Entrevista publicada em 31/05/2019 por Eder Fonseca em Artes
 
 

“O interessante é assumir quem você é”
Nalini Narayan – Escritora, atriz, modelo e ativista

Nalini Narayan

Nalini Narayan partilha da concepção de literatura como arte da linguagem que causa “estranhamento”. No seu livro, o explosivo “Aventuras Sexuais de Nalini N. – Uma Odisseia em São Paulo”, ela traz o feminismo dentro de um contexto machista. Nalini é dona de outras obras de impacto como “Safada – os homens e as mulheres de Nalini Narayan” e “Fêmea Alfa – Diário Real das Minhas Orgias”. Recentemente, a ativista e autora, enviou uma carta para Ruan Lira, secretário estadual da Cultura do Rio de Janeiro, e Thiago Gagliasso, ator que é irmão de Bruno Gagliasso e também membro da Secretaria. Trata-se de uma espécie de protesto contra o machismo no meio cultural. Esse protesto teve origem por Nalini ser preterida em um teste para um papel em uma série, no qual faria uma mulher da alta sociedade (mãe de adolescentes). Mesmo sendo irretocável no teste (de acordo com colegas presentes no set), os diretores preferiram uma atriz mais jovem. “Acho que a hipocrisia tem muitas faces. Depois do último acontecimento percebi que as próprias pessoas que pregam liberdade podem incorrer numa postura hipócrita e preconceituosa. Não gosto de desonestidade intelectual e muito menos de incoerência entre pensamentos e atitudes no mundo real. É preciso que haja uma mudança de padrões éticos e estéticos, mas para isso acontecer é necessário esforço”, afirma a atriz e polemista.

 

Em nossa última conversa, você afirmou que gente hipócrita não merecia o seu respeito. A hipocrisia aumentou em nossa sociedade de lá para cá?

Acho que a hipocrisia tem muitas faces. Depois do último acontecimento percebi que as próprias pessoas que pregam liberdade podem incorrer numa postura hipócrita e preconceituosa. Não gosto de desonestidade intelectual e muito menos de incoerência entre pensamentos e atitudes no mundo real. É preciso que haja uma mudança de padrões éticos e estéticos, mas para isso acontecer é necessário esforço. Aquilo que eu puder fazer para ser um agente da mudança eu farei. Foi por isso que tomei a iniciativa de enviar uma carta aberta para a Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro com minhas reflexões sobre os maus tratos já naturalizados pelos quais passam atrizes e modelos humilhadas cotidianamente. Escrevi a carta para o Thiago (Gagliasso) com o maior carinho. Ele tomou conhecimento de imediato e curtiu no meu Instagram.

 

A arte ficou à margem ou ela se tornou hipócrita (ou até mais) que outros meios da sociedade nos últimos tempos?

Não acho que a arte seja hipócrita, mas com certeza existe hipocrisia no meio artístico. Não suporto mais as panelinhas, por isso acabei por me exaltar em público na entrevista para a Veja. Resolvi colocar o dedo na ferida das artes audiovisuais e nos absurdos pelos quais passam os atores. Não dá mais para coadunar com práticas de tortura física e psicológicas dos preparadores de elenco. É preciso pensar em outros métodos. Estimular a leitura e cultura é algo que sempre eleva o espírito… a dança é libertadora. Mas enxergar beleza numa preparação grotesca é irresponsável. Pode até gerar uma cena realista, mas quem disse que o realismo é a mais alta expressão da arte? É melhor que uma cena saia ruim do que promover esse abuso.

 

O que está norteando a sua visão como artista nestes tempos nebulosos?

Essa é uma pergunta difícil de responder neste momento. Sempre me apego aos clássicos e ao exercício da literatura. Apesar de toda a confusão, fiquei muito inspirada. Do ponto de vista de espectadora, estou buscando filmes que me proporcionem experiências líricas profundas. Assisti “Roma” com prazer. Escuto muito Bach. Pareço uma eremita. Ando mega seletiva. Inclusive até para entrevistas. Não dou entrevistas para qualquer jornalista. Estou conversando contigo porque gosto muito de você.

 

Depois do que ocorreu com você no teste, esta visão mudou?

Muito pelo contrário. O que aconteceu só reforçou a minha aversão ao contato social. Sou uma pessoa muito comprometida com a arte e não tolero ser subestimada. Não faço parte de patota nenhuma. Não desrespeito ninguém, muito pelo contrário, me coloco sempre disponível para aprender e ensinar (se for necessário) mesmo que ambos os processos possam ser dolorosos.

 

Qual a visão que você tinha do machismo no meio cultural antes deste fato?

O machismo está em todo lugar, ele vive dentro de nós. O caso só repercutiu porque sou uma figura pública. Mas não podia deixar passar. Que sirva de exemplo para diminuir o sofrimento de outras atrizes desconhecidas. Muita gente me disse que eu poderia me queimar. Me queimar com quem? Já tenho uma posição confortável. Eu escolho o que faço. Se for para trabalhar em condições ruins eu prefiro nem me candidatar a nada, percebe?

 

Podemos dizer que o machismo é velado no meio cultural?

Machismo, racismo e gordofobia são preconceitos que podem se manifestar de forma sutil nas nossas escolhas, naquilo que você gosta ou não gosta. De repente você rejeita a aparência de alguém por conta de sutis aspectos. Um rosto de formas arredondadas ou bochechas pronunciadas em uma pessoa magra podem remeter imageticamente a um peso maior, ou seja, a pessoa observada pode lembrar uma pessoa gorda, o que desperta ojeriza nos gordofóbicos. E assim por diante: traços mais largos podem remeter à negritude ancestral; rugas também vêm sendo apagadas. Essa última, aliás, evoca uma das características mais tenebrosas do machismo: o reinado da pedofilia visual. Todos somos convidados a cultivar aparência de criança. Essa infantilização da mulher não passa despercebida para quem é intelectual. Chega a ser constrangedor. Todos somos estimulados a ressaltarmos traços mais finos, pele esticada e clara. Um modelo de beleza que estou questionando de forma agressiva. Para agradar aos machistas, racistas e gordofóbicos do meio cultural somos obrigadas a parecermos sempre mais jovens, mais claras e mais magras.
A escritora

Reflexões: A escritora, atriz, modelo e ativista, Nalini Narayan (Foto: Divulgação/AP)

 

Que ferramentas são necessárias para mudar esse panorama?

É necessário que pessoas insubmissas, como eu mesma, se rebelem contra esse Status quo. Intelectuais, artistas e espectadores. A gente tem que pensar, falar e agir. Atores e atrizes que não aceitem essas imposições dos realizadores; realizadores que desafiem essas imposições do “mercado”; espectadores que demonstrem que essas imposições não partem deles. Eu sou exemplo disso, fui subestimada apesar de possuir inúmeros fãs, seguidores e leitores. Essa é a prova de que o mercado já mudou faz tempo e alguns ainda insistem nas antigas visões e acabam perdendo tempo, dinheiro e audiência porque deixam a oportunidade escapar. A minha proposta é uma pluralização de conceitos estéticos. Existe beleza na diferença. O problema é que ao questionar os modelos de beleza atuais eu acabei por ser colocada na berlinda e possivelmente julgada como uma mulher feia ou apologista da feiura. E se eu fosse feia o meu discurso seria invalidado? Em nenhum momento estou fazendo apologia do feio, não sou contra tratamentos estéticos, eu mesma uso cremes Chanel, etc. Só me parece pobre um conceito estético que sempre exalte a beleza caucasiana. Isso é racismo. O meu rosto na tela sempre vai ser arredondado por causa da minha origem asiática marrom hindu, não tenho intenção de transformar os meus traços por conta do mercado. Conquistei meu público por causa da minha coragem e integridade em me assumir em todos os ângulos e aspectos.

 

Qual o papel da mídia nessa discussão?

A mídia deve dar espaço senão a gente vai discutir isso do mesmo jeito via rede social e a mídia vai ser a última a saber.

 

Você sentiu algo dessa magnitude (mesmo que seja de forma velada) quando lançou o seu livro “Aventuras Sexuais de Nalini N. – Uma Odisseia em São Paulo?”.

O preconceito apareceu de uma outra forma através do moralismo. Perdi amigos, fui assediada, bloqueada, discriminada, mas serviu para separar o joio do trigo. E pessoalmente acho que meu círculo social se fortaleceu, pois, só tenho amigos cultos e abertos. Fiquei mais seletiva. Mudei de celular inúmeras vezes por causa dos fãs. Até hoje não dou meu número em lojas por conta da repercussão desse livro e do segundo livro “Fêmea Alfa – Diário Real das Minhas Orgias” que teve uma mídia ainda maior.

 

O progressismo prático se difere do progressismo teórico pela sua experiência de vida e em especial pela sua experiência nesse episódio?

Claro. Existe uma diferença brutal entre o que as pessoas falam e o que praticam. Isso é esperado, mas as pessoas têm de fazer um esforço. Senão o público lê como hipocrisia, no que estão corretos. Existem pessoas sérias e outras desonestas em todas as áreas e espectros. Temos que procurar sempre a transparência. Não acho que ninguém seja obrigado a nada. Mas se a pessoa atua dando pouco ou se curvando ao que os outros querem ela acaba por atuar contra si mesma e se nega a possibilidade de uma existência plena. É ruim ter que seguir modelos. Bacana é a gente criar nossos próprios padrões. O interessante é assumir quem você é. Bonito é ser amado de verdade. Não adianta defender ideias com as quais você não se identifica. Fica sempre um vácuo entre o discurso e a prática. Espero que se lembrem daquela atrizinha bochechuda de nome esquisito que criou o maior auê público e que nunca mais discriminem ninguém.

 

Que reflexões você gostaria que as pessoas tirassem desse acontecimento?

O mundo está mudando. Seja você também agente dessa mudança. É como digo no meu livro “Safada – os homens e as mulheres de Nalini Narayan”: “num cenário de destruição somente a revolta enobrece o espírito”.

Um vídeo da escritora Nalini Narayan

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.