Entrevista publicada em 12 de março de 2018 por Eder Fonseca em Pensamento
 
 

“O globalismo é um adversário complexo”
Percival Puggina – Jornalista, escritor e arquiteto

Percival Puggina

Em 1985, com a redemocratização, Percival Puggina passou a se dedicar à atividade política, filiando-se à Frente Liberal (hoje DEM) e, posteriormente ao PDS (hoje PP). No primeiro, foi coordenador de bancada na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. No segundo, criou e presidiu, durante sete anos, a Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública, órgão doutrinário do partido no Rio Grande do Sul. Em 2013 desfiliou-se e não está mais integrado a qualquer partido político. A partir dos anos 80, dedicou-se, também, à atividade literária, escrevendo, semanalmente para centenas de jornais, revistas, sites e blogs em todo o país. Em 2002, criou a empresa Texto e Contexto Comunicação Ltda, da qual é sócio-diretor. É autor de “Crônicas Contra o Totalitarismo, Cuba – a Tragédia da Utopia, Pombas e Gaviões”, e “A Tomada do Brasil Pelos Maus Brasileiros”. Em 2010 foi agraciado com a medalha Simões Lopes Neto, por serviços prestados à cultura estadual e, em 2013 foi eleito para a Academia Rio-Grandense de Letras. É conselheiro do Instituto de Desenvolvimento Cultural e membro da Mesa Diretora da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Como leigo católico, foi coordenador estadual do Movimento de Cursilhos de Cristandade, presidiu a Associação dos Dirigentes Cristãos de empresas de Porto Alegre, e se dedicou ao estudo da Doutrina Social da Igreja.

 

Percival, com sua experiência de vida, poderia nos dizer como se encontra o nosso país neste momento pela sua ótica?

A sociedade brasileira passa por um processo de desagregação, motivado por diversos fatores entre os quais destaco: 1º) a incompatibilidade do modelo institucional com o atendimento das urgências do país e, 2º) a degradação dos padrões de conduta. Quanto ao primeiro, nosso modelo institucional gera instabilidade política e esta acarreta insegurança aos agentes econômicos. Quanto ao segundo, praticamente tudo que necessitaria ser feito para destruir os alicerces morais da sociedade está sendo feito: quaisquer diferenças viram conflitos, instituição familiar vive sob ataque permanente produzindo irresponsabilidade e desagregação dos laços, educação posta a serviço de pautas políticas, erotização da infância e ideologia de gênero, desrespeito ao direito de propriedade, deliberada confusão entre autoridade e autoritarismo, laicização da sociedade e expurgo da religiosidade em todos os ambientes; tolerância às rupturas da ordem pública, severo controle da polícia e descontrole da criminalidade, desencarceramento, impunidade, justificativas sociológicas para a opção pela vida criminosa e por aí vai.

 

Estamos (de um modo geral) descrentes com os homens públicos. Acredita que isso terá solução em um médio prazo?

Não creio. Seria necessário mudar substancialmente o modelo político. A combinação de presidencialismo com voto proporcional promove um péssimo recrutamento de lideranças e favorece a conduta irresponsável das pessoas recrutadas. Na política, a regra do jogo, além de determinar como ele deve ser jogado, também determina quem entra e quem não entra. Imagina-se para o próximo pleito uma forte renovação, mas a renovação sempre é expressiva na Câmara dos Deputados (um pouco acima dos 40%). Não espero que seja muito superior a isso. Não basta renovar; é preciso renovar com outros quadros e perfis. O Brasil tem estadistas, mas eles estão fazendo outras coisas.

 

Quais os maiores perigos que rondam a eleição presidencial de 2018?

A tendência, em eleições presidenciais diretas, é que a disputa se trave entre os candidatos mais agressivos em sua comunicação. É quase uma disputa no braço pela chefia da tribo. Esta eleição, presumivelmente, pode transcorrer sob um clima assim e isso é ruim. O que seria correto: 1º) mudar o sistema para um outro que separe a chefia de Estado da chefia de Governo e entregue esta segunda função ao líder da maioria parlamentar; 2º) encontrar para tal liderança alguém que cumpra a missão de atrair o eleitorado para um programa consistente de recuperação nacional; 3º) obter, assim, a legitimação, pelo voto, de um programa com o qual fica comprometida a maioria parlamentar. No cenário atual dificilmente teremos uma campanha diferente das anteriores, com muita conversa fiada, inconsistências e mistificações em que o importante é arrebanhar votos de cautos e incautos.

 

Um “messias” político, pode surgir neste contexto?

Claro, sempre haverá alguém para esse papel.

 

Vamos falar um pouco sobre religiões. Como analisa a atuação do Papa Francisco que nos parece mais ligado (mesmo que diga o contrário) à esquerda?

Historicamente, sempre couberam ao binômio religião/família a transmissão de valores, a formação do caráter e os conteúdos essenciais da Educação no seu sentido mais amplo e profundo. O sistemático e bem-sucedido combate a esses dois alicerces responde, em boa parte, pela degradação dos padrões de conduta da sociedade. O PT nasceu dentro de círculos clericais e leigos católicos. Dividiu-se, assim, o clero brasileiro entre os minoritários conservadores e os ditos progressistas, majoritários. Estes últimos negligenciaram o campo de atuação que lhes era próprio e passaram a atuar intensamente na pauta sócio-política. E contaram com especial apoio da CNBB, desde os anos 70. Desde então, a espiritualidade desabou e começou um lamentável êxodo de fiéis.

O Papa Francisco vem de experiência pastoral nessa mesma linha, muito próxima aos movimentos sociais e à Teologia da Libertação.

 

Existe um certo choque não percebido pelo grande público na atuação de um papa com esse perfil em uma instituição que é conservadora em sua essência?

Sim, claro. O problema existe. Isso não altera, para os leigos bem formados, com visão de história e compreensão da notável herança que se expressa na sucessão de Pedro, o respeito e a obediência ao magistério pontifício. Sabemos distinguir matérias de opinião de matérias de fé e tradição. Podemos ter opiniões diferentes em questões técnicas e políticas. No que realmente importa à salvação das almas, andamos em comunhão.
O jornalista

Reflexões: O jornalista e escritor Percival Puggina (Foto: Nadia Raupp Meucci/AP)

 

Por que no Brasil a palavra conservador é tão confundida com a palavra retrógrado?

Ou com o adjetivo reacionário. Isso decorre de uma estratégia de domínio da linguagem. É o mesmo motivo pelo qual defender a ordem, a lei e o direito é ser “fascista” e divergir das teses de “empoderamento”, discordar da esquerda em suas “problematizações” e afirmar certas verdades passou a ser “politicamente incorreto”. É como se um honrado e bom pai de família, dedicado à formação dos filhos, trabalhador responsável, honesto, respeitador dos demais e da lei, adversário da violência, preocupado com a segurança de sua comunidade, defensor da inocência das crianças, com vida espiritual e fé em Deus, fosse uma intolerável praga a ser apartada do convívio social… Para a esquerda, esse tipo é o inimigo público número um.

 

A mídia tem culpa nesta confusão?

Há uma parcela grande da mídia que trabalha no sentido de consolidar esses conceitos por que tal tarefa está de acordo com seus objetivos políticos.

 

Em que momento um totalitarista vem disfarçado de democrata?

São duas as principais vertentes totalitárias em atuação no país. De um lado os comunistas, ainda que não necessariamente alinhados com uma economia centralizada e estatizada, nem com a supressão do direito de propriedade. São partidos de esquerda, empenhados em um ou mais projetos de hegemonia que usam a democracia para desconstruir os valores que a ela são essenciais. Assim, posam, sempre, como democratas. Eles, como costumam dizer, “radicalizam a democracia”. Ufa, como apreciam Cuba! De outro lado, num nível muito mais alto, no grande mundo das instituições internacionais, das grandes corporações e fundações, está o totalitarismo globalista com um projeto de dominação mundial. Estes não se dão ao trabalho de fingir coisa alguma. Vão comprando o que precisam.

 

Quais são os traços mais comuns e o que fazer para desmascarar esse tipo de personagem?

No primeiro conjunto estão as organizações políticas de esquerda e seus satélites: movimentos sociais, sindicatos e centrais, certos braços de instituições religiosas e pastorais, órgãos de imprensa, parcelas significativa do Judiciário, do MP (Ministério Público) e da Defensoria Pública, do mundo acadêmico e do ambiente cultural. And so on [assim por diante em tradução literal]… Esse desmascaramento está em curso com o surgimento de um numeroso contingente de intelectuais, em boa parte formados e estimulados pelo Olavo de Carvalho, que agem em sentido contrário e se tornaram muito efetivos nas redes sociais e no mundo editorial.

Já o globalismo é um adversário mais complexo e poderoso. Eu confesso estar tão distante dele que não me sinto capaz de descortinar suas fragilidades.

 

Em dos seus textos você fala sobre os inimigos públicos do país. Qual deles é mais difícil de ser combatido e por quê?

Acabei de responder. É o globalismo. Quanto ao grupo de esquerda, o mais insidioso e menos penetrável é o ambiente educacional num sentindo amplo e o acadêmico num mais específico. Quando as escolas confessionais e as universidades católicas perderam seu foco, perderam-se, também, os meios de formação de uma alta cultura e de uma intelectualidade comprometida com verdades, princípios e valores da cultura e da civilização que deveríamos preservar e fazer avançar.

Um vídeo do escritor Percival Puggina

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.