Entrevista publicada em 01/12/2017 por Eder Fonseca em Negócios
 
 

“Poucos efetivamente ouvem sua voz interna”
Robert Wong – CEO da Robert Wong Consultoria

Robert Wong

Robert Wong formou-se pela Chapel American School em São Paulo, graduou-se em Engenharia pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e recebeu uma bolsa como um Confederation of British Industry Scholar para sua pós-graduação na Inglaterra. Participou do curso de extensão em educação executiva pela Harvard Business School. Foi presidente da Korn/Ferry para o Brasil e a América Latina, uma das maiores empresas do mundo em recrutamento e seleção. Foi considerado pela revista “The Economist” um dos 200 mais destacados headhunters do mundo por seu genuíno interesse nas pessoas e no seu talento de descobrir qualificações, às vezes até desconhecidas pelo próprio candidato. É membro efetivo de vários ONGs e escolas, entre elas: FIA-USP, SIFE, Colégio Sidarta, ONG CEO do Futuro. Atualmente, Robert Wong é CEO da Robert Wong Consultoria. Wong é um ser humano tricultural: cidadão brasileiro de origem chinesa, fluente em inglês, português e chinês. Autor dos livros “O Sucesso Está no Equilíbrio” que está em sua 14ª Edição e “Super Dicas para Conquistar um Ótimo Emprego”. É reconhecido como um dos palestrantes mais influentes e destacados no mercado. “Recrutar é uma arte que requer o bom uso dos dois hemisférios do cérebro, pois o processo de contratar alguém passa basicamente por duas fases distintas”, afirma o consultor.

 

Robert, o senhor é considerado o maior headhunter do nosso país e um dos maiores de todo o mundo. Quais características mais buscadas pelas empresas num executivo atualmente?

Evidentemente, isto varia de empresa para empresa, mas creio que há características universais que todos almejam encontrar no executivo a ser contratado. Estes atributos normalmente não são “ensináveis”, pois espera-se que sejam intrínsecas ao indivíduo. São elas: Visão (enxerga o que outros não enxergam); Poder de Decisão (especialmente na escolha das pessoas-chave e as consideradas impopulares, mas necessárias); e Capacidade de Inspiração (para que as tropas deem o máximo de si). Além do mais, outras características importantíssimas que este líder deva ter são: Atitude (essência que já vem com o indivíduo); Competência (o que esta pessoa pode fazer para a empresa agora, e não o que ele conseguiu lá atrás); e seu Potencial para Crescer (até onde ele pode chegar). No fundo, estas três qualidades representam seu Passado, Presente e Futuro!

 

O que distingue um bom headhunter do headhunter excepcional?

Como o trabalho envolve essencialmente lidar com gente, alguns fatores têm relevância ainda mais significativa, como por exemplo: genuíno interesse nas pessoas… e em negócios, intuição, sensitividade, entendimento do comportamento humano, percepção do que está nas entrelinhas, inteligência emocional, capacidade de ouvir, empatia e especialmente humildade.

 

Recrutar um bom profissional no mercado é mais instintivo ou existe uma engenharia muita mais complexa do que isso?

Recrutar é uma arte que requer o bom uso dos dois hemisférios do cérebro, pois o processo de contratar alguém passa basicamente por duas fases distintas. Na primeira fase, que é a seleção, quando se faz o peneiramento dos diversos candidatos possíveis, o procedimento é altamente objetivo e racional, pois se avalia seus dados concretos e até mensuráveis e comparáveis (idade, formação, conhecimento de línguas, anos de experiência, resultados, empresas trabalhadas, etc). Na segunda fase, quando da entrevista com os finalistas para se tomar a decisão de quem efetivamente contratar, o processo passa a ser altamente subjetiva e emocional (deu-se a química, bateu o santo, feeling, questão de pele, entrosamento, etc). Até para escolhermos nossos cônjuges, acontece a mesma coisa. É ou não é?

 

Vamos voltar ao começo dos anos 2000. Os altos salários das ponto.com naquele momento era algo que estava fora da realidade?

Como acontece de forma natural neste mundo do capitalismo, o que prevalece é a lei do mercado. Naquela época, havia uma alta demanda de profissionais para preencherem determinadas posições e infelizmente uma baixa oferta de talentos. Deu no que deu … e o fenômeno até ficou conhecido como “apagão de talentos”. Lembra?

 

Passados todos esses anos, acredita que as empresas deste mercado aprenderam a lição?

Sinceramente, espero que sim. Há uma prioridade urgente em investir na educação e manter nossos talentos no Brasil para que não aconteça um “brain drain”, que é o pior déficit que um pais pode sofrer. E falando em educação, permita-me usar uma frase que cunhei que diz:

“Qual a diferença entre a Escola e a Vida? Na Escola, você aprende uma lição e espera-se que você passe na prova. Na Vida, você passa por uma prova e espera-se que você aprenda a lição!”

 

O executivos brasileiros estão tendo aquilo que o senhor chama de eterna curiosidade de si próprio e sobre o outro?

Se curiosidade aqui quer dizer “interesse”, “vontade de conhecer”, “querer aprender”, então é ótima; mas se ser curioso for “bisbilhotar”, “infringir o espaço do outro”, “ser inconveniente”, então isto é péssimo. Costumo dizer que há 3 pessoas que podem se considerar plenas:

Aquele que não sabe … e pergunta.

Aquele que sabe … e ensina.

E aquele que ensina … e pratica!
Guerreiro chinês

Recrutamento: Robert Wong ao lado da estátua do guerreiro chinês (Foto: AP)

 

O total equilíbrio na esfera profissional/pessoal é possível num mundo altamente conectado?

Total é uma palavra meio forte, mas sim “equilíbrio equilibrado” é possível e altamente desejável. Este inclusive foi o tema do meu livro que foi um best seller na época, intitulado “O Sucesso Está no Equilíbrio”. O Equilíbrio, como a felicidade, é perfeitamente atingível, pois ele é uma decisão pessoal!

 

O senhor fala fluentemente em 3 idiomas que são o português, o inglês e o chinês. O que mais gosta na cultura corporativa dos EUA, do Brasil e da China?

Gosto muito das 3 culturas que têm muito a nos ensinar, a saber:

EUA: Work ethics, foco no resultado, meritocracia, a lei é para todos, tempo é dinheiro, QI (Quociente Intelectual).

Brasil: Criatividade, jogo de cintura, calor humano, esperança, tempo não é dinheiro, QE (Quociente Emocional).

China: Diligência, o dever antes dos direitos, produtividade, gostar do que faz, tempo é tempo e dinheiro é dinheiro, QO (Quociente Operacional).

 

E o que menos gosta?

Não gosto de julgar aos outros, mas já que tenho que responder a esta pergunta, aqui vai:

EUA: Às vezes, as coisas são feitas rigidamente “by the books”.

Brasil: Falta de pontualidade.

China: Demora na tomada de decisões.

 

Para descobrir nossa vocação é preciso ouvir a voz interior como já afirmou em uma certa ocasião. Na maioria dos casos que o senhor conhece, as pessoas ouviram a sua voz interior?

Poucos efetivamente ouvem sua voz interna, seu “chamado”, que no fundo é sua “Vocação”, pois a maioria está mais atenta e ligada às vozes externas, aos ruídos da mente, às imposições da sociedade, à mídia, aos seus medos, crenças e ignorância. Para conectar-se ao seu interior são necessários os três “Cs”: Competência, Condições e especialmente a Coragem. Faz se necessário sair da sua zona de conforto e arriscar. Vale a pena, podes crer!

 

O que tem assustado e motivado os profissionais neste mundo caótico e fascinante do qual fazemos parte?

Muita gente anda cada vez mais preocupada com o mundo cibernético e suas consequências, especialmente em relação à sua eventual substituição por uma máquina, um robô, a Inteligência Artificial, o computador, a automação e agora esta nova onda do “Blockchain”. Isto já está acontecendo e podemos ver que em alguns setores a predominância de máquinas e robôs está plenamente visível, particularmente onde o trabalho demanda tarefas repetitivas, perigosas ou insalubres. Mas, por mais que o computador e seus derivados possam realizar estes trabalhos de forma melhor, mais precisa, mais rápida, mais econômica que o ser humano, um robô é incapaz de produzir ou reproduzir um fator essencial – a empatia humana! Assim posto, trabalhos e serviços que requeiram um toque humano vão estar em alta, mais ainda no mundo atual que anda cada vez mais carente e mais egocêntrico. Invista nesta qualidade da sua persona, bem como na sua Sabedoria, Intuição, Criatividade, Ética, Sensitividade, Emoções e especialmente, na sua Liberdade, o qual defino como “o direito de você ser quem você é!”

Um vídeo do headhunter Robert Wong

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.