Entrevista publicada em 24/04/2013 por Eder Fonseca em Ativismo
 
 

“O Brasil é racista e classista”
José Vicente – Reitor da Faculdade Zumbi do Palmares e fundador da ONG Afrobras

Filho caçula de boias-frias, José Vicente nasceu e cresceu no Morro do Querosene, bairro pobre de Marília, no interior de São Paulo. É mestre em administração e doutor em educação pela Universidade Metodista de Piracicaba; fundador e presidente do Instituto Afro-brasileiro de Ensino Superior; fundador e presidente da Afrobras (Sociedade Afro-brasileira de Desenvolvimento Sócio Cultural); membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (CDES); membro do Conselho de Auto Regulação Bancária da Federação Brasileira de Bancos (Febraban); membro do Conselho Superior de Responsabilidade Social da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) além de outras instituições. “A bandeira da inclusão, oportunidades iguais e valorização do negro que antes era defendida pela Zumbi em 1999, transformou-se em agenda nacional e política pública do país. As cotas, as ações afirmativas e as políticas inclusivas defendidas e perseguidas pela Zumbi, hoje são a base da ação política e econômica do país que, além de permitir o ingresso de milhares de jovens negros no ensino superior. (…) Na minha opinião o Brasil é racista, classista e mesmo regionalista e sexista. Negros com alto poder aquisitivo e ocupante de postos de prestígio sofrem a mesma discriminação que o negro pobre. Um negro rico e um branco pobre numa mesma situação sofrem a mesma discriminação.”

 

Na sua visão, o Brasil é um país racista, ou indiferente com aquele que não tem dinheiro seja esse branco ou negro?

Na minha opinião o Brasil é racista, classista e mesmo regionalista e sexista. Negros com alto poder aquisitivo e ocupante de postos de prestígio sofrem a mesma discriminação que o negro pobre. Um negro rico e um branco pobre numa mesma situação sofrem a mesma discriminação, aquele de classe e esse de raça.

 

Quando fazíamos a pesquisa para entrevistá-lo, muitas reportagens diziam: “O reitor da faculdade voltada para afrodescentes”. Por que o senhor acredita que no Brasil, exista tanto pudor e dificuldade de dizer a palavra negro?

A dificuldade decorre da resistência de aceitar e enfrentar a realidade da discriminação decorrente do racismo, na impossibilidade de apagar o fenômeno procura-se conceituações, nomeações que possam atenuar e tornar mais leve a inflexão negros x brancos.

 

Em uma certa oportunidade, o senhor disse que as faculdades não têm condições e nem interesse de melhorar a vida dos negros, e por essa razão criou a Zumbi dos Palmares. Isso mudou de lá para cá?

Mudou extraordinariamente. A bandeira da inclusão, oportunidades iguais e valorização do negro que antes era defendida pela Zumbi em 1999, transformou-se em agenda nacional e política pública do país. As cotas, as ações afirmativas e as políticas inclusivas defendidas e perseguidas pela Zumbi, hoje são a base da ação política e econômica do país que, além de permitir o ingresso de milhares de jovens negros no ensino superior e no mercado de trabalho, criou pela primeira vez no país uma classe média onde os negros são a maioria de seus componentes. Então as universidades públicas e particulares com as cotas e o Prouni (Programa Universidade Para Todos) por exemplo, foram empurradas para abrir espaço e indiretamente participar dessa melhoria social econômica do negro na sociedade.

 

Muita gente que se revela contra as cotas nas universidades, dizem que ela aumenta o racismo ao invés de diminuí-lo. Como vê essa afirmação?

Eu acho que as cotas nem aumentam nem diminuem o racismo pré-existente na sociedade. Ela simplesmente combate-o de forma satisfatória, porque não o ignora e seu resultado, que acaba indiretamente intervindo na produção de mudança social. O objetivo das cotas não é combater o racismo e sim produzir o acesso mais igualitário ao espaço público e republicano da educação superior.

 

Em fóruns da internet, milhares de pessoas são contra o “Dia da Consciência Negra” comemorado no dia 20 de novembro. A alegação é que não existe o “Dia da Consciência Branca”, por isso essa data não poderia jamais existir no calendário. Qual a sua visão sobre esse tema?

Trata-se de uma leitura desconectada e aleatória das motivações políticas e do histórico dessa data. O dia da “Consciência Negra” afirma o compromisso e marca o reconhecimento social da luta do negro e do povo brasileiro contra a exclusão e violência históricas perpetradas contra o negro política, social e juridicamente no passado e a desqualificação, a exclusão motivadas pelo racismo e a discriminação do presente. Um registro do reconhecimento do país a forma equivocada com que os negros foram tratados, e o compromisso com o resgate dos valores, identidade e de sua cultura, a partir da dualidade estrutural que se estabeleceu a partir da escravidão: o senhor, dominador e superior branco cujo pensamento, valores e visões eram positivos e virtuosos, e, por isso exaltados e valorizadas; e, o escravo, negro, subordinado e inferior cujos valores, visão, pensamentos e crenças, eram negativadas, combatidas e desqualificadas. Nesse sentido, todos os dias foram e são dias de afirmação da “Consciência Branca” e de Combate a “Consciência Negra”. O combate, dessa forma, trás embutido um olhar maniqueísta do ranço racista e da resistência a tratamento de igualdade e equidade no reconhecimento do valor e simetria das trajetórias históricas.

 

“Um negro no STF terá uma carga histórica e emotiva extraordinária.” Quando disse isso, Joaquim Barbosa ainda não era ministro e muito menos presidente do Supremo Tribunal Federal. Como vê a atuação do ministro especialmente no polêmico caso do chamado “Mensalão?”.

A postura do ministro Joaquim Barbosa na condução do STF tem sido extremamente séria e irrepreensível. No caso do Mensalão essa seriedade extrapolou todos os limites e mostrou para o país um jurista dedicado, probo e profundamente compromissado com os valores do estado democrático de direito e da cidadania. Um jurista com senso de responsabilidade política e com profunda capacidade de ouvir e interpretar a voz rouca do conjunto virtuoso da sociedade. Uma carga histórica e emotiva que levanta a autoestima de cada negro brasileiro e está ajudando a mudar os valores e devolver a esperança da justiça para toda sociedade brasileira.
Faculdade Zumbi dos Palmares

Sonhos: Alunos na Faculdade Zumbi dos Palmares (Foto: Zumbi dos Palmares)

 

Você disse que se pegarmos o Programa do Faustão, temos 20 bailarinas brancas e uma negra lá atrás, no fundão… Acredita que figuras poderosas e influentes como a bilionária apresentadora norte-americana Oprah Winfrey, não vingariam na televisão brasileira mesmo tendo um talento indiscutível?

Acredito que não porque no Brasil o pensamento e a estratégia dominante de definição estética é branca e, diferentemente dos Estados Unidos, não temos qualquer legislação que obrigue ou incentive a difusão das demais estéticas da representação nacional.

 

O cineasta Spike Lee esteve no Brasil e se disse chocado com a pouca quantidade de negros no poder. Como mudar esse cenário?

Com a transformação da diversidade racial, a diversidade, em valor social, com legislação que incentivem ações nesse sentido, com políticas públicas que criem condições de participação igualitária de negros nos postos de prestígio e direção do país e com qualificação mais intensa dos jovens negros para participar desses espaços.

 

Morgan Freeman, afirmou que o racismo só acabará quando não falarmos mais dele. O senhor concorda com ele?

Não concordo com Morgan Freeman. Eu acho que o racismo e suas variações jamais acabará por se tratar de um traço incontrastável da personalidade humana. Deixar de falar, de se preocupar e de combatê-lo será uma outra maneira de dar as costas e de ignorar o sofrimento de suas vítimas. Seria, na verdade, um incentivo para que ele permaneça impunemente colocando em xeque o alcance e o usufruto eficaz dos valores civilizatórios e da paz e segurança dos indivíduos e das nações.

 

O senhor foi um dos mais ativos membros da sociedade brasileira para que o Estatuto da Igualdade Racial entrasse em vigor em nosso país. Depois de quase três anos da criação do documento, qual foi o avanço mais notável?

Nenhum, a Lei não pegou e não houve e não há qualquer interesse que ela seja cumprida em toda sua exatidão. Assim, como os negros não tiveram interesse ou capacidade de exigir a sua plena vigência.

 

No final do ano passado, duas obras de Monteiro Lobato (“Caçadas de Pedrinho” e “Negrinha”) foram tachadas de racistas. Muitos questionaram dizendo que isso seria uma censura, um retrocesso. Na visão do senhor a obra é racista, ou houve um certo exagero?

Há manifestações racistas nas obras do passado e do presente. O questionamento não era sobre o viés racista que todos concordaram existir. A questão era se uma obra dessa natureza poderia continuar sendo a base de ensinamento para as crianças nas escolas públicas. Na minha opinião a obra tem manifestações racistas e a revindicação que não fosse acessada pela escola pública sem a devida contextuação está colocada corretamente.

 

Alguns sociólogos, afirmaram que a Faculdade Zumbi dos Palmares é tão racista quanto o próprio racismo que ela diz lutar, já que quando se propõe a qualificar e a capacitar o negro brasileiro, cria dois mundos, um dos negros e outro dos brancos. O senhor fica irritado quando fazem esse tipo comparação?

Não fico irritado porque uma afirmação dessa natureza não tem qualquer fundamento. A Faculdade Zumbi dos Palmares não qualifica negros para atuar no mundo negro, ela o faz para torná-lo melhor e mais apto e consciente cidadão, para atuar em qualquer mundo. Ela prepara o negro e o branco para conhecer e combater a discriminação e o racismo em qualquer dos mundos. Ela trabalha para promover o diálogo e a integração entre negros e não negros. Ela procura igualizar negros e brancos num mundo real onde a desigualdade é a regra. O foco é a igualização e não a diferenciação, a distinção.

 

O modelo da Faculdade Zumbi dos Palmares deve ser replicado em quantos países?

Não sei se deve, mas acho que pode se replicado, aprimorado e adequado para muitas outras realidades semelhantes à do negro no Brasil.

Um vídeo do reitor José Vicente

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.