Entrevista publicada em 4 de junho de 2018 por Eder Fonseca em Cinema
 
 

“Novas formas de distribuição são necessárias”
Silvio Tendler – Cineasta e fundador da Caliban Produções Cinematográficas

Silvio Tendler

Silvio Tendler produziu dezenas de filmes e séries. É conhecido como “o cineasta dos vencidos” ou “o cineasta dos sonhos interrompidos” por abordar em seus filmes personalidades como Jango, JK e Carlos Marighella, dentre outros. Em 1981 fundou a Caliban Produções, produtora direcionada para biografias históricas de cunho social. De 2011 a 2014, lançou três médias compondo a Trilogia da Terra, que alertam sobre os riscos dos agrotóxicos na alimentação e defendem “um Projeto de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário, baseado no fortalecimento da agricultura familiar e na democratização do acesso à terra através da Reforma Agrária”. Em 2015, recebeu o “Prêmio Noticiário ICAIC” da Associação Cultural Santiago Álvarez. Em 2016, no Colégio Cataguases, foi homenageado com a inauguração de um cineclube em seu nome (Cineclube Silvio Tendler). A iniciativa foi fruto de uma parceria entre o Projeto Escola Animada, do Polo Audiovisual Zona da Mata, e o IF Sudeste MG que funciona nas dependências desta escola. Está lançando “Dedo na Ferida”, eleito pelo público como “Melhor Documentário” no Festival do Rio 2017 e selecionado para a mostra competitiva do Festival de Havana (Cuba) em 2017. O filme chega às salas de cinema nas seguintes praças e datas: Rio de Janeiro (31 de maio), Fortaleza (5 de junho), Brasília (7 de junho), São Paulo (21 de junho) e Porto Alegre (21 de junho).

 

Silvio, a arte deve ter um papel social?

Acredito que sim. Não apenas, mas também. Podemos curtir uma arte lúdica e uma arte reflexiva. As duas formas são necessárias e essenciais. Gosto do que faço: discutir e pensar o mundo em que vivo através da arte que crio.

 

Sua obra política é bastante reverenciada. O que lhe levou para esse caminho?

Ter nascido em 1950, no pós-guerra, ter vivido minha infância durante os Anos JK com tudo de bom e esperançoso que vivi (inclusive como a primeira vitória do Brasil numa Copa do Mundo que ainda não era “da Fifa”), ter visto Eder Jofre lutar, Maria Esther Bueno vencer em Wimblendon, vivido a construção de Brasília, a luta por reformas sociais durante o Governo Jango, o golpe de 1964, a resistência dos jornalistas, artistas e estudantes, os filmes italianos, os da Nouvelle Vague, ter vivido o nascimento do Cinema Novo, a descoberta da sexualidade nas fotografias das últimas páginas das revistas semanais, das revistinhas de sacanagem, dos livros de Nelson Werneck Sodré, das passeatas estudantis, dos bares Velloso, Varanda, Limão Sul e Tangará ou, como escreveu Ortega y Gasset: “Eu sou eu e minhas circunstâncias”.

 

A democracia de JK e a justiça social de Jango (que você já afirmou em uma certa oportunidade) se findaram nos dias atuais?

O mundo mudou muito, algumas coisas para melhor, outras para pior. O “Estado de bem estar social” parece estar no fim, ainda que seguimos lutando para a manutenção das conquista sociais, mas não nos considero derrotados e acredito que a luta continua. Por isso e para isso faço os filmes que faço. O Costa-Gravas na França, o Ken Loach na Inglaterra e o Amos Gitai em Israel continuam lutando e acreditando.

 

Passar essas duas características para a tela (justiça social e democracia) foram seus maiores trunfos?

A luta contra os agrotóxicos em “O Veneno Está na Mesa” e agora contra a ditadura do sistema financeiro internacional em “Dedo na Ferida” são igualmente importantes.

 

O que faz um filme ser bem-sucedido em sua visão?

Ser discutido pela sociedade. No caso de meus filmes, ter saído das páginas de crítica cinematográfica para ocupar espaço nas páginas da política.

 

Como um filme com uma veia social pode também ter sucesso comercial?

Hoje em dia menos, cada vez menos. Nos anos 80, durante o processo de “Globalitarismo”, como o professor Milton Santos batizou a globalização de Reagan e Thatcher, o papel estratégico do cinema também foi determinado pela retirada das salas de cinema das ruas para serem escondidas em shoppings e o cinema passou a ser controlado pela própria natureza do espetáculo. Quem vai a um shopping assistir a um filme político? Muito pouca gente. As pessoas vão aos templos de consumo como adoradores dessa nova religião que é o consumo. Temos que repensar novas formas de viabilizar nossos filmes. Uma coisa é certa: desistir jamais!
Celso Amorim

Reflexões: O ex-ministro Celso Amorim e Silvio Tendler (Foto: Maycon Almeida/AP)

 

No Brasil temos o chamado “capitalismo de Estado”. A democracia por aqui também foi sequestrada por esse tipo de capitalismo?

O capitalismo no Brasil não terá sido uma invenção do Estado? A indústria pesada foi possível através da construção da CSN, barganhada por Getúlio Vargas com os norte-americanos através da cessão da Base aérea de Natal. A primeira fábrica da caminhões foi a FNM, estatal, criada por Getúlio; A indústria automobilística e a naval foram implantadas por JK através de benesses concedidas aos empresários, que “generosamente” cederam os nomes das suas famílias para implantar as empresas estrangeiras aqui. A chamada burguesia nacional em aliança com os economistas formados pela CEPAL é que implantaram estas políticas e que foram continuadas durante os governos militares. Bem-vindos os capitalistas que queiram investir. Conheço poucos, será que conheço?

 

Quais os principais erros da esquerda enquanto esteve no poder?

Não ter criado uma TV pública (estilo BBC e não tipo estatal); ter cooptado os movimentos sociais e não ter feito um projeto de reformas eficaz; não ter tido um projeto de desenvolvimento integrado a luta em defesa do Meio Ambiente e do equilíbrio ecológico. Foram muitos os erros, mas as políticas sociais superaram os erros e isso foi imperdoável para uma direita mesquinha e tacanha, que só pensa em seus privilégios.

 

Voltando ao cinema, como vê a chegada de outras plataformas para a distribuição de obras cinematográficas?

Com alívio. A abertura de novas formas de distribuição e produção são alternativas necessárias. Vamos a elas!

 

O que o seu documentário “Dedo na Ferida” tem de diferente das outras obras que já foram realizadas por você?

Não trabalho com arquivos. Introduzo um ator social, personagem da própria história, como fio condutor herói da sua narrativa. Só vendo.

 

A arte e sobretudo o cinema, estão colocando o dedo na ferida na atualidade?

Sim, recomeçaram. Passamos um momento adormecidos, neutralizados pelo “Globalitarismo”, voltamos a agir. Vejam “Dedo na Ferida” e depois conversamos.

Um vídeo de “Dedo na Ferida”

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.