Entrevista publicada em 1 de outubro de 2018 por Eder Fonseca em Negócios
 
 

“Somos bombardeados diariamente com muito conteúdo”
Leandro Silva – Cofundador do Rio WebFest

Leandro Silva

O Rio WebFest teve sua edição inaugural realizada em 2015, na Ação da Cidadania e Casa Porto, centros culturais localizados na Zona Portuária do Rio de Janeiro, onde 185 trabalhos, 65 séries nacionais e 120 internacionais concorreram a mais de 30 prêmios. A edição de 2016, sediada pela primeira vez na Cidade das Artes, foi um salto exponencial que consolidou o sucesso da iniciativa. Finalmente, a edição de 2017 tornou o Rio WebFest um dos mais importantes eventos da categoria no mundo, com mais de 500 séries inscritas, das quais 206 concorreram a 54 troféus, prêmios em dinheiro, contratos de coprodução e três viagens internacionais. “O diferencial do RIOWF é dar oportunidades reais aos criadores de conteúdo. Assistindo às master class, keynotes, oficinas e mesas redondas com convidados internacionais e profissionais do mercado audiovisual, os participantes aprendem gratuitamente como podem melhorar o seu modo de produzir. As viagens internacionais e seleções diretas para festivais parceiros internacionais dão a chance de promover o produto audiovisual brasileiro no exterior, onde é mais exótico e por isso a possibilidade de ser monetizado é maior que no mercado nacional. Foi assim que aconteceu com nossa própria websérie, “Oposto do Sexo”, que foi vendida duas vezes para França e uma para Coreia do Sul”, explica o cofundador do festival Leandro Silva.

 

Leandro, como se desenrolou a sua carreira até chegarmos aos dias atuais?

Desde criança, graças a profissão do meu pai de analista de sistemas, sempre tive contato com computadores e câmeras fotográficas. Quando ingressei na faculdade de comunicação social em 2003, produzi pelo menos um curta-metragem por um ano colecionando mais de uma dezena de filmes. Um ano antes, cheguei a trabalhar na Rede Globo de Televisão como operador de vídeo durante três meses.

Nenhum desses curtas me deu dinheiro ou reconhecimento, exceto um prêmio de melhor atriz do festival de cinema de Petrópolis em 2010 – que obviamente não foi pra mim (Risos). A partir de 2011 comecei a gravar filmes etnográficos e documentários institucionais para empresas como IPHAN-RJ por exemplo. Finalmente em 2013, encontrei meu amigo e parceiro de faculdade, Daniel Archangelo e decidi gravar com ele uma web série para internet com intuito de construir um público e ganhar dinheiro no estilo do Porta dos Fundos.

Assim nasceu a web série “Oposto do Sexo” que ganhou mundo com 85 episódios legendados em inglês, sendo vendida duas vezes para França e uma vez para Coreia do Sul.

Essas vendas só aconteceram porque colocamos a série em festivais internacionais dedicados as séries digitais, os web festas, e daí surgiu a ideia de trazer um evento desse tipo para o Rio, marcando nosso pioneirismo em 2015 quando rolou a primeira edição do Rio Webfest na Zona portuária.

 

Em que momento a web lhe chamou a atenção como uma ferramenta potencial para suas ideias?

Eu sempre fui muito ligado no mundo digital, com grande afinidade com computadores e câmeras. Mas foi somente em 2013 que eu reparei que precisávamos de uma presença audiovisual on-line mais forte para conseguir conquistar um público e então ganhar dinheiro com o nosso trabalho.

 

Como se deu a convergência entre você e o seu parceiro Daniel Archangelo para criação do festival?

Eu conheci o Daniel na faculdade, num dos meus muitos curta-metragens. Ele trabalhou comigo como ator em 2008 e 2010, e nossa parceria deu muito certo desde o começo. Depois de fazer os nossos episódios para websérie de 2013 até 2015, a parceria foi consolidada e chamá-lo para produzir o festival comigo foi uma escolha óbvia e necessária. Quase enlouqueci fazendo a primeira edição em 2015, e o seu ingresso como diretor de produção no último mês antes do festival foi indispensável.

 

Por que a escolha por webséries?

Tem muito a ver com o momento que vivemos hoje. Quando entrei na faculdade em 2003, o sonho de todo mundo era ser o Steven Spielberg, dirigir um longa-metragem para um grande estúdio e ganhar reconhecimento. Contudo, hoje em dia o sonho dos cineastas é se transformar no diretor da série Game of Thrones e a partir daí ganhar reconhecimento. As séries de televisão superaram o cinema em muitas formas incluindo qualidade de roteiro, atuação e reconhecimento geral da audiência.

Com internet e as redes sociais, somos bombardeados diariamente com muito conteúdo de todas as partes do mundo ao mesmo tempo. Ser genial e inovador se transformou numa tarefa cada vez mais difícil. Por isso, o jeito de se destacar hoje é se tornando serial e não momentâneo. O Porta dos Fundos é um exemplo de web série mais bem-sucedida do mundo. Muitos episódios podem não ser tão geniais, mas estão sempre lá, lançando dois episódio por semana, durante mais de cinco anos.

 

Esse é um caminho sem volta para a sétima arte e para as produções audiovisuais de um modo geral?

Eu sempre digo que prever o futuro é uma tarefa difícil para um profissional de qualquer área. Mas posso dizer que as webséries são o presente. Todos nós temos um celular na mão, todos nós estamos viciados em conteúdos audiovisuais (mais da metade do conteúdo consumido na internet de informação é de vídeo e não texto) e as séries são a melhor forma de conquistar um público e fixar a sua presença on-line. Portanto, mesmo que você seja um profissional de uma área diferente do audiovisual, produzir alguma coisa serial para sua empresa e o seu negócio é essencial para se destacar na timeline do seu público e ficar nas mentes dos internautas nos tempos loucos que vivemos hoje.

 

Como o mercado de webséries do Brasil está inserido globalmente?

Já existem plataformas no Brasil dedicadas ao conteúdo serial de curta duração para dispositivos móveis, mas o mercado de séries digitais ainda é muito incipiente. Sem dúvida o YouTube é a plataforma que mais remunera os criadores independentes, mesmo que seu foco seja principalmente os vloggers e celebridades da internet. Mas o modelo de negócio de webséries ainda está se consolidando.
Os fundadores da RIOWF

Ambiciosos: Leandro Silva e Daniel Archangelo do RIOWF (Foto: Divulgação/AP)

 

Quais serão as maiores inovações se compararmos com os festivais anteriores?

Todo ano eu e Daniel tentamos inserir novas categorias, aumentar as premiações em dinheiro e viagens internacionais. Acredito que a principal inovação para este ano será a mudança nas ações de pitching, que passarão de um modelo de rodada de negócios para uma apresentação mais pública como um TED por exemplo.

 

Outro festival famoso é o Melbourne Webfest que ocorre na Austrália. Quais as principais similaridades deste festival com o Rio WebFest?

Eu nunca participei presencialmente do festival da Austrália. Mas já fui a França, Los Angeles, Espanha e Coreia do Sul. De um modo geral, todos eles seguem o mesmo padrão, com exibições, painéis dos criadores, keynotes e master class. O que temos em comum com o festival australiano é a premiação em dinheiro para o voto popular, coisa que nem todos os festivais adotam.

 

E suas principais diferenças?

Nossa principal característica que nos diferencia dos outros festivais é o que eu e Daniel chamamos de “Golden Ticket”. São seleções diretas para festivais parceiros internacionais, para os quais eles escolhem um criador brasileiro para ir ao exterior com passagem e hospedagem bancadas por eles. Em 2018 teremos três tickets desse tipo no mínimo para França, Los Angeles e Roma. Nosso ideal seria conseguir mais um, para melhorarmos em relação a edição do ano passado.

 

Fale um pouco mais sobre o Super Project.

O Super Project são sessões de pitching para coprodução nacional e internacional. Foi concebido pensando nos criadores que não tem uma série pronta ainda, tendo somente a ideia e um portfólio de trabalho suficiente para sustentar a possibilidade de fazer uma série com ajuda de um produtor. É uma inscrição separada da inscrição das séries, visto que não requer o mínimo de dois episódios prontos para serem julgados nas categorias de premiação do festival.

 

Como enxerga o Rio WebFest nos próximos 4 anos?

Como disse anteriormente, prever o futuro não é muito a minha especialidade. Porém, eu vejo o festival crescendo cada vez mais, ganhando maior popularidade no território nacional e fomentando sempre o mercado audiovisual brasileiro para internet além das celebridades e influenciadores. Nosso objetivo é melhorar sempre e aumentar o espaço para os criadores que desejam mais do que eles veem na mídia tradicional e na internet atualmente.

Um vídeo do criativo Leandro Silva

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.