Entrevista publicada em 16/10/2017 por Eder Fonseca em Economia
 
 

“Sem igualdade não iremos muito longe”
José Francisco de Lima Gonçalves – Economista-chefe do Banco Fator

José Francisco de Lima Gonçalves

José Francisco de Lima Gonçalves é economista-chefe do Banco Fator. Faz análises e projeções referentes a macroeconomia, economia internacional e finanças públicas. Foi assessor especial do Ministério da Fazenda e diretor da Secretaria do Tesouro Nacional. José Francisco é graduado em Economia pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), mestre e doutor em economia pela UNICAMP e professor do departamento de Economia da FEA-USP desde 1982. “Economia e política não se descolam. A crise política, em seus aspectos jurídicos e morais, destacou a diferença entre política de Governo e aquilo que, com muita liberdade, poderíamos chamar de política de “estado”, daquilo que transcende este ou aquele Governo. Só que isto (quais reformas; como?) divide a sociedade, logo, política. Veja, as forças políticas, todas, são favoráveis à manutenção do Governo Temer e de espaço para disputar as eleições de 2018. De um lado, desgastar o presidente e obter vantagens. De outro, deixar a equipe econômica com o ônus das reformas. E ficar com o risco de que alguém do Governo colha eventuais frutos. Isto é política. A política olha 2018. Ou mais longe. A campanha vai encolher o horizonte econômico e incorporar eventuais surpresas. (…) Normalidade é um conceito interessante. O mundo está “anormal” desde 2008″, afirma o economista.

 

O senhor acredita que a economia está descolada da política neste momento?

Economia e política não se descolam. A crise política, em seus aspectos jurídicos e morais, destacou a diferença entre política de Governo e aquilo que, com muita liberdade, poderíamos chamar de política de “estado”, daquilo que transcende este ou aquele Governo. Só que isto (quais reformas; como?) divide a sociedade, logo, política. Veja, as forças políticas, todas, são favoráveis à manutenção do Governo Temer e de espaço para disputar as eleições de 2018. De um lado, desgastar o presidente e obter vantagens. De outro, deixar a equipe econômica com o ônus das reformas. E ficar com o risco de que alguém do Governo colha eventuais frutos. Isto é política. A política olha 2018. Ou mais longe. A campanha vai encolher o horizonte econômico e incorporar eventuais surpresas.

 

A taxa Selic fechará o ano abaixo de 8,25% nas previsões do Banco Fator?

Nossa expectativa é que a taxa Selic feche o ano a 7,00% e continue em queda para 6,75% no início de 2018. O viés que temos hoje é de queda abaixo desse valor até meados de 2018, pelo menos. Este cenário tem riscos importantes, mas assimétricos. Comporta pouca queda adicional e alguma alta antes do fim do ano. Mas o caso base é a Selic ficar parada até a virada de 2019.

 

Como analisa o Governo Temer quando se trata da economia?

Um Governo que lançou a “ponte para o futuro” antes de assumir, com promessas liberais, algumas de difícil crédito. Mas, no geral, o Governo entregou coisas que prometeu, como a reforma trabalhista e a aprovação do teto de despesas. Nas concessões e privatizações quase não fez nada e, sobre abertura comercial, reforma tributária, superávits primários, dentre outras, nada. Principalmente a reforma da previdência, vendida como questão de sobrevivência a trajetórias explosivas. Como vimos acima, não é bem um Governo, é um expediente coletivo para se chegar às eleições sem acabar com o país e sem acumular mais desgastes. Ademais, a travessia para 2018 pode poupar gente envolvida nas questões judiciais… A leve melhora da economia tem mais relação com a saída de Dilma do que com a subida de Temer. E veja que existe uma grande defasagem. A política fiscal contracionista, ao cortar investimentos e elevar despesas com pessoal, contraiu a atividade e piorou o resultado primário. A economia parou de piorar porque o investimento parou de cair. Está zerado…

 

Acredita que a inflação voltará a normalidade em 2018?

Normalidade é um conceito interessante. O mundo está “anormal” desde 2008, se olharmos os balanços dos BCs (Banco Centrais) e as taxas de juros. Nossa inflação “normal” não é 10%, nem 2,5%. Os dois extremos se deveram a choques (alimentos, administrados e câmbio) em uma economia fortemente indexada. Para cima e para baixo. Para cima ainda entrou a firme situação do mercado de trabalho e, na baixa, a profunda e longa recessão. Não se esperam choques nos próximos trimestres. O maior risco é o cambial, cenário binário. Os preços dos alimentos vão subir, mesmo sem choques; estão em deflação há meses. Os preços administrados estão razoavelmente alinhados, mas as tarifas de energia elétrica são um grande risco dada a estiagem. A indexação agora joga a favor e a recuperação da atividade muito lenta vai demorar a pressionar custos. Estimamos inflação abaixo de 4% por vários trimestres.

 

Se essa perspectiva de inflação normalizada se concretizar, os empregos “reaparecerão” de forma massiva ou outros fatores podem ser determinantes para que isso venha ocorrer?

A inflação corrente e esperada entre 3,5% e 4,0% pode ser um ótimo primeiro passo para a retomada do crescimento. Desde logo porque tende a estabilizar os salários reais, mas também porque permite que a taxa de juros básica seja reduzida. Mas cabe cautela sobre a recuperação da atividade e seu efeito sobre o emprego. Desde logo, a ociosidade na indústria permite recuperação da produção sem contratação. A automobilística é o melhor exemplo: produção em recuperação, mas emprego ainda em queda. De outro lado, a alta do mercado de trabalho entre 2005 e 2012 foi enorme, inédita, e a queda igualmente; um tombo espetacular, sem precedentes na dimensão e na velocidade. Não há parâmetro para servir de referência. O que precisa ficar claro é que as condições para a trajetória 2005 a 2012 não vão existir novamente. Ninguém vai contratar se pretende manter a produção no nível atual. Mas quem quer aumentar a produção com elevado risco de não vender? Teria que ser alguém que aceita “prejuízos”, seja por não olhar o curto prazo, seja por não se balizar por resultados positivos diretos. Isto é, investimentos privados ou públicos em infraestrutura.

 

A Reforma da Previdência tornou-se o nosso Godot?

O Godot [alusão a primeira peça de teatro do irlandês Samuel Beckett intitulada “Esperando Godot”] ninguém sabe quem era, nem se era gente, nem se existia. E não veio, o que deixou os personagens vazios e inertes. Mas eles se colocavam como vazios e inertes. A reforma da previdência será uma construção social. Nos dois casos, porém, o tema é a existência.
O economista

Cenário: O economista José Francisco de Lima Gonçalves (Foto: Fundação CEEE)

 

Quais são os pontos primordiais na reforma apresentada pelo Governo?

Existem dois grupos de assuntos na previdência, aliás, previdência e assistência social. Um é demográfico e atuarial. Como financiar a aposentadoria? Isto envolve a idade em que se passa de contribuinte a beneficiário (o que se pode definir) e quanto tempo tal situação vai perdurar (que é definido pela demografia). O conteúdo técnico deste tema é dominante. É preciso definir uma trajetória sustentável com medidas compensatórias para oscilações cíclicas. Outro tema é a decisão política de programas de transferência de renda. Isto é político: quanto a sociedade quer pagar para idosos doentes, viúvas, desempregados, pescadores, etc, e como obter os recursos necessários? Isto é política, decisões mais complicadas. Os dois temas são primordiais. O primeiro é mais fácil de implementar, isto é, menos difícil. Sem uma regra para idade mínima fica difícil fazer conta. O segundo tema é político. Demora mais, tem sido mal tratado. Se a isonomia entre setor privado e setor público é parte da proposta do Governo, talvez seja o principal. Sem igualdade não iremos muito longe.

 

Em 2012, o senhor afirmou que o fim da crise na Europa poderia ser a porta de entrada para uma turbulência na economia brasileira. Isso foi efetivado de fato ou foi uma “má perícia” (se é que podemos dizer assim) dos responsáveis pela nossa economia doméstica?

Em 2012, o euro fechou em alta contra o dólar e o real passou o ano em R$ 2,05. O risco ali era de nova valorização do real, o que prejudicaria a atividade e manteria o vazamento de boa parte da demanda para as importações, aprofundando as distorções causadas por câmbio valorizado. O Banco Central, por outro lado, reduziu os juros e os manteve baixos (7,25%) com a inflação em aceleração (de 4,92% na mínima de 2012 para 6,59% em março de 2013) e começou a elevá-los em abril de 2013. Há muita crítica a esta postura do BC. Mas cabe lembrar que a aceleração da inflação se deveu à alta dos preços dos alimentos que passaram de 5,2% em meados de 2012 para mais de 10% em fevereiro de 2013. Os preços dos serviços já vinham andando bem acima da média (em torno de 8%). O câmbio e os tradeables (exemplo alimentos) não atrapalharam. Mas o Governo começou: controle dos preços administrados. Sabe-se onde deu. O câmbio começou a acelerar em meados de 2013. Economia indexada com choque de alimentos, preços importantes andando a 8% e câmbio acelerando, com o salário mínimo crescendo à frente, não há alta de juros que resolva. Por outro lado, a partir de meados de 2014, o resultado primário do Tesouro (exemplo INSS), que vinha em torno de 2,7% positivos desde 2010 caiu para 1,7% na média em 2014 e para 0,5% em 2015. A queda da arrecadação e o aumento das despesas, em boa medida intencionais, se somaram à piora monótona do RGPS na deterioração das contas públicas. A formação bruta de capital fixo, que crescera um pouco em 2013, despencou. Deu no que deu.

 

Vê algum problema no cenário global que pode afetar futuramente a complexa e frágil economia nacional?

Depois da crise inaugurada em 2008, demoramos algum tempo para aceitar que os governos e bancos centrais atuassem fortemente nos mercados. A fragilidade da economia global persiste na forma de inflação muito baixa e atividade claudicante. Sempre há riscos políticos, acrescidos agora dos receios nacionalistas. Risco econômico é a transição na China e a economia americana. A atividade não anda, os juros não podem subir, os ativos de risco sobem sem trégua. Certamente não é uma cara boa.

 

Em quais setores acredita que estão as oportunidades para uma alavancagem da nossa economia em um médio prazo?

No médio e longo prazos, o menos arriscado é comprar ativo existentes de infraestrutura, como geração de energia, e/ou que exijam pouco investimento e gerem caixa de imediato, como ativos ligados a mobilidade urbana. A indústria segue em risco, dado o real valorizado e a dificuldade de concorrer com a 4.0. O setor de serviços vai demorar para se recuperar e não voltará aos níveis anteriores. O agronegócio e, portanto, a logística vinculada, seguirá sendo o segmento mais dinâmico. No meio do caminho, um pouco de indústria e um pouco de serviços, saúde sempre vai ser importante, mesmo com níveis de renda mais baixos do que os recentes. Educação também tem uma tendência de redução do setor público.

 

As incertezas já cederam de forma significativa?

Mudaram de patamar. É significativa a diferença se comparada com o vigente entre meados de 2015 e meados de 2016. Para a frente, existe muita torcida em relação à reforma da previdência, embora se reconheça que ela não ocorrerá antes de 2019. A torcida se refere à avaliação de que, como ela é necessária, ela ocorrerá. Não creio que assim seja. Veja a sucessão de posturas em relação à trajetória fiscal. Crença no ajuste, frustração com as despesas, decepção com a arrecadação, tolerância com as metas, complacência com as reformas adiadas. O mercado vai se acomodando… até?

Um vídeo do economista do Banco Fator

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.