Entrevista publicada em 18/09/2019 por Eder Fonseca em Pensamento
 
 

“As mídias sociais podem corroborar”
Cynthia Chazin – Psicóloga e gestora educacional

Cynthia Chazin

Cynthia Chazin é formada em psicologia pela universidade Mackenzie com MBA em Gestão Educacional e pós-graduação em Gestão Estratégica de negócios e especialização em Psicoterapia Breve. Cynthia possui mais de 20 anos de experiência com desenvolvimento humano sendo que nos últimos três anos vêm trabalhado com projetos de recolocação e ajudando pessoas a serem mais felizes em seus empregos e vida pessoal. Cynthia ministra palestras com temas, tais como: Empregabilidade, Marketing Pessoal, Elaboração de Currículo, Linkedin, Entrevista, Carreira, Motivação no Trabalho, entre outros. Em entrevista ao Panorama Mercantil, a psicóloga fala sobre o Setembro Amarelo – mês da prevenção contra o suicídio. De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria (2012) cerca de 1,3 milhões de jovens morrem anualmente sendo 7,3% por suicídio. O Ministério da Saúde informou recentemente que entre 2007 e 2016, foram registrados no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) 106.374 óbitos por suicídio. Em 2016, a taxa chegou a 5,8 por 100 mil habitantes, com a notificação de 11.433 mortes por essa causa. Trata-se de um problema de saúde pública. No entanto, eles podem ser evitados em tempo oportuno, com base em evidências e com intervenções de baixo custo. Para uma efetiva prevenção, as respostas nacionais necessitam de uma ampla estratégia multisetorial.

 

Cynthia, o suicídio é algo que é oriundo de experiências malsucedidas interna ou externamente?

De acordo com a OMS (2019), uma pessoa se suicida a cada 40 segundos, no mundo, sendo que 79% de todos os casos mundiais se concentram em países de baixa renda. Podemos pensar que o Brasil se encaixa nesta estatística. Os motivos pelos quais podem levar uma pessoa a tentar o suicídio são inúmeros. Geralmente, uma pessoa se suicida porque se sente profundamente infeliz, extremamente frustrado ou decepcionado, com diversas situações em sua vida, que podem estar relacionadas, por exemplo, com traumas pesados: a morte de um ente querido ou ainda um acidente terrível que tenha deixado sequelas psicológicas graves (a pessoa não consegue dormir se não tomar remédio).

 

Fale mais sobre esses dados.

Atualmente, a necessidade de contemplar um determinado “padrão de beleza” pode ser um deles. Neste caso, as mídias sociais podem corroborar. A pessoa sente-se feio(a), mesmo que não o seja, mas a sua autoimagem está comprometida, então apresenta grande dificuldade em lidar com a situação. Sofre demasiadamente e acaba por fim tirando a própria vida. Pode-se agregar a esta situação a falta de valorização do outro e de si mesmo (autoestima depreciada). Concluindo, sempre existirão fatores internos e externos relacionados.

 

Como a depressão e o suicídio estão ligados?

Segundo a Organização Mundial de Saúde (2019), muitos suicídios ocorrem impulsivamente durante tempos de crise que minam a capacidade de enfrentar as tensões da vida, como problemas financeiros, quebra de relacionamento ou dor e doença crônica. Além disso, experiências relacionadas a conflitos, desastres, violência, abuso, perdas e sentimentos de isolamento estão intimamente ligados ao comportamento suicida.

 

Gostaria que falasse um pouco mais sobre isso.

Uma pessoa com depressão maior (estágio em potencial da depressão, de acordo com o Código Internacional de Doenças), pode “perder a vontade de viver” e sim tirar a própria vida, mas nós não podemos afirmar que todos os depressivos poderão se suicidar. São situações específicas e geralmente associadas a outros transtornos psiquiátricos, que não somente a depressão, como, por exemplo, um quadro de síndrome do pânico.

 

Em que momento o desemprego pode ser tornar um catalisador de suicídios?

Normalmente, uma pessoa que está desempregada começa a sentir-se triste e frustrada após seis meses sem emprego. O fato da pessoa estar desempregada isoladamente não costuma gerar sentimentos suicidas.

 

Como ocorre então os sentimentos suicidas de um desempregado?

Para que isso ocorra, a pessoa normalmente sofre de outros males, como, por exemplo, uma depressão profunda associada com sentimentos de menos-valia, autoestima e autoconfiança comprometidas e extrema falta de vontade de viver. Nestes casos, o sentimento de suicídio poderá ser intensificado após 1 ou 2 anos sem emprego, onde a esperança por algo acontecer diminui expressivamente e a pessoa passa a questionar-se como ficará a sua vida sem trabalho.
A psicóloga

Números Preocupantes: A psicóloga Cynthia Chazin (Foto: Arquivo Pessoal/AP)

 

Como abordar esse tema nas escolas?

Este assunto é principalmente crítico entre os jovens de 15 e 29 anos. As escolas colaboram muito com a educação destes temas polêmicos, uma vez que trazem profissionais especializados no assunto para falar e que sabem interagir com estes jovens, além de utilizar uma linguagem entendida por eles.

 

E como esse assunto deve ser tratado em casa?

Muitas vezes em casa, os pais não sabem ou não conseguem falar do assunto, então a escola pode contribuir demais com isso.

 

Qual a importância do Setembro Amarelo em nossa sociedade?

Enorme importância! Alertar a sociedade para um mal psicológico muitas vezes invisível, que pode acometer pessoas próximas sem ao menos percebermos. Informações claras e objetivas podem contribuir muito com a sociedade de modo geral, especialmente as classes mais carentes que contemplam um número maior de pessoas “insatisfeitas com as próprias condições de vida” e mais “predispostas” as descompensações emocionais.

 

Em que momento a psicologia e a Saúde Pública podem ajudar na reversão desse quadro?

Um bom tratamento psicológico nos principais centros de atendimento público vinculados a saúde mental podem colaborar muito para uma sociedade mais equilibrada emocionalmente capaz de lidar com situações de estresse intensos e frustrações críticas, diminuindo circunstancialmente os casos de suicídio dentre outros males de origem psiquiátrica.

Um vídeo sobre o Setembro Amarelo

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.