Entrevista publicada em 02/04/2019 por Eder Fonseca em Pensamento
 
 

“A mídia influencia diretamente o uso”
Ana Café – Implementadora do Núcleo Integrado

Ana Café

Ana Café é especializada no Tratamento da Infância e da Adolescência. Capacitada na Prevenção e Tratamento da Dependência Química; capacitada pela SENAD, SEPDQ, Ministério da Defesa – Exército Brasileiro, Universidade de Havana (Cuba) na Reabilitação do Paciente Crônico à Sociedade. É conselheira municipal do COMAD Rio de Janeiro, membro da Associação Brasileira de Estudo do Álcool e outras Drogas e pioneira numa Metodologia Clínica que atende a Dependência Química e a Doença Emocional na precocidade de seu adoecimento. Implantou o Núcleo Integrado como método de ação para atuar em prol da prevenção primária, secundária e terciária. É também conhecida e reconhecida por suas palestras interativas. Com sua experiência e autoridade no assunto vem sensibilizando e influenciando colégios e empresas para as questões mais pertinentes ao pleno desenvolvimento da criança, do adolescente, a estrutura de família e a prevenção em sua amplitude. “O alcoolismo é considerado um problema de saúde pública e que afeta a sociedade de diversas formas. A violência no trânsito está intimamente relacionada ao uso abusivo do álcool. 71% dos acidentes fatais têm o uso de álcool envolvido, 4% da violência urbana e doméstica estão relacionadas a drogas ilícitas e 52% ao uso do álcool. O álcool, por esses fatores e pela facilidade de acesso, é considerada a droga de maior risco social”, afirma.

 

Ana, o alcoolismo é um caso de saúde púbica?

Sim, o alcoolismo é considerado um problema de saúde pública e que afeta a sociedade de diversas formas. A violência no trânsito está intimamente relacionada ao uso abusivo do álcool. 71% dos acidentes fatais têm o uso de álcool envolvido, 4% da violência urbana e doméstica estão relacionadas a drogas ilícitas e 52% ao uso do álcool. O álcool, por esses fatores e pela facilidade de acesso, é considerada a droga de maior risco social.

 

Os números atuais sobre o consumo de álcool são assustadores em que pontos?

82% dos leitos psiquiátricos são ocupados por pacientes alcoolistas e adolescentes têm no álcool sua primeira relação com drogas psicoativas e iniciam esse uso no Brasil por volta dos 12 anos de idade. Isso aumenta em muito o risco de desenvolvimento do alcoolismo nestes jovens. E mesmo assim o que se vê é o crescimento econômico das indústrias cervejeiras, por exemplo.

 

Quem são as principais vítimas?

Todos os brasileiros, se pensarmos que esse abuso do álcool afeta o crescimento econômico do país. Essas pessoas se tornam mão de obra ociosa, improdutiva e aumentam em muito os custos com assistência médica, além das aposentadorias precoces.

 

Meios de comunicação (incluindo a propaganda) são culpados em certa medida por esses números quando glamourizam a questão em alguns casos?

A mídia influencia diretamente o uso. Temos como referência a redução do uso do tabaco com a proibição de propagandas de cigarro. As campanhas publicitárias têm como meta atingir os jovens, que são os novos possíveis clientes e a terceira idade, que muitas vezes nunca fizeram uso abusivo do álcool, mas com as questões como aposentadoria e síndrome do ninho vazio acabam encontrando no álcool um companheiro.

 

Quais são os principais riscos que levam ao desenvolvimento do alcoolismo?

O consumo precoce é um grande fator de risco, as questões econômicas e sociais, crises econômicas, alta taxa de desemprego, ausência de investimento em cultura e esporte. Esses fatores fazem com que a sociedade brasileira viva dentro de uma cultura alcoolista, uma cultura que propaga o uso ao invés de preveni-lo.

 

Nossa sociedade tem uma visão preconceituosa em torno do alcoolismo?

Sim, acreditam ser uma falha moral e não um transtorno mental.
Núcleo Integrado

Estudiosa: A implementadora do Núcleo Integrado, Ana Café (Foto: Divulgação/AP)

 

De onde vem esse preconceito?

Da falta de informação e esclarecimento sobre a doença. O alcoolismo é reconhecido pela Organização Mundial de Saúde como uma doença física e mental, crônica, mas que pode ser contida e tratada.

 

Existe o famoso “beber socialmente” ou esse “bebedor social” já pode ser considerado um alcoolista?

Existem pessoas que realmente bebem socialmente, degustam uma bebida. Para os especialistas um bebedor social faria a ingestão de 3 doses de qualquer bebida por semana. Agora, também existem pessoas que bebem abusivamente e que, mesmo não sendo alcoolistas, oferecem riscos a eles próprios e aos outros.

 

Em que momento a internação se faz necessária?

Quando o alcoolista está se colocando em risco de morte ou colocando em risco a vida de terceiros.

 

A relação do brasileiro com o álcool é muito permissiva. Esse é o principal desafio no combate desse grave problema social?

Este é um dos desafios. O outro é a força que as indústrias de bebida têm sobre o Governo, devido aos altos impostos pagos. Isso dificulta leis mais rígidas em torno do álcool e uma fiscalização mais eficiente.

 

Fale um pouco sobre as atividades do Núcleo Integrado.

O Núcleo Integrado é uma clínica de psicologia e psiquiatria que tem como objetivo reduzir a demanda pelo uso de drogas, tratando precocemente crianças e adolescentes, orientando familiares, oferecendo assistência a escolas e empresas com programas de prevenção. Hoje contamos com quatro unidades ambulatoriais de tratamento, onde atendemos desde crianças e adolescentes até adultos e dependentes químicos/alcoolistas. Contamos também com uma unidade de internação na qual tratamos nossos clientes mais graves.

Um vídeo da psicóloga Ana Café

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.