Entrevista publicada em 03/04/2013 por Eder Fonseca em Artes
 
 

“Minhas pinturas emergem de longas transformações”
Panmela Castro – Fundadora da rede feminista NAMI

Panmela Castro

Conhecida artisticamente como Anarkia Boladona, a grafiteira Panmela Castro é nascida e criada no subúrbio do Rio de Janeiro. Formou-se na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas sua arte tem influência da pichação, nicho underground habitualmente dominado por homens. Seu trabalho é pensado para provocar e polemizar através do processo artístico de convivência com a rua, e com as verdades instituídas por nossa sociedade patriarcal, em especial em relação ao corpo feminino, à sexualidade, à subjetividade, analisando as relações de poder. Em 2012 foi homenageada pela Diller Von Furstenberg Family Foundation com o DVF Awards da famosa estilista Diane Von Furstenberg junto de outras mulheres como Oprah Winfrey, além de ter entrado para lista da revista Newsweek como uma das 150 mulheres que estão “bombando” no mundo. “Para uma menina da Penha sem muita perspectiva para o futuro, conquistar o mundo através de minhas pinturas já foi muito! Mas sei que ainda há muito mais por vir. (…) Não me lembro de ter algum dia ligado a palavra “chocar” ao meu trabalho. Acho que faz parte do processo da arte deixar livre o observador para assimilar a obra. A arte deve fazer o que o autor propor e o público entender considerando suas experiências interiores. (…) Hoje apenas pinto muros autorizados e por isso estou me achando super careta”, afirma a grafiteira.

 

Panmela, um grande teórico do sucesso diz que a obsessão no que se faz, é o que leva ao êxito. Você é obsessiva pelo seu trabalho?

O dia de hoje (26/03) precede a data de defesa da minha dissertação do mestrado da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Nesta, cito do Dr. K. Anders Ericsson, um famoso pesquisador sueco em teoria e experiências sobre habilidades e talentos. Em uma publicação, Ericsson, afirma ter medido o tempo de dez mil horas de estudos necessários para alguém destacar-se em alguma área. Levando em consideração todo o tempo que passei desde a minha infância desenhando papéis, minha até então considerada “aptidão” estaria justificada diante desta teoria.

Um exemplo recorrente de Ericsson é Mozart: filho de pai professor de música que desde cedo dedicou sua vida a educá-lo. Mozart criança passava parte do tempo na frente do piano e sua primeira obra-prima foi composta apenas em 1777 quando o músico já tinha 15 anos de treino. Ericsson diz que a questão é aperfeiçoar seu ofício com treino duro, dolorido, no limite do executável, pois será o treino que te levará à perfeição. Estima-se que aos 6 anos, Mozart já tivesse estudado piano durante 3.500 horas. Quer dizer, ele não era talentoso, era assustadoramente dedicado. Minha mãe treinava-me para ser a melhor em todas as coisas que fazia, mas a única que realmente me dediquei o suficiente a ponto de me tornar boa, foi o desenho. Meus desenhos transformaram-se em graffiti nas paredes da cidade. A partir de então o graffiti tornou-se não só uma obsessão, mas também um estilo de vida. Meus, amigos, minha família, meu trabalho, tudo o que convivo em meu dia a dia roda entorno do graffiti.

 

Quando entrevistamos o artista plástico Guto Lacaz, ele nos disse uma coisa que você também já disse em outras oportunidades: você quer chocar. Você acredita que arte deve chocar?

Não me lembro de ter algum dia ligado a palavra “chocar” ao meu trabalho. Acho que faz parte do processo da arte deixar livre o observador para assimilar a obra. A arte deve fazer o que o autor propor e o público entender considerando suas experiências interiores. Se há algum tipo de choque na interpretação das minhas obras, este é criado pelo público e não por mim.

 

Você diz que com o grafite transmite angústias coletivas. E quando você sente uma angústia pessoal, coloca também no seu trabalho?

A minha obra é a priori autobiográfica. Fala de mim e de minhas experiências. Enquanto mulher, há similaridades de minhas vivencias com as de outras mulheres que encontro pela cidade, existe uma intercessão de histórias e é justo neste ponto que o coletivo se identifica.

 

A luta de igualdade de gênero, talvez seja o principal tema que norteia a sua obra. É muito complicado transmitir isso na sua arte, num país que ainda é extremamente machista e patriarcal?

É no caos que a energia e a vontade transformadora emergem. Dos choques, da sujeira, da tristeza, da revolta, das paixões humanas e tudo mais que se criam os sentimentos capazes de lutar pela mudança. Em um mundo igualitário, não teríamos consciência do problema, uma vez que este não existiria. E é por existir, e nos afrontar todos os dias, que cria-se a motivação para o câmbio.

 

Quando está produzindo, você pode mudar o rumo do seu trabalho por ter vivenciado algo que mexeu com você?

Minhas pinturas emergem de longas transformações, parte da avalanche de experiências internas que vivencio. E é isso que faz cada uma delas ser especial, por carregarem toda a carga simbólica de minhas vivencias representadas em formas e cores que contam uma história ora reais, ora construídas em meu interior.

 

Você faz um trabalho espetacular, mas na grande mídia sempre ouvimos falar muito de Banksy, dos Os Gêmeos e de outros. Não se sente um pouco chateada em não ter o seu trabalho mais comentado pela grande mídia nacional, já que é uma artista mundialmente conhecida?

É preciso entender que minha jornada na artes é diferente destes outros. Há dez anos atrás, como mulher, treinada toda a vida para construir uma família, eu estava casada cuidando da casa, da roupa e da comida, enquanto Os Gêmeos – já com mais de 20 anos de graffiti – começaram a emergir na cena internacional pintando livremente por todo o mundo. É normal que por esta diferença temporal e relativa as questões de gênero, hoje eles sejam nomes de referencia mundial enquanto eu ainda componho o meu papel enquanto artista emergente. Acho que para os 8 anos nos quais iniciei minha dedicação como a arte urbana, já realizei muitos sonhos e cresci muito em minha carreira. Estou satisfeita. Para uma menina da Penha sem muita perspectiva para o futuro, conquistar o mundo através de minhas pinturas já foi muito! Mas sei que ainda há muito mais por vir. Enquanto ativista, crio minha luta para que outras mulheres não percam tanto tempo quanto eu, tentando ser o que decidiram por elas e não o que elas realmente desejam ser. Eu ainda consegui agarrar o meu sonho depois de um tempo, mas tenho consciência de quantas mulheres deixara-se de lado para limitar-se aos papéis impostos a elas.
Oprah Winfrey

Sucesso: Castro foi homenageada pela estilista Diane Von Furstenberg (Foto: AP)

 

Algumas pessoas não enxergam o grafite como arte. Acredita que fazem isso por preconceito ou por desconhecimento?

Eu sei que este tipo de pessoa existe, mas para mim, está virando lenda. Não consigo mais lembrar da última vez tive contato com esta espécie rara. Se você é carioca, é hipocrisia dizer que se é descriminado por ser grafiteiro. As pessoas, a mídia, a população, todos adoram e admiram o graffiti.

 

Quando você diz para uma mulher que ela pode ser e fazer o que ela quiser, você está mudando a sua percepção de mundo, e sempre terão forças externas (pais, namorados, irmãos e outros) que lhe dirão o contrário. Essa consciência é criada instantaneamente ou leva algum tempo para vamos dizer “maturar?”.

Quando vou ao encontro de mulheres das comunidades para falar-pintar sobre nossos direitos, eu estou plantando uma sementinha. São palavras que ficam em seu imaginário e que emergem em situações de decisões para suas vidas.

 

Fale um pouco da Rede NAMI.

A NAMI é uma rede feminista de artistas urbanas que usa as artes para promover os direitos das mulheres. Hoje, fazem parte da Rede mais de 140 mulheres entre artistas e ativistas e já realizamos mais de 70 workshops em mais de 30 comunidades do Rio de Janeiro e outros espaços atingindo diretamente em torno de 2.000 mulheres. Para este ano, pretendemos duplicar este número.

 

Você acredita que a arte no país é relegada a segundo plano?

Não. Acredito que diante das dificuldades do país, não há muito dinheiro para se investir em arte e por isso o mercado não é tão grande como de outras cidades como Nova York e Paris. Com o crescimento do país a tendência é mudarmos esta cena. Mas devemos destacar que diante do caos urbano de nossas cidades, o graffiti vem como uma ferramenta potente para revitalizar os espaços abandonados e por isso nosso cenário de street arte é tão forte quando se comparado com outras cidades dos países ditos como de “primeiro mundo”.

 

Qual foi a coisa mais absurda que já falaram ou escreveram sobre o seu trabalho?

Não recebo muitas críticas. Geralmente todos elogiam mais do que criticam mas, uma vez, um amigo do graffiti me questionou porque eu tinha tanta visibilidade se haviam outros artistas com trabalhos mais potentes e a muito mais tempo que eu na cena. Talvez a resposta já estivesse embutida na pergunta, aonde o gênero masculino domina e se “acha” o dono de toda cena. Eu luto pelo o que considero direito meu, e acredito ser justo estar em uma posição boa por uma coisa que acredito e na qual luto. Talvez minhas vivencias verdadeiras e a forma como expresso-as em minha arte justifiquem esta posição.

 

Quando alguém fala de você, geralmente dizem que é contestadora e libertária. Você também se enxerga assim?

Já fui. Hoje apenas pinto muros autorizados e por isso estou me achando super careta

 

Uma frase sua: “As mulheres precisam ter o direito de decidir a respeito do seu corpo e da sua vida”. Você acredita que esse direito está longe ou próximo de ser realmente aplicado de fato em nossa sociedade?

Nós mulheres há muitos anos somos tratadas como irresponsáveis e não recebemos crédito para tomar decisões sobre nossas vidas. Hoje a situação é mais livre, mas enquanto existir leis que decidem pelas mulheres a respeito de suas condutas e corpos, como hoje ainda no Brasil mantemos a Lei que criminaliza o aborto, sim, ainda existirá muito a ser conquistado.

Um vídeo da artista Panmela Castro

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.