Entrevista publicada em 04/11/2015 por Eder Fonseca em Negócios
 
 

“Nós não acreditamos em nós mesmos”
Ozires Silva – Presidente do Conselho de Administração da Anima Educação e fundador da Embraer

Ozires Silva

Coronel da Aeronáutica e engenheiro formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Ozires Silva destaca-se por sua contribuição no desenvolvimento da indústria aeronáutica brasileira. Capitaneou a equipe que projetou e construiu o avião Bandeirante. Liderou em 1969 o grupo que promoveu a criação da Embraer, uma das maiores empresas aeroespaciais do mundo. Deu início à produção industrial de aviões no Brasil. Presidiu a empresa até 1986, quando aceitou o desafio de ser presidente da Petrobras, onde atuou até 1989. Em 1990, assumiu o Ministério da Infraestrutura e, em 1991, retornou à Embraer, desempenhando um papel importante na condução do processo de privatização da empresa, concluído em 1994. Também atuou como presidente da Varig por dois anos (2000-2002). Criou em 2003 a Pele Nova Biotecnologia em Ribeirão Preto, primeiro fruto da Academia Brasileira de Estudos Avançados, empresa focada em saúde humana cuja missão é a pesquisa, desenvolvimento e produção de tecnologias inovadoras na área de regeneração e engenharia tecidual. Ozires Silva também faz parte de uma série de Conselhos e de Associações de Classe. Atualmente é presidente do Conselho de Administração da Anima Educação, controladora da Unimonte em Santos onde é o reitor. “Realmente a infraestrutura é absolutamente essencial para qualquer projeto”, afirma o empreendedor.

 

Muitos apontam o senhor como um dos maiores empreendedores do país; o homem que sonhou que o Brasil poderia ser vendido para o mundo com s e não com z. Como se sente quando olha para trás, e vê que criou empresas que são verdadeiros orgulhos do nosso país?

Ah, eu fico muito contente, e sinceramente agradeço a todas as pessoas que me ajudaram. Empreendimentos dessa magnitude, não poderiam ser realizados por uma só pessoa. Existiram pessoas diferenciadas que pensavam da mesma forma que eu. Dessa forma nós conseguimos todos juntos, executarmos esse trabalho que hoje mostra que as empresas que nós construímos, são muito maiores que os sonhos que tínhamos no passado.

 

Alguns analistas dizem que melhorias na infraestrutura do nosso país são necessárias e urgentes. Como vê essa questão, já que em 1990, o senhor esteve à frente do extinto Ministério da Infraestrutura?

Realmente a infraestrutura é absolutamente essencial para qualquer projeto, nós sabemos disso. O cidadão depende da infraestrutura de uma forma ou de outra, tanto que agora estamos falando pelo telefone, e sem uma infraestrutura dessa natureza, isso não seria possível. Apenas o que eu lamento, é que o Brasil tenha seguido um caminho, onde todos os projetos de infraestrutura, tenham que passar pelo Governo. Investimentos deveriam ser feitos com mais vigor pelo setor privado, como acontece na maioria dos países. Evidentemente a nossa infraestrutura hoje está abaixo do que nós desejamos por insuficiência de caixa. O Governo não tem capacidade, não só apenas de investimento, mas também de gestão e eficiência. Teriam que ter esses fatores, pelos quais pudessem fazer com que esses investimentos essenciais para o cidadão, fossem ainda mais ampliados, mas o que acontece no Brasil é exatamente o contrário.

 

O capitalismo de Estado “à brasileira” fracassou?

Eu não diria que fracassou, mas eu diria que tem sido absolutamente insuficiente. É outra coisa que herdou da iniciativa do Governo. Lembro que quando estava no Ministério da Infraestrutura, eu abri concorrência da telefonia celular para o setor privado, porque eu entendia claramente que as empresas estatais que nós tínhamos, tanto a Embratel como a Telebras, não tinham condições de fazer os investimentos necessários. Eu digo para as pessoas que estão lendo agora, que o telefone celular foi uma grande revolução. Se eu tivesse deixado como ministro que era na época, que os investimentos ficassem apenas entre Embratel e Telebras, seria absolutamente insuficiente a capacidade de realização. Eu me lembro que discutia com o pessoal do Ministério e dizia para eles, que tinha que ser um telefone para cada brasileiro. Imagina que quando essa decisão foi tomada em 1990, nós tínhamos apenas dois milhões de telefones no Brasil para uma população de 150 milhões de habitantes. Muita gente achava que era mais um sonho de uma noite de verão, mas eu dizia que cada brasileiro teria um telefone no futuro, e hoje vemos que existe mais de um telefone para cada brasileiro, graças a tecnologia do celular que foi iniciada por investimentos privados e que facilitaram enormemente a vida de cada cidadão.

 

Na condição de ex-presidente da Petrobras, como enxerga a situação atual de uma das joias do Brasil?

O caso da Petrobras é mais ou menos o mesmo. Em 1953, quando o presidente Getúlio Vargas criou a companhia, ele distribuiu entre o imaginário popular “que o petróleo é nosso”, mas na realidade esse “petróleo nosso” significava que teríamos investimentos, de um pool de empresas ligadas ao Governo brasileiro. Se nós olharmos para os países que iniciaram a produção de petróleo no mundo, esses países nos ultrapassaram extraordinariamente, porque não ficaram limitados na capacidade governamental de investir. Particularmente defendo que um país só pode se desenvolver com todas as forças disponíveis no seu território, para fazer assim um grande desenvolvimento. Entendo que não venha ser restrito só a capacidade governamental de investir, ao contrário, o setor privado é tão brasileiro quanto o Governo que está instalado em Brasília, de modo que nós precisamos tanto do Governo como do capital privado. Não pode haver também a exclusão governamental, é claro. A Petrobras levou mais de 50 anos para chegar a alto-suficiência. Se nós olharmos por exemplo, para um sistema mais desenvolvido que eu acompanhei bastante de perto na Angola, veríamos que aquele país já produz mais petróleo que o Brasil. Angola tem um grupo empresarial estabelecido há 30 anos, que já é maior que a Petrobras hoje.

 

Como ser uma empresa diferenciada, valorizada e ao mesmo tempo inovadora?

Bom, isso representa algo que eu acredito fortemente. A inovação, só ocorre em um clima de liberdade. Se não houver liberdade de investir, de criar, de praticar investimentos, evidentemente e absolutamente, nada se torna nem ao menos diferenciado. Se nós olharmos aqui para América por exemplo, tanto para os Estados Unidos como para o Brasil, são dois países com as mesmas dimensões, descobertos mais ou menos no mesmo tempo, e no entanto vemos os Estados Unidos como um dos países mais inovadores do mundo, se não o mais inovador. O mercado brasileiro, está absolutamente ocupado com marcas e produtos desenvolvidos em outros países, mas o contrário não ocorre com a mesma força. Se nós olharmos o próprio exemplo da Embraer, que se tornou um projeto de sucesso, começando com o conhecimento do Governo Federal, que criou o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) em São José dos Campos, preparando a mão-de-obra necessária, podemos ver que o desenvolvimento foi feito juntamente com o setor privado, embora a Embraer tenha começado como uma companhia estatal. Se nós olharmos a Embraer em 1991 quando ela começou o seu processo de privatização, haviam duas Embraers. Uma delas limitada pelo capital estatal, e a segunda que começou em 1994, quando a privatização foi aprovada, fazendo a companhia se multiplicar. Hoje nós temos uma companhia brasileira, com mais de 20 mil empregados, faturando quase 7 bilhões de dólares anuais, e exportando aviões para o mundo inteiro. Se isso fosse limitado e sem essa liberdade dita no começo, jamais teria acontecido

 

Falando em Embraer, como vê atualmente, a empresa da qual foi o fundador?

A Embraer hoje eu diria claramente que é uma realidade muito maior que o sonho. Pode imaginar que quando nós começamos esse trabalho, o grau de credibilidade do Brasil era mais que negativo. Ninguém acreditava que um dia nós pudéssemos vencer, trazendo um diferencial, e se tornando um quase competidor de outras grandes empresas. Se nós olharmos o mercado mundial hoje, nos vemos a Boeing e Airbus dominando o mercado de transporte aéreo de um modo geral. Na outra ponta, vemos uma Embraer num mercado de transporte aéreo regional, que aliás, foi um mercado praticamente identificável e desenvolvido pela empresa. Temos essa noção, como dito anteriormente, que a liberdade de empreender, foi o que criou um novo tipo de transporte aéreo. Esse tipo de transporte aéreo está avançando no mundo, ainda não é suficiente no Brasil, porque no nosso caso, o monopólio dos aeroportos criado em 1968 com a criação da Infraero, delimitou enormemente os nossos aeroportos. Inclusive quando nós olhamos pra nossa frota de transporte aéreo, e mesmo de transporte aeronáutica num país continental como o nosso, temos deficiências em vários aspectos, que certamente não existiria se houvesse um maior clima de liberdade de investimentos que nós infelizmente não temos no Brasil.

Palestras

Pioneirismo: Ozires Silva em uma de suas várias palestras (Foto: Sebrae/PR)

 

Uma frase do senhor: “A Boeing já lançou aviões que não deram certo e teve prejuízo de bilhões com isso, mas não quebrou. Se a Embraer falhar em um avião, será fuzilada aqui no Brasil”. Por que somos habituados a destilar fracassos, e não louvar sucessos?

Essa é uma boa pergunta, e a resposta está dentro do que eu coloquei. Nós brasileiros não acreditamos em nós mesmos. Não só o exemplo da Boeing, mas podemos também olhar para a Honda. A Honda nasceu depois de fracassar duas vezes no seu investimento. No Brasil se você fracassa uma vez, não pode fazer uma segunda tentativa. De modo que eu diria, que um bom exemplo, é o caso da Boeing, que sempre teve apoio do governo americano assim como a Airbus. Isso não quer dizer que o Governo tem que sempre ajudar as empresas, é como eu disse anteriormente, o sistema tem que se comunicar. O setor privado tem que ajudar o Governo e o Governo tem que ajudar o setor privado, porque os países que se desenvolveram e que estão se desenvolvendo, o fazem nesse clima de liberdade. Um caso que eu sempre cito pelo seu contraste, é o da Coreia do Sul. Um país que tem a metade da área do estado de São Paulo, tem um comércio exterior muito maior que o mercado brasileiro. A Coreia do Sul na década de 1970 era um país muito mais pobre que o nosso. Temos que usar todos os parâmetros, e todos os vetores que agregam para o desenvolvimento deveriam ser somados: Governo, capital estrangeiro, capital nacional… Todos inspirados pelo bem maior que é o país!

 

Sabemos que o desenvolvimento está naqueles países que produzem alta tecnologia e investem maciçamente em educação. Como o Brasil pode reverter o quadro que hoje é bem desfavorável?

Isso aí é algo que eu tenho refletido bastante a respeito. Depois de passar boa parte da minha vida, se dedicando à atividades na área industrial, eu passo a última fase da minha vida me dedicando a educação. A educação é realmente o grande instrumento diferencial. Evidentemente isso tem que ser generalizado na maior competência possível, porque ninguém sabe quando nasce um Albert Einstein, só pra ficar no exemplo do físico alemão. Se porventura o Einstein não tivesse nascido lá na Alemanha, um país desenvolvido através da educação, certamente ele não seria um físico aplaudido pelo mundo inteiro. Olhando para o outro lado, temos o exemplo de Israel. Como Israel com a população tão reduzida, tem tantas contribuições para o desenvolvimento do mundo? É justamente por causa de um sistema educacional abrangente, livre e não centralizado como não temos aqui sob o comando do Ministério da Educação. Quando o próprio Ministério da Educação, não conhece que mais de 70% da população é “analfabeta funcional”, ainda estamos longe de ser o país que aspiramos e sonhamos…

 

Qual o balanço que o senhor faz hoje do setor aéreo do nosso país, nisso incluindo empresas e aeroportos?

O negócio é analisar o desempenho do setor. Até dois mil e pouco, o Brasil era exportador de transporte aéreo. Hoje nós somos importadores de transporte aéreo. Não que eu seja contra a importação ou coisa desse tipo, eu não sou contra. Eu só acho que aquele clima de liberdade que falamos nas respostas anteriores, é necessário para o Brasil ter uma forma mais competitiva. Países até menores que o nosso, têm financiamento maior nesse setor. Temos o exemplo da KLM da Holanda, um país pequeno, mas que tem financiamento superior a todo transporte aéreo do país. Isso aí mostra claramente como está a situação. No setor governamental que cuida dessas questões, são quatro ou cinco chefes e eles não se falam. Eu trabalhei de forma mais eficiente, oferecendo às pessoas estímulo e apoio. Não sei se as pessoas sabem, mas a malha aérea brasileira opera em apenas 120 cidades, num país que têm 5.500 municípios. Existe uma série de parâmetros locais estabelecidos, que precisam ser modificados, para que nós possamos participar desse mercado mundial.Temos que encontrar algo que é profundamente necessário, afinal nenhum país do mundo está esperando que nós façamos o nosso desenvolvimento. O nosso desenvolvimento vai ser feito por nós mesmos! Temos que ter a plena liberdade de iniciar novos produtos, mas atualmente, tudo tem que ser submetido ao Governo e pelo planejamento das autoridades federais. Tudo isso traz limitação, o que tem colocado o Brasil numa posição retardatária.

 

Gostaria que o senhor falasse um pouco do seu trabalho como diretor da Unimonte.

A Unimonte é uma universidade relativamente pequena na cidade de Santos. Mas na realidade eu sou somente presidente do Conselho de Administração da mantenedora da Unimonte, que é o grupo Anima Educação. Ao todo são 80 mil alunos e logicamente no nosso trabalho, estamos levando essas ideias de abertura, de liberdade, de criatividade, estimulando a inovação na nossa instituição, e mostrando que isso traz resultados efetivos. Nós temos que acreditar que cada brasileiro tem um potencial muito maior do que nós podemos imaginar, e não ficar restringindo o nosso povo por regras pré-estabelecidas do passado, num excesso legislativo. O Brasil talvez seja o país no mundo que tenha mais legislação e essa legislação tem sempre um caráter restritivo, sempre colocando sob a decisão final das autoridades o que pode ser feito e o que não pode ser feito.

Se nós tirarmos como exemplo o Steve Jobs nos Estados Unidos, ele lutou e construiu a Apple com recursos criados lá no Vale do Silício na Califórnia. Recursos de capital de risco, colocados tanto pelo governo quando pelo setor privado em regime de ampla liberdade. Como resultado ele construiu a companhia hoje mais valiosa do planeta, que vende para o mundo inteiro num sistema estruturado de distribuição e venda que talvez não tenha paralelo na história. Se Steve Jobs trabalhasse como a maioria dos inventores e pesquisadores brasileiros, sozinhos nos seus laboratórios, sem apoio, sem coisa nenhuma, Jobs hoje seria absolutamente desconhecido. Ele é conhecido simplesmente por que criou produtos novos e inovadores e que estão podendo ser vendidos e distribuídos no mundo inteiro. A própria história da Embraer mostra o quanto isso é verdadeiro. Se nós tivéssemos feito aviões aqui no país pra tentar vender no Brasil, dentro das regras restritivas que nós temos, certamente nós não poderíamos comemorar hoje que nós temos aviões brasileiros voando em 90 países do mundo, que é uma realização maior do que o sonho que nós imaginávamos como falei anteriormente.

 

O senhor acredita que conseguiu realizar tudo aquilo que projetou para a sua vida profissional, ou ainda falta algo na sua brilhante trajetória?

Eu gostaria de dizer que eu acho que foi suficiente, mas não foi suficiente. Graças a Deus a Embraer está na rota correta agora, uma companhia que distribui empregos, distribui possibilidades, leva “as asas brasileiras”, a atender as necessidades de outros países do mundo. Mas evidentemente cada um de nós tem uma vida e essa vida é limitada por um tempo produtivo, que nenhum de nós consegue escapar. Então nessas condições é necessário saber, que temos que fazer muito mais do que nós desejamos desde que ofereçamos as condições pra isso. Eu volto novamente àquela posição de que a educação abrangente atendendo a todos é muito importante. Eu queria apenas chamar a atenção para um aspecto muito particular. Quantos sábios não morreram aqui no Brasil antes de ter acesso à educação? Potencialmente cada neném que nasce hoje é um sábio, uma pessoa que vai contribuir para crescimento do país. Agora se esse neném que nasce hoje, não tiver todas oportunidades de atingir um nível requerido pela sociedade moderna, evidentemente o país terá uma perda de recursos humanos muito grande. Se nós olharmos o que eu chamo de “funil da educação”, no passado estima-se que 35 milhões de brasileiros entraram na escola. Se nós fizermos uma nivelação lá pelo passado, apenas 8 milhões terminaram o Ensino Fundamental, e desses 8 milhões do Ensino Fundamental, apenas 2 milhões entram para algum Curso Superior. Hoje nós estamos formando no Ensino Superior menos de 1 milhão de habitantes, quer dizer 0,5% da população.

Se nós compararmos o Brasil com a Coreia do Sul por exemplo, aquele país asiático está graduando 12% da sua população por ano no Ensino Superior. Eu não quero privilegiar o Ensino Superior em relação ao Ensino Fundamental, mas nós sabemos que ninguém chega ao Ensino Superior sem ter um bom Ensino Fundamental. O Ensino Fundamental no Brasil é um gargalo extremamente importante, porque de 35 milhões de brasileiros apenas 8 milhões se formam no Ensino Fundamental. O restante fica de fora de todo esse conhecimento mundial que é absolutamente competitivo, e que faz o Brasil atualmente ser apenas um país exportador de produtos primários… Então como é a sua última pergunta, eu termino o resumo dizendo que eu acho que nós temos que ter coragem de modificar todo esse quadro e fazer com que o nosso país seja aquela nação que todos nós desejamos. Quando chega no final do ano todo mundo deseja feliz ano novo. Todo mundo deseja um pais rico e próspero. Então devemos ter em mente, que isso não está acontecendo por força de restrições que nós seres humanos colocamos.

Um vídeo do empreendedor Ozires Silva

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.