Entrevista publicada em 13/05/2015 por Eder Fonseca em Comunicações
 
 

“Vivemos em um país muito preconceituoso”
Joyce Ribeiro – Jornalista e apresentadora de televisão

Joyce Ribeiro

Começando sua carreira na televisão em 1998, na Boa Vontade TV, da LBV (Legião da Boa Vontade), Joyce Ribeiro atuou naquela oportunidade, como produtora e repórter. Na RIT, teve sua primeira experiência como apresentadora de telejornal. Em 2002, Joyce foi para a Rede Record, onde atuou como repórter e apresentadora no Fala Brasil. Posteriormente, apresentou um telejornal diário na Record Internacional. Já em 2005 foi para o SBT, onde de setembro de 2005 até março de 2006 apresentou a edição matutina do Jornal do SBT, passando a seguir a apresentar a previsão do tempo do extinto SBT São Paulo. A jornalista também apresentou o Aqui Agora em 2008 e por um ano e meio, o programa Boletim de Ocorrências, depois a nova versão do SBT São Paulo ao lado de Karyn Bravo, e em Maio de 2013 voltou para o SBT Manhã ao lado de Hermano Henning. Em Setembro de 2014 assume o comando do Jornal da Semana SBT. “O problema é que quando falamos em escola pública no Brasil, não nos referimos a uma formação mínima que possibilite elevação social para a massa negra. A falência do ensino público no Brasil produz a desgraça social que vivemos hoje, acredito que seja o começo da cadeia destrutiva da sociedade. Um profissional mediano, com uma formação razoável, terá muita, mas muita dificuldade para se colocar no mercado, isso acontece de forma geral”, afirma a jornalista. 

 

Joyce, como foi o seu começo de carreira até chegar ao SBT?

Na adolescência eu já pensava em ser jornalista. Adorava assistir telejornais e era fã de profissionais que até hoje são referência no meu trabalho. Comecei na LBV (Legião da Boa Vontade), onde atuei como produtora, repórter e depois apresentei um programa de cultura. O primeiro telejornal foi em 2001, na Rede Mundial de TV, onde apresentei o “Toda Hora”. Em 2003 fui para a Rede Record como apresentadora do “Fala Brasil”, fiz também reportagens e transmissões pelo helicóptero. Em 2005 fui convidada para fazer parte da nova equipe de jornalismo do SBT, onde trabalho até hoje.

 

Qual a sua visão do jornalismo que é praticado pelas emissoras de TV em nosso país?

Estamos em uma fase de transição, procurando um direcionamento mais apropriado para os dias atuais, com tantas possibilidades de divulgação de notícias. Os veículos tentam formas de atender o novo telespectador, mais rápido, exigente e antenado nos mais variados veículos e canais ao mesmo tempo.

 

Em que você acha que o jornalismo televisivo hard news deve se diferenciar em uma época onde a internet e as redes sociais surgem com grande força para a difusão de notícias?

Como as possibilidades são muitas, acredito que a TV deve trabalhar sempre para ser referência de informação segura, que conquista o telespectador pela confiança. Ele pode receber a informação rápida pelas redes sociais, mas a TV deve ser uma possibilidade de aprofundamento, de apuração de todos os aspectos da notícia e comprometimento com a verdade.

 

Nesses últimos tempos, o assunto liberdade de expressão tomou conta do noticiário, principalmente com a morte de jornalistas importantes do semanário francês “Charlie Hebdo”. Em sua visão, deve haver limites para a liberdade de expressão e opinião?

Acredito que o respeito deve direcionar as relações sempre. O meu direito de expressar opiniões não deve ferir o próximo, mesmo que a mensagem seja uma crítica, piada ou opinião contrária. Se todos os lados se tratassem com respeito evitaríamos os conflitos que presenciamos hoje. Onde há respeito as críticas e até as brincadeiras são recebidas com mais facilidade.

 

Em uma entrevista, você afirmou que a presença do negro no telejornalismo, tanto como profissional ou notícia é de invisibilidade. Por que acredita que isso acontece, sobretudo num país onde sua população é de maioria negra?

Vivemos em um país muito preconceituoso. Os alvos de discriminação são perpetuados com o passar dos anos e as poucas mudanças acontecem muito lentamente. As organizações no Brasil são formadas por lideranças brancas, por isso a questão da cor não ganha destaque nas empresas, passando a falsa impressão de que o preconceito não existe e que tudo é uma questão de dedicação e empenho dos candidatos. O mesmo se repete em relação aos obesos, homossexuais, idosos e deficientes por exemplo, no meio corporativo.

 

Você disse que quando se é negro em nossa sociedade, as chances são mais distantes. Como os negros devem criar essas oportunidades para que tenham êxito em suas respectivas profissões?

Não consigo ver outra possibilidade que não seja a educação. O problema é que quando falamos em escola pública no Brasil, não nos referimos a uma formação mínima que possibilite elevação social para a massa negra. A falência do ensino público no Brasil produz a desgraça social que vivemos hoje, acredito que seja o começo da cadeia destrutiva da sociedade. Um profissional mediano, com uma formação razoável, terá muita, mas muita dificuldade para se colocar no mercado, isso acontece de forma geral. O que pensar do jovem negro, que frequentou uma escola péssima? Ele sonha com a universidade, mas não tem recursos para investir. Enquanto a atenção não for voltada para a educação, teremos apenas casos isolados de sucesso e o bem estar coletivo ficará na esfera dos sonhos.

Ricardo Zarattini

Credibilidade: Ricardo Zarattini é entrevistado por Joyce Ribeiro (Foto: SBT/AP)

 

O assunto controle social da mídia, sempre volta à baila de tempos em tempos. Você acredita que esse controle é para amordaçar a mídia, ou simplesmente para frear alguns abusos cometidos por alguns veículos?

Não acredito que qualquer forma de controle da mídia traga algum benefício. Acredito sim, que os meios de comunicação e seus profissionais devem publicar de forma responsável e se responsabilizar por aquilo que escrevem e publicam sempre. Não adianta delegar a tarefa de fiscalizar aquilo que deve ou não ser exposto para outro órgão, isso não dá certo, já vivemos isso e o resultado foi o pior possível. O profissional é o responsável por aquilo que escreve e que fala nos veículos de comunicação.

 

Seria viável hoje levar o seu “Joyce Entrevista” para a televisão do mesmo modo como é na internet, ou seja, com a liberdade que há nesse meio, ou acredita que a ideia original em algum momento seria modificada para se adequar a emissora?

Sim, a produção de um programa como o que faço para a internet na TV é perfeitamente viável. A linguagem da internet é mais rápida e dinâmica… E a resposta do público é imediata. Para a TV a ideia original não teria que ser modificada, o que muda um pouco é o tempo de duração e os dias de veiculação que são pensados de outra forma para a TV.

 

Em que momento a pressão por audiência atrapalha um telejornal?

Em um telejornal o importante é a notícia, a verdade e a informação correta. Estratégias em busca da audiência acontecem, mas devem atuar em outras áreas que fazem parte do jornal. Talvez estudando melhor o horário de veiculação, a elaboração dos blocos, a duração dos comerciais, o cenário, o tempo de duração do jornal, tudo isso pode ser pensado de forma mais estratégica para se atrair a audiência. A notícia não entra nesta lista de forma alguma, a informação é e sempre será o destaque dos jornais, deve ser sempre fundamentada na verdade e na investigação de todas as partes envolvidas. Isso não pode mudar, é o que garante a credibilidade do jornal e do trabalho de todos os envolvidos. Em um jornal sério estratégias de audiência não influenciam nas notícias.

 

Se fizermos uma busca rápida pelo seu nome na internet, o que mais aparece é: “Joyce Ribeiro sofre preconceito racial e faz denúncia”. O que sentiu especialmente neste episódio e como está o desenrolar desse lamentável acontecimento?

Infelizmente enfrentei esta situação mais de uma vez, nesta última fiz a denúncia, com o objetivo de alertar as pessoas para que isso não aconteça mais. Na internet, os agressores se sentem livres para ofender, diminuir, intimidar e mentir, sem pensar nas consequências, agem na certeza de que não serão punidos. Encontrar estes agressores ainda é muito difícil, mas já existem mecanismos para a identificação destas pessoas e possível punição. É lamentável pensar que nos dias de hoje ainda temos pessoas tão preconceituosas, que sentem prazer em espalhar seu ódio e inseguranças agredindo o próximo, atacando raças, opções, opções de vida, diferenças. É triste vivenciar a limitação de alguns quando se acredita na grandeza do ser humano. Este não será o último caso deste tipo, então espero que o meu esforço para combater atitudes racistas, incentive outras pessoas que passam pela mesma situação.

 

Você tem uma adoração por assuntos relativos à cultura e não esconde sua paixão pelo cinema. Futuramente o jornalismo perderá uma repórter e o cinema ganhará uma cineasta?

Ahhh… Eu amo cinema. Gostaria sim de ter mais tempo para estudar esta arte e quem sabe trabalhar com isso, é um sonho. Neste momento meu foco é o jornalismo, o meu programa de entrevistas e o meu livro, que será lançado este ano. O plano de trabalhar com cinema fica para o futuro.

Um vídeo da jornalista Joyce Ribeiro

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.