Entrevista publicada em 03/12/2019 por Eder Fonseca em Pensamento
 
 

“É preciso se conhecer genuinamente”
Elias Lopes – Palestrante, professor universitário no curso de Psicologia e autor

Elias Lopes

Elias Lopes é graduado em Letras, Pedagogia e Psicologia, especialista em psicanálise clínica, em terapia cognitivo-comportamental e em violência doméstica contra crianças e adolescentes. Possui vinte anos de experiência profissional com crianças, adolescentes e famílias nas áreas de educação, assistência social e saúde. Coordenador do CREAS – Centro de Referência Especializado em Assistência Social em Ilha Solteira/SP, exercendo a gestão de atendimentos a crianças, adolescentes, mulheres, pessoas idosas e outros, vítimas de violência doméstica e violação de direitos, adolescentes em medidas socioeducativas e pessoas em situação de rua. É palestrante e professor universitário no curso de Psicologia. Desde sua adolescência, exerceu ministérios em igrejas voltadas para jovens, adolescentes, louvor, adoração e cura interior. Ministro de crescimento emocional, casais e família. Na obra “Quem é você no espelho? – Autoconhecimento motivacional, fé, saúde mental e espiritualidade”, publicada pela Literare Books International, o autor motiva seus leitores a olharem para dentro de si, de maneira simples, amorosa e com responsabilidade. Essa viagem interna é o primeiro passo para a transformação que acontece na vida das pessoas que se propõem a crescer, a avançar, a lutar por seus objetivos e esperanças. “O autoconhecimento é um processo que precisa de uma escolha”, afirma o autor.

 

Em que momento da história, a Psicologia se tornou a base para o entendimento humano?

Há milênios em que o ser humano busca a compreensão de si, a exemplo de Sócrates (450 a.C.), e também nessa mesma época, Aristóteles e Platão, com seus olhares filosóficos para a vida. No meio do século XIX, houve o desenvolvimento científico da Psicologia, unindo as filosofias da mente aos estudos da fisiologia. Citemos também Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, nascido em 1856, que revolucionou o entendimento humano com seu olhar diferenciado para a influência do inconsciente sobre a razão humana.

 

O “Conhece a ti mesmo” atribuído a Sócrates, está atual no contexto em que vivemos?

Sócrates acreditava que conhecer a ti mesmo era relembrar a verdade que morava dentro de nós, que ao nascermos, nossa alma, esqueceu-se da verdade ao ser aprisionada no corpo. Esse diálogo consigo mesmo é a forma de fazer brotar o conhecimento da verdade que já temos, mas que não lembramos. É um pensamento e reflexão atuais e necessários, visto que trazemos esta verdade ao nascer, é nossa essência do Eu Sou; mas nos deparamos com a exigente existência do Eu Tenho, somos conduzidos a buscar o Eu Tenho e angustiar o Eu Sou e suprir o mundo material padronizado.

Estar distante de si e sobrecarregado do ter traz ao ser humano um vazio e uma crise existencial que só podem ser preenchidos com o encontro pessoal interior. As pessoas vão se tornando cada vez mais distantes de sua essência e escravas das idealizações do outro, alojando em sua alma o sofrimento psíquico e a ideação suicida. O amor está se esfriando e o ser humano está se tornando cada vez mais cético e robotizado por estar longe e desconhecido de si mesmo. Ganha-se o mundo todo e perde sua própria alma. É preciso se conhecer genuinamente.

 

Esse é o caminho mais rápido para a felicidade em sua análise. O que impede essa felicidade?

Consideramos que a felicidade é a busca das respostas aos nossos questionamentos reprimidos, aqueles que buscávamos na tenra idade, talvez recortes da nossa memória desta verdade esquecida, quando buscávamos refletir sobre quem eu sou e qual é nossa missão. Carl Jung, relatou que todos nós nascemos originais e morremos cópias, ou seja, neste mundo repressor do ter, buscamos a cobrança de padrões externos copiando-os, matamos nossa originalidade existencial a fim de sermos adequados e aceitos.

O que impede o encontro desta verdade do conhecer a si mesmo está nas defesas que temos de nós mesmos. Entre nossa verdade e essência estão alguns obstáculos: histórias e lutos mal elaborados, angústias, medos, dores, que distorcem a lente de si. É necessário o confronto pessoal, saber que o conhecimento traz responsabilidade de mudança e a saída da zona de conforto. É necessário enfrentar os medos dos nossos recalques e das nossas potencialidades para que possamos alcançar nossas verdades, sentido de existência e esta tal felicidade. Felicidade é ser original e tristeza é ser cópia.

 

Felicidade plena existe ou a felicidade é feita de momentos?

Podemos ter momentos de felicidade plena, no entanto, nossa vida é composta de altos e baixos conforme os eventos situacionais que passamos. Há momentos de motivações extrínsecas compensatórias e outros aversivos que podem comprometer nossas motivações intrínsecas. Freud descreve que temos duas motivações, a pulsão de vida e a pulsão de morte; a vida é o resultado do gozo de nossas tensões que buscam o prazer e realizações, a morte é o resultado das frustrações e dos recalques depositados em nosso inconsciente. O resultado prevalente em nosso conteúdo psíquico é o que levará a sobrepor em nós, a pulsão de vida ou a pulsão de morte. Novamente podemos dizer que a felicidade está nesta harmonia e diálogo do eu com o eu, verbalizar dores e choros que lavam a alma.

Quem entra em negação e coloca uma pedra nos assuntos, reprimem suas tensões e, o que está esquecido não significa inexistente. Felicidade é pulsão de vida prevalecendo, podendo deparar-se com momentos de tristezas diante de um conflito, enfrentando-o e elaborando a fim de alcançar esta libido. E assim é nossa vida, como a água, não pode ficar parada e represada senão adoece, precisamos liberar, falar, vomitar, chorar nossos sentimentos e recalques. A busca pela saúde mental tornando a prevalência da pulsão de vida nos leva a alcançar a felicidade em estar de bem consigo mesmo.

 

Em que momento o lado espiritual se torna uma “liga” importante no modo de pensar?

Sou tricotômico, acredito que somos compostos por corpo, alma e espírito, sou cristão criacionista, a base da nossa essência está de onde e de quem viemos. Na Bíblia está escrito que Deus nos elegeu e nos predestinou N’Ele antes da fundação do mundo para que fôssemos irrepreensíveis diante D’Ele em amor, Ele formou o íntimo do nosso ser e nos teceu no ventre da nossa mãe. Acredito que esta verdade que conhecemos antes de nascer está nesta intimidade com o nosso Deus Eu Sou Criador, o encontro pessoal dentro de nós é ultrapassar os mundos corpo e mente racional e alcançar a essência do nosso lado espiritual, pois, Deus é espírito e este diálogo e “liga” se faz de espírito para Espírito. Simples e reais palavras, o encontro consigo mesmo acontece no investimento na amplitude biopsicossocial e espiritual, o encontro Deus Eu Sou Pai com a Criatura Eu Sou Filho.

 

O estoicismo ajuda nessa forma de pensar e agir?

O autoconhecimento é um processo que precisa de uma escolha, tem início e não há fim e, estar íntimo consigo mesmo nos leva a acessar motivações intrínsecas, independe de existência ou não de motivações extrínsecas, a pessoa sempre terá um reolhar de resiliência para as circunstâncias da vida. Tudo trará um crescimento. Carl Jung afirmou: Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta. A exemplo de Jesus Cristo na cruz ao dizer, perdoai-vos, pois, não sabem o que fazem, Daniel na cova dos leões, seus três amigos na fornalha ardente de fogo, tudo nos forja, traz crescimento e algo positivo levando-nos pra perto de nós mesmos, da verdade esquecida que precisa ser acionada. Porém, quando lutamos com as circunstâncias e não queremos sentir as dores, fortalecemos os leões na cova e somos engolidos pelos nossos desafios. Esta é a arte de viver, do caos se tem a reconstrução do Eu Sou, saber elaborar as circunstâncias aversivas em oportunidades de crescimento.
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Obra Reflexiva: “Quem é você no espelho?” de Elias Lopes (Foto: Divulgação/AP)

 

Superar o medo, as dúvidas e as dores, têm um ponto de partida diferente para cada pessoa?

Se não há medo não há coragem, se não há dúvidas não há a busca pelas respostas mesmo que seja no erro e no acerto, se não há dores não há busca pelo diagnóstico e tratamento, pois, a dor é um sinal de que algo não está bem e precisa ser investigado. O medo, as dúvidas e as dores fazem parte da vida, enquanto há fôlego estão presentes juntos a nós. O medo é saudável, pois, é um sintoma de autopreservação, sem medo não temos noção de perigo e colocamos nossa vida em risco, já a fobia e o pânico, aqueles medos que nos tornam incapacitantes, são patológicos e necessitam de tratamento com profissionais da saúde mental. Cada pessoa reage de uma forma diferente diante da dor, mas fugir e negá-la não é o melhor caminho, a ferida pode ser esquecida, porém, corroi silenciosamente por dentro. Sou favorável a uma ferida exposta do que uma ferida oculta.

 

É possível ter uma esperança ativa?

Há o ditado que diz que a esperança é a última que morre e, em I Coríntios (13:13), está escrito: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor”. A esperança faz parte das necessidades remanescentes da nossa vida, sou favorável a esperança ativa, além de possuir a característica do verbo esperar, é preciso esperançar, buscar ativamente. Esperançar significa almejar, sonhar, definir o que quer. Buscar como alcançará, agir e não parar de crer e lutar. Saber esperar é uma qualidade que se aperfeiçoa com o tempo e traz maturidade. Passar por tribulações nos forja para a vida, leva-nos a adquirir perseverança, experiência e esperança. Esperança é saber esperar e não se desesperar, passar pelas crises e adquirir maturidade emocional e espiritual.

 

São nesses momentos que o ser humano encontra sua força, coragem e cura?

Os momentos de tribulações, quando nossa fé é provada, diante de um luto, não digo somente a morte de uma pessoa querida, também a traição, humilhação, perda de um emprego, dívidas, término de um relacionamento amoroso e outros. Situações que nos trazem ressentimentos e mágoas à nossa psique que ficam reprimidas para dentro da nossa alma com o intuito de esquecermos e negarmos a dor. Assim, acabamos não elaborando o luto.

Quando lembramos de um sofrimento que passamos na vida e conseguimos contar naturalmente e apresentar um crescimento, é sinal de que o luto foi elaborado, adquirimos crescimento com o sofrimento, e um nível de força, coragem e cura que não conhecíamos. No entanto, quando ao lembrar de algo, embargamos nossa voz, não queremos falar, é sinal de que o luto não foi elaborado ainda. Não existe crescimento sem perdas, choro e dor. Nós não somos um cemitério para ficarmos enterrando histórias mal elaboradas dentro de nós, trazendo o adoecimento psíquico e a distância de nós mesmos.

 

Quanto ter um propósito ajuda na percepção de quem somos quando nos olhamos no espelho?

Ter um propósito é o resultado do processo de autoconhecimento, quem se conhece sabe o que quer. Não digo propósito de ser cópia e seguir padrões das exigências do Eu Tenho, digo o propósito de saber a verdade do conheça-te a ti mesmo de Platão. Há a diferença entre insistência e persistência. A insistência é o movimento em insistir com as mesmas estratégias em atingir o que quer e ao não alcançar repete as mesmas alternativas, não discerne se é uma obstinação e se este querer foge do propósito de Ser, após insiste nos mesmos erros, tornando-se um sujeito frustrado.

A persistência é a ação de uma pessoa que se conhece, esta persevera no propósito, ao não alcançar, refletirá e analisará se o que busca faz parte de sua missão e essência, caso seja positivo optará por outro repertório para alcançar o alvo almejado. A pessoa que se conhece tem propósito de vida, é um perseverante em tudo o que faz, torna-se um semeador e por onde passa deixa frutos de vida e criação, há vida em si. A fé é um sinal de um propósito, quem se conhece tem fé, a crença naquilo que não se vê, e esse é o seu norte, há diversas pesquisas que apontam felicidade de vida e prognósticos positivos de tratamentos de doenças para as pessoas que têm fé.

 

O quanto tem de experiências externas e de reflexões internas no livro “Quem é você no espelho?”.

Eu afirmo no livro aos leitores que esta obra é praticamente minha autobiografia. Os temas que abordei, os conceitos teóricos e técnicos que descrevem a psique e o seu funcionamento, os sentimentos e emoções que nos trazem adoecimento e sofrimento, os processos para atingir a amplitude do Eu Sou Trino, Corpo, Alma e Espírito e, diversos outros tópicos abordados, são questões que vivi e passei em minha busca e encontro pessoal. Quem passou pelas dores e vicissitudes da vida pode falar e ofertar com empatia, caminhos para aqueles que buscam e não conseguiram encontrar e se encontrar em si mesmo.

Este é o meu propósito de vida e missão delegada pelo Criador para que eu viva e cumpra aqui na Terra. Sinto-me honrado e grato por poder oportunizar às pessoas as saúdes biopsicossocial e espiritual, os caminhos e acolhimento para a intimidade e amor por si mesmo, pelo próximo e por Deus. Somos frutos das histórias que vivemos e das palavras que recebemos e, principalmente das escolhas que optamos, nunca é tarde para reeditar histórias e elaborar lutos. Eu acredito no ser humano!

Um vídeo do autor Elias Lopes

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.