Entrevista publicada em 22/10/2014 por Eder Fonseca em Ativismo
 
 

“Gente hipócrita não merece meu respeito”
Nalini Narayan – Escritora, modelo, atriz, ativista anarquista e LGBT

Nalini Narayan

Tendo formação em Letras Greco-Latinas e Filosofia, além de ser atriz e modelo, a carioca Nalini Narayan está sendo reconhecida pelos seus livros. De ascendência hindu, é uma iniciada como Vaishnava (tradição do Hinduísmo, que se distingue de outras escolas por sua adoração a Vishnu, ou seus avatares associados (como Rama e Krishna), na categoria de original e supremo Deus). Conheceu várias cidades tais como Londres, Amsterdã, Mumbai entre outras. Ela partilha da concepção de literatura como arte da linguagem que causa “estranhamento”. No seu livro, o explosivo “Aventuras Sexuais de Nalini N. – Uma Odisséia em São Paulo’, ela traz o feminismo dentro de um contexto machista. Entre seus admiradores estão o filósofo Renato Nunes-Bittencourt, a apresentadora Bianca Jahara, o renomado e polêmico diretor de teatro Gerald Thomas e o músico Tico Santa Cruz, que lançará em breve, um livro em parceria com a escritora. “Vivemos um paradoxo cada vez mais evidente, existe um discurso a favor do sexo e do orgasmo, mas isso não acontece na prática. No mundo heterossexual, os homens ainda querem controlar por quem sentem desejo sexual, não querem correr o risco de premiar uma moça que não seja “de família”. As mulheres ainda se veem obrigadas a repetir modelos que não assustem e escolhem o parceiro pela posição social equivalente”, afirma a escritora.

 

Nalini, fale um pouco de você para quem ainda não lhe conhece.

Tenho múltiplas identidades.

Sou escritora com formação em letras greco-latinas e filosofia, autora de Aventuras Sexuais de Nalini N., colunista da revista Divas, atriz, feminista, ativista anarquista e LGBT.

Sou indo-brasileira, de religião Vaishnava, morei na Índia (onde tenho família). Meus pais tinham uma vasta biblioteca em casa composta por quase 17 mil volumes e me estimularam a ler desde criança. Aos dezesseis anos iniciei um curso com o grande romancista Esdras do Nascimento. Mais tarde fui aluna do brilhante escritor Sérgio Sant’Anna. Meus mestres me guiaram até o momento em que decidi caminhar sozinha.

Admiro escritores como Kafka [Franz Kafka, escritor tcheco 1883 - 1924], Joyce [James Joyce, romancista, contista e poeta irlandês, 1882 - 1941], Camus [Albert Camus, escritor, romancista, ensaísta, dramaturgo e filósofo francês nascido na Argélia, 1913 - 1960], Cortázar [Julio Cortázar, escritor argentino, 1914 - 1984], Borges [Jorge Luis Borges, escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino, 1899 - 1986], Nabokov [Vladimir Nabokov, escritor russo-americano, 1899 - 1977]. Filósofos como Nietzsche [Friedrich Nietzsche, filólogo, filósofo, crítico cultural, poeta e compositor alemão, 1884 - 1900], Foucault [Michel Foucault, filósofo, historiador das ideias, teórico social, filólogo e crítico literário francês, 1926 - 1984], Simone de Beauvoir [Simone de Beauvoir, escritora, filósofa existencialista e feminista francesa, 1908 - 1986], me influenciaram. Proudhon [Pierre-Joseph Proudhon, filósofo político e econômico francês, 1809 - 1865], Bakunin [Mikhail Bakunin, teórico político russo, 1814 - 1876], Marx [Karl Marx, economista, filósofo, historiador, teórico político e jornalista alemão, 1818 - 1883] também são pensadores que falaram ao meu coração. Aprendi a amar os poetas. Até poeta ruim entra na minha lista. Meu nome significa em sânscrito “Flor-de-lótus”, uma flor que nasce da lama, se alimenta do sofrimento das sombras, mas somente assim pode desabrochar em beleza e pureza de consciência espiritual. Eu sou Vênus, a deusa do amor!

 

Qual a sua reação quando é chamada de escritora pornográfica?

Acho perfeitamente adequado, pois apresentei um trabalho que pode ser classificado dessa maneira e não vejo de uma forma pejorativa. O erotismo prima pela elegância, uma característica que não busquei na linguagem, ao contrário, mergulhei no que chamo de palavra pura, sem rótulos e sem amarras sociais burguesas. Palavras pomposas estão fora do meu texto, no entanto faço uso do latim. A tentativa consistiu em criar uma sensação de liberdade e fluidez e não uma negação de intelectualidade. Anagramas (Parole D’Angela-Edgar Allan Poe), frases que podem ser lidas ao contrário, a retirada do pronome possessivo (por ser um livro anarquista, não existe ideia de posse), o duelo entre números e letras, tudo isso gera estranhamento assim como as cenas de sexo grupal. A representação do sexo explícito na arte vem sendo sistematicamente combatida. Particularmente, gosto da expressão pornográfica no cinema (ainda que super clicherizada), iluminação histriônica, closes ginecológicos. Existe muito medo em relação às transformações que a liberdade sexual pode trazer. Uma pessoa sexuada e que preza o orgasmo pode promover revoluções na própria vida e os governos não querem estimular as transgressões e a sociedade em geral teme tamanha liberdade. Portanto, até mesmo a nossa concepção do que seria uma arte de bom gosto é questionável. A classificação de pornógrafa passa a ser sinônimo de marginal, o que penso ser um mérito.

 

Sexo é bom, todo mundo (ou quase) faz, mas em muitos círculos ele é visto como algo opressor. Qual a sua visão sobre esse tema?

Vivemos um paradoxo cada vez mais evidente, existe um discurso a favor do sexo e do orgasmo, mas isso não acontece na prática. No mundo heterossexual, os homens ainda querem controlar por quem sentem desejo sexual, não querem correr o risco de premiar uma moça que não seja “de família”. As mulheres ainda se veem obrigadas a repetir modelos que não assustem e escolhem o parceiro pela posição social equivalente. Isso é o que chamo de “prostituição da classe média”, ninguém faz escolhas por química. A classe média é mais prostituída que as garotas de programa! Sendo que as garotas de programa são mais honestas e merecem a minha admiração. Gente hipócrita não merece meu respeito. O medo da classe média acontece em decorrência de uma educação para o cativeiro, para que todos não passem de meros apertadores de parafusos, façam escolhas medíocres e vivam romances que parecem saídos de uma novelinha das seis de tão bregas e açucarados. Podemos adotar qualquer regime político, tanto no capitalismo, como no socialismo, o poder vai se perpetuar graças aos que não têm brios para infringir nenhuma regra. É o sistema transformando a todos em massa de manobra. O que é mais fácil de controlar: um bicho castrado ou um bicho selvagem? A sexualidade humana é assunto de uma complexidade e riqueza quase inabarcáveis. Bonito é ver alguém se exercendo na sua totalidade existencial e sensual. Não coaduno com visões reducionistas, acho que podemos ser tudo que quisermos ser.

 

Por que o orgasmo feminino ainda é um tabu em pleno século XXI?

Porque essa questão implica uma visão diferente da interação sexual de homens e mulheres que deveriam buscar sintonia na cama e não simplesmente viver a parte social. O orgasmo feminino pela penetração ainda é um grande tabu, pois exige desempenho dos homens e entrega das mulheres. Acho que viver um orgasmo assim, não é uma obrigação, mas certamente faz diferença para melhor e deveria ser uma busca de adultos bem resolvidos.

 

Muita liberdade sexual é prejudicial em algum ponto?

De maneira alguma. Como poderia ser? A liberdade nos torna sempre mais bonitos em todos os sentidos. Os que precisam da culpa para se excitar não têm vigor e geralmente são recalcados. Graças a Deus, meu marido é gostosão e nossos amigos também! Levei uma vida hedonista que foi extremamente estimulante criativamente. Sempre tive curiosidade por ultrapassar limites. O segredo também me excita. Fazer segredo sobre uma história é diferente de ter culpa. Hoje, se fala muito em assumir, sair do armário etc. No caso das mulheres, elas têm medo de não serem “assumidas”. Acho uma bobagem, pois muitos romances não assumidos, casos secretos, são os mais intensos e duradouros. Comecei minha vida sexual achando que era gay e depois virei a mais heterossexual de todas ao ponto de mergulhar em diferentes situações sexuais e cultivar múltiplos relacionamentos. Você pode achar estranho, mas com toda essa exposição, eu consigo preservar a minha intimidade.

 

Com o seu livro de memórias eróticas ‘Aventuras Sexuais de Nalini N. – Uma Odisséia em São Paulo’ você queria trazer o feminismo dentro de um contexto machista. Além disso, qual outra provocação acredita ter conseguido com a sua publicação, já que deve ter um “feedback” sobre isso junto aos seus leitores?

O meu livro conquistou um lugar de destaque nas livrarias, uma vitória para um primeiro trabalho. É um romance de autoficção com nu artístico. Além da proposta libertária e estilização da linguagem popular na literatura, apresento uma obra que tem por princípio a quebra de tabus. O título é uma homenagem ao livro da Catherine Millet [curadora, crítica de arte e escritora francesa, 1948 - ], “A vida sexual de Catherine M.”, um relato confessional no qual a autora descreve as inúmeras orgias que participou. Achei a nossa semelhança interessante e fiz essa referência ao livro dela. Por ser também uma mulher casada a publicar minhas aventuras amorosas com pessoas que ninguém imaginava que eu conhecesse e ter vivido experiências sensoriais diversas, desde orgias com famosos até o contato com atrizes pornográficas. Não se trata simplesmente de um livro de memórias, ele tem traços de romance de formação, uma jovem escritora carioca parte em viagem e vive situações de aprendizado como em “O apanhador no campo de centeio” do Salinger [J. D. Salinger, escritor norte-americano, 1919 - 2010]. Apesar de imprimir uma certa poesia e magia ao livro, choquei algumas pessoas, perdi muitos amigos, mas a maioria dos leitores se interessa pelo tema. Quem teria coragem de declarar que acha uma delícia transar com homens diferentes numa mesma noite? O feminismo, a arte e um excelente casamento (aberto) me possibilitaram viver dessa maneira charmosa.

Tico Santa Cruz

Ousadia: Nalini Narayan com o músico Tico Santa Cruz (Foto: Arquivo Pessoal)

 

No livro, você também fala sobre as gangues neonazistas em São Paulo, da Cracolândia, da violência contra a mulher e das injustiças sociais. Nesse pontos específicos, qual foi a sua constatação mais chocante?

É preciso ficarmos atentos para o perigo do crescimento do neonazismo no mundo. Em São Paulo existe muito preconceito contra o nordestino que é um alvo dessas gangues. Evidentemente, quando estudei a questão do vício em crack para escrever o episódio passado na Cracolândia, fiquei profundamente comovida, pois me parece um problema insolúvel. Não acredito em salvadores da pátria, acho uma quimera, o mercado se aproveita da dor das pessoas para que elas consumam mais e mais. Mesclei todas essas questões com a causa dos sem-teto, denunciei a miséria que toma conta das grandes metrópoles, o racismo. Mas a violência contra a mulher, sem dúvida, é a mais perniciosa, pois é camuflada dentro das próprias famílias: pais, tios, mães, irmãos e maridos são os algozes. A dominação psicológica e a naturalização por parte da sociedade, torna dificílima a libertação de mulheres estupradas e usadas pelos parentes.

 

Pela sua vivência, poderia nos dizer o motivo pelo qual, a maioria das pessoas ainda têm medo de ultrapassar alguns limites no campo sexual?

A questão é sempre a da escolha entre a segurança versus a liberdade. A maioria das pessoas não está disposta a abrir mão do apoio e aprovação da família precisam dessa resposta social positiva para suas ações mais íntimas, pois é muito complicado desenvolver patamares próprios de avaliação e conduta. Para isso é necessário crescer de fato e a maioria é “boi manso”, são guiados para obedecer, não desenvolvem pensamento crítico. Não vejo problema nenhum em relações sexuais consensuais entre pessoas adultas, quaisquer que sejam suas classes sociais, etnias, orientações sexuais ou graus de parentesco (incesto).

 

Existe uma frase do seu escritor preferido que é o irlandês James Joyce que é: “Vença-me. Seduza-me. Fique comigo. Ah, faça-me sofrer”. Nesse contexto, podemos afirmar que não existe amor verdadeiro sem uma ponta de sofrimento?

O sadomasoquismo é um reflexo dessa visão de amor que envolve sofrimento que vai desde a dominação psicológica do outro até a tortura física. É um tema que está na moda e abordo isso no meu trabalho. Certamente, o jogo de poder entre um casal traz uma tensão altamente erótica. Os limites são tênues quando falamos de conexões obcecadas e loucura. Em sentido figurado ou real, certas relações reproduzem a lógica e os princípios do sadomasoquismo: bondage and discipline. Não concordo que o amor implique sofrimento, penso que ele é feito de tesão, amizade e celebração. Agora, uma paixão levada ao extremo é quase uma busca espiritual como se o outro fosse um espelho que reflete uma imagem melhorada daquilo que somos. Todo grande amor começa com uma grande paixão.

 

Qual será o “tempero” principal se é que pode nos dizer, do seu próximo livro em parceria com o músico Tico Santa Cruz?

O meu encontro com Tico Santa Cruz foi muito marcante. O erotismo e o engajamento são temas que temos em comum. O Tico, além de ser um ícone do rock, comprometido e politizado, é também autor de livros eróticos. Eu tinha acabado de ler o livro dele: “Tesão” e nós começamos a delinear um projeto juntos, um livro. Além disso, já temos em vista um ensaio sensual nosso para uma publicação. Sinto-me honrada por participar de alguma maneira nas transformações da juventude brasileira, uma vez que ele me acolheu como artista relevante. Nem todos os artistas têm esse comprometimento com questões sociais e nem todos os escritores têm essa generosidade com os novos autores. Passei a admirá-lo ainda mais, pois vi que temos mais afinidades do que imaginava. E amamos tatuagens! Eu também tenho muitas pelo corpo, obviamente, não tantas quanto ele.

 

Você é uma mulher bonita, interessante e que fala abertamente sobre sexo sem tabus. Em algum momento, isso a prejudicou ou assustou alguém que não estava preparado com a sua forma de ver e viver a vida?

De maneira nenhuma, isso atraiu muitos homens e mulheres interessantes. Existe toda uma fantasia de que quem é ligado ao corpo, não tenha profundidade de alma. Uma visão distorcida e obscurantista do que significa liberdade comportamental. Lógico que passei por preconceitos dentro da família, entre amigos, perseguições nas redes sociais (uma imagem minha, dentre tantas outras foi “denunciada” como pornografia, a minha caracterização como Vênus de Botticelli quase me fez perder minha página pessoal), fui subestimada por alguns colegas escritores, mas nada me abalou, tenho a autoestima de uma heroína de filme! Gosto desse atrito, pois foi a partir das dificuldades que conquistei espaços nas livrarias do Brasil, nas mídias e pude contar com o apoio de outros tantos intelectuais de peso, leitores e novos amigos. Sinto que me transformo cada vez mais na pessoa que sempre quis ser: Nalini Narayan.

Um vídeo da escritora Nalini Narayan

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.