Entrevista publicada em 20/02/2019 por Eder Fonseca em Artes
 
 

“A minha alma gosta de criar”
Márcia Santos – Turismóloga e fotógrafa

Márcia Santos

Márcia Santos nasceu em Belém do Pará. É turismóloga pela UNESA, fazendo hotelaria na Suíça, na SHMS, Swiss Management School. Atualmente mora em Viseu, Portugal. Recentemente fez MMBA na Escola das Beiras em Portugal, e hoje trabalha como fotógrafa. Fala francês fluentemente, tendo conquistado o DELF A6 pela escola de Lausanne. Hoje, a profissional segue o seu coração, tendo o prazer de fotografar e poder tirar do outro o que o outro ainda não descobriu que pode oferecer, uma conversa de alma para alma enquanto fotografa. Atualmente seu grande e novo projeto é continuar como fotógrafa e ampliar esse leque infinito de oportunidades que só uma câmera fotográfica pode oferecer. “Posso fotografar e tornar tudo isso numa manifestação como posso ir para uma manifestação e fotografar um ato político, seja o que for, posso tornar o meu trabalho fotográfico numa luta para melhorar condições de vida de crianças pobres, por exemplo, retratando a realidade dura e cruel delas, mas, também num símbolo metafórico, dependendo do olhar empregado no objeto fotografado. Nesse papel social posso usar do fotojornalismo uma foto em que a nitidez da imagem fique em segundo plano, em detrimento do assunto e da emoção que a foto foi capaz de produzir explorando temáticas humanas, tornando-a num grande papel social e da minha foto ao mesmo tempo, a minha arte”, afirma.

 

Márcia, como definiria a sua visão como profissional?

Ser reconhecida profissionalmente como fotógrafa. Seguir a minha paixão todos os dias. Alcançando assim, um sonho com o meu trabalho e tornando este reconhecido. Conquistando cada vez mais clientes, sabendo que eles não pouparão esforços para que o meu trabalho seja sempre recomendado e que o mesmo por ser feito sempre com muito cuidado e qualidade trará sempre um resultado feliz. Que futuramente todo o meu investimento pessoal e financeiro, tenha valido a pena, tornando desta forma para mim, uma conquista maior em que eu possa acreditar cada vez mais e tenha uma satisfação enorme ao final de cada sessão fotográfica e que nessa conquista constante valha sempre a pena ter tido um sonho e tê-lo alcançado e deste sonho, paixão e resultado que eu me inspire cada vez mais como fotógrafa, simplesmente porque fotografei você, ele, ela, um evento, um acontecimento, uma paisagem, uma paixão que se refletiu na minha lente de um instante da sua alma para a minha. Simples assim!

 

Foi essa visão que lhe trouxe para a fotografia?

Foi dessa visão sim! E a vontade de eu poder ser eu, de eu poder criar, sentir e sorrir enquanto estivesse trabalhando e querendo trabalhar cada vez mais na minha paixão. Foi também da necessidade de querer e de criar o meu próprio emprego enquanto o mundo se transforma e eu também me transformo.

 

Por que a fotografia enquanto ofício?

Necessidade de sobreviver de algo que eu gostasse, amasse e estivesse ao meu alcance. Desde pequena sempre estive em meio as fotos, slides e histórias contadas por estas imagens todas que ficaram para sempre em minha memória. Queria poder através desse ofício, criar memórias para os outros e que pudessem ter essa sensação de alegria ao ver, imagens únicas, de momentos únicos em que não foi posado nem forçado, foi feito de um click onde pude dar a oportunidade de uma outra pessoa mostrar o que está dentro dela, isto me fascina.

 

Você disse que fotografar é tirar do outro o que ele ainda não descobriu. Como é isso?

Sim. Muitos não sabem nem como ficar diante de uma câmera fotográfica, mas, querem tanto uma sessão, não para colocar no Instagram ou por modismo, porque sabem que nessas sessões fotográficas, encontram a diferença de um resultado único e personalizado, individual, e quando estou ali, com a minha câmera, na sua frente, não lhe vejo esteticamente, quero lhe mostrar que através das minhas lentes, descobri na pessoa o que muitas vezes ela está guardando só para ela, sua vida, seus medos, suas alegrias, suas lutas, seus sonhos, sua satisfação em estar ali se revelando numa conversa enquanto a entrevisto na sessão fotográfica, e que vou revelar para ela, nas imagens captadas, tudo isso que ela sente, mais ainda não descobriu, descobrindo depois em imagens, num resultado fabuloso que só a alma dela tem.

 

Qual a coisa mais emocionante e bela que você já descobriu em outra pessoa enquanto fotografava?

A essência da alma dela e a sua luta para realizar seus sonhos tornando-me cúmplice desses seus momentos de vida, mesmo sem eu a ter conhecido antes.

 

A fotografia pode ser uma briga entre forças?

Claro que sim! Até porque não é só chegar e fotografar. É um ato que por vezes até provoca esgotamento físico e mental temporário. Você está ali diante de uma pessoa em que as minhas lentes não conseguem captar nada. É um exercício de entrega entre o que vejo, sinto, as minhas lentes a pessoa com quem estou e até mesmo com a natureza. Tudo isso se não estiver funcionando naquele instante em que quero criar um momento único, drena a minha energia e me deixa exausta. Acredito que cada momento que eu queira fotografar é uma luta e um evento, uma grande troca de energia que deve estar sempre em harmonia e desvendada. A minha missão nessa troca de forças, nessa luta é mostrar o que o outro está querendo esconder para que assim eu possa revelar.
A turismóloga e fotógrafa

Novos Horizontes: A turismóloga e fotógrafa, Márcia Santos (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Desafiar o conhecido ou o desconhecido, o que é mais complexo para um fotógrafo?

Ambos… Gosto de desafiar o conhecido, me perder com a minha câmera no que já conheço. O conhecido eu já vou mais à vontade, já sei o que me espera, há uma tranquilidade inicial que se torna natural, desafio algo que já tinha visto antes, já tinha sentido e já tinha fotografado. Mas, conseguir fazer do desconhecido o conhecido é um prazer muito grande que encontro em tornar o desconhecido natural igualmente.

 

Você encara a fotografia como arte ou como um grande papel social?

Isto é tão controverso ainda hoje. Mas, para mim, a fotografia é arte, papel social e tudo mais que ela quiser ser, não posso encarar de outra forma. O fotógrafo é um artista. Seja, de uma foto que tirou sem transformação de imagem nenhuma, ou seja, numa edição com uma foto totalmente transformada da sua imagem inicial, ainda mais hoje, que há programas para qualquer tipo de edição que queira para a foto. Eu sou uma artista antes de ser fotógrafa, a minha alma gosta de criar e para criar preciso transportar o que tenho em mente e o que sinto e na minha vontade de ver aquela imagem num quadro, num papel, no arquivo da minha câmera, posso transformar tudo isso em arte e posso representar em contextos que tenham um papel social importante, para aqueles que veem as imagens que fotografei uma mensagem que eu queira passar, seja de um garoto com fome, um cachorro abandonado, a degradação do Meio Ambiente, o desmatamento, uma imagem que eu queira deixar chamando atenção para que haja uma transformação, que haja alerta, que seja, numa imagem, simplesmente gritando e querendo dizer a sociedade, ao nosso planeta, chega, basta, como uma baleia encalhada na praia, morta por resíduos de plásticos.

Posso fotografar e tornar tudo isso numa manifestação como posso ir para uma manifestação e fotografar um ato político, seja o que for, posso tornar o meu trabalho fotográfico numa luta para melhorar condições de vida de crianças pobres, por exemplo, retratando a realidade dura e cruel delas, mas, também num símbolo metafórico, dependendo do olhar empregado no objeto fotografado. Nesse papel social posso usar do fotojornalismo uma foto em que a nitidez da imagem fique em segundo plano, em detrimento do assunto e da emoção que a foto foi capaz de produzir explorando temáticas humanas, tornando-a num grande papel social e da minha foto ao mesmo tempo, a minha arte.

 

Concorda com a afirmação de que a fotografia vem ganhando um aspecto cada vez maior de efemeridade?

Sim. A arte de fotografar está passando por um momento de transformação. Novos ambientes dos quais digitais. Uma transformação estética e técnica se reinventando. As fotografias estão ganhando aspectos efêmeros e assumindo um papel de imagens voláteis, sem essência. Estamos vivendo em uma nova fase onde há uma nova realidade e uma nova forma de reprodução da fotografia. Fotografar hoje principalmente para os adeptos das redes sociais, se transformou em um mecanismo de registro de cotidiano, imagens efêmeras e voláteis. Mesmo que eu possa ter acesso às redes sociais e que eu possa colocar uma foto instantaneamente, a cada segundo, ainda prefiro a minha câmera na mão e prefiro ver através das minhas lentes e da sensação que elas causam a magia que elas podem captar como as máquinas captavam na época dos negativos e que era emocionante o momento da revelação.

 

Você hoje mora no exterior. Como enxerga o Brasil “pelo lado de fora” e em que categoria fotográfica enquadraria o país se a nação fosse um retrato?

Um país onde as cores, formas, contrastes, texturas e diversidade convivem em harmonia e com naturalidade, formando uma paisagem estonteante. Um povo alegre, vibrante, multicultural, criativo. E que tudo isso deveria dar certo. Mas, não basta essa diversidade e nem ter o povo mais alegre. O país e o povo hoje estão desgastados, o Brasil chora, à terra brasileira chora, estão mal amados e sofridos. Vejo um país hoje castigado, um povo que cansou, o brasileiro cansou. A forma como o país é retratado no resto do mundo sempre teve importância na reputação do país, ela faz parte da consolidação da própria identidade nacional e influencia a situação política brasileira em suas relações com outras nações. A maior repercussão e de vergonha foi a votação para o impeachment de Dilma, vergonha! Primeira vez que tive vergonha de ser brasileira e sei que muitos também.

Mas, é uma vergonha que não acaba, porque os mesmos políticos estão no poder ainda e outros piores vieram, e outros ainda piores virão. Nojo! Toda essa imagem situada numa categoria fotográfica “tristeza“ como retratar a tristeza de um país, fotografando políticos, miséria, escolas abandonadas, professores mal remunerados, crianças sem escola, povo sem saúde, gente passando fome. Muita riqueza e muita pobreza. Um retrato triste! Esse retrato hoje, é muito triste, muito, muito, muito triste. É desolador! Mariana, Brumadinho, ganância. O povo foi traído, se sente traído. A violência contra o brasileiro também é moral. Valores que ficaram lá atrás em décadas passadas. Onde a gente podia sonhar, onde nossos pais sonhavam e lutavam por nós, por mim, por você e acreditavam que seus filhos iriam ter uma vida vivida num país que prosperava que era o deles, uma nação de esperança e de um futuro promissor para todos. Hoje a desolação é gigantesca e o retrato fica manchado de sangue.

Um vídeo sobre o mundo da fotografia

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.