Entrevista publicada em 3 de fevereiro de 2016 por Eder Fonseca em Música
 
 

“Seria uma pessoa infeliz sem música”
Rodrigo Chenta – Compositor, instrumentista, educador musical e analista

Rodrigo Chenta

Compositor, instrumentista, educador musical e analista, Rodrigo Chenta entrou para o mundo da música no final de 1994, através de amigos que possuía na igreja que frequentava (Primeira Igreja Batista em São João Clímaco) e outros do bairro onde morava. Começou tocando violão e depois partindo para a guitarra. Aos dezenove anos de idade, começou a trabalhar profissionalmente com música gravando e se apresentando com diversos grupos e formações instrumentais em São Paulo, Grande ABCD e interior paulista; e também lecionando em escolas de música e estúdios. No ano de 2008, realizando uma fusão entre música e tecnologia concluiu o curso de bacharel em Sistemas de Informação na Universidade Bandeirante de São Paulo. Possui aproximadamente 100 composições próprias entre obras instrumentais e vocais, e é diretor do portal Informação Musical. Em 2013, no programa de pós-graduação no Instituto de Artes da UNESP cursou com Marisa Trench de Oliveira Fonterrada o curso de Educação Musical: questões da contemporaneidade, ecologia acústica, pensamento sistêmico e criatividade. Neste mesmo ano, forma juntamente com Ivan Barasnevicius um duo de guitarras onde trabalham composições próprias com muitas partes improvisadas e com arranjos bastante peculiares. Em 2014, grava em duo com Ivan Barasnevicius, o álbum musical intitulado “Novos Caminhos” lançado em 2015.

 

Rodrigo, gostaria que falasse um pouco de você e de sua carreira para quem ainda não lhe conhece.

Sou um músico que começou tocando em igrejas evangélicas. Iniciei como autodidata por alguns anos e posteriormente estudei de forma sistemática em escolas conceituadas de São Paulo. Atuo no âmbito da música vocal e instrumental principalmente. Gosto muito de compor, improvisar e interagir nas interpretações musicais. Leciono há muitos anos tanto instrumento como disciplinas: harmonia, improvisação, composição e análise musical. Desenvolvo sites preferencialmente para músicos. Sou o diretor do site informacaomusical.com que atua com reflexões musicais através de entrevistas com músicos importantes em suas respectivas áreas de atuação; recomendações de CD, DVD e livros voltados para a música de alta qualidade. Tenho juntamente com Ivan Barasnevicius um duo com músicas autorais interpretadas especificamente com guitarras acústicas. Temos dois CDs gravados.

 

Alguns especialistas, dizem que o músico nunca deve achar que sabe demais, afinal a música é um processo inacabável. Você concorda com essa afirmação?

A música não tem fim, pois ela é uma arte dinâmica. Existe uma famosa e tradicional divisão entre compositor, intérprete e apreciador. Uma peça musical nunca é interpretada duas vezes iguais e cada ouvinte escuta de maneira diferente por motivos fisiológicos e pela bagagem musical que possui. Creio que isso já basta para entender que a música atua em um processo inacabável. Sobre o músico achar que sabe demais, isso é um grande equívoco daquele que pensa assim. Em qualquer esfera do conhecimento não se deve concluir que se sabe muito alguma coisa. Cito um pensamento grego que tomo com verdade para minha vida: “só sei que nada sei”.

 

Como enxerga o autodidatismo musical, afinal por quatro anos, você foi um autodidata e agora é um professor?

Ele ajuda em muitos aspectos e dificulta em outros. Existem músicos fantásticos autodidatas como o Alemão (Olmir Stocker) e Hermeto Pascoal somente para citar alguns. No meu caso as descobertas pareciam serem mais demoradas e as encarava como grandes acontecimentos. Percebia certa malandragem boa em relação ao swing e pegadas mais orgânicas, mas em contrapartida existia uma defasagem grande em relação à leitura de partituras e análises musicais mais profundas. O melhor que fiz foi estudar com gente boa e referência naquilo que faz. Quando passei pela ULM, FASCS, USP e UNESP, aumentou consideravelmente o que sei sobre música. No geral sempre sugiro um estudo sistemático, pois assim, diversas disciplinas serão abordadas o que proporcionará grande benefício ao estudante de música.

 

Acredita que a arte deva ter um papel social, ou concorda com a afirmação da artista experimental norte-americana Laurie Anderson: “O mundo muda sozinho, não precisa da arte para mudar”?

Arte é para humanos e como uma de suas várias funções existe a social. Não acredito que a arte deva, mas ela atua em um contexto social. O mundo muda sozinho sim, mas o homem muda o mundo também. Um mundo sem arte talvez não fosse interessante. Sem música e dança, teatro e cinema, pinturas e esculturas, literaturas e declamações, etc., tudo seria muito chato a meu ver.

 

Um fato que nos chamou bastante atenção em nossa pesquisa, foi que você realizou uma fusão entre TI e música ao concluir o bacharelado em “Sistemas de Informação”. Como foi isso?

Ao terminar o curso técnico de música da Fundação das Artes de São Caetano do Sul (FASCS) não quis cursar o bacharelado em instrumento com habilitação em guitarra pelo fato de já ter em mãos e no intelecto o conteúdo de disciplinas como improvisação, prática de grupo, big band, análise, apreciação, rítmica, percepção, contraponto, harmonia, história da música entre outras. Não fazia sentido estudar estas coisas novamente apenas para obter o título de bacharel em música. Como já havia estudado por quatro anos na Universidade Livre de Música (ULM) e também na FASCS pelo mesmo tempo, optei por não passar mais quatro anos vendo basicamente o mesmo conteúdo. Escolhi a graduação na área de TI, pois sempre foi grande meu interesse pelo assunto. Tive a oportunidade de unir música e tecnologia ao desenvolver o site de grandes músicos como o saxofonista Cássio Ferreira e o pianista e produtor Ogair Júnior por exemplo. Muitos músicos me procuram para desenvolver seus respectivos sites, principalmente por também ser músico e compartilhar de assuntos e interesses comuns. Um diferencial entre os programadores atuais.

 

Como um professor de música deve agir para ampliar o talento do seu aluno e não podá-lo?

Eu tenho uma atuação grande com o ensino da improvisação seja ela mais controlada dentro de certas linhas estéticas ou livre com jogos de improvisação e afins. Um grande problema é quando o professor diz “não pode tocar esta nota”. Tem gente que se apropria do conceito de “nota evitada” ou “nota evitada condicional” como se isso fosse nota proibida. Qualquer uma destas é perigosa e deve no mínimo ser contextualizada para assim, não podar a criatividade do aluno. Já a ideia de ampliar o talento do aluno não saberia dizer se isso é realmente possível. Quando estudei com o guitarrista Marcelo Gomes, ouvi do mesmo que no caso dele: “talento é o contrário de tá rápido”. Creio existir verdade nesta afirmação ao contextualizá-la para mim. Entendo que é possível mostrar diversos caminhos e propor reflexões nos alunos. Ajudá-los a não trilhar por caminhos que já se sabe levar ao insucesso. Agora o conceito de talento e suas implicâncias ainda é nebuloso para mim.

Guitarra

Visão Profunda: O músico Rodrigo Chenta com sua guitarra (Foto: Cesar Patena)

 

Uns dizem que é o jabá na grande mídia; outros já falam que é o desinteresse do grande público; e alguns maestros renomados, culpam a falta de educação musical nas escolas. Em sua visão, são esses três fatores apontados, que fazem com que tenhamos um mainstream musical no Brasil muito baixo em comparação à outrora, ou enxerga isso de outra maneira?

Acredito que isso ficará cada dia pior. É fato que uma boa educação musical cria um público mais seleto, crítico e aberto a mais possibilidades, coisa que não interessa a muitos governantes. Quando fui aluno no curso de arranjo e no de big band com o maestro Antônio Carlos Neves Pinto na FASCS, o ouvia dizer que a arte é para poucos e que boa música é para uma parte pequena da população. Tese interessante, mas triste se for provada. Sobre o jabá, ele é um câncer para a música em todos os aspectos. Ao encarar a música como produto e não como manifestação artística e cultural, não há mais diferença entre uma canção e um pote de manteiga, por exemplo.

 

Gostaria que falasse um pouco do seu interessante trabalho em duo com o músico Ivan Barasnevicius.

Este duo começou em outubro de 2013 pelo convite que o Ivan Barasnevicius me fez. Gravamos em 2014 nosso primeiro CD intitulado “Novos Caminhos” e o lançamos em fevereiro de 2015 no formato digital onde é possível adquiri-lo nas extensões wave, flac ou mp3 (320kpbs) mais os encartes em alta resolução. Assim, não existe o problema de riscar o CD (mídia física) já que ele não existe. Outra vantagem é a portabilidade. É possível ouvi-lo no celular, TV, blu-ray, home theather, computador, carros, etc. Em setembro deste ano gravamos nosso segundo trabalho intitulado “Antítese” e o lançaremos no início de 2016 no mesmo formato. A produção não para e de certa forma já estamos trabalhando em coisas que gravaremos esse ano. Temos como premissa propor a diversificação timbrística, onde as guitarras acústicas soam muito diferentes uma da outra. A do Ivan com som de amplificador e a minha com som de microfone. Exploramos o conceito do formato não standard nas composições, arranjos e interpretações. Existe muita interação do solista com quem faz o acompanhamento. Quem acompanha também improvisa bastante nas conduções. As composições são individuais e os arranjos coletivos. Tentamos ao máximo fazer tudo soar orgânico e vivo. Testamos muitas possibilidades e ensaiamos semanalmente.

 

Composição no seu caso é inspiração ou transpiração? Afinal você compõe bastante como já sabemos…

Com certeza muito mais inspiração do que transpiração. Componho nos moldes mais tradicionais quando estou inspirado. As ideias me vêm e as escrevo em partitura ou as gravo, pois se não o fizer é fato que com o tempo esquecerei. Não confio na minha memória. Nos últimos anos tenho escrito músicas que não sei enquadrar em nenhum gênero ou estilo devido ao grande número de fusões e experimentações. Gosto disso, pois reflete uma naturalidade do processo criativo. Já quando falo de composição instantânea onde toco livremente através de improvisações sejam idiomáticas ou não, na maioria dos casos gosto do resultado e tudo sai naturalmente. Obviamente que existem dias específicos que por diversos motivos e problemas não sai nada de bom e nestes casos, o melhor é não tocar.

 

Como tem tirado proveito de todo aparato tecnológico para difundir e expandir o seu trabalho?

A internet como meio de divulgação é ótima. O músico que não tem um site está na contramão da tecnologia. Com esta ferramenta é possível disponibilizar informações importantes como a produção cultural, agenda de concertos, releases, imagens, vídeos, serviços, partituras, etc. As redes sociais se bem utilizadas complementam o site na divulgação do trabalho. Com a internet é possível atuar com aulas no formato online que elimina de vez os problemas com logística. A tecnologia atual permite vender gravações no formato digital. O CD “Novos Caminhos”, por exemplo, pode ser comprado diretamente comigo ou com o Ivan, seja através de nossos sites pessoais ou no site do duo (www.rodrigochentaeivanbarasneviciusduo.com). Também está à venda em plataformas como Amazon, iTunes, CD Baby, Play Store, XBox Music, etc.

 

O poeta francês Paul Claudel, disse que a música é a alma da geometria. E para você, o que é a música?

Sou músico e não sei definir o conceito de música pelo menos atualmente. De fato, é um paradoxo. Muitos concordariam até certo ponto com a afirmação do autor citado na pergunta. Prefiro discorrer sucintamente sobre as diversas funções que a música exerce para se ter uma ideia do que a música seja. a) A função religiosa serve como adoração a Deus seja em um contexto de culto público ou pessoal; b) A função pedagógica serve para ensinar algo em um ambiente educacional; c) A função política também é facilmente perceptível não somente na música vocal como também na instrumental onde há uma ideologia subentendida; d) A função lúdica é outra muito presente, por exemplo, nas interações em momentos de improvisação ou com o repertório para crianças da primeira infância; e) Obviamente também há uma função estética onde se aprecia a música e tudo que a envolve como interpretação, performance, estrutura e outros pontos mais; f) A função social permite um contato maior entre as pessoas; g) A função moozak, para citar um termo cunhado por Raymond Murray Schafer [compositor e educador musical canadense, 1933-], serve para literalmente não ser ouvida como por exemplo, músicas de elevadores e ambientes como lojas, salas de esperas e afins. Existem muitas outras funcionalidades que a música pode ter. Sei que sem música, eu seria uma pessoa extremamente infeliz.



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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do portal Panorama Mercantil.