Entrevista publicada em 03/11/2011 por Eder Fonseca em Negócios
 
 

“Não há desindustrialização em nosso país”
Abram Szajman – Presidente da Fecomercio e fundador da VR

Abram Szajman

O paulistano Abram Szajman é um dos mais poderosos homens de negócios do país. É o atual presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), fundador da Vale Refeição (VR), empresa líder de mercado no segmento de refeições conveniadas, e presidente do Centro do Comércio do Estado de São Paulo e dos Conselhos Regionais do SESC e do SENAC de São Paulo. É também vice-presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Assumiu em 2009 a presidência do Sebrae, em mandato que durou dois anos. Szajman está presente em diferentes fóruns, atuando para desobstruir os canais que devem assegurar o fluxo permanente da energia empreendedora. Participa de conselhos como o do Hospital Israelita Albert Einstein e do Incor. “Essa é a chamada geração Y, que quer tudo pronto, acostumada com o “fast food” e nunca a esperar. Acostumada com retorno sem investimentos, mas na vida real as coisas podem não ser bem assim, o que tende a criar grandes desilusões para muitos destes jovens. Em parte esse fenômeno é reflexo de um aspecto relevante da modernidade: a comunicação online. (…) Crescer 5% ao ano já seria muito mais do que a média da última década, que foi pouco mais do que 3%, e gigantescamente maior do que os últimos 20 anos, quando a média não chega a 3% ao ano”, afirma o empresário.

 

Como é formada a FecomercioSP?

A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) é a principal entidade sindical paulista dos setores de comércio e serviços. Responsável por administrar, no estado, o Serviço Social do Comércio (Sesc) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), representa um segmento da economia que mobiliza mais de 1,8 milhão de atividades empresariais de todos os portes e congrega 152 sindicatos patronais que respondem por 11% do PIB paulista – cerca de 4% do PIB brasileiro – gerando em torno de cinco milhões de empregos.

 

As entidades de classe como a Fecomercio, ainda detêm um grande poder e influência junto ao Governo Federal?

Temos acesso as mais diversas esferas de Governo e, como entidade reconhecidamente importante de representação do setor, somos ouvidos pelo Governo. Levantamos temas, fazemos trabalhos e estudos que são levados à apreciação dos governos em todos os níveis e dos poderes da República. Tentamos sensibilizar as autoridades para os fenômenos que prejudicam a economia, o consumidor, o empresário e o emprego. Quando apontamos isso, normalmente sugerimos ações, projetos, etc. O exemplo claro desse tipo de atuação foi o Simples Tributário, uma ideia gerada na FecomercioSP que hoje tanto facilita a vida dos pequenos e micro empresários. Além de sugerirmos o modelo, nós também ajudamos a implantá-lo.

 

O senhor disse recentemente que o jovem quer ganhar dinheiro ontem e não amanhã. A cabeça de um jovem empreendedor hoje é muito mais imediatista do que quando o senhor começou suas atividades no mundo empresarial?

Sem dúvida. Essa é a chamada geração Y, que quer tudo pronto, acostumada com o “fast food” e nunca a esperar. Acostumada com retorno sem investimentos, mas na vida real as coisas podem não ser bem assim, o que tende a criar grandes desilusões para muitos destes jovens. Em parte esse fenômeno é reflexo de um aspecto relevante da modernidade: a comunicação online. Antigamente, se íamos viajar para o Japão e quiséssemos saber como estava o tempo lá, teríamos que esperar o jornal de lá, com dias de atraso, ou, se conhecêssemos alguém por lá, faríamos uma ligação. Hoje entramos na internet e vemos em tempo real como está o tempo em qualquer cidade do planeta. Essa velocidade de resposta dos meios de informação faz com que pensemos que tudo pode ser produzido e respondido na mesma hora, o que não é verdade para tudo ou para todos. Para um empresário ter sucesso, em qualquer época e em qualquer setor, é preciso investir, arriscar e trabalhar muito.

 

A desindustrialização no Brasil é uma falácia?

Não há processo de desindustrialização. Um ano a indústria cresce mais, outro menos. Temos períodos de crise, e claro, hoje, por exemplo, o câmbio valorizado dificulta a operação industrial. Todavia, nos últimos anos a indústria tem crescido e empregado. Aliás, neste ano mesmo a indústria vai crescer, em torno de 2% e tem aumentado o seu quadro de funcionários. O que acontece de fato é que o setor terciário passou a ser o mais importante gerador de emprego e de PIB do país. Está, em média, crescendo mais do que a indústria e isso acaba por provocar algumas reações de desagrado, é natural. Não podemos deixar, no entanto, de lembrar que de fato alguns fatores comprometem a produtividade no Brasil, para todos os setores, inclusive, e talvez principalmente, para a indústria. Os custos de transporte, os encargos trabalhistas, os tributos excessivos, a falta de mão de obra qualificada, a falta de infraestrutura e, no caso específico da indústria, a valorização cambial, natural para este momento. Mas não há nenhuma evidência de um processo de desindustrialização, pelo contrário, o Brasil possui uma das maiores indústrias do mundo. Claro, um setor ou outro podem surgir e sumir da economia, mas isso faz parte da evolução, são dores do crescimento. Não podemos, por trás da desculpa da desindustrialização, demandar por reservas de mercado e fechamento da economia. Já vivemos tempos como esse e nos atrasamos muito. Deles não podemos ter saudade.

 

O setor de serviços é a bola da vez?

Sim e sempre será assim na medida em que uma economia se moderniza e cresce. Mais riqueza significa mais consumidores, que significam maior venda de serviços, maior acesso ao lazer e turismo e maior busca por qualidade de vida. Muitas pessoas adquirem planos de saúde com o aumento da renda. Outras viajam com mais crédito. Consumidores passaram a ter o costume de comer fora de casa por necessidade, pois o mercado de trabalho cresceu, e até mesmo por lazer. Há a busca pela estética nas academias, pelo tratamento visando maior saúde e qualidade de vida. A busca por decorar as casas, por equipar seu lar, passa pelo comércio. O mundo da informação pressupõe serviços nas operadoras de telefonia, de tv a cabo, etc. Esse mundo moderno pressupõe um papel preponderante do setor terciário na economia global. Mesmo quem está na indústria, terá que distribuir o que produz, e certamente hoje o mundo das garantias estendidas e do pós-venda é muito relevante como argumento de venda do produto físico.

 

O que o senhor acredita que deveria ser feito para que o país cresça além de 5% ao ano?

Crescer 5% ao ano já seria muito mais do que a média da última década, que foi pouco mais do que 3%, e gigantescamente maior do que os últimos 20 anos, quando a média não chega a 3% ao ano. Se crescermos 5% ao ano no longo prazo já será uma vitória. Na realidade, hoje o país não encontra condições para crescer nem 5% ao ano sem sentir efeitos colaterais ou atravessar terríveis restrições. Para resumir o que já foi repetido várias vezes, o país precisa de um choque de gestão pública com corte de gastos e aumento da eficiência, reforma fiscal e elevar a capacidade de investir do Estado e do setor privado, o que somente ocorrerá com uma estrutura tributária mais simples e mais leve, que por sua vez só existirá após uma reforma do Estado. Não nos enganemos: crescer depende do nível de investimentos globais, e o setor público não investe e ainda reduz a capacidade do setor privado em investir, tamanhas as restrições que impõe. Para completar, além das restrições tributárias, hoje o ambiente de negócios no país é muito hostil, a ponto de fazer empresários desistirem de projetos não pela falta de recursos, mas pelo exagero das exigências legais, burocráticas e administrativas, e das incertezas que nosso sistema judiciário nos impõe, que têm feito o risco dos negócios crescerem demasiadamente.
Sede da Fecomercio

Influência: Fachada da Fecomercio presidida por Szajman em SP (Foto: Arquivo)

 

O que fazer para desburocratizar o sistema tributário, previdenciário e trabalhista?

É uma boa pergunta. Isso somente ocorrerá com reformas. No passado acreditávamos que havia a necessidade de se fazer uma grande reforma política, fiscal, previdenciária e de Estado. Na realidade a necessidade é essa mesma, mas descobrimos a inviabilidade de se pleitear reformas amplas e gerais. Temos que trabalhar com o ideal e com o possível. Politicamente não é factível uma grande reforma na Previdência, uma grande reforma fiscal, uma grande reforma no Estado. Teremos que trabalhar passo a passo em cada uma destas variáveis, melhorando o ambiente trabalhista, reduzindo a burocracia, propondo alterações pontuais no sistema tributário, etc. Não é por acaso que a Fecomercio teve sucesso no processo de simplificação tributária para pequenas e micro empresas ao longo da última década. Também estamos trabalhando em projetos de simplificação do sistema trabalhista. A Fecomercio também trabalha em conjunto com grandes entidades como a Brain, que visa melhorar o ambiente de trabalho e de negócios no país, principalmente nos centros urbanos que mais recebem investimentos globais. Existe um grupo de trabalho específico para isso, chamado “Doing Business” que pode ser traduzido por “Fazendo Negócios” que procura intervir no sentido de nos tirar da desagradável situação mundial em que nos encontramos e que está demonstrada no relatório do Banco Mundial que tem o mesmo título.

 

O que seria uma taxa de juros justa para a classe empresarial e para o dia a dia da população?

Não existe um conceito de taxa justa ou injusta. Certamente a taxa de juros no Brasil é muito alta para empresas e consumidores. Acredito que, a comparação mundial poderia dar uma ideia do que queremos atingir. Na Europa e nos Estados Unidos o consumidor paga entre 6% e 12% ao ano de juros nos seus financiamentos, sendo que o financiamento imobiliário tem taxas ainda menores. As empresas pagam até 2% ou 3% ao ano, em casos especiais, mas não pagam mais do que a Libor + 1pp, que hoje seria algo ao redor de 8% ao ano. Talvez não cheguemos nisso, dado que hoje em média o consumidor paga mais de 45% e as empresas mais de 30%, mas se atingíssemos metade do patamar atual, já seria um enorme ganho para os tomadores e para a economia, e as taxas ainda seriam muito mais elevadas do que a média dos países desenvolvidos.

 

O consumo em 2010 foi extremamente alto. Este ano ele será muito menor ou se igualará?

Será menor. Nossas projeções indicam, e indicavam isso desde o começo do ano, que o PIB vai crescer 3%, o consumo no Brasil entre 5% e 6% e em São Paulo de 3% a 4%. Muito menos do que em 2010. É um ano de ajuste, inclusive com pressões inflacionárias e com um ambiente externo negativo, como todos sabem. Isso influencia o potencial de crescimento no país.

 

Hoje não temos um crédito tão abundante como outrora. Isso está atrapalhando o comércio de alguma forma?

O crédito ainda está crescendo, com prazos se dilatando. O crescimento do crédito à Pessoa Física (PF) em 2010 foi de mais de 20%, e neste ano deve ficar entre 10% e 15%. É menos do que no ano passado, mas ainda é relevante. O que está reduzindo o crescimento é um pouco do ambiente externo, mas em parte também é o que chamamos de efeito base: como a economia e o consumo cresceram muito em 2010, a base ficou elevada e fica mais difícil manter o ritmo. Também é verdade que o país não tem estrutura, como já comentado, para manter taxas de crescimento muito elevadas no longo prazo sem que isso gere efeitos colaterais ruins, como pressões de custos, por exemplo.

 

Muitos empresários dizem que a China é a grande ameaça para os produtos brasileiros. O senhor concorda com essa afirmação?

A China é uma grande ameaça para produtos brasileiros, argentinos, europeus, americanos… A China é uma potência industrial relevante, um concorrente de porte. O que está errado nesta equação é que se permite que a China concorra com o resto do mundo, muitas vezes em condições injustas. Os custos artificialmente baixos, o baixo respeito aos direitos do trabalhador, a preocupação duvidosa com o meio ambiente e com a sustentabilidade, a falta de restrições para os investimentos faz com que os produtos chineses fiquem baratos abaixo do que seria de se imaginar. A China talvez seja o outro lado da moeda em relação ao Brasil: aqui tudo restringe o investidor, tudo dificulta, lá nada constrange o produtor, por mais selvagem que seja sua relação com o trabalho e com o meio ambiente. Não dá para competir livremente com o produto chinês sem uma análise mais detalhada caso a caso. É um erro tratar a China como uma economia de mercado pura.

 

O senhor acredita que existe um risco iminente da crise grega chegar ao Brasil de alguma forma?

O risco de chegar ao Brasil na forma de aumento de desemprego, de quedas brutais nas bolsas, ataques especulativos contra nossa moeda como em crises passadas, não. O país se encontra em uma situação de equilíbrio macro-econômico e externo muito favorável, e conta com baixo endividamento público e privado, além de um sistema bancário saneado e forte. Mas é claro que os efeitos da crise na Europa, e não podemos esquecer que o Japão também atravessa uma péssima fase e os Estados Unidos ainda não está totalmente de pé, vão atingir o país na forma de crescimento mais baixo, redução dos preços de commodities e maior conservadorismo dos consumidores e investidores, ao menos no curto prazo.

 

Como o senhor está vendo o primeiro ano do Governo Dilma Rousseff?

Estamos vendo com bons olhos. A presidenta tem mostrado personalidade, mantém as bases do equilíbrio macro-econômico e mostrou até certa disposição em acelerar o processo de redução de juros, importante para alavancar o crescimento. Parece ter pouca tolerância com a corrupção e tem uma tendência maior de ser chefe de Governo ao invés de chefe de Estado, o que se nota pela sua predileção por se envolver diretamente nas questões operacionais e cobrar resultados.

Um vídeo do empresário Abram Szajman

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.