Entrevista publicada em 17/12/2016 por Eder Fonseca em Artes
 
 

“O artista deve ser sempre corajoso”
Eduardo Srur – Artista visual, pintor e ativista

Eduardo Srur

Eduardo Srur é um artista visual surpreendente e altamente criativo. O artista começou com a linguagem de pintura e se destacou nas intervenções urbanas. Suas obras se utilizam do espaço público para chamar a atenção para questões ambientais e o cotidiano nas metrópoles, sempre com o objetivo de ampliar a presença da arte na sociedade e aproximá-la da vida das pessoas. A cidade é o seu laboratório de pesquisa para a prática de experiências artísticas. O conjunto de trabalhos de Srur é uma crítica conceitual que desperta a consciência e o olhar para uma nova estética e o entendimento das artes visuais. Realizou diversas intervenções urbanas na cidade de São Paulo e participou de exposições em muitos países, entre eles Cuba, França, Suíça, Espanha, Holanda, Inglaterra e Alemanha. É idealizador e proprietário da ATTACK Intervenções Urbanas, uma empresa especializada na produção de projetos especiais no espaço urbano. A intervenção urbana promove um engajamento maior da arte com o mundo e propõe transformar o cotidiano de milhares de indivíduos a cada exposição. Ao criar intervenções, Srur rompe os limites do sistema artístico e amplia a presença da arte na sociedade. “O mundo das artes faz parte deste enorme supermercado que é a sociedade de consumo atual. A identidade do consumo, no nível que está, prejudica o planeta e a forma como nos relacionamos com a natureza”, afirma o artista visual.

 

Eduardo, a arte deve sempre ter um papel social?

Não, a tarefa do artista é difícil o suficiente para ter que assumir esta responsabilidade. Por outro lado, se a obra do artista construir esta capacidade – romper o campo institucional e mercadológico para atingir a esfera social – haverá uma obra mais influente, comprometida e expansiva, e a atuação do artista será mais efetiva na sociedade.

 

Em que momento você notou, que as intervenções urbanas eram um modo eficaz de mexer com a consciência das pessoas?

Percebo isso a cada nova intervenção porque a arte provoca a consciência, tira as pessoas da anestesia cotidiana. A intervenção urbana ativa os sentidos adormecidos, ataca de surpresa e faz enxergar a realidade de um novo ponto de vista. Por estar inserida no campo urbano, trabalha mais intensamente a percepção das pessoas e esta atividade pode conduzir a um estado de reflexão e transformação da consciência. Com sorte, a arte pode levar a mente a um estado elevado de consciência e de autoconhecimento.

 

A cidade é o seu principal laboratório de pesquisa para suas experiências artísticas. Quais são os “produtos” que nunca podem faltar neste laboratório, para que estas experiências sejam bem-sucedidas?

Os ingredientes indispensáveis são a pesquisa, investigação e o reconhecimento de campo. Estabelecer diálogo amplo com a sociedade, ter persistência na ideia e o manter confronto com o sistema. O trabalho funciona quando existe uma estratégia por trás e um objetivo a ser atingido. Outro ingrediente indispensável é ser verdadeiro consigo mesmo, ouvir sua intuição e trilhar o caminho que só você acredita com determinação, coragem e postura. Ninguém vai te pedir para ser artista.

 

Na sua obra “Supermercado”, o ponto central é o consumo que domina a sociedade. Quando este consumo atrapalha o mundo das artes em sua visão?

O mundo das artes faz parte deste enorme supermercado que é a sociedade de consumo atual. A identidade do consumo, no nível que está, prejudica o planeta e a forma como nos relacionamos com a natureza. Com a nossa natureza humana inclusive. O mundo da arte surfa a onda do mercado. O artista deve estar atento para não se tornar um produto de galeria somente. Esta obra foi exposta na entrada de um museu importante da Europa o The Museum of European and Mediterranean Civilisations (MuCEM) e tratava de desperdício, excesso, impulso. Mas também tratava do artista como um possível objeto de consumo exposto na gôndola. Produto bom, é produto exposto. Mas o artista deve focar no processo e não no produto da sua obra.

 

Hoje você vê o mundo como um pintor. Qual o principal diferencial que essa visão lhe trouxe para realização de suas intervenções urbanas?

Vejo o mundo como um pintor porque minha formação artística foi com a linguagem pictórica. Trabalho com a pintura a mais de 20 anos e devo atribuir minha percepção do mundo – sua alteração e detalhamento – a este olhar construído com a pintura. O processo de reflexão do mundo cabe no tempo dedicado a pintura, a preparação deste repertório e de uma poética estruturada na história da arte. Sou grato a pintura porque tenho uma formação sólida de artista. As intervenções não surgiram por acaso ou de experimentos aleatórios. Elas são a extensão e o resultado da investigação deste longo período imerso no ateliê com a pintura.

 

Você já disse em uma certa ocasião, que a intervenção urbana pode transitar em todas as linguagens consideradas plásticas. Quando você pessoalmente considerou que tinha achado sua identidade única em todas as linguagens em que havia trabalhado?

A identidade de cada artista depende de suas ideias e não da linguagem que utiliza para se expressar. Quando digo que posso transitar livremente entre as linguagens plásticas com uma intervenção, aponto para a importância do conceito que define todas as etapas do trabalho. Hoje não faz mais sentido um artista ficar preso a pintura, fotografia, escultura ou vídeo se ele tem amplitude para navegar entre elas. A era contemporânea comprova a cada dia que não existem fronteiras no conhecimento e seria muito precário uma pessoa que se define como artista ficar preso a uma fórmula ou linguagem dentro do seu trabalho.

Performance Supermercado

Intervenções: Eduardo Srur na performance “Supermercado” (Foto: Arquivo/AP)

 

O que é mais difícil para um artista que trabalha com intervenções urbanas, provocar o olhar ou trazer uma nova perspectiva do pensamento?

São dois momentos, um antes do outro. Primeiro você provoca o olhar e depois cria uma nova perspectiva do pensamento. Minha obra aproxima o observador e provoca a reflexão com dinamismo. Um curador disse que minha obra comunica antes de explicar. E eu defendo o artista como um indivíduo que desata nós da mente. Minha obra não é um enigma a ser decifrado, ela é um facilitador, um elo que permite o observador penetrar no universo da arte e sair com uma experiência.

 

Você utiliza o espaço público para chamar a atenção para duas questões primordiais do nosso tempo, que são os problemas ambientais e o cotidiano das metrópoles. Como tem visto a discussão destes dois temas pela sociedade?

Muita discussão e pouca ação. A sociedade fala demais e age de menos nestes assuntos que definirão o século. A relação do homem com a natureza é um tema de interesse da arte ao longo da história da humanidade. É impossível não notar as distorções contemporâneas e o desequilíbrio desta relação nos dias atuais. A vida nos grandes centros urbanos terá mudanças complexas por falta de ação e a natureza dá sinais de esgotamento há décadas. Minhas obras ilustram nossos erros urbanísticos e ambientais: pontes obsoletas de concreto, rios contaminados, hospitais abandonados, consumo em excesso, poluição, violência. Veja a abertura das Olimpíadas no Rio de Janeiro. O show se sustentava no conceito de sustentabilidade, preservação. Mas na prática não fizeram nada neste sentido. Um discurso vazio e mentiroso.

 

Outra coisa que sempre diz, é que o artista precisa democratizar a mensagem. Nos fale um pouco mais sobre isso se possível.

O artista deve encontrar mecanismos para ampliar a mensagem da sua obra. O que eu quero falar? Como levar a mensagem para mais pessoas quando o circuito da arte mostra-se limitante e pouco acessível ao público? A intervenção urbana não está no museu porque pouca gente vai ao museu. Ela avança no cotidiano da cidade, funde-se a vida urbana e permite o encontro da arte com diferentes públicos. Favorece a aproximação entre artista e espectador. É importante criar uma obra aberta, processual que gera diversas interpretações, reações e até a participação das pessoas. Isso é um modelo de democratização da arte.

 

O artista Kristofer Paetau, afirmou que de um modo geral, os artistas não têm muita coragem para realizar algo inesperado e forte. Tem essa mesma impressão?

A coragem significa sair da zona de conforto, correr riscos. O artista deve ser sempre corajoso, sua única forma de sobrevivência é fazer apostas, desafiar o que já está estabelecido. A história da arte prova isso o tempo todo. Mesmo com esta constatação, os artistas no geral, não tem esta coragem porque é da natureza humana permanecer na zona de conforto. E quando bem-sucedidos, podem ficar presos a uma fórmula.

 

Sempre quando se fala em Eduardo Srur, as frases são “Um artista em prol do Meio Ambiente” ou “Um artista da cidade”. Qual das duas definições se encontra mais próxima daquilo que você quer mostrar em seus trabalhos?

Talvez as duas definições. Mas não penso nestes rótulos quando estou trabalhando. O artista deve tomar cuidado para não cair em sua própria armadilha.

Um vídeo do artista visual Eduardo Srur

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.