Entrevista publicada em 11/11/2019 por Eder Fonseca em Artes
 
 

“Minhas criações são da minha imaginação”
Diego Moura – Artista plástico

Diego Moura

A arte de Diego Moura tem como foco despertar no espectador, experiências ilógicas desafiando a compreensão que será sentida através dos traços agressivos com um acentuado teor de extravagância. Uma das marcas do artista, que ajuda a criar a identidade de sua obra, é a maneira como olhos e bocas de seus personagens são retratados nas artes. Ele utiliza uma estética intitulada de “digitalismo”, em que toda a concepção artística nasce na tela do celular. A arte digital é o resultado de um trabalho desenvolvido através de equipamentos eletrônicos, como computadores, tablets e celulares. No caso do artista, a sua ferramenta de criação é um smartphone. É por ele que todos os conceitos, cores e formas são trabalhados, numa espécie de estudo da arte. O que é produzido nesta plataforma, posteriormente, é transportado com tintas acrílicas para as telas dos quadros. Diego costuma dizer que busca inspiração em lugares, pessoas e situações, que de alguma maneira conseguem despertar algum tipo de emoção. As artes carregam em si uma paleta de cores tropicais, que são empregadas de maneira a destacar a origem do artista. “Eu não consigo enxergar dessa maneira. Apesar de não ter estudado pintura e técnicas de pintura, eu tive a faculdade de design gráfico que me apresenta o universo das artes plásticas”, afirma o talentoso artista que está em ascensão no mundo das artes.

 

Diego, por que o mundo das artes lhe fascinou?

Eu nasci numa família, onde minha mãe pintava e desenhava personagens de ThunderCats e Tartarugas Ninjas em painéis para o meu pai fotografar crianças em eventos. Desde novinho eu já era estimulado no meu ambiente familiar a desenhar. Em 2015, depois de uma exposição do pintor surrealista Joan Miró, fui picado pelo “insetinho” da arte. Começaram a surgir na exposição mesmo vendo os quadros, esses personagens, esses seres distorcidos e lógicos na minha mente e aquilo ali foi uma coisa de doido, muita informação! Desde novinho eu já tinha esses insights artísticos. Eu gostava de fazer meus primos de forma distorcida, isso já era meu. Já em 2015, eles apareceram mais nítidos, muito mais fortes, com detalhes que me surpreenderam na hora (lá na exposição), sendo que eu tive que interromper e sair correndo pra botar pra fora todas àquelas imagens que estavam surgindo na minha mente. Fui num bloquinho de papel e saiu tipo uma psicografia (vinte desenhos). De lá para cá, não parei mais. Eu acredito que o momento em que eu fui levado mesmo pela arte e que ela transformou a minha vida, foi a partir de 2015, onde eu comecei a ter esses insights criativos e a começar a trabalhar isso de uma forma mais madura com o desenho.

 

O que você trouxe do design gráfico e da fotografia para as artes plásticas?

Do design e da fotografia eu trouxe muita coisa. Na faculdade você aprende formas, teoria das formas, das cores, você entende todos os significados, você trabalha os signos. Com certeza isso ajuda na hora de uma criação quando eu quero traduzir em forma de arte um pensamento. Essa questão da faculdade ajuda muito a você concretizar as formas. E a fotografia é essa questão visual da composição, e também é muito colado com o design, com as linhas… O meu trabalho é a base de linhas. Começa a criação ali das linhas e vai ganhando formas, vai ganhando um rosto, mais surge de linhas. Então, tem o olhar compositivo da fotografia e a teoria das formas e cores que eu aprendi na faculdade.

 

Foi natural a escolha do celular como uma de suas ferramentas de trabalho em um mundo hiperconectado como o atual?

Sim, foi bem natural. Eu estava em casa no sofá, quando recebi uma notificação dizendo que era possível desenhar no bloco de notas do Iphone. Como eu estava com esses seres, com os olhos e a boca em destaque, foi só a ação de colocar o dedo na tela e fazer um desses personagens. Quando eu vi que a precisão ali dos movimentos, que os traços saiam direitinho, eu achei interessante e comecei a usar o celular como o primeiro contato de criação dos meus desenhos.

 

Em que momento você acredita que a arte passa a ter um papel mais social?

Eu acredito que toda a expressão artística (não só na pintura) tem um papel muito importante para a sociedade. Eu vejo que nas palestras que eu dou nas universidades e que as pessoas que frequentam as minhas exposições, chegam com um sentimento muito travado e crítico sobre as criações delas. Quando elas observam o meu estilo de desenho que é algo mais livre, que é algo que nasce dentro de mim e que não é preso em nenhuma regra, que é uma arte livre (ela não tem uma técnica que você olhe e identifique, eu trabalho de forma muito pessoal. Minhas criações são da minha imaginação), sentem influenciadas a explorar mais a criatividade delas. Então, eu acredito que sim, que toda arte tem um papel muito importante para a sociedade na questão de fazer com que as pessoas pensem fora da caixinha e ganhem autoconfiança nos seus trabalhos e nas suas respectivas vidas.

 

Quais as influências que você recebe na hora da criação?

As minhas influências na hora da criação, vem por sentimento e pelo meu estado emocional. A arte ” A Diversidade” é um quadro onde eu quis na minha imaginação retratar o meu sentimento de agonia, o medo que as pessoas têm de se mostrar e de se autoaceitar na questão da sexualidade. Então, veio a criação nesse sentimento, surgindo a arte “A Diversidade”. É muito do sentimento e sempre para o indivíduo, com pessoas que eu conheço no meu dia a dia, que passam por mim às vezes que nem trocam um oi, mas que falam com a expressão do rosto (eu sou muito sensível a essas coisas). Eu consigo observar a questão da expressão do rosto. Também fico atento as notícias… então tudo isso quando estou criando um quadro me influencia.

 

Que detalhe acredita ser fundamental em sua obra?

São os olhos e a boca sempre em posição de destaque. Eu demorei a fazer uma leitura sobre isso, porque minha imaginação cria esses seres com essas peculiaridades (o olho para fora e a boquinha pra fora). Fazendo uma leitura do meu trabalho, eu chego a conclusão que eu sou uma pessoa que falo muito olhando nos olhos. Eu gosto de falar bastante, então eu acredito que a arte nasceu dessa minha essência. Os olhos são a janela da alma e a boca é como a gente se mostra para o mundo, no que a gente é e no que a gente acredita. Por eu ser assim, a arte nasce com esse meu DNA que são os olhos no que eu acredito muito ser algo verdadeiro do ser humano e a boca que é a forma como a gente se projeta para o mundo.
O artista plástico

Talento Original: O artista plástico niteroiense, Diego Moura (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Você já revelou em uma certa oportunidade que é inquieto. Quais as melhores coisas que decorrem dessa inquietude na hora de dar vida a um novo trabalho?

Essa inquietude é mais num processo criativo. Na hora que estou ali criando, eu começo pensar em tudo. Começo a pensar em tudo que acontece e que me afeta e me influencia. Penso em todos os sentimentos e isso me causa uma inquietude artística, onde eu começo a fazer vários desenhos (não só um)… é um processo de criação, isso já é meu! E tem a questão de qualquer coisa que estiver me incomodando (um sentimento), de jogar ali e fazer. Eu uso dessa minha inquietude na hora do processo criativo e na construção dos meus desenhos. Não é uma inquietude imperativa, de comportamento, mas sim de um processo de criação. Você pensa em muitas coisas. Você pinta muitas coisas. Às vezes eu estou fazendo uma arte e do nada vem uma outra coisa, aí eu mudo de página no aplicativo, mudo de “layers”, que são as camadas e faço outro desenho… aí estou no meio dele e vem uma outra imagem e eu começo a desenhar. Essa é a minha inquietude. Num processo criativo, às vezes nascem três ou quatro artes e com isso eu crio uma série de quadros. De um pensamento nasceram outras artes e não só uma!

 

Essa inquietude já te atrapalhou em algum ponto?

Como eu disse, essa inquietude não é comportamental. Não é questão de ser imperativo. Eu sou uma pessoa calma, caseira, eu gosto de estar em ambientes calmos, mas dentro da minha cabeça na hora da criação é uma festa! É muita informação. É essa inquietude mesmo de você pensar em muitas coisas ao mesmo tempo, e criar várias coisas ao mesmo tempo. Eu não vejo isso como negativo, porque eu consigo fazer uma série de quadros dentro de um sentimento, dentro de uma ideia. É isso.

 

Fazer uma arte livre sem uma escola definida, traz mais vantagens do que desvantagens?

Eu não consigo enxergar dessa maneira. Apesar de não ter estudado pintura e técnicas de pintura, eu tive a faculdade de design gráfico que me apresenta o universo das artes plásticas. Existem matérias que você usa o pincel, que você usa o lápis, que você faz o desenho, não sendo só o digital. O desenho já nasceu comigo. Eu sei que eu tenho essa facilidade de pegar o lápis e fazer a forma que surgiu na minha mente. Acredito que a escola ajude pessoas que às vezes têm um pensamento, que pensa na arte, mas que não sabe desenhar. O desenho é uma técnica também. Eu não acho que seja desvantagem ou vantagem. O que eu vejo é a questão da peculiaridade de cada um e a minha arte é isso. Ela surge de dentro de mim. Ela é uma representação pessoal. Ela é imaginária. Tem expressões imaginárias. Ela é muito minha! Eu não consigo enxergar isso como vantagem de alguém que não tenha e nem desvantagem se alguém tem um estudo numa escola de arte. É aquilo que eu te falei, toda expressão artística pra mim, é válida. Toda expressão artística serve para alguma coisa. Ela ajuda as pessoas, ela influencia pessoas. Não acho que tenha essa questão de vantagem ou desvantagem na questão de ser o dom que você tem, ou algo que se aprende e exerce, ou seja, nenhuma das duas.

 

Gostaria que falasse um pouco mais sobre a criação do quadro “O Caçador”.

A arte “O Caçador” nasceu sobre esses ataques que as pessoas sofrem na internet (eu já sofri ataques na internet). A ideia do caçador é esse perfil fake que geralmente essas pessoas agressivas usam para atingir o outro e ela não tem coragem de se revelar. Nesse sentimento veio “O Caçador” atrás de uma moita e é aquilo, ele está ali de olho (ele tem um olho amarelo), um olho meigo, mas o outro olho dele é amarelo, um olho que passa um pouco de medo esperando a oportunidade para atacar. A ideia mesmo surgiu com essa metáfora do caçador em cima desse sentimento. Eu não pensei em fazer. É aquilo que te falei: os traços nascem dos traços que estão na minha mente e dali vão ganhando forma, vão ganhando cores, então é uma junção do consciente com o subconsciente. Ficam os dois trabalhando ao mesmo tempo, na criação de uma arte minha. Foi assim que nasceu “O Caçador” e os outros quadros.

 

Esse quadro é um reflexo dos tempos atuais ou ele pode ser atemporal em sua visão?

Eu acredito que essa arte nasceu do meu sentimento, de uma reflexão dos tempos atuais que a questão do ódio para outro indivíduo. De alguém que não aceita o outro e ataca pela cor, pela condição sexual… o que é diferente do dito padrão que a sociedade impõe nas pessoas. Eu acredito que essa arte vai seguir porque é um discurso que a gente já carrega há muito tempo e a arte nasce nesse período, mas acredito que ela vai seguir com essa mensagem por muito tempo. Eu acho que temos que evoluir muito ainda. Os políticos têm que trabalhar mais em leis virtuais, que sejam mais severas para quem comete esses crimes online de ofensas, de ameaças… acho que com isso vai diminuir. Mas a questão do ódio infelizmente está no ser humano. Você vê em várias artes de vários artistas, representações de violência e de intolerância, que até hoje a gente vive. Então, acredito sim que essa minha arte “O Caçador” ou a “A Diversidade” vão percorrer e vão influenciar muita gente pela frente.

Um vídeo do artista plástico Diego Moura

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.