Entrevista publicada em 10/05/2019 por Eder Fonseca em Pensamento
 
 

“Hoje temos um amplo leque de opções”
Nany Bilate – Pensadora intuitiva e fundadora do think tank Behavior

Nany Bilate

A peruana Nany Bilate é publicitária de formação que iniciou sua carreira em agências de publicidade nas áreas de pesquisa mercadológica e planejamento estratégico. Atualmente é uma pensadora intuitiva, que estuda e escreve sobre os valores e crenças sociais da contemporaneidade. É fundadora da Behavior, think tank especializada em valores, crenças e atitudes da contemporaneidade. A Behavior foi fundada pelo desejo de investigar o consumidor de forma holística, mas ainda com foco mercadológico. Em 2007, quando fez 10 anos de existência, a Behavior assumiu um novo propósito de existência e modificou seu posicionamento. Hoje se dedica a estudar o ser humano com o propósito de ampliar a consciência da sociedade através do conhecimento e da conscientização. “As redes sociais são a forma que decidimos interagir. Portanto, para mim, é um meio. Não considero que é melhor ou pior. Elas são necessárias devido às múltiplas conexões que desenvolvemos. Antigamente, quando nosso universo era restrito, íamos pessoalmente conversar, trocar, informar. Quando surgiu o telefone, se discutiu sobre a perda da presença física. Essas discussões são cíclicas e necessárias para não ceder além da conta. Para nos alertar. Por outro lado, se quisermos ampliar nosso universo de conexões, a melhor forma, até agora, tem sido via redes sociais”, afirma a influente pensadora intuitiva.

 

Nany, você é uma repensadora. Fale um pouco mais sobre o seu trabalho para quem ainda não conhece esse termo.

Na realidade sou uma pensadora que tem como foco ampliar a consciência através do conhecimento. O termo repensadora usei durante vários anos, por causa do Grupo Repensadores. Um grupo de amigos, especialistas em diversos setores, que se uniu com a intenção de repensar a sociedade e oferecer essa análise coletiva. Hoje o grupo deixou de atuar publicamente, porque entendemos que o ciclo tinha acabado. Como pensadora, meu trabalho é promover a compreensão de pessoas comuns sobre os temas que estudo: relacionamentos, poder e identidades feminina e masculina contemporâneas. Como pesquisadora, meu trabalho é trazer informações que ajudem a conhecer melhor a sociedade.

 

O que você trouxe da sua profissão originária (publicidade) para o que realiza atualmente?

A compreensão das camadas em que vivemos. A publicidade age em determinada camada. A camada mais externa. Da forma. Do que é comum (massa). Do que já está instalado mesmo que em nichos (tendência). Da força da mensagem. Como publicitária compreendi que há outras camadas, menos conhecidas e exploradas. A publicidade me despertou o desejo de ir mais fundo. Foi nesse mergulho que cheguei no espaço que estudo e que chamo de Sentir. Um estágio interno em que as mudanças começam a nascer. É lá que noto e acompanho os próximos “Movimentos Humanos”. Por isso, meu blog se chama assim.

 

É correto dizer que nossa sociedade está doente?

É correto dizer que ela está em transição de valores e crenças. Entendendo transição, neste contexto, como “ponte”. Estamos atravessando uma ponte longa e larga. Já deixamos uma das margens. E embora exista o movimento que pareça querer voltar, está cada vez mais claro para mim, que a maioria não quer. Por outro lado, ainda não chegamos na outra margem. Não sabemos o que nos espera do outro lado. Isso gera desconforto, insegurança, medo. Instabilidade social que pode evidenciar aspectos negativos em detrimento dos positivos. Por isso se criou a ideia de doença.

 

Quais os principais incômodos da sociedade moderna?

O não saber. O se encontrar fora ou sem nenhuma posição social clara. Fomos ensinados que somos de acordo ao espaço que ocupamos. Cada espaço tem seus privilégios. Sua forma de operar e interagir com os outros espaços. As fronteiras desse espaço definem quem eu sou. Quando as fronteiras ficam menos nítidas – tempo de transição – o desconforto fica intenso. Especialmente para quem é importante estar “certo”. Quando se dá muito valor a esse “lugar”, a perda desse Status quo, pode incentivar a raiva. Que é o que estamos vendo hoje em dia.

 

Como podemos classificar a internet e as redes sociais nessa sociedade avaliada por muitos como caótica?

As redes sociais são a forma que decidimos interagir. Portanto, para mim, é um meio. Não considero que é melhor ou pior. Elas são necessárias devido às múltiplas conexões que desenvolvemos. Antigamente, quando nosso universo era restrito, íamos pessoalmente conversar, trocar, informar. Quando surgiu o telefone, se discutiu sobre a perda da presença física. Essas discussões são cíclicas e necessárias para não ceder além da conta. Para nos alertar. Por outro lado, se quisermos ampliar nosso universo de conexões, a melhor forma, até agora, tem sido via redes sociais. Igual peso dou à internet. Graças a ela estamos conhecendo mais sobre o que acontece no mundo. Queiramos ou não, hoje sabemos mais. Sobre mais coisas. Temos mais fontes para acessar. Muitas são falsas, assim como sempre houve falsidade e manipulação nas informações. Entendo que o volume de informações e de atividades possa gerar ansiedade e dar a impressão de caos. Devemos entender que somos nos que entramos, se queremos, nesse caos. Como contrabalanço, o movimento “slow” em diversos campos, vem crescendo. Como quase tudo, é uma questão de escolha.

 

Esses novos meios são novas formas de poder?

Como meios de comunicação, sem dúvida, são ferramentas importantes para exercer o poder. Pela sua força de alcance, pelo seu potencial de imagem, som, pela agilidade. Pelo impacto que criam. Devemos refletir que o poder de influenciar é o que conta. E que a internet e as redes sociais são meios. Há cabeças que usam esses meios para influenciar. Por isso, a importância de escolher as cabeças que queremos que nos influenciem. Graças a esses meios de comunicação, hoje temos um amplo leque de opções.
4° Fórum

Movimentos Humanos: Nany Bilate no 4° Fórum de Conhecimento MCF (Foto: AP)

 

O livre-pensador tem “o seu lugar ao sol” num ambiente cada vez mais hostil e binário?

Não só tem um lugar ao sol, como deve, no meu entender, usá-lo cada vez mais. Pessoalmente, eu sinto um dever cívico de trazer um outro olhar além do binário. Compor em mais nuances os aspectos da nossa natureza, daquilo que chamamos de realidade.

 

Quais os maiores cuidados que esse livre-pensador deve ter neste cenário?

Agir por e com amor. Ser delicado e firme. Sustentar suas ideias em conceitos sólidos, mas não por isso imutáveis. Ter o máximo de coerência possível, sabendo que está num mundo em construção. Nestes tempos de transição nada é definitivo. Cuidar para não incentivar a raiva social. Pensar várias vezes a resposta que será dada a alguém que está atacando. Para acolher, se mantendo firme. Ou simplesmente, decidir não responder a ataques, porque muitos deles, só buscam mais material para continuar jogando raiva.

 

O empoderamento feminino é um início de um novo ciclo que coloca em xeque o chamado patriarcado?

Creio que estamos caminhando para um mundo mais equitativo. Em todos os aspectos sociais – de gênero, econômica, social, etc. A variável masculino & feminino, está mais evidente porque, penso, estava mais pronta a ser tratada. O patriarcado é atingido não só pela busca de equidade entre os gêneros. Ele é um sistema de poder. E como tal, se apoia em diversas frentes para se manter no poder. Os aspectos econômico, social, cultural, racial são estruturas que sustentam o poder reinante. A raiva dos homens, que se baseiam no patriarcado, não acredito que seja, só pela busca da mulher por mais igualdade. Isso é o mais evidente. Posso dizer até o pretexto. A raiva vem da perda de privilégio e importância social por todo o movimento de equidade. A equidade está de mãos dadas com a Diversidade. Não é a toa que o sistema de poder patriarcal, faz tudo para minimizá-la.

 

Quais as principais dúvidas que afligem o coletivo em todas as partes do globo em sua visão?

Não consigo responder sobre todas as partes do globo. Embora seja uma viajante que busca abrir o olhar para o que está em volta, meu campo de estudo é o Brasil e América Latina. Hoje penso que para o cidadão comum que superou a linha de sobrevivência financeira, uma das principais dúvidas é como conseguir equilibrar a necessidade de trabalhar para obter o dinheiro que lhe permita ter e fazer tudo aquilo que pensa lhe dará prazer; versus, o tempo livre que acredita ter direito.

 

A felicidade é um momento ou algo permanente?

A felicidade pode ser vista como um estado de espírito que te ajuda a enfrentar momentos difíceis ou um momento específico em que você realmente sente a felicidade presente. Dependendo como você olhe, pode ser as duas afirmações da sua pergunta.

Um vídeo da pensadora Nany Bilate

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.