Entrevista publicada em 07/03/2017 por Eder Fonseca em Música
 
 

“Me vejo num lugar absolutamente comum”
Breno Ruiz – Pianista e compositor

Breno Ruiz

O compositor e pianista Breno Ruiz nasceu em 1983 na cidade de Sorocaba, mudou-se imediatamente para a vizinha Itapetininga, onde conheceu seu ofício e vocação. Aos quatro anos já tocava piano, aos dez animava os bailes do clube local ao lado de um regional de choro e, a partir dos 15, já compunha com parceiros como Rafael e Rita Alterio, Cristina Saraiva, Sergio Natureza e Paulo Cesar Pinheiro – este, seu parceiro mais constante. Tem sido, desde então, gravado por parceiros e intérpretes como Tetê Espíndola, Renato Braz, Maogani, Celso Viáfora, Cristina Saraiva, Rafael Alterio, MPB4, entre outros. Como pianista e arranjador, gravou com o grupo Garimpo e produziu os arranjos para o “CD Terra Brasileira”, da compositora Cristina Saraiva. Lançou em maio de 2016 no Auditório do Ibirapuera o “CD Mar Aberto” com Renato Braz, Roberto Leão e Mário Gil, tendo a participação especial de Dori Caymmi que também atuou na produção musical do álbum. Atualmente, está lançando o disco “Cantilenas Brasileiras”, resultado da parceria com Paulo Cesar Pinheiro. “Pra mim, a função do artista é, necessariamente, fazer arte. Acho, no entanto, que a arte pode ter um papel social. A diferença está naquilo que significa esse dever ou esse poder (no sentido de possibilidade, não de poderio). Num mundo positivista, pragmático, utilitarista, tudo “deve” ter uma função”, afirma o músico.

 

Breno, você nasceu em Sorocaba, mas conheceu o seu ofício e vocação na cidade de Itapetininga. Como se deu esse encontro?

Digo que conheci meu ofício e vocação em Itapetininga, porque apenas meu nascimento se deu em Sorocaba. Vivi praticamente minha vida toda em Itapetininga e só fui sair de lá há uns seis anos. Sinceramente, não sei precisar o momento em que o encontro com a música aconteceu, pois ela sempre esteve presente, mesmo na minha lembrança mais remota. Em casa sempre houve muita música e, apesar dos poucos recursos para adquirir um instrumento e estudar, houve também um estímulo grande, por parte dos meus pais e parentes mais chegados, para eu tocar um instrumento, tão logo eles perceberam que eu era uma criança com alguma musicalidade. O que não esperavam, certamente, é que isso fosse se tornar um ofício. E, pra ser franco, nem eu! [Risos]

 

Aos quatro anos você já tocava piano, aos dez animava os bailes do clube local. O que ainda guarda de especial desses momentos?

Esse negócio dos quatro anos… Quem lê isso, ou escuta, deve pensar que eu era quase um Mozart [Risos.] Não! Muito pelo contrário… O que acontece é que aos quatro anos eu estava começando a exercitar minha musicalidade. Melhor ainda, as pessoas, os adultos, estavam começando a notar que havia alguma musicalidade em mim. Em casa havia um estímulo, como disse anteriormente. Meus pais, desde muito cedo, começaram comprando instrumentos de brinquedo e, ao notarem que eu reproduzia melodias que eu ouvia na TV, ou em discos, com alguma facilidade, foram substituindo os brinquedos por instrumentos de verdade, na medida em que esses instrumentos eram acessíveis ao bolso deles e atendiam a demanda do meu progresso. Aos quatro anos, me compraram uma escaleta e uma gaita de boca, e eu me virava bem com a escaleta. Nesse período, o enteado de uma tia muito próxima, resolveu mudar de endereço e, para isso, resolveu deixar o piano antigo que tinha em sua casa, na casa de seu pai, meu tio. Como a casa dos meus tios era perto da minha e nos frequentávamos cotidianamente, não deu outra… Ia pra lá todos os dias e passava horas distraído com aquilo. O som que saia daquele instrumento era algo tão novo e surpreendente pra mim, que parecia algo concreto, ou melhor, sólido. Sabe aquela coisa do tipo “dava pra cortar com a faca”? A sensação física era extraordinária. Era o som vibrando em mim. Não dá pra explicar. Eu, ali, pequeno, diante daquela coisa gigante, suntuosa, e que cantava tão bonito, mas tão bonito! Essa é uma lembrança muito especial. A lembrança dos bailes, no entanto, apesar de também especial, não é tão agradável como a outra. Apesar de, já naquela época, ser um desejo tocar em público, e gostar de tocar, sempre fui muito tímido e não gostava muito daquela exposição. Ainda assim, são momentos que me trouxeram uma bagagem de vida que guardo com carinho, num lugar especial dentro de mim.

 

Sempre quando entrevistamos músicos e artistas de um modo geral, fazemos uma pergunta que também será feita para você. A arte deve ter um papel social?

Pra mim, a função do artista é, necessariamente, fazer arte. Acho, no entanto, que a arte pode ter um papel social. A diferença está naquilo que significa esse dever ou esse poder (no sentido de possibilidade, não de poderio). Num mundo positivista, pragmático, utilitarista, tudo “deve” ter uma função; em tempos atuais, além de dever ter uma função, esse “dever” ainda “deve” ser politicamente correto ou engajado. Particularmente, minha impressão sobre a arte é que o compromisso dela é com a expressão humana, a expressão dos afetos, das emoções, da subjetividade de um modo geral. A arte, pra mim, está comprometida com a transcendência. Não digo isso em termos religiosos, embora, de alguma forma, também caiba esse aspecto, mas a transcendência de níveis de consciência diferenciados, de novas visões de mundo, por exemplo. Quando me refiro a transcendência, quero dizer que através da arte é possível comunicar ao mundo muitas coisas que não são possíveis comunicar por outros modos, como através da comunicação verbal ou das funções da linguagem (e aqui é papo pra linguista, portanto, paro por aqui). Uma poesia, por exemplo, pode comunicar afetos, emoções, causar sinestesia, lançar à luz memórias de toda sorte, de um modo deliberado; e o que está comunicando tudo isso, não é necessariamente o significado das palavras, mas a poesia em sua totalidade. Nesse caso, a palavra pode contribuir para criar imagens afetivas, mentais, emocionais, através de sua sonoridade; contribui conformando o ritmo dos versos; mas há também a forma, o rigor formal ou da ausência do rigor, as rimas geradas pela associação de sonoridades e, é claro, o próprio significado das palavras. Mas tudo o que ela comunica em sua totalidade, ao final da apreciação, também transcende o simples significado das palavras. Naturalmente, isso pode contemplar as questões sociais. A visão de mundo do artista pode oferecer a ele inúmeros questionamentos que sua arte pode expressar, desde que aquilo seja a expressão da própria subjetividade dele, seus valores, suas emoções, seus afetos, enfim… Agora, esse papel social é uma obrigação de outras áreas que se comuniquem com o aspecto prático do mundo. O educador, o cientista social (talvez nem ele), o assistente social, o político, o filantropo, estes, sim, têm ofícios cujo papel social, mais do que uma obrigação, de natureza moral, traz em sua própria natureza esse pressuposto ético.

 

Você já foi gravado por intérpretes como Tetê Espíndola, MPB4, Paulo Cesar Pinheiro entre outros. Qual palavra descreve o momento que você ouve suas canções interpretadas por esses músicos?

Bom, o Paulo Cesar Pinheiro não me gravou. Há uma faixa num disco ainda não lançado em que ele canta comigo um trecho de uma canção nossa. Mas toda gravação é uma surpresa, uma emoção, um espanto, muitas vezes. No exemplo da Tetê e do MPB4, foram emoções à parte: Tetê me gravou num álbum chamado Asas do Etéreo, lançado junto com a comemoração do antológico Pássaros na Garganta; o MPB4 me gravou num álbum de inéditas, em comemoração aos 50 anos de carreira – O Sonho, a Vida e a Roda Viva – e a minha canção é a que abre o disco. Ouvir essas pessoas é ouvir a voz da História e só isso já seria o suficiente pra emoção chegar… Mas, no geral, a leitura de outros artistas têm me trazido gratas emoções. Meus parceiros Rafael Alterio, Celso Viáfora, Renato Braz, entre outros, já me ofereceram momentos lindos com suas gravações.

 

Pra você, compor é mais um ato de transpiração ou inspiração?

Sou muito, muito, intuitivo e não vou pela via cerebral, racional, para encontrar o mote da minha criação. Portanto, pra mim, é uma questão de estar primeiro predisposto a criar – coisa que, de certa forma, significa estar inspirado. Pesa mais, no caso de encontrar o primeiro caminho, a inspiração. Mas isso não quer dizer, de modo algum, que não haja um labor, que não haja a lapidação, que não haja a busca por mecanismo que me auxilie nas escolhas que devo fazer ao construir uma canção. Inspiração e transpiração tem pesos importantes, cada qual no seu momento. Ora prevalece uma, ora prevalece outra, tudo de acordo com a necessidade que a dinâmica da criação impõe. Penso que o princípio da parcimônia, do bom senso, do caminho do meio, é sempre bem-vindo, e me exercito constantemente no sentido de fazer com meus atos, no mundo e, por conseguinte no meu trabalho, sejam consonantes e coerentes com meu pensamento.

 

Em uma matéria de um grande jornal carioca, você é tido como referência para músicos do Rio e de SP. Já teve essa percepção ou você considera esse olhar mais de “fora para dentro?”.

Nunca tive essa percepção. Primeiro porque sou sujeito nessa questão, e não o objeto a ser analisado; segundo, porque eu nunca havia me exposto. Meu trabalho com Paulo Cesar Pinheiro, por exemplo, já tem uns doze ou treze anos, mas eu não tinha um disco meu. Sempre brinquei que eu era um compositor que não existia, justamente por não ter um álbum gravado – coisa que marca o suposto início da carreira de alguém. O trabalho gravado, naturalmente, cria essa exposição e, a partir dela, você vai descobrindo coisas como essa. Muita gente acompanhou minha criação de perto ou de longe, ao longo destes anos todos, no Rio e aqui em São Paulo. Minhas músicas têm sido usadas há alguns anos por professores da Escola Portátil, lá no Rio. Aqui em São Paulo não foram poucas as rodas de músicos por onde elas passaram durante esse longo período… Depois do disco pronto, foi uma surpresa descobrir que muita gente que eu nem fazia ideia já tinha tido contato com a minha criação. Talvez daí essa coisa de ser uma referência. Minha música sempre teve a admiração dos meus pares, sempre foi acolhida com afeto pelas pessoas da música e de fora dela. Quando se fala em referência, a gente logo pensa na grandeza dos mestres que vieram antes de nós, mas a gente não tem ideia da importância que o seu trabalho pode assumir para outra pessoa. Não, nunca me vi como esse tipo de referência e nunca vou me ver, afinal, estou no olho do furacão, sou sujeito na questão e, como sujeito, não consigo me ver como objeto a ser analisado. [Risos] Qualquer outra coisa que eu fale implicará, certamente, num equívoco.
O compositor

Musicalidade: O compositor, arranjador e pianista Breno Ruiz (Foto: Aquivo/AP)

 

Considera a música um processo inacabável?

Não compreendi ao certo o sentido desse “inacabável” da sua pergunta. Acho que a criatividade é ilimitada, infinita, portanto não se extingue. Logo, a música seria inacabável, pois ela é uma manifestação da criatividade. Na particularidade do meu processo criativo, mesmo quando dou uma música por terminada, permaneço elaborando e reelaborando outras alternativas, melódicas, harmônicas, rítmicas. Isso me remete ao Cassiano Ricardo, poeta brilhante, autor do importante Martim Cererê. Durante a vida do poeta, houveram inúmeras edições desse seu poema e, em todas elas, Cassiano fez alterações, suprimiu versos, acrescentou outros, e por aí vai. A criatividade é que é inacabável. Ao menos é o que eu penso.

 

Em suas palavras, Guinga é o maior compositor brasileiro surgido desde Djavan. No que o trabalho do gênio do violão lhe influenciou?

Essa afirmação foi do Aldir Blanc, não eu. E essa paráfrase foi do jornalista da matéria que você citou anteriormente. Minha música bebe nas mesmas fontes da música do Guinga, por isso há coisas em comum, mas há coisas muito diferentes entre elas também. A espinha dorsal de ambas é a mesma, eu acho, tem o mesmo gen, e eu amo a música do Guinga. No que o trabalho dele me influenciou? Não sei, mas sei que a alma dele conversa profundamente com a minha, e é isso o que importa.

 

Falando em genialidade, alguns já lhe chamam de gênio. Isso se torna pesado pra você ou encara numa boa?

Sou um iconoclasta. Não tenho ídolos. Tenho referências, preferências. Tenho afetos. Artistas que me emocionam ou não, gente que me emociona ou não. E a minha autoimagem reflete o mesmo princípio. Me vejo num lugar absolutamente comum. Há muitos artistas dotados de uma incrível capacidade criativa, considerados gênios, e que não me arrepiam um pelo do braço; outros, que com dois acordes e um violão mal tocado me levam às lágrimas. A opinião das pessoas sobre meu trabalho, ainda que pese, positiva ou negativamente, assim como uma crítica, sempre será uma opinião. Penso que o mais importante sou eu saber quem eu sou, e não me deixar levar pela opinião alheia, qualquer que seja ela… Pois, como já disse João Rosa, “pão ou pães é questão de opiniães”, e nada mais.

 

Seu primeiro álbum “Cantilenas Brasileiras” depois de finalizado, foi aquilo que sempre imaginou em sua concepção?

O mundo da realidade é completamente diferente do mundo das ideias [Risos!] Mas estou satisfeito com o disco, feliz com ele. É o retrato sincero das coisas que gosto e que significam minha existência.

Um vídeo do pianista Breno Ruiz

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.