Entrevista publicada em 26/02/2014 por Eder Fonseca em Música
 
 

“Realizo-me quando faço o que amo”
Ana Cañas – Cantora e compositora

Ana Cañas

Nascida em 14 de setembro de 1980, a jovem e talentosa paulistana Ana Cañas, é um dos principais nomes da nova geração de cantores do nosso país. Anos atrás, estudante de Artes Dramáticas da USP, ela foi fazer um teste para uma peça de teatro. O espetáculo trazia na trilha sonora uma canção do repertório da cantora americana Ella Fitzgerald. Ana se apaixonou pela canção e pôs na cabeça que seria cantora. Estreou em 2007 no cenário musical com o álbum “Amor e Caos”, cuja canção “Coração Vagabundo”, de Caetano Veloso, integrou a trilha sonora da novela Beleza Pura, da Rede Globo. Fez sucesso na internet com hits como “Super Mulher”, “Devolve, Moço” e “Cadê Você?”, e, a partir de 2008, participou de algumas edições do programa Som Brasil, exibido pela mesma Rede Globo. Em 2009 lançou Hein?, que contêm o hit “Esconderijo”, da trilha sonora de Viver a Vida, e em 2012 o disco “Volta”. O seu mais recente trabalho é o CD e DVD “Coração Inevitável”, que teve a direção do showman Ney Matogrosso. “É a vontade de correr riscos e uma certa propensão a isso. O delírio fatal da entrega absoluta, o corte que sangra, a ferida exposta. Não sei. É tudo muito subjetivo e prático quase, um paradoxo extremo onde apenas a loucura pode equacionar os desejos e possíveis coragens. (…) Acho que faz parte de sua idiossincrasia o papel do questionamento, reflexão, comunhão e os subjetivos resultantes”, afirma a cantora.

 

Ana, você surgiu para a mundo musical no ano 2000 vindo a ter um grande destaque em 2007 com o álbum “Amor e Caos”. Quais foram os maiores desafios nesse cenário antes de 2007?

Olá. Bom, na verdade, considero esse período em que cantava nos bares em SP uma verdadeira faculdade – musical e de vida – pois lá todos estão conversando, bebendo ou comemorando. Ninguém está ali necessariamente para te ver ou prestando muita atenção. Então, foi um exercício muito grande poder perceber como seria possível conquistar a atenção sincera das pessoas e a sua empatia. Então este foi um período de grande aprendizado. Hoje, os aprendizados continuam – e acredito que sempre existirão. Mas é uma busca essencialmente existencial e artística profunda através da composição de repertório, atitude e poéticas. A fé no insondável continua, mas de uma maneira diferente.

 

Quando entrevistamos artistas de um modo geral, sempre fazemos uma pergunta e para você não será diferente. Acredita que a arte deve ter um papel social?

Acho que faz parte de sua idiossincrasia o papel do questionamento, reflexão, comunhão e os subjetivos resultantes. A arte reflete a vida, que reflete o humano, que por sua vez reflete suas relações e conflitos intrínsecos.

 

No álbum “Amor e Caos”, existe um cover de Bob Dylan e você fala muito do cantautor em suas entrevistas. O autor de “Like a Rolling Stone” é uma das suas principais influências?

Para mim, a música é antes e depois dele. Acho que ele libertou as nossas mentes. Inseriu poesia e injetou questionamentos rasgados de formas ainda não feitas na música popular.

 

Nos seus shows, você diz que o abismo está sempre presente e te convida a ter coragem de não deixar de ser o que não é. Nos fale mais sobre isso.

É a vontade de correr riscos e uma certa propensão a isso. O delírio fatal da entrega absoluta, o corte que sangra, a ferida exposta. Não sei. É tudo muito subjetivo e prático quase, um paradoxo extremo onde apenas a loucura pode equacionar os desejos e possíveis coragens. É comunhão, um pacto com o sagrado e a grande beleza humana.

 

Como você enxerga os novos meios de divulgação para músicos independentes?

Acho positivo a democracia oferecida no território da internet. Mas o custo dessa abrangência muitas vezes é a superficialidade e não-verticalização de assuntos e debates importantes e que requerem maior compreensão ou aprofundamento.

 

Quando se está numa gravadora, ainda sim é possível manter uma certa independência ou o chamado “mercado”, atrapalha tudo no final das contas?

Na verdade, criar um selo meu foi mais um gesto poético e metafísico de liberdade e independência artísticos. Na prática mesmo, lancei meu disco “Volta” (2012) e agora o DVD “Coração Inevitável” – ambos em parceria com a gravadora Som Livre (distribuição e divulgação). Mas gostaria muito de lançar outros projetos da cena musical independente futuramente.
Cantora Paulistana

Ascensão: Ana Cañas interpreta suas canções no palco (Foto: Marcos Hermes)

 

O Jazz e a MPB são vistos por muitos em nossa sociedade inclusive por alguns críticos, como gêneros musicais elitizados. E você que interpreta os dois, como enxerga essa questão?

Não acredito em elitização da arte. Vejo apenas uma tragédia anunciada quando falamos de um país onde cultura e educação não são prioridades. Tudo que é bom, verdadeiro e genuíno é acessível pois fala de alma para alma. Nos toca e comove. Arranca do lugar comum e transforma. Eu acredito nisso. Arte pra mim é isso.

 

Assim que começou a se destacar, muitos cantores renomados elogiavam o seu trabalho entre eles Chico Buarque, Caetano Veloso e Toquinho, mas você disse que apenas fazia o seu trabalho da melhor forma possível. O quanto você é exigente com o seu próprio trabalho?

Sou muito crítica, excessivamente as vezes. Mas sou virginiana e acho que os astros me fizeram assim. Mas ao mesmo tempo, isso me leva pra frente, me faz questionar tudo o tempo todo. E se puder melhorar, porquê não fazê-lo.

 

O seu segundo disco “Hein?” traz a sua canção de maior sucesso que é ‘Esconderijo’ e também foi a fase mais difícil da sua carreira. Como você trabalhava isso na sua cabeça?

Olha, eu acho importante abrir a história e jogar a real. Não quero mentir nem pra mim, nem para o público que me prestigia de forma tão positiva e igualmente aberta. É uma fase encerrada. Mas ainda sinto uma importância muito grande na eterna reflexão das dores e é num período difícil que construímos verdadeiras fortalezas e também descobrimos quem somos. Foi na queda que encontrei grandes respostas e porquês. Perder-se também é caminho.

 

Qual o peso do disco “Volta” na sua vida e na sua carreira?

Eu o considero meu disco mais coeso e bonito. Ele reflete e alicerça valores importantes e sensíveis pra mim. Ainda me cobro ‘um grande disco’. Mas ele – a sua maneira – foi fundamental, pois sedimentou o caminho para o show “Coração Inevitável” com a direção do Ney e, posteriormente, a gravação do DVD – que me trouxe muitas alegrias.

 

Ney Matogrosso dirigiu o seu DVD “Coração Inevitável”. Como foi trabalhar com ele e o que você espera de seu mais recente trabalho?

Foi mágico. Ney sabe muito bem o que faz, porque faz e como faz. É um astronauta lírico. E é uma bênção e uma honra muito grande poder conviver e aprender com um ídolo. Ele me ajudou a resgatar a feminilidade e a sensualidade sutis. Montamos um repertório que abordasse diretamente a questão do gênero feminino e suas inúmeras facetas, cores e densidades. Estou muito feliz com o resultado do show e do DVD. Espero continuar focada, dedicando-me ao que me faz bem e feliz. Realizo-me quando faço o que amo.

Um vídeo da cantora Ana Cañas

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.