Entrevista publicada em 26 de fevereiro de 2018 por Eder Fonseca em Economia
 
 

“O país conseguiu sair da recessão”
Luiz Rabi – Economista-chefe da Serasa Experian

Luiz Rabi

A Serasa Experian é líder na América Latina em serviços de informações para apoio na tomada de decisões das empresas. No Brasil, é sinônimo de solução para todas as etapas do ciclo de negócios, desde a prospecção até a cobrança, oferecendo às organizações as melhores ferramentas. Com profundo conhecimento do mercado brasileiro, conjuga a força e a tradição do nome Serasa com a liderança mundial da Experian. Criada em 1968, uniu-se à Experian Company em 2007. Há 10 anos Luiz Rabi é o responsável pela área de Indicadores de Mercado da Serasa Experian. O economista é formado pela FEA-USP, mestre em estatística e doutor em economia também pela USP. Foi economista-chefe dos bancos BMC, Bicbanco e ex-diretor de fundos e incentivos fiscais do Ministério da Integração Nacional. Nesta entrevista o experiente profissional analisa o cenário das empresas nacionais com agudez: “A inadimplência das grandes empresas subiu muito em 2015/16 não apenas em função da crise econômica mas também pelo envolvimento de algumas delas com os vários escândalos de corrupção que foram descortinados nestes últimos anos. Neste sentido, os pedidos de recuperações judiciais dispararam em 2015 e 2016 (alta de 125% neste biênio). Já em 2017 observamos um recuo de quase 25% nestes pedidos o que, de certa forma, sinaliza uma melhora na solvência das grandes empresas”.

 

Em 2015, o número de empresas brasileiras que aplicavam o calote disparou. Como está o quadro atualmente?

Em novembro 2017, aproximadamente 5,3 milhões de empresas estavam inadimplentes no país. Em 2016, este número fechou em 4,8 milhões. Ou seja, um crescimento de 10%, bastante expressivo.

 

E o número das que decretaram falência aumentou ou diminuiu dessa época para cá?

Poucas empresas fecham no país por decretação de falência. A grande maioria simplesmente baixa suas portas mas não dão baixa no CNPJ, ou seja, não encerram formalmente suas atividades. Mesmo assim, o número de falências decretadas pela justiça cresceu significativamente em 2017. Em 2016 foram 721 falências decretadas, até novembro de 2017, já eram 858. Vai dar mais de 20% de crescimento.

 

Em qual setor estão as maiores negativadas?

No setor de serviços. Em 2016 as empresas deste setor respondiam por 46,1% de toda a inadimplência. Em 2017 passaram a representar pouco mais de 47%. Já as empresas comerciais recuaram de 44,3% para 43,2% e as industriais de 8,8% para 8,6%.

 

Por que as empresas ficam inadimplentes no Brasil em tão pouco tempo de vida?

Aproximadamente 2/3 das empresas inadimplentes no país tem até 10 anos de atividade. As empresas mais antigas, com mais de 10 anos de existência, correspondem a 1/3 de toda a inadimplência. Ou seja, quanto mais jovem é a empresa, maior tende a ser a inadimplência. Isto ocorre porque a mortalidade das empresas no Brasil é muito alta e também porque cerca de 93% das empresas inadimplentes são micro e pequenas empresas que, geralmente, tem tempo médio de vida menor que as médias e grandes empresas.

 

Como avalia o cenário econômico do nosso país em um médio prazo?

O país conseguiu sair da recessão em 2017, primeiramente graças ao bom desempenho das exportações e da safra agrícola recorde. Mais recentemente, as quedas da inflação, dos juros e da inadimplências das pessoas físicas, reanimaram também o consumo das famílias. E esta dinâmica do consumo deverá ser o principal fator que vai estimular a economia em 2018, devendo esta crescer algo próximo a 2,5%. Para 2019 em diante aí vai depender do resultado das eleições presidenciais.

 

O que as pequenas e médias empresas devem ter em mente para não sucumbir em seus primeiros anos de vida?

Duas recomendações são básicas. A primeira: antes de abrir o negócio, efetuar uma boa pesquisa de mercado para ver se existirá demanda suficiente para a atuação da empresa. Nesta análise de mercado, deve-se prestar atenção especial à concorrência. A segunda: ao entrar em operação, efetuar uma gestão de fluxo de caixa bem apurada. Para muitas empresas, uma gestão de caixa ruim, misturando inclusive contas pessoais com as contas das empresas, é quase certo um caminho para o insucesso.
O economista

Análises: O requisitado economista Luiz Rabi (Foto: Sicredi do Norte/Nordeste/AP)

 

Falamos até aqui das pequenas empresas. E as grandes, como estão se saindo neste cenário?

A inadimplência das grandes empresas subiu muito em 2015/16 não apenas em função da crise econômica mas também pelo envolvimento de algumas delas com os vários escândalos de corrupção que foram descortinados nestes últimos anos. Neste sentido, os pedidos de recuperações judiciais dispararam em 2015 e 2016 (alta de 125% neste biênio). Já em 2017 observamos um recuo de quase 25% nestes pedidos o que, de certa forma, sinaliza uma melhora na solvência das grandes empresas.

 

O quadro de inadimplência das empresas pode ser revertido em 2018?

Sim, é o que esperamos tendo em vista que os juros deverão continuar baixos e a economia tende a acelerar seu ritmo de crescimento. Juros baixos e crescimento econômico sempre foram favoráveis à redução da inadimplência das pessoas jurídicas. 2018 não deve ser diferente quanto a isto.

 

Considera um erro que o consumidor tome empréstimos para quitar dívidas anteriores?

Se a dívida antiga for mais cara e mais curta (ex: saldo do rotativo do cartão de crédito) do que a dívida nova (ex: empréstimo pessoal ou crédito consignado), sempre valerá a pena fazer esta troca. O que pode ser tornar um erro é se o consumidor tomar um novo empréstimo e não conseguir saldar todas as dívidas anteriores. Aí ele terá mais uma dívida para pagar e o descontrole fica maior.

 

A economia está descolada da política em sua visão?

De forma alguma, ainda mais no Brasil. O quadro político é fundamental para a superação da crise econômica pois há um lado fiscal da crise que carece ainda de uma solução definitiva, como por exemplo, a aprovação da Reforma da Previdência. Caso isto não aconteça em 2018 e se a população eleger um novo presidente que não esteja comprometido, politicamente com a agenda reformista no Congresso, a crise tem tudo para voltar.

 

Como analisa atualmente as tentativas de fraudes em nosso país se compararmos com um ano crítico que foi 2013?

Depois de três anos seguidos de retração (2014/15/16), com o consumidor se retraindo no mercado, diminuindo, por causa disto, os alvos potenciais para a atuação dos fraudadores, as tentativas de fraudes voltaram a crescer em 2017. De janeiro a outubro do ano passado, a alta foi de 11% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ainda ficaremos abaixo das 2,2 milhões de tentativas de fraudes observadas em 2013, porém devemos voltar ao nível de 2,0 milhões.

Um vídeo do economista Luiz Rabi

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.