Entrevista publicada em 27/05/2019 por Eder Fonseca em Pensamento
 
 

“Cada indivíduo idoso é único”
Alessandra Diehl – Psiquiatra e especialista em Dependência Química

Alessandra Diehl

Alessandra Diehl é psiquiatra com Formação em Pesquisa Clínica (INVITARE, 2002). É especializada em Dependência Química (UNIFESP 2001) e Sexualidade Humana (USP 2009). Mestre em Ciências (UNIFESP 2007), com diploma em Sexual and Reproductive Health (Geneva Foundation for Medical Education and Research 2014) and Adolescent Sexual and Reproductive Health (Geneve Foudation, 2014) e Educadora Sexual (UNISAL 2015). Doutora em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP, 2016) / Departamento de Psiquiatria. É atual aluna do Programa Doutoral em Sexualidade Humana (PDSH) da Universidade do Porto (UP), primeira vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos em Álcool e outras Drogas (ABEAD) – gestão 2017-2019 e uma das coordenadoras do curso virtual EAD, Dependências Química, do SECAD Grupo ARTMED. Pertence à Unidade de Aperfeiçoamento Psiquiátrico e Psicológico (UPPSI) e ao grupo de pesquisa em Sexualidade Humana do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL/ CNPQ). É colaboradora do Grupo de Estudo sobre Prevenção do Uso Nocivo do Álcool e/ou Drogas – GRUPAD USP de Ribeirão Preto, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Centro Colaborador da OPAS OMS para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem. Também é colunista do blog do SECAD e atual pós-doutoranda da EERP.

 

Dependência Química é uma doença mental?

Sem dúvida alguma! A Dependência Química tem uma categoria diagnóstica bem definida dentro dos manuais diagnósticos psiquiátricos, sendo sobretudo, uma doença cérebro-mental e não uma condição moral ou de falha de caráter. Existem ainda muito empirismo, ideologias, controvérsias e críticas em nosso meio com relação aos manuais diagnósticos em psiquiatria, porque os “antipsiquiatras” acham que “rotulamos” pessoas ou “criamos mais e mais doenças mentais a cada ano” ou “que os manuais não enxergam o sujeito”, que o “desumaniza”, que reduz as pessoas “a um checklist de sintomas. No entanto, atualmente existe evidência científica suficiente mostrando que a dependência química é uma doença complexa caracterizada por compulsão, por vez incontrolável craving (fissura), procura e uso de substâncias apesar das consequências devastadoras (prejuízos sociais, físicos, familiares, laborais). Atualmente costuma-se compreender a Dependência Química também como uma doença do desenvolvimento. Isto porque geralmente começam na adolescência ou mesmo na infância, períodos em que o cérebro ainda está passando por dramáticas mudanças de desenvolvimento. A exposição precoce ao uso de substâncias podem mudar o cérebro de maneira a aumentar o risco de doença mental, assim como sintomas precoces de um transtorno mental podem aumentar as vulnerabilidade ao uso de drogas.

 

Quais as maiores dificuldades do dependente químico em nossa sociedade?

Eu acredito que a maior dificuldade do dependente químico atualmente continua sendo o estigma, a discriminação e a rejeição social que acaba por retardar o diagnóstico e a busca de um tratamento adequado e, posteriormente, uma recolocação social e laboral adequada quando finalmente alcançam a recuperação. A variedade de substâncias e combinações disponíveis para os usuários nunca foi tão ampla. Assim como, o estigma e a discriminação, os quais podem estar entre os principais obstáculos para a prevenção, tratamento e cuidados dirigidos a pessoas com transtornos relacionados ao uso de substâncias. Este preconceito faz com que os usuários de substâncias sejam vistos como “perigosos”, “violentos” e plenamente responsáveis pela sua condição. Os usuários de crack por exemplo, podem ser rotulados como pessoas que não “encaixam-se no ideário da sociedade” por muitas vezes não possuírem vínculos familiares, emprego formal e moradia e acabam por serem ainda mais excluídos. Outras crenças são de que usuários de crack apresentam “comportamento indisciplinado” e, por isso, são discriminados, sujeitos “marginais e criminosos”, abolindo sua singularidade, potencializando situações de vulnerabilidade. Diversas razões podem justificar o estigma do uso de substâncias por parte dos profissionais de saúde por exemplo, incluindo o fato de que, muitas vezes, o consumo de drogas não é visto como um problema de saúde, mas como falha de caráter, com forte apelo moral a esta questão fazendo com que seja atribuída ao usuário de substâncias a total responsabilidade pelo seu consumo e manutenção deste. As consequências deste estigma acabam por restringir as possibilidades de acesso a serviços para dependentes químicos.

O estigma e a discriminação afetam negativamente a qualidade dos serviços prestados, podendo constituir uma barreira para a busca por ajuda, sendo extremamente necessário o desenvolvimento de políticas públicas com ações de educação em saúde, prevenção, informação e combate ao estigma por parte de profissionais da saúde e de toda a sociedade. Por isso que julgo importante reconhecer o papel de movimentos sociais tais como o que começou nos EUA chamado “Faces and Voices of Recovery”, o qual foi fundado em 2001 em St. Paul, Minnesota e já temos o mesmo movimento também no Brasil (Faces e Vozes da Recuperação Brasil). Eles acreditam que eliminando o estigma, a discriminação e removendo barreiras à recuperação, mais pessoas levarão uma vida saudável em recuperação de longo prazo. Recuperação em longo prazo no idioma inglês a gente conhece como “long term recovery”. São aquelas pessoas que achamos que não existem, porém elas estão há mais de 15, 20, 30, 40 anos em recuperação. Só nos EUA, acredita-se que existam mais de 23 milhões de pessoas em recuperação. Isto significa dizer também que elas estão todo este tempo sem fazer uso de álcool ou outras drogas, mas, sobretudo vivendo de fato em recuperação. Em outras palavras, elas estão voltando a ter uma vida produtiva, como um membro da família, como um membro da sociedade, integradas com maior qualidade de vida. É claro, que isto para nós que trabalhamos com Dependência Química é um grande alento e, sobretudo, muita esperança!

 

Que pontos são fundamentais para o entendimento da “Nova Política sobre Álcool e Drogas” e que você gostaria de destacar?

Vários são os pontos positivos. Uma das primeiras e importantes mudanças nesta nova política é a redefinição e inclusão de serviços e dispositivos de saúde que passam a integrar a chamada Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Em razão da imensa diversidade de questões envolvendo a Dependência Química, não se pode imaginar que a abordagem do problema seja simples. Ao contrário, verifica-se que o tratamento exige múltiplas abordagens em diversos ambientes de tratamento. Quase nunca, abandonar o uso de substâncias é uma tarefa que possa ser realizada sem qualquer tipo de ajuda, e para isto, recursos em diversos níveis devem ser implementados. Assim, considera-se que devem estar disponíveis as mais variadas modalidades de tratamento dentro do entendimento do continuum de cuidados mediante as necessidades de cada paciente naquele momento de trajetória de cuidados e evolução da gravidade da doença. Recursos que vão desde a prevenção primária até intervenções complexas em unidades de internação devem estar integradas por uma política de assistência ao usuário de substâncias que pretenda ser eficaz. Todas estas fases estão contempladas na nota técnica da nova política. O hospital psiquiátrico e as Comunidades Terapêuticas (CTs), outrora estigmatizados, rotulados e equivocadamente generalizados como “locais manicomiais” ou “excludentes” passam a integrar a RAPS como dispositivos também importantes e necessários nesta rede de cuidados ao dependente químico e seus familiares.

A chamada “reforma psiquiátrica brasileira” gerou uma série de consequências, tanto positivas quanto negativas. Observa-se que a rápida diminuição de leitos psiquiátricos e uma lenta criação de serviços ambulatoriais, associadas à errônea ideia de que doença mental não necessita de internação, gerou a atual crise, principalmente no setor de Dependência Química, no qual o número de pessoas que necessitam de leitos é muito superior aos dos oferecidos pelos serviços. Entre 2002 e 2014, foram extintos mais de 25 mil leitos psiquiátricos em todo o território nacional. A despeito das iniciativas de criação e fortalecimento dos equipamentos constituintes da RAPS, os indivíduos portadores de condições graves não têm disponíveis recursos que permitam a estabilização do quadro de forma intensiva e em ambiente seguro. Outro ponto positivo no novo PNAD 2019 foi a expansão de tratamentos ambulatoriais. O tratamento ambulatorial tem-se mostrado tão eficaz quanto tratamentos em regime de internação, dependendo da gravidade do caso, analisado em sua totalidade. É principalmente indicado para aqueles pacientes cuja condição é suficientemente estável, cujos sintomas são leves e para aqueles que estão dispostos e/ou minimamente motivados para participar do plano de tratamento. Ambulatórios específicos para o tratamento de determinadas substâncias, parecem atender melhor as demandas apresentadas pelos pacientes. Entre outros pontos positivos estão:

1). Da prevenção primária a intervenções complexas em unidades de internação e pós-tratamento, com reinserção social; 2). Hospital Psiquiátrico e Comunidades Terapêuticas passam a integrar a RAPS; 3). Expansão dos serviços ambulatoriais em saúde mental, álcool e drogas que estavam em extinção; 4). A Criação de Centro de Atenção Psicossocial em Álcool e outras Drogas (CapsAd 4) e expansão de serviços de emergência psiquiátrica; 5). Expansão de verbas para ações para prevenir o suicídio; 6). Reavaliação e expansão de programas de prevenção; 7). Modelos baseados na meta da promoção da abstinência e da recuperação; 8). Não à legalização das drogas no Brasil; 9). Alocação de verbas e monitoramento destas e dos serviços prestados.

 

Existem distorções sobre o assunto em órgãos midiáticos?

Eu acredito que sim. Principalmente no que se refere ao procedimento conhecido como Eletroconvulsoterapia (ECT) o qual é um tratamento seguro e eficaz para pacientes com transtorno depressivo maior, episódios maníacos, esquizofrenia refratária e outros transtornos psiquiátricos. O procedimento foi muito estigmatizado e mal utilizado em épocas anteriores, com representações midiáticas e populares equivocadas o que acabaram por reforçar que o procedimento é “castigo” ou “desumano” ou “ultrapassado” e fosse pouco utilizado e retirado ou desencorajado dentro dos serviços públicos no Brasil. Acredita-se que essa baixa utilização se deva, principalmente, a enganos e preconceitos em relação à ECT, devidos, pelo menos em parte, às informações errôneas e distorcidas publicadas pela imprensa leiga e pela mídia. A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) têm buscado normatizar o procedimento em nosso meio sendo inegável a importância destas diretrizes para a prática da ECT de forma adequada e com critério e indicações já bem conhecidas. Ela é realizada com a presença, além do psiquiatra responsável, de um anestesista, não sendo um procedimento doloroso, tanto que é mais indicado para grávidas em surto psiquiátrico do que vários psicofármacos conhecidos.

E também a outra distorção midiática da nova PNAD que parece ser a questão da meta e a busca da abstinência e promoção da recuperação. Isto tem sido popularmente (e entre alguns profissionais da área) confundido com falas de que as “ações de redução de danos deixam de existir”, o que não parece ser o pretendido na nota técnica uma vez que os benefícios de alguns dos programas de redução de danos são bem claros, principalmente aqueles ligados a epidemia de HIV/AIDS, tais como: Tratamento da dependência dos transtornos por uso de substâncias (TUS), incluindo terapia de substituição de opioides, testagem de HIV e aconselhamento, terapia anti-retroviral (TARV), prevenção e tratamento de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), programas de preservativos e aconselhamento para pessoas que injetam drogas e suas parcerias sexuais, informação, educação e comunicação objetivadas para pessoas que usam drogas injetáveis e suas parcerias sexuais, diagnóstico, tratamento e vacinação para hepatite viral, prevenção, diagnóstico e tratamento da tuberculose. Eu entendo que a nova política requer que a ações atuais recomendadas não devem se restringir somente às práticas de redução de danos, como estava sendo feito, mas buscar a promoção da abstinência e da recuperação dos indivíduos e seus familiares, ou seja, ir além da redução de danos.

Existe ainda um erro conceitual importante no Brasil de como alguns profissionais da saúde e gestores de políticas públicas entendem, compreendem e aplicam a redução de danos para os transtornos pelo uso de substâncias no nosso país. Redução de danos não é simplesmente “a troca de uma droga por outra”, ou “reduzir o consumo” ou simplesmente “trocar crack por maconha”. Todas são imensas distorções do que conceitualmente esta política se aplica ou se propõe. A redução de danos (RD) é por vezes recebida com certa resistência, especialmente quando se aplica a pessoas que usam substâncias. Os críticos que defendem os programas baseados na meta única da abstinência, argumentam que a RD “encoraja” o uso continuado de drogas e produz maiores danos à comunidade. O que também não é verdade. Por isso, que acredito que neste momento, tentar não polarizar um modelo ou outro pois, quando a gente fala em dependência química e prevenção do uso de substâncias, esta rede fica extremamente ampliada. São necessários muitos e muitos atores, personagens e protagonistas. Acho que enquanto nós ficarmos com discursos “polarizados” do tipo “ nós e eles”, presos muitas vezes em “ideologismos”, não sairemos muito do mesmo lugar. E sobretudo nos afastamos de ajudar aqueles que são o foco na nossa vinda até hoje aqui. Nossos pacientes e nossas famílias!

Outra terceira distorção tem sido sobre as Comunidades Terapêuticas (CTs), pois, a nova medida também ressurgiu um antigo, desinformado e por que não dizer, mal-intencionado debate de que as CTs são um retorno aos “manicômios”, ou que são lugares de “reclusão”, ou ainda, que “afastam os pacientes de seus familiares” ou que são “propostas higienistas”. O que não é verdade.

 

Houve expansão nos tratamentos ambulatoriais?

Outro ponto positivo no novo PNAD 2019 foi a sugestão de expansão de tratamentos ambulatoriais. O tratamento ambulatorial tem-se mostrado tão eficaz quanto tratamentos em regime de internação, dependendo da gravidade do caso, analisado em sua totalidade. É principalmente indicado para aqueles pacientes cuja condição é suficientemente estável, cujos sintomas são leves e para aqueles que estão dispostos e/ou minimamente motivados para participar do plano de tratamento. Ambulatórios específicos para o tratamento de determinadas substâncias, parecem atender melhor as demandas apresentadas pelos pacientes. Dentre os benefícios apontados para este tipo de intervenção, está o fato de o paciente ficar próximo de sua família, podendo assumir compromissos de sua vida pessoal, profissional e acadêmica. O período de pós-tratamento intensivo tem-se apresentado como um período importante, no qual o acompanhamento pode garantir um desfecho positivo. Os dados do Ministério da Saúde apontam para a criação de 111 consultórios de rua entre 2012 e 2014; cerca de 1200 CAPS entre 2006 e 2014; instalação de 888 leitos psiquiátricos em hospitais gerais entre 2012 e 2014; e implantação de 2031 unidades de Residências Terapêuticas entre 2011 e 2014. Nota-se o início tardio dessas implantações, considerando que os leitos em hospital psiquiátrico estavam em processo de redução desde 2002 e não era contemplada a presença de ambulatórios nestas ampliações de serviços. A sugestão neste contexto é que a política não se esqueça de promover atenção ambulatorial também às crianças e adolescentes, já que apenas 15% das crianças que necessitam de tratamento psiquiátrico no Brasil recebem atenção a contento. Esse olhar para essa demanda negligenciada não significa “medicalizar a infância”, mas prevenir muitos danos futuros, principalmente aqueles ligados ao consumo de substâncias.

 

Qual o papel das Comunidades Terapêuticas neste cenário?

As Comunidades Terapêuticas são extremamente importantes neste cenário de estratégias e possibilidades de settings terapêuticos. Comunidades Terapêuticas para o tratamento da Dependência Química não são manicômios! A história das CTs tem início à Synanon, uma comunidade autossuficiente de dependentes químicos em recuperação, fundada em 1958 em Santa Mônica na Califórnia. As CTs podem ser definidas como ambientes residenciais livres de drogas, voltadas para a reabilitação psicossocial., em outras palavras, um ambiente de intensa interação social entre os seus pares e que as pessoas com problemas de dependência convivem de forma organizada e estruturada para promover uma profunda mudança em seus estilos de vida livre de drogas enquanto retomam valores pessoais e sociais outrora invertidos durante o uso ativo de álcool e drogas, como também, o resgate da autoestima, dignidade, amor próprio, ajuda ao próximo e uma visão mais realista sobre si e sobre sua própria família. O objetivo específico da CTs é tratar o transtorno individual, mas com o propósito mais amplo de transformar estilos de vida e identidades pessoais, com respaldo científico de vários desfechos de sucesso. A comunidade como método é destinada a ajudar os indivíduos a mudar a si mesmos. Estes equipamentos, na contemporaneidade, desafiam o destino de seus protótipos históricos. A Comunidade Terapêutica é uma experiência em desenvolvimento contínuo que vem reconfigurando os “ingredientes de tratamento” e de formação das comunidades de mútua ajuda em uma metodologia sistemática de transformação de vidas.

É importante entendermos que a recuperação é considerada um processo demorado em longo prazo e evolui em etapas, num continuum de cuidados. Não existe um modelo único que funcione para todos. Cada indivíduo vai ter necessidades diferentes e necessitar de equipamentos diferentes de cuidados mediante as necessidades do quadro clínico e da evolução de sua doença naquele momento de vida. O tratamento em CTs para Dependência Química leva tempo, geralmente em torno de 6 a 12 meses, o que aumenta a possibilidade de os residentes saírem prematuramente. A retenção em CTs (de longo prazo) é tipicamente menor do que em programas de curto prazo, mas em geral os residentes de CTs que permaneceram por mais tempo tiveram resultados significativamente melhores do que as pessoas que abandonaram precocemente. Isso levou as CTs a promoverem adaptações com a melhoria da retenção por meio do envolvimento da família e da rede social e o uso de funcionários seniores e com a promoção do engajamento inicial por meio de entrevistas motivacionais, gerenciamento de contingência e outros tipos de intervenções psicossociais. Uma alternativa promissora de olhar para a retenção pode ser vê-la como a soma de episódios de tratamento em diferentes serviços e o acúmulo de experiências de tratamento associadas, em vez de definir a retenção como uma única permanência ininterrupta em um programa de tratamento. O movimento de recuperação começa com uma abordagem longitudinal da dependência e outros problemas de saúde mental, mas poucos estudos controlados avaliaram os resultados das CTs além de um período de acompanhamento de dois anos.
A psiquiatra

Estudos: A especialista em Dependência Química, Alessandra Diehl (Foto: O Globo)

 

Foi dito recentemente, que o Governo Federal multiplicou investimentos em Comunidades Terapêuticas de cunho religioso. Isso aconteceu de fato?

Nem todas as CTs são de cunho “religioso”. Prefiro usar a terminologia “espiritual”. Temos que entender a história das CTs talvez para perceber que o elemento ou o ingrediente da espiritualidade está presente em grande parte delas. Isto também é um fator protetor importante com importante respaldo de evidências científicas. No entanto, atualmente, muitas CTs oferecem uma sofisticada abordagem de tratamento, caracterizada pela variedade de recursos terapêuticos oferecidos e pela diversidade da demanda dos indivíduos atendidos. Por isso, necessita do desenvolvimento constante de pesquisas e capacitação dos profissionais para oferecer aos dependentes de álcool e outras drogas e aos familiares destes um atendimento com respeito e profissionalismo, contribuindo para uma mudança verdadeira de estilos de vida. No Brasil, as Comunidades Terapêuticas são regulamentadas pela RDC 101/01 e pela RDC 29/11 da ANVISA. Dentro deste contexto, considera-se que as CTs financiadas pelo plano nacional sigam o rigor de suas normativas, fiscalizações e aprimoramentos adequados. O fato de que as CTs foram incluídas na RAPS não significa que todos os pacientes devem se tratar utilizando esta modalidade, mas sim que ela será mais uma das possibilidades existentes, o que é muito louvável. Destaca-se, a importância da fiscalização para que as CTs funcionem de acordo com os Direitos Humanos e com as normas técnicas apregoadas, as quais incluem a presença de equipe multidisciplinar, a possibilidade de uso de medicação e o fato de ser um tratamento voluntário.

 

Ainda falta assistência para dependentes químicos da terceira idade?

Sim, ainda falta assistência para esta população idosa que usa substâncias. As populações ao redor do mundo estão envelhecendo rapidamente. Em 2010, a Organização Mundial da Saúde (OMS) acredita que uma em cada cinco pessoas terão 60 anos ou mais. O envelhecimento apresenta muitos desafios, mas também muitas janelas de oportunidades. Este crescimento da população idosa aumentará, sobretudo, a demanda por cuidados básicos de saúde e cuidados de longo prazo, estando entre as metas da OMS sobre as estratégias globais e plano de ação sobre envelhecimento saudável. Também exigirá uma força de trabalho maior e mais bem treinada, assim como intensificará a necessidade de que os ambientes sejam mais amigáveis aos idosos, inclusive para lidarem com a sexualidade dos mesmos neste ciclo de vida.

 

Quais as saídas para diminuir esse problema nessa faixa etária?

Importante é entendermos que cada indivíduo idoso é único. Alguns terão o funcionamento de pessoas com 30 a 40 anos. Outros vão requerer cuidados intensivos e necessidades para toda e qualquer tarefa do dia a dia. Existe uma necessidade urgente de se mudar a visão de como nós percebemos os idosos e o processo de envelhecimento para que esteriótipos sobre a terceira idade e o processo de envelhecimento não sejam perpetuados em gerações futuras. Neste contexto, a pergunta que não quer calar é: será que o profissional da saúde está preparado para abordar estas questões? Será que profissionais da saúde identificam precocemente e sobretudo trabalham nas metas da OMS de promover o envelhecimento saudável sem alcoolismo e uso excessivo de calmantes? A resposta mais prevalente parece ser não, ou seja, o profissional da saúde não se vê apto a abordar, a questionar ou sequer imaginar que os idosos bebam. Muitos profissionais quando conseguem “enxergar” a Dependência Química do idoso estão mais preocupados apenas com as questões orgânicas e esquecem-se de tantos outros aspectos psicológicos e sociais que são igualmente importantes. Assim, precisamos de mais profissionais treinados para cuidar do envelhecimento saudável para a promoção de saúde e reconhecer o abuso e Dependência Química quando já instalada.

 

Você também é uma educadora sexual. Existem ligações reais de uma sexualidade problemática com problemas oriundos da Dependência Química?

Eu não diria “sexualidade problemática”, porque prefiro utilizar o termo “aumento de vulnerabilidades” as quais podem predispor dependentes de substâncias a diversos desfechos negativos com relação ao comportamento sexual, fazendo com que a saúde sexual dessa população seja de interesse da saúde pública. A sexualidade é uma faceta inerente ao ser humano. Considerada uma dimensão central da vida do indivíduo, deve ser entendida em sua multidimensionalidade frente à complexidade e importância de sua presença em todas as dimensões do desenvolvimento humano. Trata-se, portanto, de um tema de interesse multidisciplinar, cuja abordagem é influenciada pelas múltiplas interações existentes entre fatores biológicos, psicológicos e sociais. Entende-se por comportamento sexual uma gama de possibilidades de expressão da sexualidade e de práticas sexuais.

Trata-se de um conjunto complexo de atitudes e posicionamentos que vão muito além da atividade sexual, a qual, em geral, se limita ao intercurso sexual. Saúde sexual e políticas públicas devem caminhar lado a lado, uma vez que muitas das questões envolvidas com a sexualidade podem ter profundas implicações para a saúde pública. Convencionalmente, a saúde pública tem focado nos efeitos adversos do comportamento sexual. Uma delas, a questão do HIV/AIDS, por exemplo, teve um grande impacto na sociedade, uma vez que mudou conceitos, pesquisas e políticas em matéria de saúde e sexualidade, trazendo também grande ônus de morbidade para as sociedades ao redor do mundo. O relatório do UNAIDS publicado em março de 2019 destaca a urgência de alcançar pessoas que usam drogas para reduzir infecções por HIV. No Brasil, há a necessidade ainda de superar o grande preconceito e o estigma que envolve as populações mais vulneráveis com o aumento da incidência de HIV/AIDS notificadas pela UNAIDS. Além disso, a inclusão de minorias e dos membros mais vulneráveis da população nos serviços de saúde do país ainda é um desafio para os planejadores de saúde

 

Que danos podem ser provocados na psique de uma pessoa quando esses dois polos (sexo e Dependência Química) se encontram?

Vivemos num mundo em que o álcool e as drogas estão muito presentes no universo que engloba questões relacionadas ao “ser e estar sexual” dos seres humanos. Em outras palavras, as drogas estão fortemente associadas a experiências e práticas sexuais diversas, à iniciação sexual precoce, a comportamentos sexuais de risco, à gravidez indesejada, à violência sexual, ao aborto e às disfunções sexuais, que podem ser causadas pelo uso crônico de substâncias. Existe uma incessante busca, principalmente entre os adolescentes e adultos jovens, por substâncias capazes de aumentar a libido e o prazer, facilitar a aproximação entre as pessoas, prolongar o orgasmo e auxiliar a ereção. Neste contexto, já existe evidência científica acumulada da estreita associação entre o uso de álcool, tabaco e outras drogas, o exercício da sexualidade e a prática de comportamentos sexuais de risco, os quais podem contribuir para as principais causas de morbidade e mortalidade entre os adultos e adultos jovens, com elevados custos sociais e financeiros para a sociedade. Isso porque o álcool e outras substâncias, como a maconha, a cocaína e o ecstasy, tendem a reduzir a capacidade de tomada de decisão e aumentar o risco de sexo não protegido, exposição à violência sexual, maior violência no namoro, causando maiores possibilidades de gravidez não planejada, aborto, infecções sexualmente transmissíveis (IST)/Vírus da Imunodeficiência Humana/transmissão do HIV e prática de sexo com múltiplas parcerias sexuais.

Um vídeo da psiquiatra Alessandra Diehl

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.