Entrevista publicada em 03/09/2020 por Eder Fonseca em Política
 
 

“Foi dado um pause nas reformas”
Cristiano Noronha – Vice-presidente e sócio da Arko Advice

Cristiano Noronha Cristiano Noronha é vice-presidente e sócio da Arko Advice. É Administrador de Empresas e Mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília. Foi professor de Ciência Política e Administração (UPIS e UNB). Cristiano regularmente profere palestras para investidores estrangeiros nos Estados Unidos e Europa. É editor-chefe do “Cenários Políticos” e colunista da revista ISTOÉ. “Pesquisa recente do DataPoder mostra que o adversário mais forte de Jair Bolsonaro é justamente Sergio Moro. Num hipotético confronto entre eles, haveria um empate: 41% das intenções de voto para cada um. Contra Fernando Haddad, Bolsonaro venceria com larga vantagem: 42% a 34%. Brancos, nulos e indecisos somam 24%. Mas a situação do Moro merece algumas considerações. Em primeiro lugar, sem um cargo público, ele fica afastado da mídia. Isso não significa que não esteja atuando politicamente para pavimentar o seu caminho até o Palácio do Planalto. A Lava Jato está sendo questionada. Se eventuais excessos da operação forem confirmados, ele poderá sofrer desgaste. Moro tem adversários na direita, porque ele brigou com Bolsonaro, e na esquerda, porque condenou Lula. Portanto, ele pode ter um bom patamar de largada, mas pode ter um teto baixo para vencer Bolsonaro. De qualquer forma, na minha avaliação, se for candidato, tem boas chances de enfrentar Bolsonaro em um eventual segundo turno”, afirma.

 

Cristiano, o Governo Bolsonaro “envelheceu” ou ainda tem alguns sinais de vitalidade?

O Governo ainda está no seu segundo ano. Ainda há muito o que fazer e há sinais importantes de vitalidade. Há reformas em discussão, como a Tributária, Administrativa e o Pacto Federativo. O Congresso Nacional ainda se mostra disposto a apoiar essa agenda de reformas. Marcos regulatórios importantes estão avançando. Foi aprovado o marco regulatório do saneamento. Outros estão sob análise do Parlamento, como do marco do gás, do setor elétrico, nova lei de falências. Há uma série de concessões e privatizações no pipeline. Ademais, vale ressaltar que o presidente continua contando com apoio importante do eleitorado. Por mais que tenha aumentado a polarização, ele conta com apoio de cerca de 30% da população.

 

A crise do coronavírus mudou as prioridades do Governo?

A pandemia, sem dúvida alguma, mudou, momentaneamente, a prioridade do Governo. Foi dado um pause nas reformas. O ajuste fiscal teve que ser colocado de lado. Praticamente toda a economia de 10 anos com a Reforma da Previdência será consumida em meses de enfrentamento da pandemia. Devemos fechar o ano com déficit próximo a 1 trilhão de reais. Mas o que ainda mantém a confiança dos investidores é que a agenda de reformas continuará contando com apoio do Congresso e não será abandonada pelo Governo. 2021 será um ano de muita cobrança do Governo. Será cobrado pelo mercado, investidores, desempregados, empresas. A qualidade das respostas dadas pelo Executivo será fundamental para o futuro político de Bolsonaro.

 

As articulações do Governo com o chamado Centrão, se tornaram mais difíceis com a saída do MDB e do DEM?

A saída dessas legendas do bloco liderado pelo deputado Arthur Lira está mais relacionada com as disputas pelo comando da presidência da Câmara do que com a forma que essas legendas se relacionam com o Governo. Essas legendas nunca agiram como bloco uníssono. Portanto, o efeito sobre a articulação do Governo é marginal. O que houve é o deputado Arthur Lira que estava se apresentando com um parlamentar que controlava mais de 200 votos na Câmara e esses partidos, que têm pretensões de suceder Rodrigo Maia, quiseram deixar evidente que não é bem assim.

 

Qual a real força do MDB na atual conjuntura da política nacional?

Já foi maior. O partido sofreu um grande desgaste nas últimas eleições. Políticos tradicionais não conseguiram se reeleger. Mas o partido continua muito relevante. Tem a maior bancada no Senado e governa o maior número de prefeituras no país. Ainda é uma legenda com grande capilaridade.

 

Para onde estão indo os partidos de esquerda em nosso país?

Os partidos de esquerda não construíram uma alternativa ao ex-presidente Lula. E depois da prisão do Lula, ficaram ao mesmo tempo, órfãos de um líder e refém de uma narrativa baseada no “Lula Livre”. Eles ficaram olhando para o passado. Não entenderam a mudança que estava acontecendo na sociedade brasileira. O PT nasceu dos sindicatos, dos movimentos sociais, que estão desmobilizados, sem liderança, narrativa e sem bandeira. Depois que Lula saiu da prisão, e sendo ele inelegível, eles não se entendem. O que há, então, é uma pulverização na esquerda. Todos querem se apropriar do espólio de Lula, mas não têm narrativa convincente. O Lula tinha todas as ferramentas à sua disposição: um partido forte, uma estrutura sindical forte, uma narrativa e o apoio de outros partidos de esquerda. Hoje, não há ninguém na esquerda que reúna todos esses elementos.

 

Parece que esses partidos de esquerda estão desunidos. Essa desunião pode se tornar temerária numa eleição majoritária?

A fragmentação que vemos hoje, sem dúvida alguma, tornará a eleição para a esquerda mais difícil. O Bolsonaro forte, concorrendo à reeleição, poderá ir para o segundo turno com um candidato de centro, por exemplo. Se tivermos muito candidatos de esquerda, Bolsonaro e um candidato forte de centro, como Sergio Moro ou Luciano Huck, pode acontecer de a esquerda ficar de fora. O cientista político

Análise: O cientista político da Arko Advice, Cristiano Noronha (Foto: Divulgação/AP)

 

O ex-presidente Lula ainda tem relevância no jogo político?

Não é bom subestimar a capacidade do ex-presidente Lula se recolocar no jogo. Vi muitas pessoas dizerem, em 2005, quando explodiu o escândalo do Mensalão, que ele dificilmente seria reeleito. Foi. Fez a sucessora. Em 2018, foi sua imagem que colocou Fernando Haddad no segundo turno. Na propaganda do PT daquele ano, Lula aparecia muito mais que Haddad. Óbvio que o jogo vai ficando mais difícil. Mas ele ainda tem força política e eleitoral relevantes.

 

Por que Sergio Moro vem se desidratando nos últimos meses?

Não diria isso. Pesquisa recente do DataPoder mostra que o adversário mais forte de Jair Bolsonaro é justamente Sergio Moro. Num hipotético confronto entre eles, haveria um empate: 41% das intenções de voto para cada um. Contra Fernando Haddad, Bolsonaro venceria com larga vantagem: 42% a 34%. Brancos, nulos e indecisos somam 24%. Mas a situação do Moro merece algumas considerações. Em primeiro lugar, sem um cargo público, ele fica afastado da mídia. Isso não significa que não esteja atuando politicamente para pavimentar o seu caminho até o Palácio do Planalto. A Lava Jato está sendo questionada. Se eventuais excessos da operação forem confirmados, ele poderá sofrer desgaste. Moro tem adversários na direita, porque ele brigou com Bolsonaro, e na esquerda, porque condenou Lula. Portanto, ele pode ter um bom patamar de largada, mas pode ter um teto baixo para vencer Bolsonaro. De qualquer forma, na minha avaliação, se for candidato, tem boas chances de enfrentar Bolsonaro em um eventual segundo turno.

 

Outro partido que parece sem identidade é o PSDB. Como analisa o tucanato atualmente?

O maior revés que o partido sofreu na sua história foi com Aécio Neves. Ele teve 50 milhões de votos em 2014. Perdeu, mas saiu como o principal líder das oposições naquele ano. Tanto é que nas eleições municipais de 2016, o partido foi o destaque. Teve crescimento extraordinário. Depois que foi revelado denúncias contra Aécio, o partido caiu no descrédito. Alckmin teve menos de 5% dos votos. Um desempenho fraquíssimo. Cobra-se do PSDB uma profunda renovação e rigor com corrupção. Os governadores do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e de São Paulo, João Doria são vistos como potenciais candidatos. Mas ainda não empolgam. Além disso, o partido continua sofrendo com acusações de corrupção e inquéritos. A situação do partido é difícil. Retornar à presidência da República não será fácil.

 

Quem ganha com a polarização?

Bolsonaro em primeiro lugar. Ele foi eleito apostando nisso. Seu primeiro ano de gestão continuou apostando na polarização. Mais recentemente adotou um figurino mais cauteloso. Mas é por pouco tempo. O cansaço da população com essa polarização pode fortalecer também um candidato de centro. Mesmo que esse candidato polarize com Bolsonaro, ele pode adotar um tom mais conciliador com as outras forças políticas.

 

Enxerga outra força política que não seja oriunda das fileiras do petismo e do bolsonarismo?

Existem muitas outras opções no campo do centro. Já citei algumas como Sergio Moro, Eduardo Leite. Mas há outros nomes. Fala-se no Luciano Huck. O DEM tem falado no ex-ministro Henrique Mandetta. Estamos muito longe de 2022. Há espaço para surgimento de outros nomes e alternativas. Até 2014, não se falava de Bolsonarismo. Eram apenas tucanos e petistas. Essas duas legendas protagonizaram a disputa presidencial de 1994 a 2014. 20 anos!

Um vídeo da consultoria Arko Advice

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo do Panorama Mercantil.