Entrevista publicada em 28/02/2018 por Eder Fonseca em Artes
 
 

“Quem faz arte deve ter ousadia”
Wal Schneider – Ator e diretor

Wal Schneider

Filho de faxineira e pai carpinteiro, Wal Schneider dividia comida com seis irmãos. Descobrindo o circo aos sete anos, sonhou que queria ser artista. Além disso, assistia novelas nas brechas das janelas dos vizinhos. Quando chegava o circo na cidade ele vendia maçãs para poder assistir aos espetáculos, muita das vezes entrava escondido para aprender mais sobre aquele mundo mágico. Aos 17 anos saiu de Tabuleiro do Norte (CE) de carona em um caminhão de melão, com ajuda de sua mãe (Tereza) e sua amiga (Jesuíta) para seguir o sonho de ser ator no Rio de Janeiro. Em 2007 foi convidado para dar oficina de teatro no SESC de Ramos para 50 meninos e meninas do Complexo do Alemão. Em 2011 o grupo consegue uma sede fixa em Olaria, mudando o nome para Projeto Social No Palco da Vida, oferecendo aulas de teatro, dança, música, literatura e cinema para crianças, jovens, adultos e especiais. Hoje o projeto tem na Biblioteca Padre Pio 6.000 mil livros de arte, 8.000 DVDs de arte em geral, mais de 200.00 críticas de arte em jornais e revistas, para estudos de alunos e visitantes. O escritor e ex-diplomata Francisco Azevedo comprou o sonho, pagando os seis primeiros meses do aluguel. Artistas renomados como Zezé Motta, Malu Mader, Jacqueline Laurence, Cristina Pereira, Amir Haddad entre outros, já foram bater um papo com alunos para estimular a seguir na carreira, mostrando a possibilidade de realizar os seus sonhos.

 

Wal, o que ainda tem do menino de Tabuleiro do Norte no ator e diretor que atua agora com vigor em seu ofício?

A simplicidade e a vontade de compartilhar o que se aprende e o que se recebe, a inocência de acreditar sempre no ser humano e o sorriso aberto. Tudo isso eu trago dentro de mim do menino que continuo sendo e que veio do interior do Ceará, da minha cidade de Tabuleiro do Norte, da minha rua do Açude, onde cresci e dei meus primeiros passos como artista.

 

Quais as principais armadilhas dessa profissão?

Acreditar que por ser ator, por ser reconhecido ou por receber aplausos, pode-se considerar diferente ou em um nível acima das demais pessoas. Uma dica fundamental que dou a quem passa no “No Palco da Vida” é que a soberba não nos faz crescer. Quanto mais se acerta, dobrado terá que ser seu trabalho, pois na verdade, na vida, somos aprendizes eternos.

 

E quais os maiores prazeres?

Sempre digo que o prazer, a diversão está em permanecer fazendo aquilo que você ama fazer. O prazer está no processo de criação e não no resultado final. Pois cada dia é uma possibilidade que nos é dada. De descobrir um novo livro, de escutar uma música nova, de conhecer uma nova história e de viver várias emoções num único corpo e numa única vida. E poder evoluir como ser humano e espiritualmente. O teatro permite essa busca pela informação e pela qualidade em tudo que você venha realizar.

 

Você acredita que arte deve ser transgressora em momentos que outras áreas estão sufocadas com os desmandos e mandos dos poderosos, ou seja, ela é a válvula de escape de uma sociedade?

Quando se diz que a arte é uma válvula de escape dá a entender que a arte serve para descarregarmos nela nossas mazelas, quando na verdade ela é um meio, uma ferramenta para mudar a sociedade. Quem faz arte deve ter a ousadia de usá-la para mexer na engrenagem do sistema que, muitas das vezes, já está engessado com uma única forma de olhar. E quando eu boto os meninos especiais, idosos, ou moradores de comunidades para serem protagonistas não somente de uma peça mas também de suas ações na vida é uma forma de mexer nesta engrenagem, pois o habitual é que eles não desempenhem este papel.

 

O circo foi primordial em sua formação. Fale um pouco sobre isso.

Aos 7 anos de idade tive o primeiro contato com um circo mambembe no interior do Ceará. Aqueles homens de narizes vermelhos me mostraram um outro mundo que eu nem imaginava que existia. A partir daí comecei a ajudar levantar todos os circos que chegava à cidade. Eram os momentos mais felizes da minha vida; quando anunciavam que estava chegando circo na cidade. Em casa a realidade era totalmente diferente da do circo pois lá, nem comida tinha. Minha vida mudava nas temporadas circenses de Tabuleiro. No circo eu podia viajar pra qualquer parte com minha imaginação. O riso que aprendi com os palhaços é fundamental até hoje na linha do meu artista. Graças aos palhaços me mantenho no equilíbrio da corda bamba e com as minhas emoções como artista. Foi através do trabalho que aprendi no circo que nasceu minha busca para minha formação de ator, para passar esse conhecimento do ofício do teatro adiante.

 

Em que momento o palco se tornou sagrado para você?

Se tornou sagrado quando eu descobri que podia ser outras pessoas e podia viver todos os meus sonhos no palco. O respeito que tenho pelo palco é o meu daimon (chamado) para viver através das palavras e das emoções.
O ator

Determinação: O ator e diretor Wal Schneider e sua equipe (Foto: Debora Setenta)

 

Que outras áreas e outros profissionais influenciam o seu trabalho?

Como ator eu passo por todas as etapas; como a construção de uma casa. Então, admiro o pedreiro que firma o alicerce; admiro os garis que limpam os espaços onde as pessoas vão circular; admiro os cozinheiros que têm a habilidade de despertar sentimentos e sensações na combinação de alimentos e condimentos que dão forma ao prato de comida que nos alimenta; admiro os médicos que cuidam do nosso bem mais precioso que é a saúde e que se empenham para encontrar a cura para doenças que ainda não têm cura, admiro os professores pela paixão e pela entrega ao ato da formação de um indivíduo, mesmo com a força contrária que quer tirar a dignidade desta profissão; admiro os padres pela devoção a palavra e pela fé. Tudo isso é o modo como faço o meu trabalho.

 

O que significa atuar para você?

Significa estar no presente, amar no presente, abraçar no presente e agir no presente. Ter afeto no presente e viver no presente.

 

Você também é diretor. Em que momento o diretor exerce o papel de mentor de seu casting?

No momento em que aluno/ator está com dificuldades de perceber suas potencialidades para um papel ou para a sua vida eu o instigo a descobrir outros caminhos, para resolver tal problema, que não tenham sido explorados ainda.

 

Como surgiu o projeto social “No Palco da Vida?”.

O projeto surgiu das minhas dúvidas como artista. O que eu poderia fazer além do palco. Foi quando comecei a fazer performances antropofágicas nas ruas do Rio de Janeiro (no Largo da Carioca, Feira de São Cristovão). Viram o meu trabalho e me convidaram para dar uma oficina com minhas técnicas para cinquenta meninos e meninas do Complexo do Alemão, no Rio. A oficina fez um sucesso danado no meio deles, que quiseram continuar, porém não tínhamos espaço. Foi quando uma menina, a Raquel Fonseca, deu a ideia das oficinas continuarem no quintal de sua casa, numa rua no bairro de Olaria. As aulas foram ficando conhecidas apenas no boca a boca do pessoal da região e a turma foi crescendo e crescendo e sempre vindo mais gente. Até que vimos que precisávamos de um espaço maior. Então, neste tempo, circulamos com as oficinas pela quadra da Escola de Samba da Imperatriz Leopoldinense, em Ramos, pela quadra poliesportiva do Complexo do Alemão, pelos fundos da Igreja de São Sebastião de Inhoaíba, em Campo Grande, até que voltamos para Olaria e eu tive a coragem de alugar este espaço que abriga o projeto, situado na Rua Uranos 1363. Sei que ao longo destes dez anos tenho muito a agradecer, mas deste período três pessoas fundamentais que gostaria deixar registrado meu agradecimento que é Sirlene Fonseca, mãe de Raquel, que gentilmente me cedeu seu quintal; ao escritor e ex-diplomata Francisco Azevedo, que segurou os seis primeiros meses de aluguel desta casa que nos abriga e ao Emílio Schneider, um dos padrinhos do projeto, que sempre me estimula a continuar.

 

O que você acredita que o livro “Um Palco e Muitas Vidas, 10 anos de história No Palco da Vida” pode suscitar em seus leitores?

Pode fazer que as pessoas tenham um censo coletivo, de olhar mais para o outro e ver que sonhos podem ser realizados se escolhermos sonhar juntos. Saí do interior do Ceará com apenas R$25,00 no bolso (que minha mãe Tereza pediu emprestado para investir no meu sonho). Ela me ajudou a arrumar a carona em cima de um caminhão de melões. Esses R$25,00 foram o resultado de uma cooperação que minha mãe conseguiu de cinco boas almas para que eu pudesse ir atrás do meu sonho. Então minha trajetória já começa com pessoas se juntando em prol de alguma causa. Seria impossível que minhas ações, enquanto artista, fossem diferentes. E é isso que espero que cada leitor absorva quando ler este livro. Principalmente em tempos em que, se não nos juntarmos em prol de um senso coletivo, nós nos extinguiremos enquanto raça humana.

Um vídeo do diretor Wal Schneider

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.