Entrevista publicada em 06/11/2019 por Eder Fonseca em Artes
 
 

“O trabalho autoral não tem amarras”
Simone Silvério – Fotógrafa

Simone Silvério

Simone Silvério é uma fotógrafa apaixonada pela maternidade e tudo que envolve esse universo. Mãe de 4 filhos, administradora de empresas com MBA pela FIA-USP, arquiteta formada pela FAU-USP, executiva com 15 anos de experiência no mercado financeiro internacional, deixou tudo para se tornar fotógrafa em tempo integral. Desde que iniciou as atividades de seu estúdio, em conjunto com o marido e também fotógrafo Jaiel Prado, já fotografou centenas de recém-nascidos, bebês e gestantes, tornando-se referência no mercado fotográfico nacional, com cursos online publicados, participação em vários congressos e workshops pelo Brasil e inúmeras reportagens em quase todos os canais de televisão. Simone é membro e Fotógrafa Certificada pela associação de fotógrafos profissionais americanos PPA, é membro da associação americana de fotógrafos infantis NAPCP e atualmente é a presidente da Associação Brasileira de Fotógrafos de Recém-Nascidos ABFRN, além de ser uma das fundadoras. Também é autora de diversos cursos sobre fotografia de bebês e gestantes na plataforma online eduk.com.br. Recentemente, a fotógrafa estava envolvida no projeto “Mulheres no Espelho”, megaexposição que aconteceu de 1 a 31 de outubro em São Paulo. A mostra além de alertar sobre a importância do diagnóstico precoce do câncer de mama, promove o aumento da autoestima em mulheres que estão em tratamento.

 

Simone, como a fotografia alcançou sua mente e o seu coração?

A fotografia sempre me encantou por eternizar um instante e a partir dela usar a imaginação para criar todo o contexto. Um filme tem seu próprio ritmo, sons e sequência de imagens e cabe a você embarcar nele, já uma foto não, ela tem apenas aquela imagem congelada e tudo mais cabe à sua imaginação. Aos quinze anos fui fazer um curso formal de fotografia e aí me encantei com a possibilidade de produzir eu mesma essa imagem, esse instante congelado no tempo. Nunca tive habilidade para pintar ou desenhar, mas sempre adorei pinturas especialmente os impressionistas. Assim quando comecei a fotografar me sentia como se pintasse meus próprios quadros, o laboratório fotográfico era meu ateliê onde brincava com os negativos e os químicos e me encantava ao ver surgirem as imagens no papel. Ainda hoje me encanto ao trabalhar na pós-produção no computador.

 

Acredita que a fotografia está ganhando um tom mais efêmero com o advento das novas tecnologias?

A fotografia vem se transformando com o tempo, hoje é muito fácil produzir imagens, por isso ela vem se transformando em linguagem, comunicamo-nos cada vez mais através de imagens e símbolos e nesse aspecto dá para dizer que ela está mais efêmera, porém, isso não representa o fim da fotografia mais tradicional, pelo contrário, é a ampliação do escopo da fotografia. Vale notar também que fotos despretensiosas, capturadas por um celular sem maiores elaborações criativas podem se transformar em registros importantes e perpétuos ainda que não venham a ser impressos e emoldurados como, por exemplo, a foto com seu ídolo ou a última foto que você fez com um ente querido que se foi.

 

Como os fotógrafos profissionais devem atuar num mundo altamente conectado onde quase tudo se torna imagem?

A boa fotografia continuará a ser admirada e consumida. Um bom fotógrafo sabe o que mostrar e o que não mostrar, enquadramento, regras de composição, harmonia de cores, iluminação e tudo mais que se entende por técnica fotográfica e, a isso, acrescenta-se sua visão de mundo, sua emoção, personalidade e repertório cultural. Quase todo mundo sabe escrever, mas são poucos os verdadeiros escritores, hoje quase todos produzem imagens, mas são e continuarão sendo poucos os fotógrafos.

 

Todo artista precisa encontrar a sua singularidade. Como você encontrou a sua?

Olhando para dentro de mim, experimentando, desconstruindo e refazendo ao sabor das fases da vida. Creio que isso é feito a partir do repertório que tenho, procuro viajar sempre, ler livros, assistir filmes e prestar atenção à fotografia, ver quadros, obras de arte em geral, visitar museus, assistir espetáculos de artes, etc., tudo isso vai povoando meu cérebro e minha alma. Ao fotografar tudo isso está ali presente (como já dizia o velho Ansel Adams), podendo ou não ser consciente, embarco nessa viagem para dentro de mim e saio experimentando, depois analiso, mudo, troco ou faço de novo. Sigo ao sabor dos ventos, das diferentes fases que atravesso na vida.

 

Por que um trabalho autoral é tão importante em sua concepção?

O trabalho autoral não tem amarras, não precisa agradar ninguém nem cumprir contratos com clientes, sou eu comigo mesma, posso me dar ao luxo de fazer o que bem entender, me expressar da maneira como quiser com o único propósito de satisfazer minha alma e saciar temporariamente minha fome de aprender coisas novas. Acaba sendo também um grande laboratório experimental onde aprendo coisas que poderão ser usadas na minha fotografia comercial.

 

Qual o papel da fotografia além de encontrar a emoção do seu fotografado?

São inúmeros os papéis da fotografia e dentre eles gosto de destacar o de construção da memória. Com o passar dos anos nossa memória vai se “borrando” como se estivéssemos passando uma ferramenta de desfoque no Photoshop, não lembramos com nitidez do rosto do avô falecido há anos ou do bichinho de estimação que tivemos na infância, as únicas imagens nítidas que temos – e são essas que permanecem na memória – são as fotos que guardamos. Muitas vezes de fato nem nos lembramos de pessoas ou lugares, mas ao vermos as fotos somos capazes de voltar no tempo. Nosso cérebro trabalha assim com imagens isoladas e a fotografia constrói nossa memória.
Bebê fotografado

Beleza: Bebê fotografado pela fotógrafa Simone Silvério (Foto: Simone Silvério/AP)

 

A arte de modo geral deve ter um papel social?

A arte é puramente a expressão da alma do artista e só, ter um papel social ou não é opcional. Se toda arte devesse obrigatoriamente ter papel social não seria arte, seria propaganda ou denúncia.

 

Em que momento a fotografia encontra esse papel em sua visão?

A arte encontra seu papel social quando o artista se sensibiliza por algo e sua expressão encontra a empatia do público diante de sua obra que, por sua vez, traz visibilidade para aquele tema movimentando a sociedade em torno dele, podendo ou não promover o bem comum.

 

Qual foi o pilar central da exposição “Mandala Babies?”.

As mandalas estão presentes desde as sociedades mais primitivas até os dias de hoje, seus significados vão do mais místico e sagrado ao simples objeto de contemplação e prazer. Existem em localidades tão diversas como a Ilha de Java, Tel Aviv e Brasília, e em formas tão distintas como desenhos em antigos pergaminhos, arquitetura de casas e cidades, vitrais em catedrais e estampas de toalhas ou cangas de praia. Transitam do mais sagrado ao mais profano, da contemplação ao tratamento de cura. Seu centro representa o homem, a vida e em volta o tempo, o espaço e sua estrutura leva à conexão do humano ao divino. Através das fotografias o projeto reuniu em um só espaço as diferentes abordagens e significados das mandalas em suas diversas representações. Como ponto comum a todos os recém-nascidos simbolizando o Homem no início de sua jornada, em seu estado mais frágil e puro envolvido pela beleza da vida.

 

A fotografia pode ser uma “briga” entre forças?

Sim, a fotografia é sempre uma briga entre forças, o que mostrar e o que não mostrar, a composição planejada e o instante fugaz em que tudo acontece, o foco perfeito versus o registro rápido para não perder o momento. Uma foto tem sempre múltiplos lados, o que o fotógrafo quis, o que ele fez, o que o sujeito quis fazer e o que efetivamente fez, quem olha a foto e a interpreta do jeito que sente ou de acordo com que ele acha que o fotógrafo e o sujeito queriam expressar, etc., a foto pode ser bela, chocante, perturbadora, singela, emocionante, tudo ao mesmo tempo, depende de como e quem olha para ela.

 

Gostaria que falasse um pouco sobre as exposições referentes ao câncer de mama em São Paulo e microcefalia em Pernambuco.

Esses trabalhos ilustram bem a questão do papel social da fotografia que discutimos anteriormente. A forma com que o câncer de mama afeta as pessoas e como elas reagem a ele é um tema que sempre chamou minha atenção, bem como a maneira como as famílias encaram o desafio gigantesco de criarem uma criança com microcefalia. São histórias lindíssimas de aprendizado, coragem, superação, solidariedade e sobretudo amor que quis registrar com minhas lentes e compartilhar através do meu olhar. Convivermos por algum tempo, deixar-se fotografar e ter imagens legais já trouxe alguns momentos alegres para essas pessoas e sem dúvida para mim que tive o privilégio da companhia delas. Espero que isso contribua de alguma forma para trazer mais coisas positivas tanto a essas pessoas quanto às que se emocionarem com elas.

Um vídeo da fotógrafa Simone Silvério

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.