Entrevista publicada em 20/05/2015 por Eder Fonseca em Cinema
 
 

“No Brasil tem vários projetos legais”
Bea Guedes – Diretora de cinema e televisão

Bea Guedes

Beatrix Guedes mais conhecida como Bea Guedes, é diretora de criação, de cinema e televisão. Após formar-se em Artes Plásticas pela FAAP – Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo, mudou-se em 1990 para Londres onde estudou fotografia na Central Saint Martins College of Art and Design, e fez pós-graduação em Tecnologia de Cor na Fotografia pela London College of Printing. Membra do British Institute of Professional Photographers, foi fotógrafa de Moda por mais de dez anos, tendo seu trabalho publicado em revistas no exterior e nas principais revistas de moda do Brasil. Em 1998, de volta a São Paulo, passou a fazer Direção de Arte em filmes publicitários, cinema e espetáculos. Em 1999 fez a direção de arte do filme Santa Ursula, que recebeu o prêmio de Leão de Bronze no Festival de Cannes. Em 2007, abre sua produtora Selva Filmes e começa a dirigir conteúdos para televisão, tendo co-dirigido programas para a CNN International, além de dirigir programas e séries para a televisão brasileira. “Muito difícil trabalhar aqui, os projetos se estendem por até dois anos em negociações. Aqui tem muita oferta de projetos de conteúdo, mas efetivamente pouca produção legal mesmo rolando, pouco dinheiro. (…) A internet ainda por cima oferece caminhos diversos para o cinema, com a possibilidade do conteúdo colaborativo”, afirma a criativa cineasta. 

 

Bea, fale um pouco como foi o seu começo de carreira até ser reconhecida no mercado cinematográfico, publicitário e televisivo nacional e internacional.

Assim que terminei minha faculdade de Artes Plásticas na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), mudei-me para Londres para fazer uma pós-graduação em fotografia, e lá iniciei minha carreira como fotógrafa de moda. Após alguns anos, de volta ao Brasil, fui convidada a fazer direção de arte em um filme publicitário que iria concorrer ao Cannes Lions, na extinta produtora Trattoria, em São Paulo. Dei a maior sorte, pois meu primeiro filme ganhou Leão de Bronze. Daí pra frente comecei a fazer direção de arte em vários filmes, e em seguida me tornei diretora de filmes publicitários, clips e curtas. Abri minha produtora Selva em 2006 para produzir meus curtas e documentários, e mais tarde, meu longa. Mas o que aconteceu, foi que comecei a produzir quase que imediatamente conteúdo de televisão, primeiramente para a CNN International, depois séries para a TV Cultura e Turner Latin America, passando por criar e adaptar formatos de TV internacionais… E por aí foi… No meio disso tudo continuei a fazer o que sempre gostei, direção artística de espetáculos, entre eles, a ópera eletrônica “O Guarani”, uma experiência multimídia incrível.

 

Muitos afirmam que o cinema como é feito hoje está em extinção, principalmente com a popularização da internet. Qual a sua visão sobre esse fato?

Disseram o mesmo sobre a fotografia analógica quando surgiu a fotografia digital. O cinema nunca vai morrer. O que acontece hoje, é positivo. É muito mais a democratização do acesso ao cinema. A multiplicação de olhares, em todos os níveis. A internet ainda por cima oferece caminhos diversos para o cinema, com a possibilidade do conteúdo colaborativo, e dos patrocínios alternativos como o crowdfunding. Novas plataformas de distribuição digital surgiram, e antes filmes que eram produzidos e às vezes por não terem distribuição eram fadados a morrer sem serem vistos ou sem terem a chance de algum retorno financeiro, hoje são veiculados em plataformas como o Netflix, iTunes, Amazon e Vimeo on Demand. Filmes que já tinham morrido comercialmente, têm a possibilidade de serem novamente comercializados digitalmente. Acho que mesmo a crise das distribuidoras tentando sobreviver frente a este futuro digital leva à mais evolução e investimento. Aqui a internet fez surgir grandes heróis de bilheteria de cinema como o pessoal da Porta dos Fundos, que gera milhões de espectadores com seu Fanbase, dando força pro cinema comédia que está fazendo levantar muito os números do cinema nacional e agitando bastante o mercado. De certa forma todos os produtores de cinema ganham um pouco com isso, mais público indo assistir cinema nacional.

 

Por que no Brasil, ainda não conseguimos ter uma indústria cinematográfica como nos Estados Unidos por exemplo?

E nunca teremos. A mentalidade é diferente. O mercado é diferente, as prioridades são outras. Os dinheiros são incomparáveis. Este tempo em que estive em Los Angeles, tive a oportunidade de observar bem de perto a máquina. A força dos grandes estúdios, os agentes, os distribuidores, a crescente onda do cenário independente, a morte do “medium budget” (médio orçamento), a China salvando Hollywood. Tudo é gigante, épico, importante. Quando se vê por exemplo em conferências do American Film Market os grandes tubarões, os eternos dinossauros e os ávidos coelhos independentes sentados na mesma mesa em um painel, sente-se a magnitude desta engrenagem, a latitude de discussões que ainda passam muito longe de nós. Aqui pro cinema funcionar, dependemos basicamente de editais e leis de incentivo. Patrocinadores que são poucos, e cada vez menos colocam dinheiro em cinema nacional independente porque não acreditam no retorno. Nos Estados Unidos, por ser uma indústria, se você tem um bom script e consegue um bom agente, você tem chances de ter seu script produzido, pois muitas vezes já existe o dinheiro que está esperando “O Script”. Existem empresas só para financiamento de filmes junto aos bancos, que estruturam o business plan (plano de negócios) junto aos produtores e distribuidores. O produtor, através de agentes, procura o script e o diretor, geralmente ele que recruta o “Talent”, de acordo com a cotação dos mesmos no mercado. Eu como diretora acho isso cruel, nem um pouco romântico, mas funciona. Aqui quase que invariavelmente, é o diretor quem sonha, cria, desenvolve, e vai atrás de maneiras de conseguir realizar seu filme. Coloca em editais, em leis de incentivo e vai atrás do captador. O produtor fica incubido de viabilizar e executar. Generalizando, aqui, o filme é do diretor e não da produtora. Lá fora é o contrário. Em Los Angeles, tem agentes e produtores que apostam em novos diretores e novas linguagens. Existe sempre uma forma de ser feito, se for bom. Existe o mercado indie. Aqui, 90% morrem na praia, se você já não é um grande nome ou tem uma grande produtora por trás.

 

Você já trabalhou em grandes empresas de comunicação como a Turner América Latina e a CNN International. Quais as principais diferenças que você encontrou nesse mercado no exterior em comparação com o nosso país?

Muito difícil trabalhar aqui, os projetos se estendem por até dois anos em negociações. Aqui tem muita oferta de projetos de conteúdo, mas efetivamente pouca produção legal mesmo rolando, pouco dinheiro. Todo mundo ficou super empolgado com a lei da TV paga, que diz incentivar a produção nacional, mas de fato ainda não vi estatisticamente uma diferença enorme para o que já acontecia antes com o artigo 39. A produção de TV que tem dinheiro está na mão de poucas produtoras. Acredito que a coisa está demorando, mas vai melhorando aos poucos. Vejo um caminho melhor lá fora do que aqui, infelizmente. As produções independentes para televisão são muito recentes no Brasil, e surgiu principalmente com o estabelecimento dos canais a cabo internacionais no país e a sua necessidade de conteúdo local. Lá fora isso sempre existiu. Por isso existe uma forma diferente de priorização dos recursos dos canais, e principalmente uma forma muito diferente de trabalhar com os produtores independentes. Me deparei várias vezes no Brasil com pessoas despreparadas exercendo posições altas e de decisão dentro dos grandes canais, sem saber como lidar com as produtoras. A diferença destes para os profissionais no mesmo patamar nos EUA, é gritante. Aqui você manda um e-mail e não é respondida. Você marca uma reunião e demora mais 3 semanas para a próxima, mesmo que haja interesse real. Lá fora o VP (vice-presidente) de produções internacionais de um grande canal responde seu e-mail em no máximo dois dias. Se ele está interessado, em menos de uma semana você está na sala dele com mais toda equipe, e em seis meses já está em produção. Não existe tempo a perder, em nenhum dos lados. Aqui os caras ficam seis meses segurando seu projeto e no fim dizem que não vão produzir. Tem uma falta de educação profissional, uma falta de respeito e comprometimento que não acho bom nem para nós, nem para a imagem dos brasileiros lá fora. Claro que tem as exceções.

 

Como vê a qualidade em relação ao conteúdo das emissoras de televisão do Brasil?

Aqui no Brasil tem vários projetos legais e muito bem feitos no ar. Mas tem muito mais lixo. Existe lixo em qualquer lugar no mundo. Mas nos EUA tem o lixo feito com seriedade e dinheiro, direcionado pro nicho e público específico e que atende as expectativas do canal e do patrocinador. Logo, gera retorno, e logo, não é tão lixo assim. Lá se o canal está sem dinheiro, ele corta equipe, produz menos, mas não corta verba de programa, porque sabe que precisa fazer um programa com o mínimo de padrão para manter a audiência e consequentemente, o patrocinador. Eu sinto que no Brasil não tem essa preocupação. No Brasil o lixo é lixo mesmo. Difícil assistir a um programa de 30 mil reais por episódio. Eu mesma já tive que produzir programas nestas condições e foi uma tristeza ter que lidar com as limitações de qualidade que me eram impostas. Ter um conteúdo incrível, uma pesquisa fortíssima e com 30 mil reais por episódio não dá nem pra ter um diretor de fotografia, um equipamento de áudio mais avançado, a pós-produção dos sonhos que você queria. Mas daí entra nosso forte, que é a criatividade, a flexibilidade na produção. Mas me parece mais matar cachorro a grito. Nunca mais quero entrar em uma produção de TV sem o mínimo decente. Hoje tem a rapaziada que acabou de sair da faculdade e tem uma 5D e um iMac e mora na casa dos pais e consegue fazer um programa de televisão por esse valor, e acham divertido, e vai ter sempre alguém no mercado que vai fazer. Às vezes fica até legal, é válido! Mas isso é mais adequado para a internet, não pra TV. A tendência na TV no Brasil é ser inundada por esses programas, para cumprir cotas de grade.

 

No começo de sua carreira, você foi fotógrafa de moda em Londres. Nos conte um pouco dessa experiência.

Eu vivi em Londres em uma época muito frutífera nas artes e na música. Eu andava pelas ruas e tudo virava uma nova ideia, aquela cidade borbulhando de coisas novas a cada minuto. Minha grande inspiração que vinha de imagens literárias e de realidades que eu inventava se mesclavam com o registro desse cotidiano nessa cidade louca. Não tinha internet, eu me jogava nas bibliotecas e museus, nas referências riquíssimas que eu podia encontrar nas escolas de artes e de moda, no museu de história natural… Eu fui criando um universo meio surreal e colorido que eu transportava para minhas fotos, e que depois foram virando filmes. Este foi um desejo e um caminho que despontou e cresceu dentro de mim em Londres, onde existia toda liberdade e ferramentas do mundo para isso.

Bea Guedes

Experimentação: A diretora de cinema Bea Guedes (Foto: Arquivo/Bea Guedes)

 

É difícil não se envolver apenas como profissional, quando se realiza um trabalho como o documentário “Eldorado – tráfico de seres humanos”, que foi apresentado na abertura do Congresso dos Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas)?

Eu me envolvi como produtora executiva. Minha tarefa foi viabilizar a realização. Me preocupava muito a questão da segurança da equipe, pois algumas vezes haviam situações arriscadas como uma batida policial, ou entrevistas em prisão ou locais e pessoas de grande risco. Meu envolvimento era prático e não emocional. Mas por pura proteção, acho. Quando eu entrava na ilha de edição, apenas 10 minutos assistindo alguns depoimentos na íntegra, já me abalavam. O material era muito pesado, muito triste, revoltante. A diretora Paula Goldman teve um envolvimento emocional fortíssimo. Paula foi uma heroína, conseguiu tratar um assunto tão terrível, com beleza. É um trabalho que me orgulho muito de ter participado com ela, um trabalho de coragem. Quando assistimos finalizado na grande tela, chorei tudo o que não tinha chorado enquanto estava preocupada com a produção.

 

Alguns críticos dizem que o cinema nacional não é visto por mais pessoas por vários motivos, mais apontam dois em especial: falta de verba para divulgação e a injusta divisão em salas de exibição. Concorda ou discorda desses pontos levantados?

A falta de verba para divulgação é fato. Nos Estados Unidos por exemplo, em um filme de 100 milhões de dólares de produção, gasta-se de 30 milhões de dólares a 50 milhões de dólares em divulgação. Aqui existem poucas salas de exibição proporcionalmente, e claro que a prioridade são os filmes americanos. Com o DCP (Digital Cinema Package), baixou bastante o custo das cópias, mas mesmo assim, se um filme estréia em 80 salas você atinge um público de no máximo 200 mil pessoas, que ainda é pouco para se ter um retorno financeiro. A menos que você esteja fazendo uma comédia romântica/escrachada ou um Tropa de Elite estreando em mais de 700 salas, quase impossível atingir a marca de 2 milhões de público. E para atingir tudo isso de público, precisa gastar muito com publicidade. Poucas produtoras ou distribuidoras têm o cacife pra levantar isso. E quando levantam, no próximo vão repetir a fórmula, não acho que vão inovar ou arriscar. E obviamente, os patrocinadores vão querem colocar dinheiro onde haverá mais visibilidade. Mas se é difícil levantar, como no caso do meu longa independente, 5 milhões de reais para a produção, imagine levantar mais pelo menos 1 milhão de reais para divulgação, e o custo de mais 500 cópias e semanas de salas de exibição. Fica muito difícil o cinema independente atingir o grande público.

 

Acredita que conseguiria desenvolver um projeto tão bem-sucedido como o “Ecoprático” da TV Cultura, em outros canais da TV aberta?

O Ecoprático foi um projeto seríssimo cujo tema central é a sustentabilidade, tratada de forma divertida, dinâmica, em formato de reality. Não consigo ver isso acontecer, como produção independente que foi, dentro de nenhum outro canal de TV aberta no Brasil. Não vejo grade alguma de TV aberta onde esta proposta se encaixaria, com exceção da própria TV Cultura, que tem um conteúdo rico e de altíssima qualidade.

 

Como é passar a sua mensagem em plataformas díspares como cinema, televisão e espetáculos, e ainda sim manter a suas características que são únicas no mercado?

Para mim é como se fosse uma plataforma só. Não me sinto migrando de uma para outra, e sim dando o fluir natural do meu trabalho, que é a de contar histórias com imagens. Me sinto confortável e eficiente transitando entre mídias, não me apego à formulas e vou indo onde minha intuição me levar, sem medo de experimentar. A essência é a mesma, o que muda é a forma de download. Eu me divirto muito na direção artística de espetáculos, em quando se pode criar um universo próprio. Na televisão, mesmo existindo um certo padrão de linguagem, nunca me senti limitada em explorar e me atrever por alguns caminhos mais artísticos e autorais, grande exemplo disso foi o Fashion Splash na Fashion TV. Amo vídeo clips também, dá pra pirar bastante. Já no cinema, tenho toda a liberdade de autora, escrevo, dirijo e meu universo está inteiro lá, assim como nas minhas fotos. Meus curtas são fotos se divertindo em movimento. Meus documentários carregam meu olhar mais abstrato. Meu longa vai ser assim como tudo que crio, dentro do meu universo de infinitas possibilidades. Amo o surrealismo, as realidades alteradas, inventadas e isso levo comigo para qualquer que seja a plataforma.

 

No que está trabalhando atualmente, e qual o impacto que espera trazer com este novo trabalho, já que é uma criativa que atua em várias frentes?

Durante os últimos 2 anos estive em função puramente executiva, negociando, articulando, desenvolvendo, juntando, prospectando, um mar de planilhas… Este último ano em especial estive muito focada em network de conteúdo de televisão e produção internacional entre Los Angeles e São Paulo, especialmente séries de ficção. Estou batalhando para me estabelecer no mercado de lá, e fazer esta ponte. Em meio a erros e acertos nessa área, estou com a criatividade explodindo e sinto essa urgência de realizar. Sou uma fazedora de imagens e uma contadora de estórias. Mas o processo de viabilização até sua realização, me consome muito. Hoje estou me dedicando de coração, o máximo que posso, ao meu primeiro longa metragem, que está em fase de captação de recursos. Um processo longo que já teve muitos altos e baixos, e enquanto isso vou fazendo o que eu posso, ao meu tempo, libertando as imagens que estão presas na minha cabeça. Vou filmando do meu próprio bolso, filmei cenas em Tóquio, em Shanghai, em Hong Kong, em Los Angeles. Estou prestes a filmar uma cena central do filme, nas montanhas de Cunha (interior de São Paulo). Esta filmagem vai ter mais de 50 pessoas envolvidas entre equipe e atores, e vai me ajudar a entender as dinâmicas e vai me dar uma grande injeção de ânimo também, que é o que mais precisamos quando temos um projeto que acreditamos. É uma dura batalha, mas vai valer a pena no final. Já teve momentos que quase desisti, mas sempre tomo novo fôlego. Sei que o patrocínio virá, e estou pronta para receber. Este é meu sonho. Quando meu filme estiver pronto, sei que vou inspirar muita gente a viver essa liberdade que vivi ao longo deste processo, que tem sido difícil, mas foi fazendo o filme cada vez mais rico. Quero que os sonhadores e os realizadores ao assistir meu filme pronto, acreditem na possibilidade e no sucesso do cinema de autor. Estou fazendo meu filme sem medo de ser feliz.

Um vídeo da ópera eletrônica “O Guarani”

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.