Entrevista publicada em 21/01/2015 por Eder Fonseca em Ativismo
 
 

“O racismo é forte no Brasil”
Cida Bento – Doutora em Psicologia Social e cofundadora do CEERT

Cida Bento

A paulistana Maria Aparecida Silva Bento ou Cida Bento como é conhecida, é Coordenadora Executiva do CEERT (Centro de Estudos de Relações de Trabalho e Desigualdades); Doutora em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP; Coordenadora Geral das 07 edições do “Prêmio Educar para a Igualdade Racial e de Gênero”; Coordenadora do Projeto “Conteúdos, Materiais, Ensino à Distância e Formação de Rede em prol da Diversidade na Educação Infantil” com a UFSCar/MEC; Membro da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia; Fellow da Ashoka; Consultora no Projeto “Valorização da Diversidade” da FEBRABAN; Eleita Líder Social no “Fórum de Líderes Sociais e Empresariais” da Gazeta Mercantil (2002); Líder Avina; Reconhecimento pela Medalha Anchieta e do Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo, além de Cidadã da Cidade de Atlanta (EUA – 1991). “Provavelmente esta alteração da LDB pela lei 10.639/03, tem sido uma das principais possibilidades de atuação do movimento negro, no campo das políticas de promoção da igualdade racial e de combate ao racismo. Como sabemos, é na educação onde o movimento negro tem um ativismo mais forte, mais produção e conquistas mais relevantes. (…) Percebemos em processos de formação de professores e nas experiências do Prêmio “Educar para a Igualdade Racial”, o grande impacto que tinha sobre a formação da personalidade e identidade das crianças.” 

 

Professora, fale para nós como foi o começo de sua carreira até se tornar doutora em Psicologia pela USP e professora visitante da Universidade do Texas.

Iniciei minha vida profissional como professora da educação básica e depois minha atuação foi sempre como psicóloga organizacional, em empresas, até o período em que resolvi trabalhar no Conselho da Comunidade Negra do Estado de São Paulo, coordenando uma área que cuidava da discriminação racial no Trabalho.

 

A senhora é fundadora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT). Qual foi a mola ou as molas-mestras, para que tivesse essa iniciativa?

Eu sou cofundadora. Fomos 3 pessoas que tomaram a iniciativa: Hédio Silva Jr, Ivair Augusto Alves dos Santos e eu. O que nos impulsionou foi a certeza de que no âmbito da sociedade civil tínhamos mais possibilidades de atuar com independência no campo do combate ao racismo.

 

Em uma de suas entrevistas, a senhora afirmou que o CEERT direcionou suas ações antes voltadas para o mundo do trabalho e das desigualdades, para a educação, já que perceberam que as crianças tinham graves problemas com a sua identidade racial. Como detectaram isso?

Percebemos em processos de formação de professores e nas experiências do Prêmio “Educar para a Igualdade Racial”, o grande impacto que tinha sobre a formação da personalidade e identidade das crianças, a convivência com adultos que as acolhia e traziam para a sala de aula materiais e brinquedos que valorizavam a cultura e a história dos negros. Eram elementos fortes que minimizavam os efeitos das manifestações de preconceito e discriminação.

 

Existe algum estudo recente do CEERT, sobre a discriminação no mercado de trabalho?

Sim. Temos realizado diferentes estudos a partir dos censos em empresas e constatamos como é forte a discriminação no trabalho diminuindo as chances de inserção e de mobilidade dos negros, em particular das mulheres negras nas empresas. Temos constatado por exemplo que a inserção de mulheres negras, em cargos técnicos de grandes empresas, é, em média, 5 vezes menor para mulheres negras.

 

Como a senhora sente o empenho de governos, sindicatos e empresas privadas, para diminuir o racismo nesses ambientes?

Os esforços ainda estão bastante aquém do necessário. O Governo Federal e alguns municipais e estaduais vem dando alguns passos significativos quando estabelecem cotas para os concursos públicos. Mas ainda são medidas tímidas.

 

A lei 10.639, que obriga o ensino da história da África e de seus descendentes na escola, tem sido aplicada de acordo com aquilo que a senhora pensava lá trás?

Provavelmente esta alteração da LDB pela lei 10.639/03, tem sido uma das principais possibilidades de atuação do movimento negro, no campo das políticas de promoção da igualdade racial e de combate ao racismo. Como sabemos, é na educação onde o movimento negro tem um ativismo mais forte, mais produção e conquistas mais relevantes. Mas o Estado ainda necessita empreender mais esforços, mais orçamento, mais decisão política para não prevaricar e assegurar o cumprimento desta lei.
Antonio Pinto

Várias Ações: A ativista e psicóloga Cida Bento com Antonio Pinto (Foto: CEERT)

 

A mídia nacional trata à questão racial de maneira correta?

O programa “O Sexo e as Negas” é um dos exemplos mais emblemáticos sobre a maneira deplorável de como a mídia nos enxerga e nos representa. Programas como este tem forte impacto sobre o imaginário de brancos e negros, definindo seus lugares sociais. Provavelmente é uma das piores manifestações do racismo cotidiano na TV.

 

A senhora disse que nos bancos escolares, as crianças aprenderam que é bom ser branco. Nos fale um pouco mais sobre isso.

Todo o sistema escolar, livros didáticos, brinquedos, currículo, programas de formação de professores, relações interpessoais estão marcadas por uma positivação da figura do branco e negativação do negro. Isto vem mudando muito lentamente. Mas ainda o que nossas crianças aprendem é com é bom, bonito e competente ser branco. E isto confunde sua identidade.

 

Em uma entrevista, o maestro Júlio Medaglia, disse que o negro brasileiro em muitos casos, se espelha no negro que não deu certo, ao invés de se espelhar em figuras como Miles Davis, Cartola, Barack Obama e tantos outros. Como vê essa afirmação?

No universo citado por ele, não se observa um racismo tão forte e violento como o que se vê no Brasil. O branco de lá, quando na polícia, por exemplo, mata muito menos jovens negros e quando o faz, é mais punido que o branco daqui. Talvez os brancos daqui possam também mudar sua atitude, aprendendo com os brancos de lá. Quase não se vê brancos brasileiros manifestando seu repúdio ao racismo. As mudanças nas posições valem pra negros e brancos.

 

Nos conte um pouco mais do sétimo prêmio “Educar para a Igualdade Racial e de Gênero: experiências de promoção da igualdade em ambiente escolar”.

O sétimo prêmio “Educar para a Igualdade Racial” vem ampliando sua missão de identificar, premiar e disseminar boas práticas pedagógicas e de gestão. Ele traz agora a questão de gênero e a educação escolar quilombola. São dois grandes desafios que temos que enfrentar para conseguir efetivamente democratizar a educação em nosso país.

 

Em todos esses anos, qual o norte que vem determinando a sua luta e consequentemente a luta do CEERT na sociedade brasileira?

Ampliar a utopia de mudanças sociais, evidenciando que não há direitos humanos, não há democracia, não há desenvolvimento possível se mais da metade da população permanecer excluída e sub representada nos diferentes espaços sociais.

Um vídeo da psicóloga social Cida Bento

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.