Entrevista publicada em 11 de julho de 2018 por Eder Fonseca em Negócios
 
 

“O Governo não inspira confiança econômica”
Reginaldo Lante – Presidente da Câmara de Comércio Brasil-Ásia

Reginaldo Lante

Reginaldo Lante é consultor empresarial há 25 anos com carteira de clientes constando 224 empresas. Atualmente é responsável pelas operações internacionais de dezessete empresas exclusivamente na área de comércio exterior através da sua empresa a Quality Result e está presidente da CBA – Câmara de Comércio Brasil-Ásia desde 11 de maio de 2015. Atuante como acreditadora e facilitadora em intercâmbios econômicos e culturais junto às maiores potências econômicas da atualidade, a entidade trabalha para aproximar empresas brasileiras com os grandes players da economia global. A Ásia concentra potências econômicas como China, Índia, Rússia, Arábia Saudita, Catar e Japão, entre os 46 países que compõem o bloco. Em atuação desde 2015 a CBA oferece suporte às demandas por informações e serviços de empresas brasileiras e estrangeiras que buscam soluções operacionais para negociações entre o Brasil e a Ásia. Entre os serviços prestados pela entidade estão: vendas internacionais, análise de viabilidade comercial, análise de riscos, apoio consular e investimentos no Brasil e no exterior. Além disso, a Câmara Brasil-Ásia realiza a auditoria e validação de documentos para empresas e governos estrangeiros que exigem revalidação para transações comerciais, bem como a certificação para solicitações específicas e a recomendação para órgãos governamentais.

 

Reginaldo, fale um pouco sobre a sua carreira para quem ainda não lhe conhece.

Sou consultor empresarial há 25 anos com carteira de clientes constando 224 empresas. Neste período tenho atuado nas áreas administrativa, gestão da qualidade e principalmente comércio exterior. Atualmente sou responsável pelas operações internacionais de dezessete empresas exclusivamente na área de comércio exterior através da minha empresa a Quality Result e estou presidente da CBA – Câmara de Comércio Brasil-Ásia desde 11 de maio de 2015.

 

Como o seu caminho se cruzou com a CBA?

Eu sou o fundador da CBA – Câmara de Comércio Brasil Ásia junto com outros três diretores estatutários. Fundamos a entidade, precisamente em 11 de maio de 2015. Anteriormente entre 2010 e 2011 iniciei um trabalho com outras câmaras que não teve resultados satisfatórios por falta de apoio e desenvolvimento dos negócios por parte destas câmaras. A partir desta constatação alguns parceiros chineses e indianos me pediram para fundar uma Câmara de Comércio que pudesse fomentar negócios em importação e exportação de produtos, serviços e investimentos. Foi um grande desafio que culminou em um projeto de extremo êxito três anos depois.

 

Quais são os pilares que moldam o trabalho da CBA?

Networking mundial: trabalhamos os contatos e desenvolvemos agentes em todo mundo, importante ressaltar que a CBA extrapolou há muito tempo os limites do continente asiático e hoje atuamos globalmente.

Segurança: prezamos pela segurança nas informações e procedimentos para blindarmos nossos associados e todos que nos solicitam serviços de problemas jurídicos, logísticos, técnicos e todas as possibilidades de riscos que envolvem uma transação internacional.

Investimentos: buscamos players locais e em solo estrangeiro com capacidade técnica e econômica para investimentos no Brasil e no exterior para fomentar negócios de nossos associados, além dos demais players do cenário internacional que nos procuram.

 

Como tem sido a aproximação das empresas brasileiras com os grandes players da economia global que estão instalados na região?

Em análise geral o “approach” é bastante satisfatório no quesito de alavancagem das empresas de pequeno e médio porte que orbitam estes grandes players, terceirizando serviços, fornecendo produtos e matérias-primas. Empresas de grande porte quando desembarcam no Brasil trazem “know-how” e procedimentos de inovação que são distribuídos às empresas locais. No sentido contrário também ocorre um fenômeno interessante. Empresas brasileiras repassam às recém-chegadas todo o arcabouço de conhecimentos e costumes locais que, sem os quais, os grandes players recém desembarcados em terras brasileiras teriam dificuldades e levariam muito tempo para nos compreender.

 

Nossa inconsistente economia tem atrapalhado essa aproximação em algum ponto?

Quanto ao “status” econômico atual não restam dúvidas que sim. Mas o mais grave são as condições de insegurança jurídica em geral: a legislação trabalhista que apesar da recente reforma, ainda é danosa a criação de empregos e a motivação de investimentos por parte do investidor estrangeiro. Alguns costumes locais também têm assustado o investidor quando ele descobre que um feriado em uma quinta-feira pode detonar “as vontades” produtivas e comerciais no país transformando um simples feriado de um dia em uma folga de quatro dias.

Vivemos um grave dilema em que o Governo não inspira confiança econômica e os “hábitos” nacionais locais também não. É preciso um trabalho árduo e duradouro para revertermos isso.

 

Esses players da economia global estão vendo o Brasil com bons olhos neste momento?

Ver com “bons olhos” é muito relativo. Recebo consultas semanalmente sobre possibilidades de investimentos em produção e aquisições no Brasil. Investir em produção aqui será muito difícil no próximos anos devido à falta de perspectivas de mudanças radicais e benéficas aos investimentos produtivos. Estão preferindo China, Índia e até o Paraguai aqui na América Latina por exemplo. Preciso ser sincero também quanto à política de limites de importação da Receita Federal do Brasil para produtos que são uma barreira intransponível – em alguns casos a empresa estrangeira que queira montar uma linha de produção aqui e descobre que terá inicialmente 150.000,00 dólares de limite de importação, levando também em consideração os riscos dos picos de alta e baixa dos índices de desempenho econômico – há também uma “espera” por parte destes investidores, que acreditam que teremos um futuro melhor a partir de 2019 após as eleições locais, em função do gigantismo do mercado brasileiro que é um mercado poderoso, muito mal cuidado mas poderoso.
O presidente da CBA

Comércio Exterior: O presidente da CBA Reginaldo Lante (Foto: Divulgação/AP)

 

Quais potências asiáticas estão mais dispostas em fazer negócio com o nosso país atualmente?

A disposição, o “estado de espirito investidor” não está totalmente ligado a condição de potência econômica e sim ao setor de negócios. Países considerados pequenos ou de médio porte econômico são fortes em algumas áreas e os agentes deste setores fortes procuram investimentos e negócios no Brasil, temos bons exemplos que não posso citar por força contratual.

 

Gostaríamos de saber como é feita a análise de riscos por parte da CBA.

A análise de riscos é um trabalho bastante complexo, são vários tipos de análises para situações de risco das mais variadas possíveis, nossa rede de informações é consistente.

Risco ao importador: envolve análise criteriosa do fornecedor quanto à capacidade de produção, capacidade técnica.

Capacidade financeira: temos agentes locais para verificação “in loco” em quase todo o mundo. Envolve também a análise de risco de dumping ou subfaturamento praticado por concorrentes importadores em solo brasileiro. É comum importadores com alto poder praticarem preços inexplicáveis perante a lógica de custos racionais e provocarem a quebra de importadores menores, neste caso temos uma equipe muito voraz em termos de informações.

Risco ao exportador: no caso de exportações banimos as vendas a prazo nas primeiras operações, mesmo com cartas de crédito garantidoras não podemos expor nossos associados a qualquer contratempo, sendo assim o grau de risco é zero.

Risco biológico: consultamos agentes parceiros em solo estrangeiro sobre possíveis surtos de doenças locais.

Risco ao investidor estrangeiro: riscos estruturais de logística, risco político e risco jurídico são avaliados neste escopo de investigação através de dossiê padronizado de avaliação.

Risco ao investidor brasileiro: solicitamos aos agentes parceiros nos possíveis países de destino dossiê completo de riscos ao investimento estrangeiro. Sempre pedimos que se faça análise em relação a costumes e crenças locais também.

 

Em qual dos 46 países do bloco a legislação para transações comerciais é mais complexa?

As legislações locais possuem maior ou menor complexidade em relação aos produtos e nem tanto aos países. Medicamentos, por exemplo, possuem rigidez em quase todos os países, salvo alguns lugares que levam em consideração a autorização da ANVISA brasileira por exemplo, que é uma das mais rígidas e perfeitas do mundo. Neste caso dispensam a burocracia local e aceitam somente a certificação brasileira. Em alguns destinos usam a burocracia certificadora em geral para criar barreira comercial apenas e fugir de sanções comerciais pela OMC (Organização Mundial do Comércio) por reclamação feita por algum país que se sinta prejudicado. As relações comerciais também são facilitadas ou dificultadas por acordos ou desacordos comerciais, tudo é muito relativo a politicas bilaterais.

 

Alguns analistas afirmam que o comércio exterior entre Brasil e Ásia poderia ser mais explorado. Qual a sua visão sobre esse assunto?

Na via em que produtos asiáticos desembarcam no Brasil nós temos as barreiras legais da Receita Federal através de limites financeiros de importação muito rígidos e baixos para o pequeno e médio importador, deveriam ser flexibilizados e também reduzida a burocracia, essa redução de burocracia e aumento nos limites de importação facilitaria a produção de bens duráveis no Brasil que dependem de componentes importados e também no caso de produtos manufaturados de varejo reduziria a possibilidade de expansão da base monetária desenfreada também conhecida como inflação de preços.

Nas exportações brasileiras o problema é mais complexo, o Brasil precisa implementar políticas de incentivo real as exportações, buscar os pequenos e os médios produtores e fabricantes “a laço”, não há no Brasil uma cultura exportadora fora das commodities, fora dos produtos da cadeia primária de produção, temos ainda heróis da pequena e média indústria que poderiam formar uma cadeia exportadora se houvesse instrução séria, divulgação em massa da necessidade de vendermos ao mundo, tudo é muito incipiente quando observamos a cadeia exportadora brasileira de manufaturados de pequena e média monta, temos por exemplo cama, mesa e banho em polos regionais, nível de exportação próximo de zero, salvo uma ou duas indústrias que vendem produtos maravilhosos e ganham dos chineses pela qualidade, sou testemunha disso, enviamos produtos brasileiros por 220,00 dólares a África contra o produto chinês de 25,00 dólares, é a prova de que concorrência se ganha também com nichos de mercado consumidor de produtos de boa qualidade e não somente com preços baixos.

Nós na CBA fazemos um trabalho de instrução e orientação a pequena e média indústria ou comércio que queira a internacionalização dos negócios, são nos pequenos detalhes aqui em solo brasileiro que as coisas começam a acontecer, vou citar um exemplo clássico; temos uma luta, sim a palavra é essa, uma luta para que o exportador faça um catálogo técnico de produtos separado do catálogo de marketing. Catálogos de marketing que geralmente ultrapassam arquivos de 5mb de tamanho e não se consegue transferir via e-mail para muito países no mundo, sem contar que possuem lindas imagens sem informação adequada, são atitudes pequenas assim que fazem a diferença, não existe um grande segredo para o exportador, apenas técnica e persistência.

 

Qual a principal orientação que você daria para empresários que estão dispostos a investir em países asiáticos?

Só há um caminho: entendê-los, compreender as culturas locais, os costumes, as regras, as religiões e principalmente respeitar as diferenças. Feito isso e estabelecidos os vínculos necessários só restará o desenvolvimento dos negócios, propriamente dito.

Um vídeo sobre as relações Brasil-Ásia

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.