Entrevista publicada em 18/08/2020 por Eder Fonseca em Economia
 
 

“O cenário já era desafiador”
André Galhardo – Economista-chefe da Análise Econômica Consultoria

André Galhardo

André Galhardo é mestre em Economia Política pela PUC de São Paulo. Coordenador auxiliar e professor dos cursos de Ciências Econômicas, Administração e Relações Internacionais na Universidade Paulista UNIP. É economista-chefe da Análise Econômica Consultoria e colunista em mídias impressas e rádio. Possui ampla experiência em análise de conjuntura econômica nacional e internacional, com passagens pelo setor público. “Entendemos que a tecnologia deverá crescentemente puxar o crescimento econômico. Contudo, há variáveis importantes que devem ser levadas em consideração. Por exemplo, enquanto China, Estados Unidos e alguns países europeus já largaram na frente na implantação da rede 5G – fundamental para o sucesso de uma constelação de produtos e serviços desta revolução tecnológica -, o Brasil ainda enfrenta desafios para viabilizar o acesso à internet para aproximadamente metade da população. De todo modo, temos visto empresas de base tecnológica, como plataformas de transporte e delivery, fintechs e outras, se beneficiarem de um aumento significativo da demanda. Não somente por conta da pandemia, mas que efetivamente tiveram um crescimento significativo durante a pandemia. Por outro lado, ainda estamos distantes da Internet das Coisas, carros autônomos e tantas outras tecnologias de ponta”, afirma o economista.

 

André, como acredita que o Brasil estará no pós-Covid?

Em uma situação muito mais delicada do que entrou. É evidente que o déficit primário – que deve ser o maior da história -, não constitui nosso maior problema, ademais, o mundo todo teve que lançar mão de políticas fiscais expansionistas e sofreram os impactos da desaceleração da atividade econômica. No entanto, antes da pandemia do Covid-19, nós já tínhamos um quadro fiscal bastante delicado. A despeito do déficit público ter sido menor que o aprovado na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) em 2019, é importante ressaltar que a melhora do quadro fiscal dos últimos anos está fundamentalmente ligada às receitas extraordinárias. A deterioração do quadro fiscal se constitui em um dos maiores desafios para o pós-pandemia. Sobre a atividade econômica, é bom lembrar que estávamos em um ambiente de desaceleração, sobretudo nos trimestres finais de 2019. A taxa de desemprego estava muito elevada e nós já tínhamos um processo crônico de desvalorização do real. Some-se a isso, os efeitos da pandemia e da deterioração da situação política do país e podemos observar claramente que o cenário já era desafiador e deverá continuar assim.

 

Qual será o papel da tecnologia para puxar o crescimento?

Entendemos que a tecnologia deverá crescentemente puxar o crescimento econômico. Contudo, há variáveis importantes que devem ser levadas em consideração. Por exemplo, enquanto China, Estados Unidos e alguns países europeus já largaram na frente na implantação da rede 5G – fundamental para o sucesso de uma constelação de produtos e serviços desta revolução tecnológica -, o Brasil ainda enfrenta desafios para viabilizar o acesso à internet para aproximadamente metade da população. De todo modo, temos visto empresas de base tecnológica, como plataformas de transporte e delivery, fintechs e outras, se beneficiarem de um aumento significativo da demanda. Não somente por conta da pandemia, mas que efetivamente tiveram um crescimento significativo durante a pandemia. Por outro lado, ainda estamos distantes da Internet das Coisas, carros autônomos e tantas outras tecnologias de ponta. A maneira como conduziremos as próximas etapas desta revolução tecnológica ditará o ritmo e a dimensão do nosso crescimento econômico nas próximas décadas.

 

Quais setores devem ser os mais afetados?

O setor de bens de consumo duráveis certamente terá problemas. Se imaginarmos que haverá uma mudança na composição dos gastos das famílias após o término da pandemia, isso significa dizer que os gastos com bens de consumo duráveis podem diminuir em favor da opção por investimentos (entesouramento). É evidente que iremos nos deparar com algum movimento de alta, que pode inclusive ser bastante agudo, puxado pela demanda por computadores, celulares, tablets e outros. Além disso, também devemos considerar o reflexo da demanda reprimida, mas esses movimentos devem ser pontuais.

 

E quais setores devem ter um desempenho melhor na média?

Além dos setores de tecnologia, que já vêm apresentando um resultado bastante positivo durante a crise, os segmentos de varejo alimentar e outros setores que oferecem bens e serviços de primeira necessidade, como remédios e combustíveis, também devem largar na frente. Ainda que, em alguns momentos, a venda de bens de consumo duráveis apresentem variações importantes, esse não deve ser o condutor do crescimento no pós-pandemia.

 

A inflação preocupa?

Não. Ainda que alguns economistas se sintam desconfortáveis com a degradação das contas públicas nacionais, a insuficiência da demanda e a significativa capacidade ociosa trabalharão com um “colchão” contra a inflação na medida em que a demanda agregada volte gradualmente a apresentar um movimento mais sustentado, os preços se manterão sob controle. Os movimentos de aumento nos preços de alimentos e combustíveis devem ser passageiros e autorreajustáveis.

 

Várias empresas foram salvas pelo Estado em 2008. Isso poderá ocorrer novamente?

Na verdade, isso já está ocorrendo no Brasil e no mundo. O Estado tem agido de modo a evitar mais falências. Ainda que os números de pedidos de falências sejam alarmantes, é inegável que a renda emergencial e os pacotes de estímulo monetário colaboraram para dirimir os impactos da pandemia.
O economista

Análise: O economista da Análise Econômica, André Galhardo (Foto: Divulgação/AP)

 

Qual será o efeito real da reforma da previdência no pós-Covid?

Os resultados da reforma da previdência só seriam sentidos no médio e longo prazo. E aqui é importante lembrar que os resultados da reforma aos quais faço referência equivalem à diminuição da renda disponível para a população, sobretudo daquela cuja propensão marginal a consumir é mais elevada que em outros estratos sociais. Isso não seria um problema se a situação fiscal do país fosse mais confortável, mas na situação em que estamos, uma diminuição do consumo privado não será devidamente compensada pelo aumento dos gastos do Governo.

 

A reforma tributária é a grande pauta nacional em sua visão?

A reforma tributária tem um grande potencial transformacional e certamente pode vir a ser uma grande pauta nacional, mas pode frustrar as expectativas caso se encaminhe para uma reforma cujo objetivo principal seja o de aglutinar impostos. Estamos defronte a uma grande oportunidade para simplificar o sistema tributário – e isso é importante e urgente. Por outro lado, também é uma janela para que se discuta a diminuição da regressividade da carga, um dos maiores problemas do sistema tributário brasileiro.

 

Existe um patamar de juros ideal para o Brasil?

Para responder a essa pergunta teríamos que falar sobre os estudos de hiato do produto e da taxa de juros estrutural. Segundo o Banco Central, a taxa Selic no atual patamar de 2,25% é estimulativa, ou seja, está abaixo da taxa que o Banco considera como estrutural. A crise provocada pelo novo coronavírus tende a reduzir sensivelmente a massa salarial mesmo após o processo de vacinação da população. Além disso, é de se esperar que haja alguma alteração na forma como as pessoas gastam o seu dinheiro, ou seja, pode haver, um aumento da propensão marginal a poupar após a crise. Isso levaria para baixo a demanda agregada. Soma-se a estes dois elementos a camisa de força a qual estão submetidos os gastos do Governo Federal e o nível de capacidade ociosa da economia brasileira. Todos esses elementos devem permitir que a atual política monetária estimulativa permaneça em vigor por um tempo maior que o esperado no início da pandemia. Neste momento é fundamental ter uma política monetária expansionista a fim de fazer frente à diminuição da capacidade do Estado em agir usando a política fiscal. E para que a política monetária tenha a potência que se espera, é fundamental que o Banco Central continue agindo para diminuir os spreads bancários.

 

A estabilização da dívida é o nosso maior desafio?

Não. É claro que o Estado tem que agir para diminuir o ritmo de crescimento da dívida pública. Isso é inegável. Mas, antes de estabilizar a dívida, é essencial criar uma reforma tributária que ajude na indução de novos negócios e contribua para o crescimento mais robusto da economia, permitindo a criação de resultados primários positivos. Antes da pandemia, o cenário básico do quadro fiscal apresentado pelo Senado Federal era de resultado primário positivo somente em 2026. Na atual conjuntura, só depois de 2031. Não haverá uma interrupção do crescimento da dívida de forma sustentada sem que se crie um ambiente propositivo do ponto de vista da atividade econômica.

 

O papel dos bancos públicos (como o BNDES) deve ser revisto em um médio prazo?

Pensando na atuação mais coadjuvante que tem sido dada atualmente, sim, o papel deve ser revisto. Em especial, quando o abismo entre a infraestrutura tecnológica dos países desenvolvidos e a infraestrutura dos países subdesenvolvidos (como é o caso do Brasil), for cada vez profundo. Fala-se muito em 5G, indústria 4.0, Internet das Coisas, dentre outros produtos e serviços como “o futuro”. Contudo, é errôneo enxergar desta forma, haja vista que se tratam de tecnologias do presente. Os países desenvolvidos já estão bastante à frente nessa corrida. A tendência, com o passar do tempo, o desenvolvimento tecnológico e a concorrência, é que o capital especulativo vislumbre menos oportunidades nesses setores e deixe de direcionar recursos para eles. Assim, somente a iniciativa pública poderá acelerar esse processo, como já vimos diversas vezes na história brasileira. Não creio que será diferente.

Um vídeo do economista André Galhardo

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo do Panorama Mercantil.