Entrevista publicada em 10/02/2017 por Eder Fonseca em Ativismo
 
 

“Queremos direitos garantidos na Constituição Federal”
Toni Reis – Diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI

Toni Reis

Toni Reis é graduado em Letras pela Universidade Federal do Paraná, além de ser especialista em Sexualidade Humana pela Universidade Tuiuti também no Paraná, tendo formação em Dinâmica dos Grupos pela Sociedade Brasileira de Dinâmica dos Grupos. É Mestre em Filosofia na área de Ética e Sexualidade pela Universidade Gama Filho e Doutor em Educação pela Universidad de La Empresa (Montevidéu). Sua tese de doutorado é sobre homofobia nas escolas. Atualmente exerce o cargo de Secretário de Educação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – ABGLT, e é Diretor-Executivo do Grupo Dignidade e do Instituto Brasileiro de Diversidade Sexual. É casado com o britânico David Harrad há 26 anos, sendo pai de Alyson, Jéssica e Felipe. Toni Reis tem um forte sentimento de busca pela justiça, e tem se dedicado à luta pela igualdade e pela cidadania plena de todos e todas, ganhando reconhecimento local, nacional e internacional como defensor dos Direitos Humanos e de uma educação de qualidade e emancipadora. Hoje Toni Reis é Diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI. “A academia está despertando para os Direitos Humanos e a cidadania. Hoje há 207 grupos acadêmicos discutindo Direitos Humanos, dos quais 78 incluem a discussão da diversidade sexual. Isto é bom”, afirma o influente e renomado ativista.

 

Toni, em que momento de sua vida você considera ter formado a consciência ativista que tem hoje?

Nasci e me criei no interior do estado do Paraná. Eu sofri muito dos 14 aos 21 anos. Tive homofobia internalizada muito grande, pela pressão da minha família, da minha religião, na minha escola, também pela minha ignorância. Eu mesmo procurei ajuda da família, procurei várias formas de me “curar” (medicina, religião, simpatias e tudo mais). Tive a possibilidade de vir morar em Curitiba. Formei-me em Letras pela Universidade Federal do Paraná, participei do movimento estudantil, de partido político. Tive contato com militantes LGBTI desde 1984, como o Professor Doutor Luiz Mott e o Dr. João Antonio Mascarenhas, entre outros, que me ensinaram muito. Tive a possibilidade de morar na Europa por quatro anos onde conheci o movimento LGBTI de lá, que na época estava bem mais avançado. Com as leituras e vivências fora da minha cultura me despertei para minha autonomia e para minha cidadania e criei a consciência de que quem não luta por direitos não os terá, infelizmente…

 

Você se formou e mudou-se para a Europa, morando em países como Espanha, França, Itália e Inglaterra. Como enxerga os Direitos Humanos nesses países, se compararmos com o Brasil?

Hoje tenho orgulho de ver que o Brasil tem evoluído muito. Claro tenho a consciência que precisamos melhorar ainda mais, principalmente no Legislativo. O Judiciário brasileiro é o maior orgulho, pela decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) quanto à união estável/casamento homoafetivo, que foi unânime em comparação com outros países. No Executivo tivemos avanços consideráveis. Precisamos de muito mais. Precisamos sempre estar fazendo o advocacy (incidência política) para a construção da nossa cidadania plena. Ainda não somos um país como Malta (o país do mundo que mais têm direitos iguais para a população LGBTI), mas também não somos um Irã. Vejo que alcançamos uns 60% dos nossos Direitos Humanos. Há pessoas aliadas, adversárias e não mobilizadas em todos os Governos. Precisamos de mais organização e profissionalização. Infelizmente nossos adversários estão muito organizados e dominam certas instituições.

 

Também sabemos que é um filósofo. Como acredita que a Filosofia pode ajudar a combater ou pelo menos conscientizar, os desmandos que acontecem contra àqueles que não têm uma voz ativa em nossa sociedade?

Tenho mestrado em Filosofia. Discuti na minha dissertação sobre ética e sexualidade. Aprendi muito com a Filosofia. A questão da lógica. Igualdade é para todos e todos sem exceção. Também gosto muito da dialética. Num debate na maioria das vezes temos uma tese e poderá haver uma antítese. Por isto é preciso o respeito para chegar a uma síntese. Gosto de conviver com pessoas que pensam diferentes, desde que me respeitem. Não precisam aceitar minhas opiniões. Peço apenas respeito.

 

Acredita que a academia, trata a causa LGBTI como algo menor?

A academia está despertando para os Direitos Humanos e a cidadania. Hoje há 207 grupos acadêmicos discutindo Direitos Humanos, dos quais 78 incluem a discussão da diversidade sexual. Isto é bom. A academia é o lócus para contrapor posições estigmatizantes e preconceituosas e colocar luz na discussão. Sou um entusiasta do Pacto Nacional Universitário pela Promoção do Respeito à Diversidade e da Cultura de Paz e Direitos Humanos. Um programa do Governo atual. Precisamos discutir sempre com respeito. E a academia tem o papel de questionar. Tenho participado mensalmente em bancas, seminários e eventos na academia. Gosto muito e incentivo. A academia pode trazer o fundamentalismo para a luz do saber.

 

E o tratamento dado pelo Governo, falha em que sentidos quando trata da causa LGBTI?

Nenhum Governo desde 1986 foi unânime sobre as questões LGBTI. Desde quando comecei até o momento atual, temos boas pessoas aliadas, temos adversários e a grande maioria é não mobilizada (que fazem à egípcia) quando se discute os nossos direitos LGBTI, por medo, insegurança ou por preconceito mesmo. Temos que ter diálogo com todas as pessoas em posições de poder. Eu só não conversaria com pessoas nazistas abertamente. Com fundamentalistas e conservadores, dialogar é fundamental e sempre há possibilidade de mudança.

 

Existe muita distorção dos objetivos da causa LGBTI nos grandes meios de comunicação?

Os meios de comunicação, em geral, são reflexos da sociedade. Os preconceitos e as discriminações são reflexos do que existem na sociedade. Cabe ao Movimento LGBTI contestar e procurar as instituições para melhorar, corrigir, capacitar e denunciar. Já melhorou muito. Porém alguns programas religiosos, policiais e humorísticos continuam pregando o estereótipo, quer dizer, a imagem preconcebida de determinada pessoa, coisa ou situação. Os estereótipos são usados principalmente para definir e limitar pessoas ou grupo de pessoas na sociedade. Sua aceitação é ampla e culturalmente difundida no Ocidente, sendo um grande motivador de preconceito e discriminação.
Diversidade nas Escolas

Luta: O ativista Toni Reis fala sobre diversidade nas escolas (Foto: Agência FIEP)

 

Quem você acredita serem os grandes inimigos da causa LGBTI em nossa sociedade e por que tem a percepção que isso ocorre?

Na história há alguns ciclos: na Idade Média éramos queimados na fogueira pela Santa Madre Igreja, que achavam que ser LGBTI era um pecado mortal. Depois para não morrer nas fogueiras, fomos tratados como fora das normas e da lei e fomos encarcerados. No mundo ainda há 76 países que criminalizam a homossexualidade. Depois, para tirar as pessoas das cadeias, fomos tratados como doentes até dia 17 maio de 1990 quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) tirou a homossexualidade da Classificação Internacional das Doenças, código 302.0, que definia a homossexualidade como doença. Hoje infelizmente tem um povo que ainda está na Idade Média, outros na Idade Moderna e outros ainda nos tratam como doentes. Precisamos mudar isto que é cultural. Estas pessoas aprenderam a pensar assim. Precisam entender que todos nós temos uma orientação sexual e uma identidade de gênero e que não podemos nos enquadrar nesta cultura patriarcal, machista e heteronormativa. Resumindo, os maiores adversários são as pessoas fundamentalistas e pessoas heteronormativas que julgam que existe somente uma forma de viver o amor e a felicidade.

 

Quais os principais cuidados que um ativista da causa LGBTI deve ter, para não se tornar maior do que a causa que defende?

Creio que a humildade deve ser uma tônica, estudar… Temos que nos atualizar. O Movimento LGBTI mudou muito desde 1969 quando teve início na Rebelião de Stonewall [foi uma série de violentas manifestações espontâneas de membros da comunidade LGBT contra uma invasão da polícia de Nova York que aconteceu nas primeiras horas da manhã de 28 de junho de 1969, no bar Stonewall Inn, localizado no bairro de Greenwich Village, em Manhattan, em Nova York, nos Estados Unidos. Esses motins são amplamente considerados como o evento mais importante que levou ao movimento moderno de libertação gay e à luta pelos direitos LGBT no país]. Respeitar todas as formas de organização e posicionamentos ideológicos. Há pessoas em partidos políticos, outras não. Há pessoas que são anarquistas, ateus, religiosos, agnósticos e, enfim, devemos nos respeitar. Temos que ter planejamentos e análises coletivas, assim como ações concretas. Retóricas não mudam realidades. É preciso ter perseverança e determinação. As mudanças levam meses, anos e décadas, talvez uma geração. Como dizia Paulo Freire, temos que ter paciência histórica. O que eu pensava que mudaria em um ano mudou somente depois de 30 anos. Não podemos ser imediatistas e donos da verdade. Temos que escutar as pessoas e saber divergir com respeito. Ninguém é dono da verdade. Ela é relativa segundo as experiências e vivências de cada um.

 

Como você acredita que as políticas públicas para a comunidade LGBTI sairão do papel para uma ação concreta?

Muitas políticas já saíram do papel. Hoje podemos casar e adotar. Já se respeita o nome social em 83 Universidades Públicas e em algumas particulares. Precisamos saber denunciar os pontos fora da curva, que infelizmente ainda são muitos. E com tomadores (as) de decisões (com gestores (as) municipais, estaduais, distritais, nacionais e internacionais) temos que levar os problemas com evidências, pesquisas, dados e pelo menos duas soluções factíveis. Precisamos de organização, exercer o direito de fazer advocacy (incidência política) e accountability (responsabilização) das políticas convencionadas.

 

Ignorância, preconceito ou falta de amor, o que considera ter sido os fatores preponderantes para o assassinato do jovem Itarbelly Lorenzo pela própria mãe?

O assassinato de Itarbelly Lorenzo foi uma somatória de desumanidade – ninguém merece morrer (isto foi uma selvageria) -; fundamentalismo religioso; falta de amor. Foi um dos piores crimes que eu já vi. Fiquei dois dias muito chocado.

 

Qual o maior equívoco que as pessoas cometem quando analisam a sua luta pelos Direitos da comunidade LGBTI em nosso país?

Achar que queremos destruir a família tradicional e que queremos privilégios. Primeiro o que existe são vários tipos de famílias não uma só. E o que queremos são direitos garantidos na Constituição Federal e nas convenções internacionais. Queremos direitos iguais, nem menos, nem mais. Queremos ser felizes, como qualquer outro ser humano.

Um vídeo do ativista Toni Reis

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.