeiro, poderá representar uma vantagem competitiva que faça empresas surgirem “do nada” e passarem à frente de outras empresas, em uma velocidade que não será possível alcançá-las.

 

Como a sua empresa vem trabalhando em todo esse contexto?

A SML Brasil sempre foi uma empresa de vanguarda no que tange gestão de processos e documentos. Desta forma, investimos na criação de uma equipe apartada que trabalha especificamente com pesquisa e desenvolvimento (P&D). Também criamos o SML_Labs, que é um programa para desenvolvimento e execução de novas ideias, testes de hipóteses, simulação de novos cenários. As iniciativas que se mostram promissoras são muitas vezes incorporadas aos produtos já existentes ou até mesmo lançadas como novo produto. Nós também estamos atentos às movimentações que ocorrem fora do país. Representantes da empresa participam de eventos internacionais de tecnologia, seja eles mais focados na nossa área de atuação ou não. Entre março e abril deste ano, participamos de dois eventos internacionais, ambos ocorridos nos EUA. A AIIM, que é o maior evento do mundo voltado à gestão da informação e o BPMNext, mais importante evento voltado aos fabricantes de tecnologia para BPM. Os resultados têm se mostrado satisfatórios. Em 2016 fomos vencedores do prêmio WfMC, que avaliou dezenas de projetos de BPM desenvolvidos ao redor do mundo e escolheu um case nosso como vencedor.

 

Quais as responsabilidades de um CEO neste “novo mundo” que vem se mostrado cada dia mais voraz?

O CEO, mais do que nunca, tem um papel fundamental na estratégia e direcionamento da empresa. Ele deve estar antenado às tendências do mercado que o cerca e sempre preocupado com a aderência de seus produtos e serviços à esta nova realidade. Estar presente em eventos que propiciem um contato próximo com os entrantes e startups, pois é normalmente deste tipo de empresa que surgem as ideias mais disruptivas e com menos resistência das pessoas que já compõem uma empresa com visão mais tradicional. Caso o CEO ainda não tenha uma experiência com fusões e aquisições, é importante que ele esteja aberto a esta possibilidade, pois é uma das formas de fazer o seu negócio crescer digitalmente.

 

Qual a sua visão da mídia brasileira na difusão dos assuntos que estamos abordando?

Na minha visão, os assuntos abordados têm sido ainda muito pouco difundidos na mídia tradicional. São poucos os programas da TV, por exemplo, que tem enfoque no processo pelo qual estamos passando. No entanto, a mídia eletrônica, que têm mostrado um alcance maior a cada dia, têm se voltado a eventos e programação específica, focada no empreendedorismo digital, na criação de novas ideias e na execução das mesmas. Nunca ouvi falar em tantos eventos voltados para startups e empreendedores que estão na busca da realização de seus sonhos. Posso afirmar que a imensa maioria destes empreendedores têm trabalhado seus sonhos na direção do uso de tecnologia como forma para viabilizá-los.

 

No que as empresas de grande, médio e pequeno porte, devem ficar atentas nos próximos anos quando forem pensar em tecnologia digital?

Do ponto de vista de quem fornece soluções com base tecnológica, independentemente do porte da empresa, a atenção deve estar voltada a como ela pode fazer o que faz de forma diferente, como pode melhorar a experiência do usuário, pois é isso que ditará se ela permanecerá onde está, se vai reduzir ou aumentar a sua fatia do mercado. Hoje, qualquer pessoa tem na palma da sua mão sistemas disponíveis com uma excelente experiência de uso, na vida pessoal, muitas vezes gratuitamente. Quando elas vão escolher uma ferramenta para trabalhar em uma empresa, sua expectativa é de que, no mínimo, ela tenha uma experiência de uso igual a que ela tem na sua vida pessoal. Do ponto de vista de quem vai adotar uma tecnologia digital, deve-se estar atento à uso de tecnologias focadas a resolver problemas específicos, pois tem sido cada vez mais desafiador encontrar a solução para todos os problemas em uma única solução. É uma boa prática escolher ferramentas que se integrem facilmente à outras e que não exista período mínimo de contrato. É essencial que a empresa tenha liberdade para mudar de solução caso ela entenda que isso deve ser feito. Com o surgimento de novas tecnologias a cada dia e de forma mais rápida, esta é uma importante carta na manga para se manter competitivo

Um vídeo do executivo David F.Neto

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.