Entrevista publicada em 8 de novembro de 2017 por Eder Fonseca em Economia
 
 

“Não houve mudança significativa nas atitudes”
Marcela Kawauti – Economista-chefe do SPC Brasil

Marcela Kawauti

A economista Marcela Kawauti é formada pela USP – Universidade de São Paulo com mestrado em Economia e Finanças pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Trabalhou em pesquisa econômica, riscos e outras áreas em bancos como Bradesco, Itaú e JPMorgan. Atualmente trabalha como economista-chefe do SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) onde elabora indicadores e pesquisas a respeito de consumo, endividamento e a relação do consumidor com o crédito e a sua vida financeira. É colaboradora no site de finanças pessoais “Meu Bolso Feliz”, além de colunista da revista Ana Maria. “O próximo ano deve ser aquele que consolida a retomada da economia. Os sinais positivos de melhora na economia devem ficar cada vez mais claros. Ressalte-se, no entanto que a expectativa é de melhora lenta e gradual. Isso deve acontecer, em primeiro lugar porque o clima político deve ser instável ao longo de todo o ano de 2018, não somente por conta dos escândalos de corrupção como também por conta da indefinição em relação às eleições presidenciais. A isso se soma a perda de produtividade da economia ao longo de anos de recessão e a necessidade de absorver um contingente enorme de desempregados antes que a retomada do consumo se desenhe de maneira mais sólida. (…) A crise recente deixou claro que há grande impacto da crise política sobre a economia”, analisa a economista.

 

Marcela, como avalia o cenário econômico de 2017 até o presente momento?

Gosto de dizer que na fase atual podemos enxergar o copo meio cheio ou o copo meio vazio. Do lado otimista, é certo que algumas variáveis começam a apresentar sinais positivos. Os mais claros são a inflação controlada e a queda na taxa básica de juros na economia. Mas de forma mais tímida podemos citar também a melhora nos dados de contratações e de consumo. Até mesmo as taxas de juros para o consumidor final começaram a cair. Este dado, em um contexto de renda deprimida e desemprego ainda alto, mostra algum otimismo por parte dos concedentes de crédito. Mas é importante ressaltar, por outro lado, que essa evolução ocorre a partir de um patamar muito baixo. Ou seja, ainda há muito que se melhorar para chegarmos ao menos aos níveis pré-crise.

 

O que podemos esperar para o próximo ano em sua avaliação?

O próximo ano deve ser aquele que consolida a retomada da economia. Os sinais positivos de melhora na economia devem ficar cada vez mais claros. Ressalte-se, no entanto que a expectativa é de melhora lenta e gradual. Isso deve acontecer, em primeiro lugar porque o clima político deve ser instável ao longo de todo o ano de 2018, não somente por conta dos escândalos de corrupção como também por conta da indefinição em relação às eleições presidenciais. A isso se soma a perda de produtividade da economia ao longo de anos de recessão e a necessidade de absorver um contingente enorme de desempregados antes que a retomada do consumo se desenhe de maneira mais sólida.

 

Existe uma dissociação entre política e economia como afirmam alguns analistas ou acredita que isso é impossível?

A crise recente deixou claro que há grande impacto da crise política sobre a economia. A começar pelos indicadores de confiança que vinham crescendo no início de 2017 e tiveram a tendência interrompida após divulgações de novas denúncias em maio. Sem um crescimento da confiança na conjuntura atual e no futuro da economia, os consumidores adiam compras e evitam tomada de crédito e os empresários ficam em compasso de espera, sem investimento no seu negócio ou aumento das contratações. Além disso, a crise política enfraquece a possibilidade de votação de reformas, em especial as mudanças no campo fiscal que são essenciais para que a retomada seja sólida e duradoura.

 

Com a crise, o brasileiro tornou-se mais “esperto” com suas finanças?

Por conta da crise, o brasileiro ficou sim mais consciente da sua situação financeira. Até porque, em muitos casos, organizar as finanças foi a única opção em meio a um cenário de desemprego, inflação elevada e orçamento apertado. No entanto, nossas pesquisas não mostram uma mudança significativa no conjunto de hábitos que caracterizam uma vida financeira saudável. O que eu quero dizer é que as mudanças foram focadas em atitudes que resolvem no curto prazo como mudança de marcas e pesquisas de preços. Mas quando se fala em controle das finanças e foco no longo prazo como fazer uma reserva financeira para realização de sonhos ou aposentadoria, não houve mudança significativa nas atitudes.

 

Falando ainda sobre finanças, considera o cartão de crédito o grande vilão no bolso do brasileiro?

O cartão de crédito ainda tem um destaque negativo quando se fala de inadimplência. Este é um instrumento de crédito muito fácil de ser adquirido mas usado de maneira incorreta pelos consumidores. E além do cartão de banco, tem crescido a popularidade do chamado cartão de loja, que oferece crédito dentro da loja, ou seja, onde o consumidor já está influenciado a gastar. Nossas pesquisas mostram que um pouco menos da metade dos consumidores não sabe o valor gasto no cartão de crédito no mês anterior. Além disso, o cartão de crédito é muito usado em compras de itens básicos e frequentes como supermercados e farmácias. Quando se soma o uso do cartão no dia a dia à falta de acompanhamento dos valores gastos, o resultado é a dificuldade de pagar as faturas e uma dívida que cresce rapidamente por conta das altas taxas de juros.

 

A dificuldade em conseguir guardar dinheiro é uma tônica na vida do brasileiro. Quais os principais fatores que poderiam contribuir para um remanejamento do dinheiro ganho para a poupança ou até mesmo para investimentos?

As pesquisas do SPC Brasil mostram que mais de 60% dos consumidores não tem o hábito de poupar. Isso acontece tanto por conta do olhar para o curto prazo quanto por conta da dificuldade de se organizar. Sendo assim, colocar a vida financeira como prioridade é fundamental para contribuir para o remanejamento do dinheiro e para os investimentos. O consumidor precisa entender que é necessário olhar para o futuro e deixar de consumir agora para ter uma vida financeira mais saudável depois. E além de planejar e ter disciplina para guardar dinheiro, o consumidor deve ir além da poupança e procurar investimentos mais rentáveis e mais adequados para cada objetivo.
A economista-chefe

Cenários: A economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti (Foto: Aquivo/AP)

 

Em que ano a queda no poder de compra das famílias brasileiras foi mais acentuada e quais foram os reflexos desse fato para o momento atual?

A maior perda do poder de compra ocorreu entre 2015 e 2016, no auge da crise econômica. Com a queda generalizada do emprego e a inflação elevada, o consumidor viu o seu orçamento cada vez mais apertado e restringiu o consumo e a tomada de crédito. A recuperação tímida que se inicia, diferente de recessões anteriores, não será puxada pela melhora do consumo. Pelo contrário, o consumo das famílias deve se manter morno até que a retomada do emprego se consolide.

 

Uma dúvida que é comum entre várias pessoas e que gostaríamos que você falasse mais uma vez por gentileza. As dívidas caducam depois de 5 anos?

Este é um esclarecimento muito importante. Uma dívida pode ficar registrada em bureaus de crédito como o SPC Brasil por, no máximo, 5 anos. Mas é importante deixar claro, em primeiro lugar, que o nome do consumidor pode ficar registrado mais tempo que isso caso ele tenha mais de uma dívida. Isso porque, quando uma segunda dívida é registrada, o tempo de 5 anos começa a ser contado novamente do começo. Além disso, após 5 anos, mesmo que o registro da dívida saia do cadastro do SPC Brasil, a dívida ainda pode ser executada a depender do instrumento de crédito que a gerou.

 

No primeiro trimestre deste ano, o Brasil ganhou 900 mil inadimplentes. Quais foram os principais motivos para isso ter ocorrido?

Os dados de inadimplência apresentaram crescimento elevado ao longo da maior parte da crise econômica. O consumidor, que tinha crédito abundante até 2014, se deparou com um elevado número de dívidas ao mesmo tempo em seu orçamento diminuía. A consequência disso foi o aumento do número de inadimplentes e o crescimento das contas em atraso. A boa notícia é que os números já começam a ceder, ainda que a partir de um patamar elevado. A restrição do crédito levou o consumidor a diminuir o endividamento, com consequente queda na inadimplência.

 

Quais são as previsões do SPC para este final de ano em termos de vendas no comércio?

É fato que 2017 é um ano melhor que 2016. Os próprios empresários de varejo e serviços também começam a sentir isso na pele. De acordo com uma pesquisa recente feita pelo SPC Brasil 38% deles acreditam que as vendas neste ano seja melhor do que no ano passado. Podemos chamar esse cenário de otimismo moderado. Isso porque ainda estamos saindo do fundo do poço, ou seja, a recuperação é gradual e se dá a partir de um patamar deprimido.

 

Educação financeira é chave para os vários tipos de problemas que ocorrem em nossas finanças. Como a mídia poderia ajudar neste sentido em sua visão?

Isso é fato: a educação é fundamental para que o consumidor possa ter uma vida financeiramente sustentável. E além de ajudar a enfrentar esse momento de recessão econômica, o consumidor deve se valer da educação financeira também para o momento da recuperação. A mídia tem importante papel na divulgação dos preceitos de educação financeira. Ela funciona como multiplicadora de conselhos, dicas e bons exemplos para que os consumidores mudem os seus hábitos e melhorem a forma como lidam com as finanças.

Um vídeo da economista Marcela Kawauti

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.