Entrevista publicada em 27/09/2019 por Eder Fonseca em Pensamento
 
 

“Hoje estamos vivendo um paradoxo”
Mirian Goldenberg – Antropóloga e professora da UFRJ

Mirian Goldenberg

Mirian Goldenberg é antropóloga e professora do Departamento de Antropologia Cultural e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É doutora em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Realiza pesquisas na área de Antropologia Urbana, com ênfase em Gênero, atuando principalmente nos seguintes temas: gênero e desvio, conjugalidade, sexualidade, infidelidade, corpo e envelhecimento. Autora de “A Outra”, “Os Novos Desejos”, “Nu & Vestido”, “De Perto Ninguém é Normal”, “Toda Mulher é Meio Leila Diniz”, “A Arte de Pesquisar”, “Infiel: Notas de Uma Antropóloga”, “O Corpo Como Capital”, “Coroas: corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade”, “Noites de insônia: cartas de uma antropóloga a um jovem pesquisador”, “Por que homens e mulheres traem?”, “Intimidade”, “Corpo, envelhecimento e felicidade”, “Tudo o que você não queria saber sobre sexo”, “A Bela Velhice”, “Homem não chora. Mulher não ri”, “SeXo”, “Velho é lindo!” e “Por que os homens preferem as mulheres mais velhas?”. É colunista do jornal Folha de São Paulo desde 2010. “A busca pela felicidade total eu não encontro em ninguém, já que ninguém fala disso, ninguém acredita na felicidade total”, afirma.

 

Mirian, por que você acredita que o mundo está se tornando cada vez mais conservador e nacionalista?

Acho que hoje estamos vivendo um paradoxo, pois, ao mesmo tempo, temos um conservadorismo, uma volta mais forte de determinados valores e até a possibilidade de exibir comportamentos que ficaram encobertos durante tanto tempo. Você também tem uma maior liberdade, uma liberdade nunca vista em termos de comportamentos sexuais, em termos de relacionamento, em termos de escolha. Hoje eu acho que temos muito mais escolhas. Não dá para comparar as escolhas que eu tenho com as escolhas que a minha avó ou minha mãe tinham e até mesmo com mulheres da minha geração. Acho que não dá só para falar de conservadorismo.

É óbvio que hoje como as pessoas estão se manifestando mais abertamente (existe algo que não existia que são as mídias sociais), nós ficamos assim meio que espantados e até meio chocados com determinados comportamentos que parecem completamente anacrônicos. Por outro lado, existe uma reação muito forte a isso também. Eu diria que a gente vive como diria o Gilberto Freire, num “equilíbrio de antagonismos”. Nós vivemos numa sociedade que é muito mais livre, mais moderna, mais igualitária, mais democrática e convivemos com comportamentos conservadores, tradicionais, nada igualitários e nada democráticos. Como antropóloga eu não posso dizer se isso é bom ou ruim; se isso é positivo ou negativo. Eu vou buscar sempre tentar entender esses valores, discursos e comportamentos coexistentes na nossa cultura.

 

O Brasil é um país muito ligado a imagem jovial… só que estamos envelhecendo como nação. Acredita que vamos saber envelhecer bem?

Essa pergunta é objeto da minha pesquisa que é o envelhecimento. Estou trabalhando nesse tema desde o início dos anos 2000. Minha pesquisa se chama “Corpo, Envelhecimento e Felicidade”, tenho cinco livros sobre esse tema e lancei mais um agora em maio. O Brasil deixou de ser jovem há algum tempo. Não existe mais aquela pirâmide e daqui a pouquíssimos anos terão mais homens e mulheres com mais de 50 anos do que jovens. Só que como eu sempre falo, os valores resistem às mudanças. Os discursos mudam, os comportamentos mudam, e os valores resistem, pois, demoram muito mais a mudar. Ainda permanecem esses valores associando o Brasil a um país de jovens, a jovialidade e a tudo que se refere ao moderno, só que nós não somos mais assim e brevemente nós não seremos mais um país de jovens. Nós seremos um país de pessoas mais velhas. Mesmo mudando a realidade, os valores permanecem.

Como eu tenho mostrado nos meus novos livros, algumas pessoas estão envelhecendo muito bem. Atualmente eu estou pesquisando os nonagenários (pessoas de 90 a 99 anos) que estão muito bem: independentes, lúcidos, saudáveis, ativos, vivendo bem, felizes, gostando da vida, alegres, os chamados “super-idosos” que eu gosto de chamar de belos velhos, porque eu tenho um livro chamado “A Bela Velhice” onde eu falo da forma de envelhecer bem. A maior parte das pessoas continua com muito medo de envelhecer e o país não propícia condição para um bom envelhecimento, principalmente para as pessoas mais pobres, de mais baixa escolaridade, com menos oportunidades e com menos escolhas. Nós poderíamos estar envelhecendo muito melhor, se houvessem políticas públicas, se houvesse uma conscientização maior do Estado e principalmente dos próprios indivíduos se cuidando desde cedo, não só fisicamente, mas financeiramente, porque se for só esperar a aposentadoria, os serviços públicos, o brasileiro está perdido!

 

Algum país é similar ao Brasil neste contexto?

Como isso se compara com outros países? Eu pesquiso a Alemanha, por exemplo, e lá as pessoas de 70 e 80 anos, nem falam de envelhecimento. Aqui aos 30 as mulheres já estão morrendo de medo de envelhecer. Aos 40 e 50 já estão apavoradas e os homens também com a aposentadoria… então, nós envelhecemos pior que muitos países que eu tenho pesquisado.

 

Vamos mudar de assunto. A felicidade existe de fato ou são os pequenos momentos de prazer que fazem ela [felicidade] existir sem ao menos percebermos?

Meu novo livro que lancei (“Liberdade, Felicidade & Foda-se – As Perguntas e as Respostas Para Viver Mais Feliz”) é sobre felicidade, e uma das discussões que faço no livro é sobre a expectativa irreal de felicidade e a experiência concreta de felicidade. Quando eu pergunto para as pessoas o que falta para você ser feliz, elas dizem inúmeras coisas como dinheiro, coisas relacionadas ao consumo como casa própria, carro, viagens para o exterior. Muitas mulheres falam de ficar mais magras, fazer cirurgia plástica, arranjar um marido milionário… sempre expectativas irreais de felicidade. Agora quando eu pergunto qual o momento do seu dia que é o mais feliz, eles e elas falam de coisas muito simples como quando chegam em casa e recebem um abraço dos seus filhos, um sorriso do seu marido, quando tomam um banho gostoso, quando leem um bom livro, quando escutam uma boa música, quando vão à praia ou quando estão com os amigos. A felicidade pra quem valoriza o que tem no seu cotidiano, no seu concreto é algo simples, mas para quem tem uma expectativa irreal e se compara com outras pessoas, isso é inatingível. O livro todo é essa discussão sobre o que nós temos e podemos valorizar na nossa vida e que nos faz feliz, e como evitar a armadilha de ter expectativas irreais de felicidade.

 

A busca pela felicidade total seria uma utopia?

A busca pela felicidade total eu não encontro em ninguém, já que ninguém fala disso, ninguém acredita na felicidade total. Todo mundo fala que felicidade são momentos, que felicidade são pequenos prazeres, que felicidade tem a ver com abraço, com sorriso, com afeto, com as realizações, com projetos… Acho que a felicidade real, a experiência de felicidade é muito verdadeira pra grande parte dos meus pesquisados e o mais interessante é que eu tenho encontrado que as pessoas mais velhas, em geral, são muito mais felizes e satisfeitas com as suas vidas do que as pessoas mais jovens. É isso que eu mostro quando eu falo da “curva da felicidade”. Quanto mais velho você é mais feliz você pode ser, enquanto quando se é mais jovem você tem tantas expectativas irreais. Você compete tanto, você exige tanto e a sociedade cobra tanto de você que é muito mais difícil ser feliz.

 

Existe uma imagem ideal de felicidade que distingue o olhar feminino do masculino?

Quanto há homens e mulheres, também é uma discussão que eu faço muito no livro. Existem sim diferenças, não só de expectativas de felicidade, mais de valores, de comportamentos e de prazeres. Enquanto as mulheres quando envelhecem falam muito de liberdade e amizade, os homens falam mais do mundo do afeto, do lar, da esposa, dos filhos e dos netos. Existe até um descompasso grande, porque para a mulher, principalmente para aquela que envelhece agora e que teve uma vida muito restrita ao lar e aos filhos, o que ela mais valoriza e o que ela mais quer para se sentir feliz é a liberdade (e as amigas têm um papel fundamental nessa felicidade). Elas quase não falam dos filhos, do marido e dos netos, enquanto os homens bem diferentes delas, falam muito da vida familiar e afetiva. Os dois querem ser felizes, mais colocam essa felicidade em lugares diferentes.
A renomada antropóloga

Estudiosa: A renomada antropóloga Mirian Goldenberg (Foto: Wallace Cardia/AP)

 

Você afirmou que o sexo é hipervalorizado em nossa cultura. Isso sempre foi assim ou com o mundo digital isso se tornou ainda mais abrangente com a pornografia a um click de distância?

No Brasil sempre houve esse mito de uma sexualidade exacerbada, de um país muito sensual (em que o sexo é muito valorizado), e não é o que eu observo na vida concreta dos meus pesquisados. Não é isso que torna a vida mais feliz. Eu sempre digo que o sexo é consequência de outras coisas que acontecem em nossas vidas. Tipo de relação que a gente estabelece com os nossos parceiros, os nossos projetos, os prazeres que a gente tem além dos prazeres corporais… então o sexo é uma consequência de muitas outras coisas e não é causa da felicidade pelo menos para os meus pesquisados. Se fala muito de sexo e acho que se faz pouco (muito menos do que se fala), e todo mundo que eu pesquiso se sente fora do padrão, achando que está fazendo menos do que os amigos, do que as amigas e idealizam que os outros têm uma vida sexual muito mais ativa e interessante. Na verdade, todo mundo tem vidas sexuais mais ou menos parecidas e com uma dose bastante grande de insatisfação, justamente porque se comparam com um ideal que não existe.

 

O que o mundo digital trouxe de bom e de ruim para essa área que muitas vezes é mais falada do que propriamente realizada por diversas pessoas?

Como eu disse antes, o antropólogo não vai falar se é ruim, se é bom, se é positivo ou negativo. Eu acho que o mundo digital não é tão diferente assim do mundo real. Ele é também real e para muitas pessoas, é até mais real que o mundo que nós chamamos de real e tudo o que acontece nele é o que aconteceria neste supostamente mais real só que encoberto pelo anonimato ou pelas múltiplas escolhas, ou pela brevidade e descartabilidade das relações. Eu sempre falo (como estudei muito infidelidade), que não é porque hoje tem tantas opções assim que uma pessoa que quer trair vai trair. Ela já iria trair mesmo quando não existia celular, quando não existia computador. Ela já traia quando ligava do orelhão. Quando eu pesquisei “A Outra – A Amante do Homem Casado”, quando não existia celular e nem computador e os homens traíam, existia a outra e isso era quase o padrão do comportamento masculino (ter casos e ter aventuras). Hoje eu acho que de certa forma é mais difícil trair, porque primeiro existe um sistema de vigilância permanente (o teu celular e o que você faz no computador).

Segundo, porque as mulheres não aceitam mais essas relações que não são igualitárias e quanto mais independente é uma mulher, menos ela aceita a traição. Terceiro, porque as pessoas podem se separar mais facilmente. Se a relação não está boa, você pode se separar. Você não precisa ter a esposa, a amante, outra amante… e os homens me dizem que dá preguiça porque uma mulher só é muito difícil de administrar, imagina 2 ou 3! As mulheres estão dando mesmo mais trabalho e os homens também. As relações são cultivadas num mundo real, seja ele dentro do computador ou fora do computador. É esse mundo da convivência que faz com que as pessoas fiquem ou não juntas. Acho que o mundo digital é só uma ferramenta de aproximação ou de distanciamento maior, mas não é motivação de nada. Pode ser até uma nova forma de encontrar pessoas (depois você vai encontrar a pessoa fora desse computador e desse celular).

 

A idealização do sexo, do amor, do trabalho e do casamento perfeito é um grande motivo de frustrações das pessoas no século XXI?

Eu acho que hoje em dia as pessoas estão idealizando menos, estão mais bem informadas, mais conscientes. Elas já passaram por muitas experiências. Seus pais e seus avós já passaram por muitas experiências. Muitas pessoas têm avós que estão namorando agora. Os avós estão se permitindo dizer: “não vou ficar com o meu neto, vou sair para ir ao baile, pra namorar, viajar”. Acho que não é a idealização que provoca a frustração.

 

Que outra frustração tem trazido angústias substanciais para um mundo que vive hiperconectado?

O que eu vejo na minha pesquisa, é que a maior reclamação é não ter tempo. “Não tenho tempo para fazer o que eu gosto, não tenho tempo para fazer o que eu quero, estou sobrecarregado, estou exausto, estou com insônia…” Nós vivemos num mundo de muita violência, de muita agressividade, de muito ódio, e as pessoas estão reclamando muito mais de falta de tempo e desse clima que se instalou no Brasil nos últimos anos e que está provocando muita depressão, insônia, ansiedade, frustração e insatisfação com a própria vida. Acho que está difícil encontrar projetos de vida que fazem com que as pessoas se sintam mais felizes e realizadas num momento tão difícil e dramático do país.

Um vídeo da antropóloga Mirian Goldenberg

Patrocinado por:
Sapato Site




Imprimir

Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.