Entrevista publicada em 30/01/2019 por Eder Fonseca em Pensamento
 
 

“A hibernação poderá converter-se em coma”
Rolf Kuntz – Escritor, jornalista e professor

Rolf Kuntz

Rolf Kuntz é livre docente em Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP) e colunista do jornal “O Estado de S. Paulo”. É autor dos livros “François Quesnay: economia” (Atica, 1984), da coleção Grandes Cientistas Sociais, “Qual o futuro dos direitos? Estado, mercado e justiça na reestruturação capitalista” (Max Limonad, 2002) e “Capitalismo e Natureza – ensaio sobre os fundadores da economia política” (Brasiliense, 1982). Kuntz é mestre e doutor em Filosofia pela USP. Tem interesse especial pela obra de David Hume, Jean-Jacques Rousseau, John Locke e Adam Smith. “Há o reconhecimento do problema e a promessa de enfrentá-lo, mas nenhum sinal claro de como isso será feito. Não se conhece um plano organizado de ataque à questão fiscal, seja na administração orçamentária, seja na formulação e apresentação de reformas. Políticos e analistas comentam as dificuldades políticas e o desafio das negociações com partidos, mas pouco se tem falado, dentro e fora da equipe de Governo, sobre o desenho da reforma da Previdência. Quanto a vender estatais ou usar reservas em moeda estrangeira para reduzir a dívida pública, parece-me um equívoco. Só tem sentido liquidar patrimônio para diminuir o endividamento quando há um plano claro e bem orientado de ajuste, como se tem feito na Petrobras e em algumas grandes empresas privadas”, avalia o escritor e jornalista.

 

Quais as maiores virtudes que enxerga no Governo Bolsonaro?

Para começar, vejo pouquíssimas virtudes. As mais importantes são o reconhecimento da crise fiscal e a escolha de algumas pessoas promissoras para a área econômica. Mas nem a seleção dessa equipe foi baseada só em critérios técnicos. A ideologia é visível, por exemplo, na preferência dada a economistas com passagem por Chicago. Afinal, Harvard, Colúmbia e Stanford serão ninhos de comunistas incompetentes, como devem ser, na opinião dos bolsonarianos, as universidades brasileiras de maior renome!

 

O seus conselheiros podem ser considerados o seu grande “Calcanhar de Aquiles?”.

O Calcanhar de Aquiles de Bolsonaro é ele mesmo. Ou, se quiser algo mais amplo, pense em sua família. Um de seus filhos posou usando boné da campanha de reeleição de Donald Trump e indicou dois dos mais assustadores componentes da equipe, os ministros das Relações Exteriores e da Educação. Por enquanto, os generais do primeiro escalão ministerial são as garantias mais visíveis de algum respeito a princípios da democracia liberal e a algum bom senso na área externa.

 

A China é o maior parceiro comercial do Brasil. A aproximação do novo Governo com Washington, pode desequilibrar em algum sentido essa relação que se mostrou bastante proveitosa até aqui?

O risco não está na aproximação com Washington, mas na subordinação aos padrões políticos de Donald Trump, custosos para os Estados Unidos (veja os danos do protecionismo a setores importantes da indústria americana) e desastrosos para a ordem multilateral. Toda ameaça ao multilateralismo é um risco também para o Brasil, mas isso parece muito acima da percepção de Bolsonaro e de seu exército sub-brancaleônico.

 

Quais as maiores ameaças externas que podem atrapalhar o Governo Bolsonaro em seu início de mandato?

As maiores ameaças, por enquanto, são o aperto monetário nos Estados Unidos (e logo mais na União Europeia e no Reino Unido) e as tensões comerciais. Essas tensões já afetaram o comércio internacional e o crescimento global neste ano. Mas poderão produzir efeitos piores, se a guerra comercial se intensificar. Qual será a duração da trégua negociada em Buenos Aires por Donald Trump e Xi Jinping? Em prazo mais longo, o enfraquecimento da ordem multilateral poderá ampliar a insegurança comercial e talvez financeira e comprometer seriamente o crescimento global.

 

O principal problema do Brasil é fiscal. Existe algum sinal que o Governo eleito está preparado para combater esse grave problema?

Há o reconhecimento do problema e a promessa de enfrentá-lo, mas nenhum sinal claro de como isso será feito. Não se conhece um plano organizado de ataque à questão fiscal, seja na administração orçamentária, seja na formulação e apresentação de reformas. Políticos e analistas comentam as dificuldades políticas e o desafio das negociações com partidos, mas pouco se tem falado, dentro e fora da equipe de Governo, sobre o desenho da reforma da Previdência. Quanto a vender estatais ou usar reservas em moeda estrangeira para reduzir a dívida pública, parece-me um equívoco. Só tem sentido liquidar patrimônio para diminuir o endividamento quando há um plano claro e bem orientado de ajuste, como se tem feito na Petrobrás e em algumas grandes empresas privadas. Sem o plano, ativos serão queimados e a dívida voltará a crescer.

 

Vamos voltar ao cenário internacional. Com a mudança da embaixada brasileira para Jerusalém, acordos com países árabes podem ser quebrados ou na hora do “vamos ver” (e do que podemos perder comercialmente falando) essas arestas serão aparadas?

A ideia de mudar a embaixada é mais uma bobagem de um grupo despreparado e um tanto abobalhado diante das funções de Governo. Algum membro desse grupo sub-brancaleônico terá perguntado quanto o Brasil ganhará e quanto poderá perder com esse lance? O próprio Trump terá feito esse cálculo? Quantos Governos tomaram esse caminho até hoje? Cabe ao Governo brasileiro andar atrás de Trump como um cachorrinho obediente? O mesmo tipo de estupidez e imprevidência é ostensivo na ideia de um possível abandono do Acordo de Paris e no palavrório antiglobalista balbuciado por gente da equipe.
O colunista

Análise Conjuntural: O colunista do Estado de S. Paulo, Rolf Kuntz (Foto: Arquivo)

 

O senhor disse em um artigo em julho passado, que o Governo será o mais inovador da história nacional se conseguir trazer o Brasil para o século 21. Podemos sonhar com essa possibilidade neste momento?

Seria preciso um enorme otimismo, ou irrealismo, para sonhar com isso neste momento. Quando se vêm as preocupações manifestadas por Bolsonsaro e por seu ministro da Educação, é mais fácil pensar no Processo dos Macacos, de 1925, quando um professor foi levado a um tribunal, no Tennessee, por ensinar a teoria da evolução numa escola estadual. O professor foi condenado, apesar do enorme esforço do advogado Clarence Darrow, mas o processo expôs nacional e internacionalmente o surto provinciano de estupidez. Já precisamos de um Sobral Pinto e de um Raymundo Faoro no período militar. Precisaremos de um Clarence Darrow?

 

Quais serão as principais diretrizes para que isso venha ocorrer?

Para evitar uma resposta enorme, vamos indicar só algumas condições básicas: 1. arrumação das finanças públicas (incluída a reforma da Previdência; 2. reestruturação do orçamento e melhor uso de recursos do Tesouro; 3. enorme volume de investimentos em infraestrutura, com mobilização de capitais privados; 4. ampliação e modernização da capacidade produtiva das empresas: 5. abertura comercial para integração nas cadeias globais de produção e ganhos de produtividade: 6. muito mais investimentos — privados e públicos — em inovação; 7. menor burocracia e maior segurança jurídica para os negócios; 8. modernização do sistema tributário, hoje um entrave ao investimento e à competitividade; 9. Ampla revisão da política educacional, com recuperação dos níveis fundamental e médio e expansão de um ensino técnico voltado para a atualização tecnológica e o atendimento das novas demandas do sistema produtivo; 10. aprofundamento da reforma do ensino médio, com abertura de múltiplas possibilidades para os estudantes. Adoção de padrões internacionais (Pisa, por exemplo), para definição de metas. Itens como oferta de crédito a juros toleráveis surgirão como decorrência de um quadro fiscal mais saudável.

 

O desprezo ao Mercosul (mostrado principalmente pelo ministro Paulo Guedes logo após o triunfo eleitoral) foi um tiro no pé?

Qualquer manifestação desse tipo é um tiro no pé. Em alguns casos, como nas ameaças de adoção de diplomacia trumpiana, ocorrem tiros nos quatro pés.

 

A sua experiência como analista, faz crer que as reformas sairão do campo das intenções?

Que reformas? Não temos ainda propostas claras e razoavelmente definidas para a Previdência, para o sistema tributário ou para qualquer outra área importante. No caso da Previdência, a ideia de possível fatiamento para se conseguir algum avanço no começo do Governo é um detalhe relevante, mas insuficiente para caracterizar um projeto.

 

Ricardo Vélez Rodríguez, conseguirá tirar ou pelo menos dar um rumo para a “hibernação tropical” da educação nacional?

Se as preocupações ideológicas, moralistas e religiosas continuarem predominantes, a hibernação poderá converter-se em coma. Diante desse risco, vale a pena torcer pela manifestação de uma ampla incompetência administrativa. Se o Governo fracassar na execução de seus planos – daqueles indicados nas preocupações até agora manifestadas – o sistema educacional talvez escape do desastre.

Um vídeo do professor Rolf Kuntz

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.