Entrevista publicada em 24/08/2018 por Eder Fonseca em Pensamento
 
 

“Houveram muitas inovações na parte hormonal”
Patricia Olivotti – Ginecologista e obstetra

Patricia Olivotti

Patricia de Cássia Olivotti é médica com residência e especialização em Ginecologia e Obstetrícia, desde 1999. Atualmente seu foco está na inserção de implantes hormonais bioidênticos que funcionam como anticoncepcional tratando e previnindo os ovários micropolicísticos, a puberdade precoce a endometriose e os miomas. Os implantes podem ser usados para evitar as cólicas menstruais, as enxaquecas da TPM, e também as mulheres que se encontram na peri-menopausa ou menopausa. Os implantes podem ajudar ainda na anemia, na perda óssea, como osteoporose, e na baixa da libido, e, além disso pode-se fazer a reposição hormonal de Estradiol, Testosterona e Progesterona. Disto resulta no aumento da massa magra, na redução de medidas, e melhora da retenção hídrica, principalmente associado a atividade física e boa alimentação. “As causas que levam ao desenvolvimento da SOP (Síndrome do Ovário Policístico) não são totalmente conhecidas. Uma das hipóteses é que tenha uma origem genética, pois irmãs ou filhas de uma mulher portadora do distúrbio tem 50% de chance de desenvolvê-la. Há estudos que indicam que sua origem possa estar associada a produção da insulina em excesso pelo organismo. (…) Os implantes hormonais podem melhorar muito a qualidade de vida dos homens que se encontram principalmente na andropausa”, afirma a ginecologista e obstetra.

 

Patricia, de onde veio seu interesse especificamente pela área da Ginecologia e Obstetrícia?

Na verdade, a ideia de ser ginecologista e obstetra sempre esteve presente em minha vida. Desde muito pequena quando meu pai me perguntava o que eu queria ser quando crescer eu já me via como uma médica e mais ainda como ginecologista, que pretensão para uma menina de 8 anos! Corri atrás desse sonho, pois era muito forte dentro de mim e quando entrei na faculdade e passei pelo estágio de Ginecologia fui realmente me apaixonando pelos cuidados que temos que ter com a saúde da mulher e que seria um desafio maravilhoso, pois poderia um dia sentir na própria pele muitos dos sintomas relatados pela paciente e com isso tratá-los da melhor forma possível. E a Obstetrícia que aprendizado! Acompanhar as pacientes durante nove meses podendo verificar o desenvolvimento de um bebê e no final poder entregar a mãe o filho tão esperado, é uma alegria inenarrável. Estes são apenas alguns dos motivos de minha escolha por esta profissão que amo tanto e que em minha opinião deve ser encarada como um sacerdócio.

 

Sua formação completa se deu em 1999. Quais os principais avanços dessa área que tiveram um grande impacto na vida de homens e mulheres de lá para cá?

Houveram muitas inovações, principalmente na parte hormonal. Surgiu uma gama enorme de pílulas com várias combinações hormonais, várias formas de administração como os adesivos, o anel vaginal, o DIU hormonal e claro os implantes hormonais com a função tanto de contracepção como de terapia hormonal. Esses implantes trouxeram uma inovação tanto pela baixa concentração de dosagem hormonal, como na forma de administração, que é subcutânea. Desta forma caem direto na corrente sanguínea evitando a passagem hepática e gástrica, dando menos efeitos colaterais. Temos outras indicações ainda destes implantes hormonais além da contracepção e terapia hormonal, que são diminuição ou suspensão da menstruação, com isto, proporcionando evitar as cólicas menstruais, e os sintomas típicos da TPM, tratamento e prevenção dos ovários micro policísticos, da endometriose e da miomatose. Para os homens a inovação seria a reposição hormonal no período da andropausa, com os hormônios bioidênticos de testosterona, proporcionando uma melhora da qualidade de vida dos homens nesta fase.

 

Como funciona a inserção de implantes hormonais bioidênticos?

Os implantes hormonais bioidênticos são colocados na região glútea, embaixo da pele (subcutâneo) e tem duração de 6 meses a 1 ano. A dosagem é individual, ou seja, de acordo com a necessidade de cada paciente. As liberações dos hormônios na corrente sanguínea ocorrem de maneira segura, contínua e gradual. Funcionam muito bem nos sintomas da perimenopausa e menopausa, melhorando os fogachos, a atrofia vaginal, a perda óssea, a indisposição, a baixa de libido e a memória. Podemos observar como efeito secundário o ganho de massa magra e de massa muscular, principalmente associado a atividade física e boa alimentação.

 

Quais são as causas principais da chamada Síndrome do Ovário Micro Policístico?

As causas que levam ao desenvolvimento da SOP (Síndrome do Ovário Policístico) não são totalmente conhecidas. Uma das hipóteses é que tenha uma origem genética, pois irmãs ou filhas de uma mulher portadora do distúrbio tem 50% de chance de desenvolvê-la. Há estudos que indicam que sua origem possa estar associada a produção da insulina em excesso pelo organismo. O aumento da quantidade dessa substância no sangue (hiperinsulinemia) provocaria o desequilíbrio hormonal.

 

Existe um número mais ou menos exato de mulheres que sofrem dessa Síndrome?

A Síndrome dos Ovários Micro Policísticos pode ocorrer em torno de 7 a 20% nas mulheres em idade fértil.

 

Voltando a inserção de implantes hormonais bioidênticos, existe alguma contraindicação para este tipo de implantação?

Como contraindicações ao uso dos hormônios bioidênticos podemos citar a presença de doenças tromboembólicas, o câncer de mama em tratamento, o câncer de próstata, porém as indicações sempre devem ser individualizadas e a limitação do uso da reposição hormonal deve ser particularizada.
A ginecologista e obstetra

Observações: A ginecologista e obstetra, Patricia Olivotti (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Falamos por enquanto dos benefícios para as mulheres. Quais são os benefícios para os homens?

Os implantes hormonais podem melhorar muito a qualidade de vida dos homens que se encontram principalmente na andropausa. Nesta fase a testosterona pode ter uma diminuição, levando a queda da libido, disfunção erétil, aumento da gordura corporal, diminuição da massa muscular e consequentemente da força física. Com a queda hormonal, pode ocorrer ainda o comprometimento da função cognitiva, ou seja, a pessoa passa a apresentar uma memória mais falha, um raciocínio mais lento. Com a reposição hormonal a maioria destas alterações amenizam consideravelmente.

 

Quem tem procurado mais esse tipo de tratamento, homens ou mulheres?

As mulheres, pois há uma gama maior de hormônios que elas podem se beneficiar em qualquer idade. Além do que o homem não tem o hábito de procurar o médico para fazer uma avaliação a respeito de reposição hormonal, ou por falta de informação, de conhecimento ou até mesmo por preconceito dos homens em falar sobre esse assunto, e aceitar em fazer esse tipo de tratamento.

 

Quais as diferenças da reposição hormonal com Testosterona, Estradiol e Progesterona?

A reposição com Testosterona pode ser feita tanto para homens como para as mulheres, desde de que este hormônio se apresente com baixos níveis no sangue e a pessoa esteja apresentando alguns destes sintomas como baixa de libido, perda de memória, indisposição e perda de massa muscular.

A reposição com o Estradiol deve ser feita para as mulheres com baixos níveis séricos deste hormônio, que caracteriza a mulher na perimenopausa e menopausa, apresentando ondas de calor (fogachos), atrofia vulvar, perda de massa óssea e indisposição. A reposição com progesterona promove a contracepção, o tratamento da endometriose, de miomas e também permite a melhora dos sintomas da tensão pré-menstrual, portanto tem sua indicação apenas para as mulheres.

 

E quais são as suas similaridades?

Temos uma similaridade entre a testosterona e o estradiol, eles são hormônios bioidênticos, pois possuem exatamente a mesma estrutura química e molecular encontrada nos hormônios naturalmente produzidos pelo corpo humano, evitando efeitos colaterais indesejáveis. Desta forma são capazes de trazer muitos benefícios para as pacientes. A progesterona é um hormônio exclusivamente feminino, e na forma de implantes temos a gestrinona, que apresenta algumas similaridades em relação à testosterona, por exemplo, os seus efeitos androgênicos. Outra progesterona existente e o nestorone que inibe a menstruação e a ovulação por 6 meses, bloqueia tanto o pico estrogênico quanto o androgênico, não apresentando similaridades em relação a testosterona ou ao estradiol

 

Quais são os maiores mitos e as maiores verdades sobre a reposição hormonal de homens e mulheres?

Verdade e mitos na reposição hormonal para homens:

A redução da testosterona pode causar alterações na função sexual. Isso pode incluir disfunção erétil e diminuição do desejo sexual. Os testículos também podem se tornar menores. A reposição hormonal pode corrigir esses problemas. (Verdade)

A terapia de reposição hormonal ajuda a combater distúrbios do sono como insônia ou sonolência crescente provocados pela baixa de testosterona. (Verdade)

A reposição de testosterona feita para normalizar a quantidade deste hormônio reduz a gordura corporal e aumenta a massa muscular, a força física, a densidade óssea e a energia, sem prejuízo a saúde (se prescrita e orientada por um médico). (Verdade)

A reposição hormonal masculina eleva a motivação e a autoconfiança, elevando a sensação de alegria e a disposição dos homens. (Verdade)

Os resultados da musculação são diretamente relacionados à queda na produção de testosterona. Durante a prática de exercícios por períodos muito prolongados, o corpo produz um hormônio opositor da testosterona, o cortisol, que faz com que a produção da testosterona seja reduzida. (Verdade)

Reposição de testosterona causa câncer de próstata. (Mito)

Diminuição de hormônio masculino causa infertilidade. Ao contrário do que acontece com as mulheres na menopausa, um declínio nos níveis de testosterona não significa infertilidade. (Mito)

Verdade e mitos na reposição hormonal para mulheres

Ingerir soja dispensa o uso de reposição. (Mito)

A soja contém isoflavona, uma substância que tem ação parecida com a do estrogênio no organismo, o que ajuda a aliviar os sintomas da menopausa, mas a quantidade no alimento é muito pequena para substituir a reposição. Como os efeitos são a longo prazo, o ideal é combinar uma alimentação rica em isoflavona desde cedo e, após a menopausa, não abrir mão do tratamento hormonal.

A reposição causa problemas cardíacos e osteoporose. (Mito)

A reposição, na verdade, ajuda a prevenir essas doenças. Por agir na parede das artérias, o estrogênio protege contra a concentração de gordura no local, o que diminui os níveis de colesterol e ajuda na prevenção de arteriosclerose e enfarte. Como o estrogênio também influencia na saúde dos ossos, a baixa no hormônio faz a mulher na menopausa perder massa óssea, o que facilita o aparecimento da osteoporose. A reposição fortalece a massa óssea, diminuindo as chances de desenvolvimento da doença.

A mulher deve fazer a reposição para o resto da vida. (Mito)

Apenas com a reposição hormonal bioidêntica isto se torna uma verdade, pois neste caso estes hormônios apresentam a mesma estrutura química e molecular dos hormônios produzidos pelo nosso corpo. Mesmo assim, a mulher deve continuar fazendo sua rotina anualmente com seu ginecologista, e avaliando suas necessidades hormonais, que podem variar com o passar do tempo.

A única forma de reposição é via oral. (Mito)

A mulher pode optar pela utilização de comprimidos ingeridos via oral todos os dias, adesivos (trocados duas vezes por semana), implantes subcutâneos com duração de seis meses a um ano ou cremes e géis aplicados diariamente na pele ou pela via vaginal. O ginecologista deve verificar qual a melhor indicação para cada caso, porém quando evitamos a via oral, e optamos pela via subcutânea, obtemos a vantagem de não se ter a passagem hepática e gástrica, o hormônio cai direto na corrente sanguínea amenizando possíveis efeitos colaterais.

O tratamento engorda. (Mito)

Durante a menopausa, a mulher começa a concentrar a gordura mais na região abdominal e região das mamas, o que passa uma impressão de mais ganho de peso, mas essa alteração geralmente não tem relação com o tratamento, principalmente quando a terapia hormonal indicada for com hormônios bioidênticos.

Reposição hormonal causa câncer de mama. (Mito)

Em 2002, um grande estudo, realizado nos Estados Unidos, sugeriu que mulheres que usavam reposição hormonal tinham mais chances de ter câncer de mama. Hoje, sabe-se que o aumento absoluto das chances é pequeno – passa de 30 para 38 casos a cada 10 mil mulheres –, e vale principalmente para mulheres com mais 60 anos e que utilizam a reposição sintética, principalmente via oral, há mais de cinco anos.

A reposição hormonal auxilia no tratamento da osteoporose. (Verdade)

A reposição estrogênica pode prevenir perda de massa óssea, diminuindo o risco de fraturas.

A reposição hormonal é benéfica em caso de doenças cardiovasculares. (Verdade)

A TH inibe a formação da placa de ateroma ao reduzir os níveis de colesterol total e da fração LDL, conhecido como o “colesterol ruim”.

Sintomas como ressecamento vaginal, dispareunia, ardor e infecções vaginais melhoram com a terapia de reposição hormonal. (Verdade)

Esses sintomas costumam ser amenizados a partir da terapia hormonal com estrogênio.

Um vídeo da ginecologista Patricia Olivotti

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.