Entrevista publicada em 18/09/2020 por Eder Fonseca em Economia
 
 

“O mundo tem um novo foco”
Rodrigo Franchini – Sócio e Head de Produtos da Monte Bravo Investimentos

Rodrigo Franchini

Com mais de 10 anos de atuação no mercado financeiro, a Monte Bravo é resultado da união de profissionais com diferentes experiências no ramo, mas com um mesmo objetivo: fazer a diferença na vida das pessoas através de uma assessoria de investimentos especializada. Com escritórios em São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Curitiba, Goiânia, Belo Horizonte, Caxias do Sul e Santa Maria (e um time composto por mais de 300 especialistas), é atualmente o agente autônomo da XP Investimentos mais bem avaliado e espera alcançar a marca de R$ 20 bilhões sob assessoria até o final de 2020. Outro ponto que aumenta a confiança dos gestores da Monte Bravo é a certeza de que a crise associada à baixa rentabilidade da renda fixa levará mais brasileiros a buscar informações junto a assessorias especializadas, tornando o mercado de capitais maior e mais atrativo. “Sem dúvida, toda a semana, temos um novo capítulo e agora essa história do aplicativo TikTok. Essa disputa continua no radar, pois, pode desacelerar uma recuperação econômica que ainda não se mostrou muito resiliente e consistente. O mundo ainda não tem certeza desse crescimento que alguns países estão demonstrando, portanto, quando se coloca qualquer componente que possa atrapalhar essa retomada é de fato um ponto a se manter sob observação”, afirma Rodrigo Matias Franchini, head de produtos e sócio da consistente assessoria.

 

Rodrigo, os “nervos” dos investidores durante a pandemia estão sob controle?

Na verdade, os investidores se acalmaram nesses últimos tempos. O fato de termos tanta volatilidade em um espaço muito curto de tempo acabou doutrinando os investidores brasileiros na ideia de que a alocação precisa ser mantida no médio prazo para ser benéfica e resiliente na carteira.

De maneira até surpreendente os brasileiros não diminuíram suas posições nos mercados mais voláteis. Se olharmos na Anbima o resultado semestral de fundos de ações e de fundos mm, o net de captação foi positivo, portanto, é uma demonstração desse aprendizado, somado claro ao efeito de juros baixos por muito mais tempo, esse fato também vem sendo importante para que o fluxo dessas posições mais arrojadas seja bem elevado, e que em algumas oportunidades até acelere muito o retorno de eventuais quedas.

 

A tensão entre EUA e China, está sendo vista com atenção pelo mercado?

Sem dúvida, toda a semana, temos um novo capítulo e agora essa história do aplicativo TikTok. Essa disputa continua no radar, pois, pode desacelerar uma recuperação econômica que ainda não se mostrou muito resiliente e consistente. O mundo ainda não tem certeza desse crescimento que alguns países estão demonstrando, portanto, quando se coloca qualquer componente que possa atrapalhar essa retomada é de fato um ponto a se manter sob observação.

A questão principal ainda para este ano é a eleição americana, mas se você somar a guerra comercial, o cenário começa a ficar muito incerto e não à toa a demanda pelos títulos americanos e até o dólar, tiveram uma queda, pois, o mundo não vê a economia americana como sustentável ainda sem um novo pacote, e ainda por cima com uma incerteza em relação ao seu presidente, isso sem nenhum pacote de estímulo fiscal no curto prazo fez com que os investidores buscassem outras opções para protegerem as suas carteiras como o dólar, por exemplo.

Por isso essa guerra comercial não é interessante para ninguém, e se ela ganhar novos capítulos e a relação comercial piorar, sem dúvida teremos um mundo com mais medo, demanda maior por posições conservadoras e os emergentes sofrendo muito com fuga de capitais.

 

Essa tensão deve se acentuar com uma reeleição de Donald Trump?

Na teoria sim, pois, ele é um candidato que já demonstrou essa face de não querer manter relações comerciais que na opinião deles sejam desvantajosas aos EUA. Portanto, ele sempre vai rever acordos globais e relações comerciais, como fez nesses últimos anos. O ponto é que a reeleição dele provavelmente vai manter essa tensão entre os dois países, ainda mais depois de uma pandemia onde ele mesmo culpa os chineses pela propagação global do Covid. É claro que essa relação já foi muito deteriorada e não deve melhorar no curto prazo.

O fato é que para os dois lados a guerra comercial a longo prazo não é benéfica, pois, os EUA precisam de materiais básicos, matérias-primas, etc, e a China precisa de um mercado consumidor para toda a sua produção. Elas tendem a se completar, e eles sabem disso, não à toa foi feita a primeira fase do acordo comercial no início deste ano, porém, o curto prazo é ainda de muitas tensões. Essa reeleição pode trazer para 2021 mais alguns meses dessa incerteza, o que somado ao cenário de pós-Covid não ajuda em nada a retomada global, já que somada essas duas economias, estamos falando de mais de 40% do PIB global.

 

Como o mercado vê o candidato Joe Biden?

O mercado o vê como um político mais ponderado que o atual presidente, portanto, os acordos globais devem ser mantidos, as relações com outros países também devem melhorar, porém, o ponto é que ele não tem um viés tão aberto assim para economia. Ele já falou que um dos programas da plataforma de governo é aumentar impostos, sendo assim a precificação das empresas deve mudar para o ano que vem, o lucro delas também será afetado, e por fim teremos uma nova perspectiva no curto prazo da economia americana frente a esse cenário de nova política proposta por ele.

O mercado gosta sempre de alguém mais liberal no poder, porém, ele pode no médio prazo trazer uma estabilidade importante para os EUA em relação a outros países, e isso será importante na retomada econômica.

 

O que pode gerar incertezas no mercado em mundo cada vez mais complexo?

As relações globais sem dúvida serão afetadas. Essa cadeia produtiva capenga que o Covid deixou bem exposta é um ponto que gerou temores na maioria dos países, portanto, a partir dessa pandemia o mundo deve se tornar mais focado internamente do que em acordos globais como foi feito na última década. A complexidade das cadeias de suprimento das empresas globais também foi afetada, fazendo com que elas tenham um molde melhor dentro de suas localidades diminuindo essa dependência de um único produtor ou uma única maneira de conseguir a sua matéria-prima não é saudável e nem sustentável.

O mundo tem um novo foco que é a maneira sustentável de produzir e vender, portanto, as empresas que se enquadrem no chamado ESG têm uma perspectiva de se manter no mercado por um prazo maior. E por fim o mundo se tornou um local mais assistencialista, com políticas fiscais expansionistas fazendo com que as economias se tornassem mais “indisciplinadas” fiscalmente falando, gerando uma dependência maior do “Estado” nesse primeiro momento.

 

Como os movimentos para criações de vacinas podem afetar as bolsas em todo mundo?

Sem dúvida se as vacinas se mostrarem promissoras agora em 2020 ainda, a onda compradora do mundo volta com força, até porque o mundo tem hoje mais de 15 trilhões de dólares a juros negativos ou zero, sendo assim o mercado está e se manterá muito líquido daqui pra frente, e qualquer movimento ou notícia positiva para a retomada econômica gerará automaticamente um fluxo comprador para as bolsas, devolvendo capacidade e volume para aquelas que mais sofreram nesse primeiro momento de pandemia. Vale lembrar que isso pode também afetar alguns preços de alguns ativos, fazendo com que os preços em alguns setores se tornem exagerados em alguns momentos.
Monte Bravo Investimentos

Assessoria e Cenários: Equipe da Monte Bravo Investimentos (Foto: Divulgação)

 

O Ibovespa caiu 12% em um único dia de março. Prever uma queda como essa é possível?

Não, não temos modelos para que se coloque uma queda desse tamanho e dessa magnitude, bem como a sequência de quedas a que fomos expostos. Em eventos esporádicos e grandes crises, claramente se tem oscilações, mas nunca uma desse tamanho e com essa velocidade e diria até violência. O que podemos fazer é montar proteções para os clientes em determinados cenários, mas uma queda dessa magnitude de fato não é previsível nem no pior modelo.

 

Qual o real poder de um ministro da economia perante os investidores?

Ele tem a diretriz e a matriz econômica de um país, portanto, ele é fundamental para que os investidores acreditem no movimento de alta ou não de determinada bolsa, se você tem alguém que não é alinhado com o mercado e não está focado na retomada, sem dúvida o mercado não será comprador para aquele momento, se exigirá mais prêmio pelo risco e pelo prazo de suas dívidas.

Sendo assim a bolsa não será um bom investimento para o longo prazo, e o mercado de juros é muito volátil, temendo um aumento e reversão da atual política monetária a qualquer momento, por isso o alinhamento dele com o Banco Central e Copom também é essencial para uma boa condução.

 

Paulo Guedes está “incensado” desse poder no momento?

Agora, na verdade, é sua prova, seu grande teste, pois, ele vai tentar passar a Reforma Tributária e provar seu poder dentro do Planalto. Os investidores ainda o veem como um porto seguro dentro do Governo, alguém que não abrirá mão do teto de gastos, da austeridade fiscal e da política liberal dentro da atual estrutura de gastos públicos.

O problema que vemos é que se ele não conseguir passar a Reforma ou por algum motivo mostrar um desconforto com o presidente, esse desgaste no médio prazo possa se tornar irreversível e com isso a saída dele traria uma volatilidade enorme ao mercado por não saber qual diretriz seria tomada daqui pra frente em relação a nossa economia.

 

Quais são os melhores investimentos da década?

A bolsa vinha caminhando para isso, porém, este ano de 2020 ela foi fortemente afetada, mas não tenho dúvida que ela se manterá como o principal investimento por conta dos juros muito baixos e sua manutenção assim por mais tempo. Ao olharmos o histórico, é óbvio que o CDI ainda desempenha um papel interessante, muito por conta dos movimentos de alta que tivemos, bem como a própria moeda (dólar), títulos atrelados à inflação e por fim o ouro por sua demanda recente para os portfólios se tornarem mais seguros.

A questão é que a última década não será mais parâmetro para os investidores, pois, tudo mudou, e mudou de maneira radical, ou seja, daqui pra frente os ativos mais voláteis serão os melhores, visto que os juros não terão mais essa atratividade, e sendo assim veremos uma mudança de juros, para fii, bolsas e fundos mais voláteis como principais investimentos para o longo prazo.

 

E quais investimentos têm sido os melhores nesse período de pandemia?

Nessa pandemia os investimentos que foram mais conservadores e mantiveram as posições frente ao risco que passamos, portanto, o dólar continuou tendo uma demanda anual interessante, assim como o ouro. Esses dois ativos apresentaram uma alta bem expressiva.

Porém, vale lembrar que desde a retomada das bolsas, alguns índices já conseguiram voltar mais de 60% de suas quedas, portanto, apesar desses ativos terem um ano muito bom até aqui, não podemos cravar que daqui pra frente esse resultado se mantenha, se a vacina se mostrar promissora de fato, e as economias estimularem mais o crescimento com mais pacotes fiscais, as bolsas terão novos estímulos e essas retomadas devem ser pontos de observação para os investidores.

Um vídeo da Monte Bravo Investimentos

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo do Panorama Mercantil.