Entrevista publicada em 8 de setembro de 2017 por Eder Fonseca em Cinema
 
 

“O crítico não exerce poder algum”
Pablo Villaça – Crítico de cinema e editor do site Cinema em Cena

Pablo Villaça

O mineiro Pablo Villaça é um dos críticos cinematográficos mais respeitados do país. É editor do site Cinema em Cena, um dos mais antigos sites de cinema no Brasil, por ele criado em 1997. É crítico de cinema desde 1994. Colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema e Replicante, e foi colaborador do quadro Ponto Crítico da revista Set. Também é professor de Linguagem & Crítica Cinematográfica. Em 2001, obteve o prêmio teatral SESC-SATED na categoria “Melhor Texto Adaptado”. Foi apresentador e roteirista do programa Cinema em Cena, que foi ao ar durante dois anos (2000-2001) pela TV Horizonte. No ano de 2002, Pablo passou a ser o único latino-americano a ser membro da Online Film Critics Society. Ainda publicou colunas em língua inglesa no website Hollywood Elsewhere. Em 2005 lançou seu primeiro livro, O Cinema Além das Montanhas, biografia do cineasta Helvécio Ratton. Em 2007, foi o único profissional estrangeiro, entre 15 convidados, a participar em Nova York de um seminário sobre Crítica de Cinema promovido pelo The New York Times e pelo Museum of the Moving Image. Também dirigiu e escreveu o curta-metragem A Ética. Atualmente colabora com o “Movie City News”, além de ser o único brasileiro a ser citado pelo Rotten Tomatoes, o mais famoso portal de crítica cinematográfica da internet.

 

Pablo, quando você acredita que o cinema deve ter um papel social?

Sempre. O filme não precisa ter tons políticos para ter função social; o mais escapista deles ainda assim exercerá a função de servir como entretenimento, o que é fundamental. Dito isso, mesmo estes que parecem “vazios” trazem, como subtexto inevitável, os pontos de vista de seus realizadores e que, por sua vez, podem (e vão) inspirar todo tipo de resposta no público.

 

Sua avó era apaixonada por cinema. Qual a influência dela no ofício que escolheu?

No exercício da crítica em si, nenhuma. Mas, mais importante do que isso, foi o amor pelo cinema que ela inspirou em mim e sem o qual eu obviamente nem cogitaria trabalhar na área. Era uma mulher formidável, uma avó maravilhosa e uma cinéfila ímpar.

 

Em que momento o cinema lhe fascinou?

Desde criança, quando ia ao cinema assistir aos filmes dos Trapalhões ou ficava em casa vendo Jerry Lewis [comediante, roteirista, produtor, diretor e cantor norte-americano. Tornou-se famoso por suas comédias estilo pastelão feita nos palcos, filmes, programas de rádio e TV e em suas músicas, 1926 – 2017] na sessão da tarde. Associados à paixão que minha avó nutria pelo cinema e com a qual nos contaminava, estes comediantes logo fizeram que eu passasse a associar o cinema a sensações agradáveis e, desta forma, o amor por ele se tornou inevitável.

 

O que sobrava antigamente na experiência de assistir filmes no cinema e que você sente muita falta atualmente?

A chance de ver filmes com som original nas salas de cinema e, da mesma forma, de conseguir fazê-lo sem a falta de educação crescente exibida por muitos espectadores, que conversam, atendem telefone ou acendem a luz do celular de cinco em cinco minutos para conferir WhatsApp e Facebook.

 

Ainda existem intelectuais no cinema, ou seja, aqueles que elevam a sétima arte em uma real forma de arte?

Claro que sim – e sempre haverá. Tanto na realização quanto na academia e na crítica. Dito isso, o cinema é uma “real forma de arte” independentemente do calibre intelectual dos envolvidos. Ninguém questionaria a condição de “arte real” de uma peça de teatro, de um livro ou de uma canção em função de uma percepção (verdadeira ou não) do “intelectualismo” de seus realizadores; o cinema é sempre cobrado e atacado por critérios que raramente são aplicados às outras formas de expressão artística, o que é uma tremenda injustiça.

 

Como enxerga a crítica que é feita no Brasil?

Com admiração. Temos excelentes profissionais tanto na mídia impressa (Luiz Zanin, Paulo Henrique Silva), quanto na digital (Neusa Barbosa, Cecilia Barroso) e no YouTube (Tiago Belotti, Joyce Pais).
O renomado

Sétima Arte: O renomado crítico de cinema Pablo Villaça (Foto: Felipe Adati/AP)

 

Qual o real poder do crítico de cinema?

Não se trata de poder, mas de possibilidade. O (bom) crítico tem a possibilidade de ajudar o espectador a compreender mais sobre a linguagem do cinema, sobre sua estética e sobre sua história. Costumo dizer que o espectador médio enxerga menos de 20% de um filme, já que tende a se concentrar nos atores e na história contada; o crítico pode ajudá-lo a perceber os outros 80%, incluindo a direção de arte, os figurinos, a montagem, o som e assim por diante. Fora isso, o crítico não exerce “poder” algum – e definitivamente não tem influência sobre resultados de bilheteria. E nem deveria ter.

 

Existiu algum filme que “explodiu” a sua cabeça e que ainda explode?

A trilogia O Poderoso Chefão, que é a melhor coisa que o cinema já produziu. Seguida de perto por Cabra Marcado para Morrer, do mestre Eduardo Coutinho [cineasta e jornalista brasileiro. É considerado por muitos como um dos maiores documentaristas da história do cinema do Brasil. Tinha como marca realizar filmes que privilegiavam as histórias de pessoas comuns, 1933 – 2014].

 

Qual diretor de cinema na atualidade, você acredita realizar um trabalho digno dos grandes mestres?

Martin Scorsese [cineasta, produtor de cinema, roteirista e ator norte-americano. É amplamente considerado como um dos maiores diretores de todos os tempos, 1942 - ], Paul Thomas Anderson [cineasta norte-americano nomeado duas vezes ao Oscar de melhor roteiro original por Boogie Nights e Magnólia. É considerado um dos melhores realizadores da atualidade, 1970 - ], Júlia Murat [diretora de cinema, 1979 - ], Park Chan-wook [Diretor de Cinema, roteirista e produtor cinematográfico sul-coreano. Se formou na Sogang University em Filosofia e logo se tornou crítico de cinema e assistente de direção em 1988, 1963 - ], Pablo Trapero [diretor de cinema argentino. É um dos máximos expoentes do novo cinema argentino surgido em meados dos anos 90, 1971 - ], Eliane Caffé [cineasta, 1961 - ], Cristian Mungiu [realizador de cinema romeno. Em 2007, escreveu e dirigiu o filme 4 luni, 3 săptămâni şi 2 zile, premiado com a Palma de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Cannes, 1968 - ], Nanni Moretti [cineasta, ator e roteirista cinematográfico italiano. Cresceu em Roma e desde a adolescência cultivou suas grandes paixões, o pólo aquático e o cinema, 1953 - ], Lynne Ramsey [diretora de cinema escocesa, 1969 - ], Nuri Bilge Ceylan [roteirista, montador, fotógrafo, diretor e produtor de cinema turco. Ele é considerado um cineasta-autor, 1959 - ], Cristi Puiu [diretor de cinema romeno, 1967 - ] e muitos, muitos outros.

 

O uso exagerado do CGI (Imagens geradas por computador), tem matado o cinema em algum ponto, escondendo a falta de talento de alguns diretores e a fraca narrativa de alguns filmes?

Não particularmente. Efeitos visuais sempre trouxeram o melhor e o pior de bons e maus diretores; o CGI é só um exemplo contemporâneo. O problema nunca é a tecnologia, mas o artista.

 

Em qual país do mundo se pratica o melhor cinema na atualidade?

Brasil, Romênia e Coreia do Sul.

Um vídeo do crítico Pablo Villaça

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.