Entrevista publicada em 7 de maio de 2018 por Eder Fonseca em Cinema
 
 

“Procuro uma história que me agrade”
Francisco Ramalho Jr. – Roteirista, produtor e diretor de cinema

Francisco Ramalho Jr.

Francisco Ramalho Jr. é roteirista, produtor e diretor de grande renome no cenário nacional. Seu filme “À Flor da Pele” ganhou o Kikito de melhor filme no Festival de Gramado de 1977. Em 2005, atuou como produtor executivo do longa-metragem “O Casamento de Romeu e Julieta”, de Bruno Barreto, com Luana Piovani e Luis Gustavo. Foi produtor associado e executivo de “Jogo Subterrâneo” ( 2004/2005 ), de Roberto Gervitz, com Felipe Camargo, Maria Luisa Mendonça, Daniela Escobar e Maitê Proença; foi produtor executivo e associado de “Cristina Quer Casar” (2001/2002 lançado pela FOX em 2003) direção de Luiz Villaça, com Denise Fraga e Marco Ricca. Associou-se a Hector Babenco na HB Filmes Ltda. na década de 1980, sem deixar de ter sua empresa, a Francisco Ramalho Junior Filmes Ltda.. Produziu com Babenco inúmeros filmes, de 1981 a 1997, entre eles, “O Beijo da Mulher-Aranha” que foi indicado para cinco Oscars, vencendo na categoria de Melhor Ator. Foi produtor executivo de Saul Zaentz (produtor de “O Paciente Inglês” e “Amadeus”). Esteve na produção norte americana rodada na Amazônia, “Brincando nos Campos do Senhor” e trabalhou como consultor e produtor executivo em várias produções internacionais que estiveram no Brasil. “A distribuição é e está muita ativa em todas as nuances: não faltam distribuidoras sejam as de grande porte, sejam as médias e as pequenas”, afirma o diretor e produtor.

 

Ramalho, como enxerga o panorama cinematográfico brasileiro na atualidade?

Muito estimulante pois só no ano de 2017 tivemos 154 filmes brasileiros apresentados em salas de cinema além de muitas séries em diversas mídias.

 

Muitos dizem que o Brasil carece de uma indústria de cinema. Em sua visão como seria essa indústria?

Não é verdade, existe essa indústria, os filmes e séries atestam.

 

Quais as maiores dificuldades que encontrou ao realizar suas produções?

Este meu último filme “O Galã”, a ser lançado neste ano, foi atípico e não devo comentar. Meu filme anterior, “Caju com Pizza” é um telefilme resultado de um edital. Evidentemente, uma indústria apoiada em poucas salas de cinema em território tão vasto e dependente do Estado (leis de incentivos) tem suas particularidades: depende dos incentivos e estes são difíceis de operar, e às vezes, muito burocratizados e morosos. Mas sem eles essa indústria não existe.

 

Em algum momento de sua carreira, você já teve problemas com algum produtor?

Estou em meu décimo filme como diretor e em três deles fui diretor contratado sem conflito algum com produtores.

 

Quais são as características básicas de um bom roteiro?

Um filme é arte e/ou entretenimento. Há filmes que atendem aos dois propósitos e alguns que atendem a somente um dos propósitos. Um roteiro é escrito para filmes dentro dessa perspectiva. Num caso e no outro, ou em ambos, um bom roteiro deve possibilitar que um filme tenha “alma”. Para mim a alma de um filme é tão mágica e irracional que não há publicidade (ou festival no caso de filmes de arte) que possa colocar um espectador numa sala de cinema se não houver essa “alma”. Por isso, todas as indústrias cinematográficas internacionais têm um alto índice de derrota, sejam em filmes de entretenimento sejam naqueles que almejam ser arte. Um roteiro tem que tentar criar uma narrativa para um filme com alvo muito claro. Ninguém escreve um roteiro pensando que vai fracassar seja como entretenimento seja como arte ou ambos. O cinema trabalha com a futurologia do passado: somente quando um filme está concluído (e exibido) se pode questionar se o roteiro era bom, ou se a direção e o elenco estavam corretos. Qualidades e defeitos aparecem nesse momento. Não cabe aqui apontar o que é um bom (ou mau) roteiro; as regras de sua escrita são encontradas em qualquer manual.

 

O que precisa melhorar na distribuição dos filmes em nosso país?

A distribuição é e está muita ativa em todas as nuances: não faltam distribuidoras, sejam as de grande porte, sejam as médias e as pequenas, cada uma lutando por seus filmes num mercado de salas apenas razoável para a quantidade de filmes. Há distribuidoras que surgiram em nichos alternativos e hoje são de médio porte. É um mercado em que alguns crescem e outros desaparecem. Há anos ruins para algumas das grandes distribuidoras. Uma distribuidora vive dos bons filmes para o mercado que almeja.
Hector Babenco

Produção: Francisco Ramalho Jr. e o diretor Hector Babenco (Foto: Divulgação/AP)

 

Em “Canta Maria” filme de 2006, você teve em seu casting, atores famosos como Vanessa Giácomo e José Wilker. Esses atores ajudam a vender o filme ou o enredo é o mais importante de tudo mesmo que tenha atores desconhecidos?

Para o espectador médio de um filme, aquele que entra numa sala pela história e/ou pelos atores, atores conhecidos como os citados contribui para a escolha desse espectador. Mas isso não é suficiente como motivo para o espectador ir vê-los numa sala de cinema dada a exposição de atores conhecidos do grande público: eles também estão na telinha em alguma reprise ou numa novela naquele momento. Esse fato é terrível para os atores brasileiros; um ator internacional aparece num novo filme de tempos em tempos criando sua aura, e quando tem muito talento, sua luz (são chamados de astros e estrelas, os que tem luz própria). Evidentemente, esses atores que chegaram a ser conhecidos do grande público têm em geral muito talento e no momento da escolha do elenco, um diretor procura ter um desses atores para engrandecer seu filme. Evidentemente, em qualquer cinematografia, um bom enredo com atores desconhecidos do grande públicos pode gerar um bom filme mas destinado a públicos restritos; os dos circuitos de arte ou mesmo, aqueles que frequentam festivais.

 

Você foi o produtor do lendário filme “O Beijo da Mulher-Aranha” do saudoso diretor Hector Babenco. O que ainda relembra dessa trajetória como produtor desse filme?

Um filme que me trouxe e me traz boas lembranças além da memória de um grande amigo que partiu mas está presente em minha vida.

 

“Brincando nos Campos do Senhor” (que também foi produzido por você) é um filme atemporal em sua visão?

Sim, sem dúvida.

 

Como você define o estilo de cinema que produz, dirige e roteiriza?

Não sou um autor em cinema ainda que alguns de meus filmes tenham sido premiados em festivais daqui e do exterior. Procuro uma história que me agrade ou que surja de algum fato oculto em minha memória que só vou descobrir quando concluo o filme. Tenho imenso prazer em filmar. O cinema é minha vida, minha escolha.

 

Qual o maior erro e o maior acerto que cometeram ao avaliar as suas obras seja como diretor, produtor ou roteirista?

Não faço esse julgamento sobre meus filmes, todos são meus filhos, sem preferências. Num critério íntimo, vejo suas qualidades e defeitos, qualidades e defeitos que ficam comigo sem exposição pública.

Um vídeo do filme “Canta Maria”

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.